O agir antes de pensar caía, por vezes, nas palavras difíceis de serem ditas. Jaden era alguém que fazia antes de começar a falar, ouvindo explicações e perguntando somente o necessário para pular do avião em pleno vôo em segurança. E agora, vendo – ou melhor, sentindo o que não podia ver – a paz interior quebrou-se de vez. Vidro estilhaçado caindo aos seus pés ao mesmo tempo que fechava Inhae em seus braços, acabava por vez aquela reserva adquirida pelo fim de um namoro que nunca deveria ter acabado. Quer dizer, assim esperava. Assim acreditava. E assim continuaria até que ela, e somente ela, colocasse a pedra final no relacionamento. — É claro que acontece, blanket, mas eles não são tão famosos quanto essa imagem que eu carrego. — Porque a origem principal daquela calamidade toda era o fato de um esportista com tal corpo e tal estilo não ser ‘adequado’ para alguém que não seja seu exato espelho em versão feminina. — Eu fui criado no Brooklyn, no meio da maior diversidade dos EUA, e fui com a onda desses — A palavra de baixíssimo calão sendo sufocada pelos cabelos de Inhae, e a raiva controlada pelo aspirar do perfume dela. Nada mais que o shampoo e, ainda assim, melhor do que qualquer fragrância que enviavam por correio para experimentar e fazer propaganda. E aquilo, aquele comentário, doeu. Ela, o exemplo de força e poder, dizendo que não o era. Se rebaixando, mesmo com os motivos mais injustos do mundo. Jaden puxou o celular do bolso e abriu a página da internet, digitou seu nome e pegou aquele link que sempre entrava. Fóruns e mais fórum, recheados de comentários que iam desde a hediondeza de suas tatuagens a forma como se vestia. Deixou um tempo para que ela absorvesse o conteúdo antes de mudar para o twitter, e o instagran, e o tumblr, e em cada plataforma acompanhando a mesma linha de raciocínio. — Eles estão por todo lugar, blanket, em todo o vídeo ou post que eu faço. Seja eu aparecendo em tal horário numa festa ou não usando a marca que eles preferem. Eu sou acostumado com isso, desde a minha primeira vez num tattoo shop. E só não esperava ganhar hate pela melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Por ter conhecido você e você, louca, aceitou ficar comigo daquele dia em diante. Você é a mulher mais forte que eu conheço, Inhae. Aquela que é tão forte e decidida quanto o café que toma, que tem uma força de vontade capaz de mover o monte Fuji só com um olhar. E tudo nosso acaba na cama, deu para perceber? De acordar e ir dormir com você na minha cabeça. — Jaden beijou o topo da cabeça dela com uma ternura tão grande que ele quase derramou as lágrimas esquecidas, o beijo descendo para o meio da testa e, em seguida para o nariz. — Eu prefiro enfrentar isso tudo com você ao meu lado. Melhor, ignorar tudo e seguir em frente. Procurar outro lugar, conquistar outros públicos, abrir uma ONG contra o cyberbulling. Mas… Se você não quiser, não vamos fazer nada. Não vou insistir. Porque… eu prefiro ver você feliz e protegida do que… — O olhar se perdeu na distância, a consideração de nunca mais tê-la fazendo real demais, dolorida demais. — Eu vou respeitar a sua decisão e pararemos com esse puxa=empurra que estamos agora. Eu prometo.
Parte dos comentários se perderam com a falta de foco dos olhos embaçados pelas lágrimas. A mão cobria os lábios da mulher, hábito que trazia da infância, um sinal de que sua mente, sempre tão rápida, tão sagaz, não conseguira elaborar nenhuma resposta a altura da situação. Ela sabia da existência daquele tipo de comentário, é claro que sabia, nunca havia sido do tipo de pessoa que fechava os olhos para qualquer que fosse o problema. Ossos do ofício, costumava dizer para qualquer criador de conteúdo que fosse até ela reclamar daquele tipo de coisa. No entanto, nunca seria capaz de dizer algo assim para ele. Não depois de experimentar, na própria pele, os estragos aquelas palavras faziam a quem quer que fosse direcionada. — Você também é a melhor coisa que aconteceu na minha vida, Jayjay. Você sempre foi. — Com aquelas palavras finalmente sendo ditas, depois de tanto tempo, Inhae notou o quanto elas eram verdadeiras. O quanto perderia se deixasse com que palavras virtuais, que sumiram com o apertar de um botão entrassem no caminho de palavras, tão mais bonitas, tão mais verdadeiras, essas sim não iriam sumir, por mais que tentassem. Então foi a sua vez de beijá-lo, com a delicadeza e zelo que tivera de guardar para si por todo o tempo em que estiveram separados. Primeiro ela beijou seus lábios, porque finalmente podia fazer isso sem precisar fingir ter esquecido na manhã seguinte, subindo para o nariz e então para a testa. Inhae se levantou do sofá, parada em frente a Jaden, segurou suas mãos, fazendo com que o homem também se levantasse, o arrastando em direção ao seu quarto. — Amanhã nós decidimos o que fazer. — Ela disse, com a voz quase desaparecendo e a sua cabeça afundada no travesseiro. Inhae puxou o braço dele para que a abraçasse, como sempre fizera. Adormecendo sabendo que estava protegida pelo braço tatuado que ela tanto sentira falta.