O coração não é um quebra-cabeças do qual você tem todas as peças, monta, e pronto, fica arrumadinho. O coração é uma espiral, um túnel, um buraco negro. Não há como chegar ao fundo, muito menos ter controle sobre todas as gotinhas de sentimento que moram nele. O coração é areia movediça, te puxa pra baixo sem mais nem menos, te lembrando de assuntos que você achava que já tinham virado pó. O coração é uma mansão com paredes infinitas. Cabe tudo, tudo. O que você quer guardar e o que não quer. Mas tudo bem que seja assim. É o que nos diferencia dos robôs, dos computadores, de qualquer coisa que tenha sido manufaturada pelo homem. O que tem dentro do coração a gente nunca conseguiria criar.
Talvez essa falta de controle seja causada pela nossa vontade de amar tudo e todos ao mesmo tempo.Ou talvez por uma ânsia de experimentar cada sensação que a vida proporciona, sabendo que nunca teremos tempo para isso. Talvez, seja pela quantidade absurda de memórias, palavras, rostos, mágoas e paixões que nosso coração gerencia diariamente. Não teria como ser diferente: as vezes dá pane, e aquilo que você tinha jogado num canto abandonado do túnel volta à superfície.
Tem dias que o coração aperta tanto que parece que alguém prendeu-o no meio com um elástico como se fosse carne de açougue. Em outros, dobra de tamanho, tal qual um bolo crescendo no forno, e por um instante você cogita precisar de um corpo extra pra abrigá-lo. Há dias (até meses ou anos) em que o coração é preenchido por uma pessoa só. Tem dias em que fica tão vazio que dá pra ouvir o vento assobiando uma brisa que não toca a pele de ninguém. Esses dias são os piores.
Apesar de tantas transformações, de ter igual capacidade de se encher tanto de trevas quanto de luz, o coração sempre volta a ser aquilo que reconhecemos. Mesmo nos dias ruins, existe em cada um algo que não dá pra ser expresso em palavras - personalidade, qualidade, padrão? - que determina a ele e a nós. O que faz com que a gente não se perca da nossa essência. O coração, acima de tudo, é o guia de nós mesmos. às vezes se perde, mas quase sempre se acha. E depois se perde de novo, e se acha, e se perde, e se acha, e se...
Escrito em novembro de 2013. É bom reler textos como esse e reviver aquele sentimento gostoso de se importar tanto com alguém...
Morar junto é se acostumar a ter só metade da cama.
Morar junto é dividir toalha de banho às vezes, quando não se lava as roupas a tempo. Ou senão inventar um lugar no banheiro, um gancho improvisado atrás da porta, pra abrigar a segunda toalha.
Morar junto é lavar roupa mesmo sem ter sujado nenhuma, porque o outro sozinho já encheu o cesto.
Morar junto é disputar o controle da TV, é mudar de canal disfarçadamente, enquanto o outro vai ao banheiro, e depois argumentar o porquê do seu programa ser a melhor opção.
Morar junto é sempre comer juntos: na mesa, no sofá, no café, no restaurante a beira-mar naquela noite especial, ou no drive thru do Mcdonalds nas noites menos especiais.
Morar junto é criar um segundo perfil no seu laptop para o outro usar. É guardar seu salto ao lado dos tênis de skatista dele.
Morar junto é chegar em casa e ter pra quem contar tudo que aconteceu durante o dia, ou ter com quem compartilhar silêncio quando nada acontece.
Morar junto é às vezes se trancar no quarto, quando se sente falta da solidão que te acompanhou por tantos anos.
Morar junto é escolher móveis juntos, é se encantar com um sofá muito caro, é brigar na loja por não concordarem sobre a cor da cortina, é finalmente achar o sofá perfeito pelo preço perfeito.
Morar junto é debater sobre em que carro sair, e quem vai dirigir. Morar junto é dirigir quando o outro não está a fim.
Morar junto é assistir uma série sobre motoqueiros com ele um dia, pra que ele tope assistir a sua sobre romances num hospital no outro.
Morar junto é mal se ver quando os horários do emprego não batem. Morar junto é aproveitar ao máximo os dias de folga que coincidem.
Morar junto é ir pra praia junto, ir pro parque junto, viajar junto. Morar junto é ter com quem sair sem planejar e sem destino.
Morar junto é ter um ajudante pra fazer a lista do supermercado, empurrar o carrinho, e carregar as sacolas.
Morar junto é chegar do trabalho e encontrar a casa brilhando e jantar na mesa.
Morar junto é chegar em casa e encontrar a pia cheia de louças, a mesa vazia, as cortinas fechadas e o outro já dormindo.
Morar junto é olhar a janela mil vezes, em antecipação a chegada do outro. É sorrir ao ouvir o alarme do carro dele na garagem.
Morar junto é usar o banheiro com a porta entreaberta e nem perceber. É andar pela casa sem roupa sem pudor algum. É se acostumar à visão do corpo do outro como se fosse o seu próprio.
Morar junto é acompanhar o outro ao dentista e segurar sua mão na hora da anestesia.
Morar junto é riscar da lista os lugares já conhecidos e ainda ter mil outros pra conhecer.
Morar junto é acordar mais cedo que o necessário por se acostumar ao horário do outro, ou porque ele faz barulho e te acorda.
Morar junto é abaixar a tv quando se assiste filme sozinha tarde da noite.
Morar junto é ficar pronta muito antes ou muito depois dele, mas quase nunca ao mesmo tempo (e depois esperar, sentada no sofá, olhando o twitter e o instagram, ou senão ser esperada).
Morar junto é perceber, discordar, entender, se acostumar e absorver os hábitos dele.
Morar junto é vê-lo começar a dormir abraçando um dos seus bichos de pelúcia, como você faz, porque finalmente percebeu as vantagens disso.
Morar junto é ter uma tartaruga de estimação gorda, porque os dois dão comida pra ela.
Morar junto é planejar um dia comprar um cachorro, é ele querer um Shih Tzu e você um English Sheepdog.
Morar junto é abrir a janela porque está com calor pra logo depois ele fechá-la porque está com frio. É dar o máximo de si pra só comprar comida saudável, só pra chegar em casa e descobrir que ele já comprou um monte de guloseimas.
Morar junto é achar a cama espaçosa demais quando se dorme nela sozinha.
Morar junto é às vezes querer morar separado, mas nunca por muito tempo.
Eu queria poder dizer que esse texto é antigo e que só postei pelo valor sentimental. Mas, infelizmente, esse texto é de agora. Ele é de ontem, de hoje e de amanhã na minha vida, porque é sobre uma guerra que eu travo comigo mesma diariamente e desde sempre. É sobre um urso polar que existe dentro de mim. Não sei se essa metáfora faz sentido pra vocês, mas um urso polar é um animal que eu adoraria abraçar. Com certeza, se visse um, me afogaria nos braços dele, esperando que fossem macios e quentinhos. Só que, segundos depois, descobria que, claro, é um animal selvagem e perigoso. E seu abraço é congelante.
O meu urso polar é a depressão.
Pra quem não sabe, a depressão não é “se sentir triste de vez em quando”, não é “estar desanimada”. Vou tentar explicar: a depressão é algo que te paralisa, que deforma o espelho, que te faz duvidar de tudo que você acredita, te faz querer ficar triste, te faz buscar sentimentos, palavras e ações que te machucam. Ela enveluda a tristeza até que esta pareça um abraço aconchegante.
Às vezes você percebe logo, outras não, que se ficar nesse abraço muito tempo seu coração vai virar pedra. As garras do urso vão te rasgar de ponta a ponta e você vai morrer, por dentro e por fora. Depressão mata. E não estou falando apenas da perda da vida, mas das mortes minúsculas e diárias que ela provoca. A depressão é uma mistura de urso com cobra, já que, além de te esmiuçar, ela também sussurra coisas horríveis no seu ouvido. Ela te convence de que nada, absolutamente nada, vale a pena. Nada faz sentido. Se nada faz sentido, pra que viver? Pra que lutar? Ela te diz: “Pra nada. Não lute. Não faça. Desista.”
Felizmente, nunca despenquei tanto nesse abismo que tenha perdido a capacidade de diferenciar o que é mentira e o que é verdade. Esqueço temporariamente, mas consigo voltar à superfície. E isso se dá porque, felizmente, para mim, eu sei por que e para que eu vivo, mesmo que ela me faça esquecer. Eu sei que se eu persistir vou conseguir o que desejo, mesmo que ela me faça ter certeza que não. Ela pode controlar meus pensamentos, mas meus sonhos permaneceram intactos.
O que ela faz, porém, é deixar tudo MIL vezes mais demorado e mais difícil. Quando você está constantemente preocupada com o seu estado de espírito, duvidando de si mesma, achando o mundo uma perda de tempo, é muito complicado atingir qualquer objetivo. Se consegui qualquer coisa na minha vida, foi nos momentos em que ela estava olhando pro lado, distraída. Sim, porque não posso dizer que ela não estava ali. Ela não vai embora. Nunca foi. O que acontece é que os afazeres da vida calam-na. E aí, se eu der qualquer brecha, se eu me perder no ócio nem que seja por um dia, ela volta.
Ninguém gosta de admitir tudo que estou dizendo aqui, de expor suas cicatrizes. Estou fazendo-o porque, pra mim, esse texto é mais uma forma de lutar contra essa minha inimiga. Agora, com 26 anos, estou muito melhor do que quando tinha 17. Na grande maioria do tempo estou em controle dos meus sentimentos e ações. Porém, não posso dizer que estou curada ou que a depressão me deixa trabalhar sempre. Ainda mais eu, que escolhi a mais pessoal das profissões, a escrita. Mergulhar em mim mesma é como fazer sinal de fumaça para ela me achar.
Um dia, talvez, ela canse de me perseguir. Um dia, talvez, eu não seja uma presa tão fácil. Torço para que a vida me torne tão ocupada, mas tão ocupada, que não sobre um mísero cantinho pra ela. Não só com meu trabalho mas com família, marido, filhos, viagens. Torço para que um dia consiga vê-la sempre como o monstro que é e já diga “sai pra lá” assim que ela aparecer. Enquanto isso, escrevo. Depois disso, óbvio, escreverei ainda mais. E aí quando eu estiver famosa, bem-sucedida, com meu nome aparecendo na TV daqui embaixo de um “Written By” vocês me verão sorrindo nas premiações (tem que sonhar, né?), nas fotos nas redes sociais, pra mim mesma, pra tudo, pra nada, e poderão ter certeza de que ela foi embora.
Acordou, muito contrafeito. Rolou na cama, deitando primeiro de lado, depois de barriga pra cima, de bruços, e por último de quatro (quem sabe?), até se convencer que não importava a posição, não cairia no sono de novo. O relógio de pulso dizia 6:45. Da manhã? Da noite? Não se lembrava de muito depois das várias doses de pinga que tomara na noite passada. Os brilhos proibidos do sol penetravam sorrateiramente as frestas da cortina. Devia ser manhã.
Levantou. E agora? Tinha que fazer algo, o que era? Tinha aquela incômoda sensação de ter esquecido algo importante. Vasculhou o cérebro, mas este estava fechado para balanço. Era algo em que pensara antes de dormir, que tinha que fazer assim que acordasse. Olhou o calendário, segunda-feira. De maio, abril, junho?
Ouviu uma voz feminina vinda de outro cômodo:
- Juvenal, acorda, homem! Vai chegar tarde na oficina!
De repente, tudo lhe voltou à cabeça: Era Juvenal, 35 anos, mecânico, casado com Rosalva. Acordava todo dia às 6:30 da manhã para trabalhar até as 7 da noite embaixo de carros. Na noite passada, tinha se revoltado com a vida e passado no bar do Maneco pra todar uma “marvada”, como o próprio dono do boteco descrevia. Voltara para casa visivelmente mais para lá do que para cá (não sabia como não tinha ido dar na casa do vizinho ao lado) e caíra no sono imediatamente.
Uma onda de desespero percorreu todo o seu corpo. Afundou-se embaixo do cobertor para tentar dormir de novo. Talvez acordaria sem lembrar-se de nada novamente, ou poderia sair pra beber e dar no apartamento errado, onde acordasse ouvindo alguém lhe chamar: “Richard, honey, James nos espera na limusine para levar-nos à casa de campo!” Porém, uma única razão tornava isso impossível de acontecer: Não morava perto de ninguém tão rico.
- O café tá na mesa, Juvenal!
Pensou em fugir pela janela. Mas, uma vez fora da casa, para onde iria? Para longe, Botucatu, Fortaleza, Salvador. Pegar uma praia, pescar. Tinha um amigo de infância em Porto Seguro, seguramente poderia se hospedar na casa dele. Sairia e pegaria o primeiro ônibus, sem malas, sem nada. Mas e o dinheiro? Tinha umas economias que guardava numa gaveta pra comprar uma geladeira nova para a mulher. Aquilo deveria ser o suficiente pra chegar de São Paulo a algum lugar do Nordeste. Um lugar onde pudesse sentir o ar puro batendo no rosto, ouvir as ondas do mar, ser livre. Ou então poderia até ir mais longe. Outro país, quem sabe? México, Bolívia, Argentina. Iria até o pantanal e atravessaria a fronteira. Não falava espanhol. Aprenderia. Tudo se aprende nessa vida. Faria qualquer outra coisa que não envolvesse carros, a não ser que fosse para dirigi-los. Arranjaria um emprego que oferecesse acomodação, depois juntaria o suficiente para comprar sua própria casa. Viveria em Buenos Aires, passaria suas noites em bares argentinos, até que conheceria uma dançarina que lhe ensinaria aquela dança de lá… como é mesmo o nome? Se casariam. Depois de alguns anos, ganharia dinheiro suficiente para se mudarem para a Europa. Um lugar frio, onde as pessoas andassem de cachecol e touca. Ficaria rico, compraria carros, dois para si, um para a mulher e um para o filhinho, que teria a pele branca de nunca pegar sol como um verdadeiro europeu. Um não, três para o filho, quantos ele quisesse. Um chalé nas montanhas, um mordomo, um helicóptero para quando ficasse com saudade do Brasil…
- Juvenal, é a última vez que eu te digo! Levanta! - Rosalva tinha invadido o quarto - vai beber demais dá nisso! Ê homem folgado! Vai trabalhar, peste! - E empurrou-o para fora da cama.
E lá se foi Juvenal, eternamente sujo de graxa, o olhar perdido em helicópteros, pra mais um dia de trabalho na oficina…
Tinha postado uma música de um cantor de Reggae americano que eu gosto, mas aí deletei porque decidi que esse vai ser meu cantinho brasileiro. Só vou postar coisas em português e se for recomendar algum livro, filme ou música, será algo brasileiro.
Sendo assim, já que era Reggae, mando agora um Natiruts pra vocês (que não só são brasileiros como também brasilienses) :)!
Hoje um amor desapareceu. Começou a acontecer há muito tempo, mas hoje eu tive plena certeza, realização racional, de que ele se foi. Hoje aquela pessoa por quem eu morria e vivia todo dia não cabe mais em mim. Antes ele era um príncipe, o incompreendido, o injustiçado, o que teve a infância gorda e infeliz. Era o que tinha os olhos azuis mais lindos, o que ficava bem em qualquer roupa, o que eu queria que aparecesse em todas as fotos. Meu maior desejo era guardá-lo num potinho e só tirá-lo de lá quando eu quisesse pra que ele nunca falasse com mais ninguém além de mim.
Hoje, percebo o quão egoísta isso era. Hoje, quero que ele se vá. Quero que ele seja livre, que tenha sua própria vida, quero que ele beije outra, transe com outra, case, tenha filhos. Hoje nada que ele diz é particularmente especial ou divertido. A companhia dele é como qualquer outra, assim como a beleza que antes me parecia extraordinária.
Eu olho nossas fotos juntos, da época em que eu ainda estava sob o efeito da droga mais potente que já conheci, e vejo duas pessoas completamente diferentes do que somos agora. É como um livro de ficção baseado na nossa vida. É o outro lado do espelho, onde gosto de fingir que tudo que acaba aqui de alguma forma ainda vive. Não é que eu tenha esquecido o porquê ou como o sentimento existia. Eu lembro de tudo, mas já não consigo mais trazê-lo para dentro de mim.
Ainda moramos juntos. Dormimos na mesma cama. Pra mim é como se dormisse com um cadáver e, de certa forma, é isso: somos dois cadáveres de nós mesmos, tentando ignorar a morte do que um dia existiu entre nós. Eu deito na cama, penso nisso e não esboço reação alguma. Eu vejo o fim desse amor com total indiferença. Aliás, talvez não total, existe aqui em mim uma dorzinha que me faz contrair as sobrancelhas, as bochechas, que adiciona um pouco mais de maturidade à minha face. Eu sobrevivi à morte de um amor, afinal. Eu sou mais adulta e mais humana depois disso.
5:30 da tarde. Sentada no canto isolado de um café. Um toldo grosso e transparente me separa da calçada, mas ainda ouço o trânsito gritar de impaciência. Quanta pressa. E pensar que os carros nem sabem que pelo plástico do toldo eles e a paisagem ao seu redor dão um ar calmo de pintura Impressionista, cores tomando mais importância que formas.
Eu observo como se não fosse dali. Não da cidade, que não sou mesmo, mas do mundo que engloba tudo que existe e que faz sentido. Sempre existirão os que observam e os que são observados. Tristes daqueles que nascem na posição errada. Eu me contento com a minha.
Só consigo estar aqui, sentada, quase com as pernas em cima da mesa, porque não há ninguém em volta. Se houvesse, sentiria a pressão de ter que ser exatamente como eles imaginam que eu seria. Uma menina como eu, jovem, vestido rosa, casaco vermelho, não olharia pro lado assim, tão pensativa. Não ficaria em silêncio olhando pro nada por tanto tempo. Não procuraria respostas onde não vai achá-las. Aliás, não procuraria em nenhum lugar, pois já teria todas. Eu sinto que é isso que eles pensam e não quero decepcioná-los. Mas também não quero ser manequim, manipulada por todos ao meu redor, por isso me afasto. Como é difícil ser quem se é na frente dos outros. Apesar de que eu acho que a maioria das pessoas acha mais difícil ser verdadeiro quando ninguém está olhando.
Toca um jazz aqui dentro. Ouço mais os pneus pulsantes dos carros, que não param um segundo, e prefiro assim. O mundo existe independente de mim, querendo eu ou não. Se eu quiser fazer parte dele, aqui está, e seu eu não quiser, também. Eu ainda não sei o que escolhi. Por enquanto, observo.
O frio já começa a bater, me lembrando de que estou viva, que isso praticamente não é uma escolha. É e pronto. São o frio, os carros, o asfalto cheio e vazio, cheio e vazio, as meias-luzes, as poltronas desgastadas. A vida é cheia de ciclos, é nosso jeito de colocar alguma ordem nas coisas. O sinal abre, os carros vão. O sinal fecha, eles voltam. Sempre e pra sempre. Quem para não se lembra de quem acabou de ir; quem foi não sabe de quem ainda vai chegar. Mas, por um lado, é confortante saber que alguém sempre vai chegar, que nunca vai parar, enquanto você estiver vivo e muito depois de você.
Já tinha avisado que essa crônica é sobre nada. Chamo de “nada” não o que não é “tudo”, mas aquilo que está por trás de tudo. Aquilo para o qual não se tem nome, importância, razão ou explicação. Eu penso que sou só eu que sou assim, mas nunca é essa a verdade. Todos se sentem mais sozinhos do que de fato são, e mais únicos também. Eu não sei se quero encontrar outros iguais a mim, nem sei se eles iriam querer saber que eu existo. É um pouco decepcionante perceber que você não é modelo único, feito à mão, exclusivo, importado.
Os carros urram. A música já nem tenta sobrepô-los mais. O mundo também é feito de contrastes, pois do outro lado do toldo há a selva cinza e deste, a elegância e tranquilidade paradas no tempo. Aqui dentro tudo é imóvel, lá fora é tudo menos isso. Aqui dentro é o museu do lá fora, com suas pinturas e decoração anacrônicas.
Terminei há muito tempo meu cheesecake e chá de jasmim. Agora só me alimento de imagens e de palavras. Me esvazio nelas, e elas me preenchem. Até quando ficarei aqui sentada?
O garçom caminha até mim e, sem dizer palavra, deixa a conta em cima da mesa.
Escrevi o texto abaixo em 2013… depois vou escrever uma continuação pra falar dos amores que faltam (Los Angeles e Rio de Janeiro)!
Nessa vida, até agora, tive três amores. Foram eles: Brasília, Londres e Tallahassee.
O caso com Brasília começou cedo. Estive com ela desde as primeiras memórias, da infância à adolescência. Dos dias sem significado, se é que existiram, aos dias em que cada palavra e gesto na minha cabeça virava mais do que era. O que nunca mudou, porém, foi o conforto de Brasília. A segurança, a paz. Brasília era tranquila, acolhia-me nas piores situações, entendia, não julgava. Até quando eu tinha problemas, sabia que a culpa não era dela. Foi com ela que partilhei meu primeiro beijo, primeira amizade, primeira transa, primeira traição. Foi com ela que comecei a viver, provavelmente até cedo demais. Cada uma de suas ruas adquiriu significado pra mim, tinha ali uma lembrança, boa ou ruim. Ao longo dos anos me espalhei nela de forma irreparável. Multipliquei-me nela e ela em mim.
Porém, nem tudo são flores. Chega uma hora em que, apesar do conforto de Brasília ser interminável, suas ruas se tornam familiares demais. Essa é nossa falha maior como seres humanos, mas também uma das causas de nossos maiores feitos: Não nos contentamos facilmente. Queremos mais, queremos desafios, queremos conquistar algo novo quando o que queríamos já está conquistado. Brasília é dona de casa, que cozinha, lava e passa pra mim, que me consola sem eu pedir. Seria a ideal esposa, mas é a mulher com quem não me caso porque já conheço demais. Se casasse, teria que ter uma amante, uma mulher diferente, distante e fria, irresistivelmente misteriosa. E Brasília cairia em prantos, e eu não poderia mentir que não desejei aquela traição. Mas Brasília é a mulher que sempre vai estar no meu coração. Me deixei demais nela para esquecê-la. E é a mulher que, sem dúvida, mesmo quando o relacionamento tiver acabado há muito tempo, proporcionará as melhores lembranças. Nas lembranças de Brasília, ainda mais do que na vida com ela, tudo é caloroso, divertido, idílico. Tanto que quase te enganam e te fazem querer namorar com ela de novo, mas a essa altura você já será uma pessoa diferente, já terá conhecido outros amores... Não conseguirá aceitar ter apenas a velha amante. Você desejará ser mais simples, para que possam ficar juntos pra sempre.
Meu segundo relacionamento foi diametralmente diferente. Londres desde o começo foi difícil e, mesmo 4 anos depois, jamais mostrou um pingo da devoção de Brasília. Londres é a menina bonita e popular que passa por você sem te notar porque já tem pessoas demais querendo conversar com ela. É a mulher perfeita, racionalmente falando: além da fascinante beleza, é inteligente, determinada, culta. Pode te proporcionar experiências inesquecíveis. Foi com ela meu primeiro porre, minha primeira rave, meu primeiro baseado e meu primeiro piercing. Foi ela quem me ensinou outra língua, outro modo de ver o mundo, aliás, me ensinou que existia um mundo que era muito mais vasto do que eu imaginava. Porém, emocionalmente falando, Londres é falha: não se abre facilmente, não te conforta quando você precisa. Quando você chora, ela te olha de longe, sem mesmo oferecer um lenço, achando tudo aquilo uma perda de tempo. Até por trás de suas atrações mais visitadas, sempre lotadas de calor humano, de possíveis pretendentes, se esconde um certo desdém, um cinza que permanence. Por mais que você tente, ela te despreza. Não porque queira necessariamente, mas porque não sabe não ser assim. Nos dias de verão seu humor melhora, o sol sai, as flores brotam e ela até te deixa aproximar-se mais dela. Um abraço, um beijo curto. No inverno, porém, é constante TPM. Dias curtíssimos, chuva e vento que entortam o guarda-chuva, neblina que te separa ainda mais dela. Londres esconde algo. O que, nunca descobri. É a mulher que você deseja ter conquistado, mas sabe que sempre será inatingível. É a mulher que nunca se contentaria com uma pessoa só. Você sabe que qualquer um que diga que a tem está ou mentindo ou sendo iludido por ela. A não ser que seja alguém muito mais forte que você, alguém igualmente frio. Felizmente, Londres é amor que cura, que é esquecido. Quando se sai dela, não se pensa nela. Já não está na minha mente há 4 anos, quando nos separamos. Ela te machuca, te ensina, isso jamais você esquecerá, mas no seu coração ela não permanece.
Do terceiro amor é difícil falar, pois nem sei se o que tivemos foi um namoro, apesar de ter durado, como Londres, quase 4 anos. Poderia ser melhor descrito como um relacionamento solto, sem obrigações. A maior virtude de Tallahassee, ou Tally, como gosta que a chamem, (e daí já se pode saber muito sobre ela) não é a inteligência e sim a descontração. É a menina de cabelos soltos que ri sem se preocupar e sem consertar a alça da blusa quando esta cai. É a mulher eternamente jovem, pra sempre universitária. Ela conversa com você e você, que já experimentou muito nessa vida, já viu de tudo, não se impressiona com seu papo, mas gosta de sua leveza. Sabe que ela é pequena demais pra você, que você sabe demais pra ela, mas Tallahassee fez com que as coisas funcionassem bem em sua vida. Foi com ela seu primeiro apartamento sozinha, seu primeiro carro, sua primeira prova de faculdade. Tallahassee tem poucas coisas a mostrar, mas são coisas que você não conhecia. Se pensar bem, até ela pode te ensinar algo, mesmo que seja algo que você ache que não precisa aprender. Tallahassee é a menina que as pessoas “curtem”, mas com quem muito poucos querem namorar. É aquela que você vê durante a maioria do ano, mas esquece nas férias. É a que todos abandonam. Mulher emprestada, temporária, mulher de fases. Você sabe que é só uma fase, já ela, não sei… acho que ela guarda. Mesmo depois de muitos anos, ela guarda em si as suas lembranças de todos os porres e noites escuras de beijos sôfregos. Ela mantém as marcas dos jovens pneus selvagens nos seus asfaltos vazios. É mulher que já teve muitos, muitos homens, por isso nunca se sente sozinha. Do mesmo jeito que a abandonam, novos pretendentes chegam no semestre seguinte e retomam o ciclo. Talvez seja só você, alma melancólica, que ache que Tallahassee é solitária só porque seus relacionamentos não duram. Talvez pra ela o que importe é que aconteceram, e sempre acontecerão. O que você sabe mesmo, porém, é que ela não é pra você. Sabe que vai lembrar dela, mas que, assim como Londres, a paixão não permanecerá.
Meu mais novo amor, Los Angeles, começou há apenas 6 meses e, por enquanto, posso dizer que estou perdidamente apaixonada. Mas desse falarei depois, quando chegar a hora…
Sou nova no Tumblr. Sou nova em tudo isso que tem a ver com escrever pros outros lerem na Internet. Tô aqui em Los Angeles tentando ganhar a vida como roteirista, mas a ideia de publicar alguma coisa escrita por mim em um blog, e em português, que não é a língua que uso atualmente nos meus trabalhos, é aterrorizante. Mas por isso mesmo tô aqui tentando.
Na verdade, a razão principal para criar isso aqui é que, olhando no meu baú virtual, encontrei vários textos escritos em português que são até bem pessoais, e por isso mesmo textos que nunca pensaria em mostrar pra alguém. E aí, pra combater esse medo, pensei em criar esse blog e colocá-los aqui. Nossas emoções são sempre muito mais familiares e não-únicas do que pensamos, né? Quem sabe alguém por aí afora se identifique.
Além disso, acho que vencer o medo de ser lida vai me beneficiar de várias formas. Uma delas é entender de uma vez por todas que qualquer texto ou história pertence metade ao leitor e metade ao escritor. E de que adianta escrever qualquer coisa e guardá-la só pra mim, sem dar a chance de que pertença a outra pessoa?
Por isso estou aqui me mostrando. Com a esperança de sair daqui maior e mais sábia, e de adicionar um pouquinho `a vida de vocês também.
Beijos sabor Santa Dose!
Obs: Calma que de vez em quando eu vou colocar fotinha também, pro Tumblr não ficar muito chato. ;)