Eu assisti Kingsman várias vezes e eu estou aqui para reclamar sobre as duas pontas soltas que o Matthew Vaughn deixou: os codinomes e a ordem deles na mesa!
"Mas boa parte dos agentes não tem fala e tempo de tela!".
Eu sei!
Em parte é ótimo para escrever fanfics, porque você pode criar uma personalidade para eles, já que são basicamente telas em branco.
Mas também é uma desgraça para quem tenta organizar a ordem da mesa!
E como eu tinha um tempo livre, por conta das férias do trabalho, pensei em organizar do meu jeito, usando como base o que encontrei pela Internet.
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Na cabeceira está Arthur (Chester King - Michael Caine) e á esquerda imediata:
1 - Lancelot - James Spencer - Jack Davenport.
2 - Percival - ///// - Alastair MacIntosh.
3 - Gawain - ///// - Carlos Peres.
Sim, eu coloquei Gawain na ala de Lancelot, porquê muitos fãs o tem como Gawain, então ele será Gawain!
Bebi, comi e cumpri com a minha meta de socialização para o final de semana, e aproveitando que estou de férias, posso voltar para os meus cenários fictícios, sendo que tenho trechos para Piratas do Caribe, onde o foco é a marinha real, e o James Norrington. Esses trechos são pertencentes a outra base de Fanfic, sendo o Assis um personagem original, e que está no navio do Comodoro enquanto ele tenta alcançar Jack Sparrow, sem que ninguém saiba do segredo biológico dele. Essas cenas soltas correspondem ao dia a dia com a tripulação do Destemido.
[ Aquele problema com o canhão... ]
Assis não podia estar sob supervisão; ele necessitava trabalhar sem sentir que alguém estava observando, e isso era o contrário de como funcionava a rotina em alto mar. O grumete era desastrado e mal conseguia falar, o que deixava os oficiais furiosos, e ao mesmo tempo, um tanto preocupados. Parecia que ele nunca tinha pisado em um navio, indo ao contrário da confiança que ele deixou transparecer com Norrington no cais, no primeiro dia. Até o maldito dia que pregaram uma peça nele, e Norrington não sabia como agir. O comodoro não sabia se punia o grumete, por ser ‘imprestável’ , ou pelo jeito dos marinheiros no geral. E com o passar dos dias, e ao modo que Assis observava o trabalho dos marinheiros experientes, ele notou que uma corda estava solta, mas segurou a língua para não se tornar o 'ratinho' dos oficiais; o ele não esperava é que um dos tenentes fosse passar no exato momento que o canhão se soltou. Assis deixou para trás o que estava tentando amarrar, empurrando o tenente, quando o canhão bateu com tudo na beirada do casco, e o grumete caiu do navio, junto com canhão, que quebrou a madeira com o impacto. O canhão caiu por cima, e ele fechou os olhos, aproveitando para resfriar o corpo sem sentir o impacto, que os marinheiros declararam como fatal, se não fosse pelo grumete que buscou por ar, assim que chegou à superfície, tendo sobre ele os olhares dos oficiais, como se apenas tivesse tomado um banho.
- Isto é... - murmurou Gillette.
- Impressionante - completou Grooves.
[...]
O cirurgião estava perdido no que fazer, mas o rapaz precisava ser examinado, e ali começou a confusão. Assis não suportava a ideia de ser tocado, e mesmo que os oficiais fossem rígidos, ele não se importava com o que eles acreditavam, derrubando todos os homens que o tentaram imobilizar, enquanto o cirurgião fazia o mesmo para estabilizar o ombro que tinha deslocado, mas não tinha perfurado a pele, apenas estava fora do lugar (como se isso não doesse, sendo que ele o machucou, mas não sabia se tinha sido na queda). Mesmo com dor, Assis não queria ter as mãos de ninguém nele, porquê sabia que ia doer, e tirar a camisa grossa era impensável para ele. O que era para ser sério se tornou cômico, porquê o grumete desajeitado parecia não ser influenciado pelo balanço do convés, contradizendo o próprio comportamento de poucas horas antes. E em meio a uma esquiva perigosa, o rapaz foi derrubado por dois marinheiros mais velhos, além de Norrington que o encarou, acertando o osso, gritando abafado.
-Céus - murmurou Norrington quase fechando os olhos.
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[ O problema do banho! ]
- Piolhos, comodoro - resmungou o médico. - Estão por toda parte, mas o único que não consigo ter certeza é o grumete atrevido!
- O corte de cabelo deve ajudar - murmurou Grooves que estava com Norrington. - Ele não o deixa crescer de qualquer forma.
- E o que podemos fazer? - indagou Norrington sem ter noção de que os mais jovens estavam escutando do outro lado da madeira, por uma fresta, com o auxílio de um marinheiro mais velho, que vivia brigando com eles. - Um banho?
- Sim, senhor - respondeu o médico. - Eles precisam se lavar. Um banho coletivo pode ajudar.
- Banho coletivo? - murmurou Assis que estava escutando com os rapazes. - Homens sem roupa... E eu também... Inferno de médico!
O grumete estava pensando no que fazer, e nenhuma opção parecia favorável ao que ele tinha urgência, se não fosse a... Os marinheiros foram chamados ao convés, e Assis se reuniu com eles, tentando controlar a ansiedade. Ele respirou fundo, fazendo o navio balançar de leve, enquanto um por um tiravam as camisas, e ele tentava se concentrar. Um dos oficiais gritou o nome dele, e o navio balançou, ao modo que o homem se aproximava. Em um balanço perigoso, desestabilizando a tripulação, uma onda lavou o convés, incluindo os oficiais espalhados, arrastando perucas e chapéus com a água. E depois dela, outra e outra, enquanto Assis aproveitava a confusão para sair da vista dos homens, que gritavam e tentavam se segurar, escorregando no sabão e ao mesmo tempo na gordura. O cheiro era péssimo, mas já contava como uma ducha.
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[ O sumiço dos sapatos e botas! ]
O cheiro no convés inferior era terrível, e bem mais forte que nos outros cantos do navio, sendo que nem os oficiais, com uma rotina de higiene bem… escassa… escapavam do cheiro de suor; e depois do banho de água salgada, Assis se sentia um porco que foi temperado e agora estava assando no sol; além do cheiro de suor que estava pior, mas entre beber água e tomar banho... Ele se contentava com o álcool oferecido na ração diária, porquê a água não se limitava ao gosto ruim e ao calor, já que beber aquilo podia ser uma sentença. E em uma noite, apertando o nariz, tentando dormir mesmo com o calor e o cheiro, ele desistiu de lutar contra, descendo da rede sem fazer barulho, recolhendo as botas de um marinheiro arrogante que fedia mais que trinta piratas sem banho, há um ano juntos; subiu as escadas, resmungando quando os degraus rangeram. Ao se aproximar da beirada do casco, ele estendeu as botas, depois de fugir dos olhos dos homens da vigília, tremendo ao ouvir alguém se aproximar.
- O cheiro incomoda? - indagou Grooves, e Assis balançou a cabeça, olhando para o par de sapatos que o tenente tinha na mão. - Entendo perfeitamente - murmurou, jogando-os no mar, esperando Assis fazer o mesmo. - Boa noite, Assis - murmurou se virando.
[...]
[...]
[...]
Assis tentou entender de quem eram aqueles sapatos, e pela manhã os marinheiros foram acordados pelos oficiais, aos gritos, sendo arrastados para o convés, mesmo desgrenhados, enquanto Gillette tentava manter a pose sem sapatos, escutando Norrington tecer um sermão rigoroso sobre a consequência daquele desrespeito, exigindo que os pertences fossem vasculhados, enquanto os mais jovens ficavam no convés. Assis sentiu o olhar do tenente descalço queimar as costas dele.
- Sinceramente, Gillette? - murmurou Grooves em bom tom. - Não julgo quem fez isso, já que os seus sapatos incomodavam até mesmo o Comodoro.
- GROOVES! - Gillette bradou, corando de vergonha. - Comodoro?!
- Grooves isso é...- murmurou Norrington, tentando encontrar palavras, porquê o tenente estava certo, mas ainda era um tremendo desrespeito..- Onde estão os seus sapatos, homem? - indagou Norrington áspero, fugindo por alguns segundos do conflito inicial, ao notar mais um infeliz descalço. - Esqueceu-se de que a marinha não é bagunça?
- Eu os teria calçado, senhor, se os tivesse encontrado - respondeu baixo, mas visivelmente irritado, fazendo Assis levar um beliscão de Grooves para não rir. - Eu acredito que - murmurou o marinheiro, olhando para o tenente, que o encarou - alguém os roubou.
- E por que fariam isso? - indagou Norrington. - Aquelas botas tinham um odor la…
- Comodoro? - chamou Grooves. - Acredito que os sapatos caros de Gillette sejam mais importantes que botas de um marinheiro sem patente - disse como se não fosse nada, fazendo Norrington ficar quieto. - Deve ter perdido as botas na bebedeira da noite passada, homem - murmurou Grooves, virando o rosto para não rir, tentando não olhar para Assis. - Seria terrível se as botas do tenente tivessem se perdido no mar, não concorda, grumete? - provocou, encarando Assis, que segurou a risada.
- Uma barbaridade, senhor - respondeu o latino, respirando fundo. - Mas admito que o odor fresco do mar ajuda a acalmar os ânimos, se respirarem fundo.
- GRUMETE! - berrou Gillette.
- A-Assis - gaguejou Norrington, olhando para o outro lado, engasgando. - Céus, encontrem esses malditos sapatos! - esbravejou Norrington corado.
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[ Os biscoitos são péssimos! ]
- Biscoitos duros - resmungou Assis. Ele sabia que era assim, mas era horrível ter que sobreviver a base daquilo, sabendo que os oficiais aproveitavam melhor do que todos. - Tenho certeza que se jogasse isto na cabeça de alguém era enforcamento na certa!
- O que disse, rapaz? - indagou Gillette logo atrás dele. - A ração não te agrada? - provocou, causando risos baixos.
- Nem um pouco, senhor - respondeu Assis, quebrando o biscoito ao meio, mastigando um pedaço, fazendo os homens se calarem.- Aceita? - perguntou estendendo a outra metade ao tenente.
- Isto é... Horrível! Não vou comer!
- Então não pergunte se não agrada, senhor - resmungou Assis, reprimindo um sorriso. - Tenho todo o direito de não gostar, assim como o senhor, mas não quero morrer de fome, então tenho que me contentar. Os biscoitos são uma questão de praticidade, mas ainda sim admitir que são ótimos é pura falta de 'vergonha na cara', não acha?
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[ O incidente do uniforme rasgado, a ‘Glória da Marinha Real”, e a “Competência dos Oficiais Britânicos”!]
Assis estava incomodado com o olhar de Gillette, que ainda desconfiava que ele tinha roubado os sapatos dele, sendo que Assis 'só' tinha roubado os do marinheiro enjoado. Esse nervosismo e ansiedade crescente mexeram com o mar, balançando os marinheiros espalhados pelo convés, enquanto Assis tentava se concentrar na voz do Comodoro, que insistia em 'ensinar o padre a rezar missa'. Mais um balanço perigoso, e Assis se desequilibrou, levando Norrington com ele na queda, caindo por cima dele, escondidos por alguns barris, caixotes e armamento, espalhados.
- Perdão, senhor! - exclamou Assis, tentando se levantar, mas sem conseguir. - Perdão - murmurou, sentindo Norrington o apertar um pouco. - Senhor?
Assis congelou. Ele sentiu o rosto esquentar tanto que teve certeza de que poderia ferver a água do mar ao redor do navio. Norrington estava logo abaixo dele, a respiração curta, as mãos segurando a cintura de Assis para impedir que o próximo balanço os jogasse contra as ferragens dos canhões.
-Rasgaram? - sussurrou Assis, os olhos arregalados. - Muito?
-Eu sinto a brisa do oceano em lugares onde a Marinha Real nunca autorizou a entrada de brisas! - Norrington sibilou. - Saia de cima de mim antes que isso fique pior para nós dois!
Assis tentou impulsionar o corpo para cima, mas o navio deu mais um solavanco. O resultado foi um som metálico de algo batendo e Norrington soltando um gemido de dor abafado.
- Assis... você está pisando na minha casaca. Se eu me levantar agora, vou ficar apenas de camisa e... e arrependimento!
- Comodoro? - A voz de Grooves ecoou vinda de trás dos barris, soando perigosamente perto. - O senhor está bem? Ouvimos um estrondo e o grumete sumiu de novo. Eu juro que se o mar continuar a balançar desse jeito, vou começar a acreditar que o rapaz tem um contrato com os peixes.
Assis olhou para Norrington com desespero. O Comodoro, em um ato de puro instinto de sobrevivência social, puxou Assis para mais perto, escondendo os dois ainda mais entre a parede do navio e os suprimentos.
[...]
O grumete tentou se levantar, aliviado por ser aquele tenente, mas o oceano não ajudou muito, como se Assis, ou ele mesmo, não quisesse; e Norrington apertou Assis com força, suspirando pesadamente no ouvido do grumete, enquanto o rapaz sentia o rosto queimar ainda mais. Grooves se afastou, rindo baixinho, e Assis sussurrou:
- Comodoro, admiro profundamente a sua patente, e a forma como exibe essa espada, mas, com todo respeito, ela está me incomodando…
- Assis... - murmurou áspero e rouco ao mesmo tempo, puxando a espada ainda na bainha, jogando ao lado dele. - Precisa... Deve... Se levantar…
- Não é... - murmurou Assis quente como uma brasa, e envergonhado, olhando para o oficial que estava vermelho, com a cabeça encostada na madeira. - Não é uma espada... - concluiu, e Norrington olhou para o outro lado. - Isso é... Sentir... Impressionante, senhor - Assis deixou escapar em um sussurro.
Ele se arrependeu no mesmo instante, tentando se levantar mais uma vez, mais desastrado ainda, analisando o que tinha abaixo dele, quando o navio balançou mais uma vez. Norrington conseguiu se levantar, envolvendo Assis contra a beirada para que os dois não caíssem, cometendo a falha de cair de cara no peito do grumete. Norrington levou mais do que alguns segundos para processar o que estava acontecendo, e Assis sentiu a 'Glória da Marinha Real' contra o próprio ventre, e a 'Competência dos Oficiais Britânicos' afundada em seu peito. Norrington levantou o rosto, mais vermelho que o vermelho da bandeira do Reino Unido, deixando os dedos escorregarem, por um MALDITO impulso, que ele usou como desculpa que era para confirmar o que pensava, até o monte apertado e rígido, apertando com força. Assis não berrou, mas ficou vermelho, afastando o oficial com um chute no abdômen, quando o navio balançou mais uma vez, banhando os dois em água salgada.
Na minha opinião o vira-lata não deveria ser usado como algo pejorativo para falar de pessoas que não devem ser mencionadas aqui. Essa raça brasileira, que pode ser encontrada em qualquer canto desse país, é um ótimo símbolo de resiliência brasileira. E ele é um ótimo símbolo para uma agência que surgiu do nada, baseada na ideia de dois malucos e que perdurou por anos, enfrentando adversidades com o jeito brasileiro de viver a vida. Há menções ao período da ditadura, mas nada aqui é depreciativo, e mesmo que seja ficção, a COBRA é o que há de mais revolucionário nessa bagunça de país!!
SEGUNDA PARTE DA ORDEM CRONOLÓGICA, E CENAS SOLTAS, DA AGÊNCIA COBRA - BASEADA NA MISSÃO DE 1975!!
<ABRE CENA>
“- A democracia não é decidida pela vontade de uma pessoa, ela é decidida pela vontade da maioria, independente se é bom para todos, ou não! É assim que funciona a igualdade!
- Uma igualdade falsa - murmurou o vira-lata. - Você sabe como esse país funciona, e sabe que essa decisão não seria desse jeito, e não teria a força que tem, se todo mundo tivesse o mesmo direito ao básico. - Ele viu Antônio beber mais um gole de cerveja, que estava acompanhando o que o companheiro falava. Ele estava bêbado, mas ao mesmo tempo estava decidido. - Eles não sabem o que está acontecendo de verdade. Eles não sabem que os gringos não ligam para o que vai acontecer desde que eles mantenham o poder.
- E a gente sabe - disse o homem da capital. - Nós sabemos o que está acontecendo, mas não é brincadeira! Usar uma coisa dessas é chamar atenção! É causar guerra!
- E sugere que fiquemos aqui, de braços cruzados, depois de montar tudo isso daqui?! - zangou Antônio largando a cerveja. - Isso não é só trair a nossa pátria, é jogar dinheiro, tempo e confiança no lixo, por causa de um bando de filho da put#! - gritou batendo na mesa. O homem da capital estava firme no que ele dizia e não desviou o olhar. - Está pedindo que a gente abaixe a cabeça, cacete!
- Se está tão firme nessa ideia, então é porquê já pensou em algo, Antônio! - O homem da capital observou Antônio olhar para a mesa. - Quer comprar briga sem saber o que fazer?
- Acha que quando fomos servir na Itália nós sabíamos o que fazer?! - As narinas do homem dilataram. - Não sei qual é a fama da FEB lá fora. E eu não me importo, colega. Nós fizemos o que podíamos com o que tínhamos ao nosso alcance!
- Podem usar ameaças - comentou José que estava muito interessado no assunto.
Ele estava folgado perto do vira-lata. A cadeira de fios de plástico, e o tio, ofereciam mais conforto do que as outras. Ele tinha trago de casa, mas o vira-lata foi mais rápido que ele, e depois de brigarem, ele sentou perto do tio, que ganhou na base da troca. O vira-lata resmungou, porquê ele estava com as pernas descansando sobre ele, mas não fez nada. Os homens encararam o garoto antes de processarem o que ele estava dizendo.
- Já disse para não ser intrometido, José - disse Antônio áspero.
- Deixa ele falar, e depois você briga, Antônio - interveio o vira-lata. - Se ele entrou na roda no começo da discussão, ele tem direito de dar opinião. - Ele se ajeitou na cadeira. - Qual é a sua ideia?
- Meu pai está certo - começou o garoto. - Se não fizerem nada, isso aqui vai continuar do mesmo jeito, é ignorar o que tá acontecendo e jogar tudo no lixo.
- E?
Antônio ergueu a sobrancelha. Ele tinha orgulho da rapidez e firmeza que José tinha de se impor, mesmo que isso significasse que ele batia de frente com o pai, sendo contrário a educação que o homem recebeu. Nas melhores das definições, José era um boca de sacola intrometido e muito "pra frente".
- Pelo o que eu sei eles manipulam os jornalistas, independente se é na base da ameaça, eles manipulam. E vocês podem fazer o mesmo para manter a gente escondido. - O pessoal reunido estreitou as sobrancelhas. - E a informação que vocês tem sobre aquele negócio dos Nazi, seguindo o que tá acontecendo entre os russos e os americanos, pode ser usada como ameaça para eles não fazerem nada.
- Do que está falando? - indagou o homem da capital. Ele tinha entendido, mas queria ver até onde o menino conseguia acompanhar.
- Os russos vão ficar fulos da vida se descobrirem sobre os laboratórios em território latino, já que não tem base apenas aqui, em outros lugares também. E eles não gostam nem um pouco dos Nazi.
- Isso causaria uma guerra, Zé - disse o vira-lata.
- Sim, se os russos ficarem sabendo, assim como o resto do mundo, isso pode causar uma guerra, mas os americanos não vão ser mais os "Heróis" e todo mundo vai saber quem são de verdade...
- E o que eles querem por aqui - concluiu o vira-lata. - E não são só eles que estão metidos nessa.
- Chumbo trocado não dói, tio - disse José sorrindo para o homem da capital.
- Isso é loucura - disse o homem da capital levantando as mãos. - Mas o que o garoto disse tem sentido - ele se rendeu. - Tem mão gringa na ditadura e tem mão gringa nos trabalhos dos Nazi. Se seguirmos a lógica do magricela, podemos usar a base da ameaça para manter os americanos quietos e manipular os jornalistas para dar uma "mexida" nas informações.
- E então?
- É loucura, sim - disse ele. - E já que entramos na chuva nós vamos nos molhar!"
<FECHA CENA!>
Só precisava dele, só dele, e eles tinham conseguido. Os outros fundadores apoiaram a ideia desde o começo, mas eles trabalhavam juntos, e tinham conseguido. Agora eles iam mostrar para os gringos, e para os traidores (militares brasileiros) com eles estavam brincando. Eles iam entender que a pressão que brasileiro com S colocava até o diabo tinha medo. Os uniformes do time de campo foram definidos por Carmen, mãe de José, que tinha pulso firme sobre como tudo deveria ser e tinha a mesma visão sobre algo original, e não requentado como sobras velhas.
A primeira jaqueta de uniforme a ser feita foi a do vira-lata, e o material era leve por conta do clima. Era bege, com a bandeira dos Estados Unidos no braço direito riscado com um X vermelho enorme, e a bandeira do Brasil no braço esquerdo costurada à mão em cores vivas, e o codinome nas costas. O do vira-lata era óbvio.
[ 🐍 A MISSÃO!! 🐍]
Eles sabiam que tinha gente que apoiou o início, mas o sofrimento imposto a todos era cruel, e já estava na hora de mostrarem como as coisas funcionam de igual para igual. Com a tecnologia e agentes infiltrados, a COBRA pensou em reunir toda aquela gente em um lugar só, e explodir o lugar. Eles seguiram o plano, e a ameaça foi enviada para os americanos em um papel pardo sem identificação (levado por um infiltrado que disse que não sabia de onde tinha vindo, e a lábia convenceu o americano que recebeu a informação e empalideceu, fugindo da pergunta curiosa e "espontânea" sobre do que se tratava).
Militares brasileiros, símbolos da ditadura, e nazistas, foram mortos por uma explosão causada por uma "falha", como foi estipulado pela COBRA aos jornalistas, desviando a atenção das últimas evacuações de prisioneiros realizadas nas bases militares e outras instalações.
[E O VIRA-LATA?]
Para uma bomba ser implantada era necessário uma invasão. Os empregados que serviram o jantar eram agentes COBRA, que evacuaram depois de receber o sinal do grupo que ficou responsável por ajudar a implanta-lá. Mas algo deu errado. Ela precisaria ser ativada manualmente, então o vira-lata, sabendo como o próprio corpo funcionava, mandou os outros evacuarem, que ele daria um jeito. Explodiu!
Antônio soube do sacrifício necessário. A agência sentiu, mas dias depois, o próprio Antônio apareceu com um dos jornais, gritando que aquele cachorro era um filho da mãe sem vergonha, balançando e mostrando para todos a foto da capa. Ele tinha dirigido como um louco pelas estradas de terra, porquê a notícia era demais, acordando quem ainda estava dormindo e atiçando quem já estava trabalhando.
[Na manchete principal tinha a foto do vira-lata caramelo, sorrindo com a língua para fora, fazendo xixi nos destroços da mansão.]
A foto rodou, não só o país, mas o mundo. O pessoal da agência tratou de emoldurar o jornal naquele dia mesmo, e José esperou e esperou, junto com o resto do pessoal. E como se soubesse que eles tinham descoberto que ainda estava vivo, o vira-lata, no final da tarde, acendeu os fogos brancos avisando que tinha chegado, cumprindo com a promessa que fez ao sobrinho.
Lembrando que isso aqui tudo é fanfic baseada em história, e um filme sobre ingleses espiões que não me canso de zoar, mas só coisas boas!!
A COBRA VAI FUMAR!: O CAOS BRASILEIRO E A ORDEM BRITÂNICA!!
🐍🐍🐍🐍🐍
[Primeiramente, eu devia estar dormindo neste exato momento, mas cá estou publicando algo que eu levei alguns dias para levar a um rumo totalmente diferente do que eu esperava!!!]
Para todos que pensam que o Brasil não pode ter uma marca registrada, e nem assumir responsabilidades a nível mundial, estou aqui para repensar essa ideia enraizada de que esse país é só bagunça, aproveitando da própria bagunça, e da franquia Kingsman, para provar o meu ponto, brincando com as possibilidades e o choque cultural de pessoas rígidas (por cultura!) e caóticas (por cultura!). E como se essa receita não pudesse ser mais temperada possível, nós temos uma pitada de história e patriotismo do Brasil Com S!
E nada que um pouco de história nacional não mude nas pessoas, não é?
Sem mais enrolação!
[PRIMEIRA PARTE DA ORDEM CRONOLÓGICA - E CENAS SOLTAS!!]
(1941 - O protagonista, que era resumido a um jovem perdido na vida, e se alistou no exército para ganhar alguns trocados, é sequestrado por um grupo de cientistas. O antagonista [Principal] não é alemão, mas o que ele defende é compatível ao que os nazistas acreditavam, e ele precisava de passe livre para poder realizar experimentos em humanos.)
(1941 a 1945 - Com o fim da guerra, a ameaça é palpável, mas não são os soviéticos que descobrem o local, são os brasileiros. O protagonista não saiu do Brasil, e foi mantido em território nacional. O responsável pela pesquisa ordenou uma "queima de arquivos". Nosso protagonista, sem identificação, não apresentou mudanças esperadas, durante os anos que foi ficou enclausurado naquele lugar, e levou um tiro na cabeça. Os irresponsáveis que invadiram o lugar, sem ordem direta, o resgataram, e é aí que entra o grupo de soldados mais sem noção que eu conheço. Antônio era da FEB, e guiando os companheiros, eles meteram o nariz em um negócio perigoso.)
“Antônio era maluco. Insano. Sem noção. Parecia uma criança movida a cafeína batida com açúcar, e se comportava como um garoto teimoso e bocudo. Foi esse jeito imprevisível que ditou os acontecimentos que seguiram a invasão da casa que eles julgavam abandonada. Aqueles seis malucos iam ser castigados por ter desobedecido ordem direta, mas a curiosidade, e sensação de que algo muito fora do normal estava acontecendo, foram alimentadas por dias e dias até decidirem que iam dar uma olhada. Para uma olhada rápida não era necessário armas de fogo, mas só Deus sabia o que tinha naquele lugar. Eles ficaram quietos e o que conseguiram diferenciar em meio a noite banhada pela lua cheia, que era única fonte de iluminação, foi o acessório vermelho com a suástica. O líder daquela "olhada" sussurrou baixo para os colegas, que eles tinham que entrar, calculando até mesmo a respiração, porquê o "cheiro" de confusão estava mais forte a cada segundo. Os outros cinco o encararam. Eles iam seguir, mas a dúvida era palpável naquele clima estranho. A noite estava fresca, mas eles estavam suando e sentiam o corpo inteiro arder, arrepiando até os ossos quando a brisa os encontrava. O plano era simples: dois chamariam atenção, dois ficariam de prontidão e outros dois entraram na casa. O moreno de pele judiada pelo sol, xingou baixinho por entender o porquê daquela sensação estranha. Antônio estava mais do que certo, o que provava que aquela curiosidade era uma intuição anormal.
O fogão a lenha tinha sido arrastado alguns centímetros, e os homens notaram a luz que vinha de baixo; um túnel estreito sem supervisão que os dois seguiram, sentindo cada respiração doer o peito pela ansiedade. Os homens estavam certos de que era ruim. Aquela suástica não era qualquer coisa. O túnel mal iluminado levava a uma porta de metal, e Antônio que ia na frente não exitou em colocar a mão nela, empurrando. Ninguém estava de olho no corredor da estrutura. Uma luz estava piscando e ela queimou no exato momento em que um tiro foi disparado.
[...]
Nada do que eles esperavam aconteceu, mas o tratamento médico foi certeiro, porque o responsável pelo insignificante hospital era conhecido de Antônio, e o senhor conhecia bem a índole dele. O desconhecido foi deixado em uma cama e depois do médico examinar, ele disse que o que podiam fazer era esperar. A verdade é que ninguém ligou para o que eles tinham a dizer. Ninguém se importava. Nunca se importaram. A cidade nem nome tinha, igualmente o desconhecido que acordou dias depois. Os seis foram "dispensados" e o que restou a eles foi um lugar estranho, e um estranho.”
(1945 em diante - Ninguém voltou para ter certeza se o lugar foi destruído, e os seis decidiram esconder aquele lugar, usando o que tinha ali para tentar ajudar o desconhecido que tinham encontrado, e que não apresentou perigo; até ele se transformar em um vira-lata na frente de todos que estavam bebendo no boteco que Antônio herdou, e coçar a orelha com a pata traseira, resmungando que precisava beber algo. E foi nessas reuniões de boteco, que ainda não tinha nome, naquela cidade perdida no meio do interior do Brasil, em meio a bebida, que a ideia de um lugar, um grupo, para cuidar de assuntos que os poderosos fechavam os olhos a respeito, surgiu.)
(1960 em diante - Sendo sincero a ideia era insana, ainda mais para pessoas que não tinham dinheiro; mas tinham lábia. E mesmo que fosse loucura o plano de Antônio, eles estavam decididos, assim como o pessoal que ajudou a planejar. Antônio conheceu Carmen em 1959, e o filho dos dois, José, nasceu em 1960; o garoto cresceu na cola do protagonista. O antigo pracinha conhecia um homem importante que seguia a mesma linha de pensamento que eles: Porque aquele país tinha que ser o quintal de gente arrogante? E porquê o governo não se importava?
“- Antônio, aquele cachorro filho da mãe mijou no meu sapato! - gritou o homem da capital. Ele era quem estava ouvindo a proposta de patrocínio. - Onde foi que o arrumou?!
- Não foi o senhor que pediu uma prova forte para investir em nós? - zombou o vira-lata, passando para o lado de Antônio. Ele estava incomodado, e queria voltar para a cidade sem nome. - Antônio, se não cumprir o que me prometeu, eu vou beber o estoque do boteco mesmo!
- Eu já entendi que isso alivia a dor, vira-lata! - zangou Antônio. O homem da capital estava com os olhos arregalados. - Mas não pode ficar bebendo tudo! Eu preciso vender! E dá um jeito de voltar ao normal, imbecil! - O cachorro obedeceu, e Antônio o estava encarando, quando os dois ouviram algo cair no chão. - Ah, meu pai! - exclamou. O investidor estava estirado no chão. Aquilo tinha sido demais pra ele. - Será que morreu?
- Por uma bobagem dessas?
- Eu não sei como a sua cabeça funciona, mas não é todo mundo que está acostumado com um cachorro resmungando porquê não pode beber!
- Você não desmaiou na primeira vez! - retrucou. - E agora não é hora de discutir, nós precisamos ajudar o rapaz!”
<Corta Para Cena Depois de Alguns Dias - Esperando na entrada da cidade sem nome!>
“ José, com cinco anos, estava sentado nos ombros do vira-lata, e o homem parecia não sentir o peso do menino magrelo que vivia com ele, independente se era hora de dormir. Antônio sentia ciúmes disso, porquê ele é o pai de José, e o vira-lata era uma espécie de tio muito improvável, e de personalidade questionável, mas ao mesmo tempo confiável, porquê cuidava de José no mesmo nível de preocupação que Antônio e Carmen, respeitando os pais do menino.
4:30 da manhã, sem sol, e a brisa quente varria a poeira da estrada de terra que era estreita, além de ser o único jeito de chegar naquele lugar esquecido por Deus.
- Que horas são? - perguntou o vira-lata, passando o dedo sobre a marca de uma cicatriz na perna de José. - Está sumindo - comentou.
- Faz tempo que cai de bicicleta, tio - respondeu o menino. - Velho, eles vão vir mesmo?
- O que eu disse sobre me chamar de velho, José? - Antônio não olhou para ele. - E foi o seu tio que definiu a hora - resmungou.
- Não foi só isso que eu conversei com o homem - disse ele sorrindo. - E por isso digo que...
Primeiro foi um rojão. O som ecoando pela cidade, avisando que estavam ali. E depois os fogos de artifício. Cinco fogos vermelhos para a quantidade de caminhões grandes, dez para a quantidade de caminhões menores, e mais vinte que o vira-lata não soube especificar, mas que sabia que eram veículos menores no geral. Os fogos azuis eram para a quantidade do pessoal de apoio, e esses foram sem parar; José tentou contar e chegou a cem; Antônio chegou a duzentos; e o vira-lata, confiante de que o homem não quebraria a palavra, contou para cima de trezentos. E por último a cor branca para reforçar que eles tinham conseguido, e a cavalaria estava chegando.
O povo escutou, e saiu para entender o que estava acontecendo. Os caminhões menores passavam com facilidade, porquê tinham sido pensados antes mesmo de ir para lá, por uma mulher que trazia o filho ao lado, no banco do passageiro. Os outros veículos também, e naquele momento já tinha mais gente reunida na entrada, e ambos os lados estavam curiosos. Os caminhões maiores tiveram que se apertar e apertar, mas deram um jeito. Foi mais do que o vira-lata contou, e mesmo que não estivessem com a cara boa por causa da viagem, eles tinham uma energia diferente. O homem da capital saiu de um dos carros. Não estava mais usando terno e sorriu para Antônio e o companheiro.
- Isso aqui não é só meu - começou ele. - Conversei com alguns malucos, e eles pensam a mesma coisa que nós. Tem gente de todo o canto aqui, e eles estão dispostos a ajudar - explicou. - Os dois malucos vão mostrar a cidade?
- Do pouco que conheci o maluco da capital, eu acredito que não se importa com luxo, não é? - brincou o vira-lata. - Porquê esse lugar é pequeno, mas funciona que nem coração de mãe. É só dar um jeito que cabe mais um.”
(1965 a 1975) - O que antes era só uma ideia, agora tinha forma, tinha base, e o povo foi se juntando, mas a realidade da tensão da guerra fria, e a da ditadura, estavam ali, berrando nos ouvidos de todos. Os brasileiros sabiam que aquilo tinha mão direta da gringa. Os agentes da Cobra trabalharam no meio desse caos, resgatando prisioneiros, que eram torturados diariamente e não tinham ninguém por eles; destruindo bases militares, sem deixar rastros, se não fosse a marca de uma cobra na terra ou na poeira dos escombros, que já tinha sido definida como símbolo - patriota, mas repensado. E a ditadura era o palco perfeito para que os nazistas voltassem a usar o Brasil como base. Os militares brasileiros apoiaram a ideia nazista, porquê soldados perfeitos significavam poder, e poder significava mandar; mandar em um país que tinha o que era necessário para ser um potência baseado no que era certo, mas eles queriam ser uma potência baseada no medo e na opressão, visando interesse próprio. E a proposta de serem imortais era interessante. A chefia da COBRA se reuniu. Aquilo tinha que ser resolvido.)
--- Não sei o que dizer, mas conteúdos sobre esse homem parecem tão certos, quanto um e um são dois. E não pude resistir depois de assistir um dos meus favoritos mais uma vez. Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra. E, assim como kingsman, boa parte do que encontrei sobre ele está em inglês, o que me deixou um tanto aborrecido, porquê ele parece tão… Sei lá… Interessante?
--- Me julguem, mas assistindo aos filmes que James Norrington aparecia, não consegui reparar em outro homem que não fosse ele.
“Ah, mas o Jack Sparrow, o Will…”
--- São bonitos, sim. Mas o Norrington é outro nível para mim. E, cara, estou chegando à conclusão de que eu tenho algum tipo de fascínio por homens específicos. Mas é que… É bem específico!
Observação muito importante: O Capitão Hector Barbossa é O Pirata, e não existe outro como ele nesses filmes.
Sobre James Norrington
- Está calor, os vestidos são pesados, os sapatos de salto machucam meus pés, meu cabelo está lamentável, e as pessoas, que vão estar lá, são deprimentes, o que só reforça a minha vontade de ficar aqui lendo meus livros, em paz - respondeu Ágatha. Amélia respirou fundo, tentando reprimir a vontade de xingar a própria filha, que não tinha movido um músculo desde que ela entrou no quarto. - Não concorda? - Ela olhou para mim, e Amélia fez o mesmo.
- Eu concordo. - Me sentei na cama, ajeitando o robe sobre a camisola. - Mas o que me chateia não são só os vestidos. Todo o processo de ser espremido por um espartilho, moldando minha cintura para ficar mais agradável aos olhos de quem estiver lá, também é horrível. Além, é claro, dos outros métodos para parecer mais feminino. - Suspirei. - Coisa que nunca funcionou. E eu fico genuinamente feliz por ter conseguido fugir dos homens. - Amélia me encarou, buscando ajuda. - Ágatha, você é filha de pessoas importantes, precisa comparecer ao evento, nem que seja por alguns minutos, só para parabenizar o futuro Comodoro. - Senti um travesseiro ser jogado nas minhas costas. - Pense comigo, não precisa ser amigável, apenas estar lá.
- Ouviu? - Amélia olhou para a filha. - Não precisa ser amigável, apenas parabenizar, conversar um pouco, e podemos voltar. Nada demais. Não vai morrer se fizer isso. Não é uma festa, apenas um evento como tantos outros que você já foi.
- Está bem. - A garota chutou as cobertas para longe, e se levantou. - Você vai? - perguntou para mim.
- Tenho outra escolha?
- Ficar na cama, fingindo não se sentir bem.
- Sim, eu poderia. Mas não seria de bom tom fazer isso, já que seus pais me acolheram, e eu prometi que faria que pudesse para me comportar. Então, mesmo não querendo, vou testar a minha paciência, e a das criadas, tentando me espremer em um espartilho. - Me levantei.
- Isso me serve de consolo - murmurou.
- Perfeito! Agora está na hora da moça, e do moço, ficarem impecáveis.
Ela se aproximou da porta do quarto e a abriu. Chamou alguém. Logo, algumas mulheres agitadas entraram com caixas enormes. Olhei para as mesmas, tentando imaginar o que seria. Olhei para a garota do outro lado da cama, que revirou os olhos, coçando a cabeça. Amélia pediu que colocassem as caixas sobre a cama, e ela mesma as abriu, para que pudéssemos ver os vestidos, que sem sabermos, ela havia encomendado. Aquela mulher sabia com precisão as medidas das pessoas da casa. Ela sorriu para nós, e pegou o vestido na tonalidade mais clara para a filha. Ela sorriu para a mulher. Não é que a garota não gostasse, é que depois de um tempo, e no lugar onde estávamos, não era confortável passar o dia usando vestidos como aquele. E isso era cansativo. Amélia se virou, puxando da segunda caixa um vestido trabalhado em uma tonalidade mais escura; os detalhes eram perfeitos. Ela tinha escolhido de acordo com o que eu gostava, o que me arrancou um sorriso sincero ao ver.
- É lindo - soltei sem notar. Ela sorriu. - Espero que fique bom no meu corpo.
- Vai ficar - concluiu. - Assim como o de Ágatha.
A resistência do espartilho era impressionante, o que sempre me fazia pensar que Amélia os mandava fazer sob medida, para apertar e moldar sem ceder. E quanto mais as mulheres puxavam seus cordões para apertá-lo do jeito certo, mais eu tentava segurar a respiração, murchando a barriga para, tentar, facilitar o trabalho; e elas conseguiram. Sempre conseguiam. Sempre davam um jeito. Mas eu sentia que se respirasse e soltasse o ar como fazia normalmente, aquilo não iria aguentar. Era sempre assim. Quando terminaram de me arrumar naquele vestido, notei que, talvez, não conseguiria pensar em outra coisa que não fosse o jeito como o meu busto estava bem marcado. Se eu pudesse daria um jeito nos meus seios com uma faca qualquer, mas só de imaginar tudo o que aconteceria caso fizesse isso, e todos os procedimentos precários que poderiam me levar a uma morte lenta e dolorosa, a ideia de arrancá-los fora - porquê não aguentava mais, por não me sentir bem com aquela amostra de que meu corpo não correspondia a como me sentia - era deixada de lado. E ali estava, bem na minha cara, uma das evidências de que, infelizmente, meu corpo não correspondia ao que eu era.
- O que achou? - perguntou Amélia.
- É bonito - soltei sem ânimo. A mulher passou a mão nas minhas costas. - Mas sinto que ficou vulgar.
- Não vejo nada demais, mas se te incomoda...
- Fique tranquila. Não vou deixar de ir, por causa disso. E, também, se deixar, Ágatha não vai. - Passei a mão sobre a barriga.
- Exatamente - disse a garota atrás de nós. Me virei, e Amélia também. - Então?
- Perfeita - comentou a mãe dela.
- Como sempre - completei.
A discussão não atrapalhou em nada, e nós conseguimos chegar a tempo, nos juntando as pessoas no forte. O governador e sua filha se aproximaram assim que chegamos. Amélia e o homem trocaram algumas palavras, mas logo o silêncio prevaleceu, e as pessoas se atentaram ao que estava para acontecer. Respirei fundo, soltando o ar aos poucos. Olhei para baixo; meus pés estavam cobertos pela barra do vestido. Consegui sentir cada milímetro do meu corpo; as pessoas ao redor; o calor; o tecido das peças de roupa que estava usando; meus dedos que estavam começando a doer, mesmo não tendo passado muito tempo em pé, mas o maldito sapato não ajudava. Inquieto. Passei a mão na testa, secando algumas gotas de suor; a limpei no vestido. Respirei fundo mais uma vez, e soltei com cuidado. Estiquei o pescoço para um lado, e depois para o outro. Conseguia ouvir as respirações das pessoas próximas, seus comentários sussurrados, o balançar dos leques, as ordens, as botas batendo no chão, o som das baionetas sendo posicionadas, o sapato do Comodoro. Inferno. Respirei fundo mais uma vez, tentando ajeitar a postura. Soltei.
- E você ainda está viva - disse alguém. Me virei. Amélia. Ela estava falando com a filha - Doeu? - brincou.
Estranho. A menina não respondeu a mãe, como sempre fazia. Ela parecia um tanto pálida, abanando aquele leque bem rápido. Não deixei de notar as gotas de suor se acumulando na testa dela. Ágatha olhou para mim, e cruzou o braço no meu, sussurrando para mim, se nós podíamos nos afastar um pouco das pessoas ali. A acompanhei, observando o céu e o mar à minha frente. Ela continuou a abanar aquele leque com força, e eu, que já estava preocupado pelo jeito dela, comecei a ficar ainda mais. As pessoas se dispersaram. Observei o meu redor, voltando a olhar para ela. Pálida. O sangue tinha abandonado seu rosto, desbotando o tom de pele. Num sussurro ela me disse que não estava se sentindo bem, e eu me virei, buscando Amélia pelo olhar. A mulher estava conversando com o Comodoro, e eu acenei. Ela não viu. Me afastei um pouco de Ágatha, na intenção de ir até Amélia, para falar com ela sobre o estado da filha, mas foi só dar alguns passos em direção a ela, que ouvi o deslizar do tecido sobre a pedra. Amélia arregalou os olhos e gritou, correndo na minha direção. Me virei. Ela não estava mais lá. Me aproximei da beirada e olhei para baixo, as águas espumando como se alguma coisa tivesse caído ali, naquele instante. Conseguia ouvir várias pessoas falando ao mesmo tempo, mas no meio desse falatório, um homem disse que era um milagre não ter batido nas pedras. Então o som dos sapatos rápidos, batendo com força no chão, enquanto os homens se distanciaram. Não dava tempo. Ela não estava bem. Ela poderia... Que merda eu deveria fazer?
Arrancar o vestido e os sapatos, pulando no mar em seguida, da altura onde estava, não foi a coisa mais consciente que fiz, mas também não foi a mais idiota. Não pensei muito, nadando até ela, a puxando pelo vestido, para perto de mim. Tentei voltar à superfície, levando Ágatha comigo, mas o vestido não estava ajudando. O soltei pela parte da frente, dando um jeito de me livrar dele, puxando a menina mais uma vez. Só quando consegui chegar ao cais com ela, entregar a garota desacordada a dois homens que estavam ali, e voltar a sentir o chão sob meus pés, que me dei conta o quanto aquele esforço estava cobrando dos meus pulmões, que doíam.
- Ela não está respirando!
- O que devemos fazer?
O empurrei e segurei o espartilho, o rasgando com um puxão firme. O joguei longe, observando-a cuspir água, voltando aos poucos a respirar. Ágatha passou a mão na corrente que sempre usava, segurando um medalhão que não era para estar ali. O segurei. Ela segurou minha mão. Me afastei, sentindo o peito doer, e assim como fiz com o dela, dei um jeito de rasgar o espartilho que estava usando, o suficiente para poder me livrar dele. A garota encostou a cabeça em mim, suspirando profundamente. Alguns segundos, me levantei, e a ajudei a ficar de pé. Ela se segurou em mim, e minha mente deu um estalo ao ouvir pessoas se aproximando.
- Ei, você? - chamei um dos homens de vermelho. - Me dê seu casaco, por favor.
- O que?
- O seu casaco.
O homem se desfez dele rapidamente, me entregando assim que o Comodoro e os outros se aproximaram. A cobri com meu corpo, colocando a peça de roupa sobre os ombros dela.
- Obrigada, irmão - sussurrou. Não respondi. Não sabia o que dizer. Ela sorriu.
- As duas estão bem? - perguntou alguém.
Senti o peso dos olhares sobre mim, e quando me virei os homens viraram suas cabeças para outros lados, assim como o Comodoro. Senti meu rosto queimar e o coração bater errado. Estava exposto demais aos olhos de muitos homens. Tentei cobrir meus seios, que eram o que mais me preocupavam, e me encolhi um pouco, não sabendo o que fazer, abaixei a cabeça.
- Pegue - disse um homem. Ele estendeu um casaco azul que os oficiais da marinha real usavam, cheio de detalhes. Olhei para cima, e lá estava o Comodoro Norrington me estendendo seu casaco, enquanto cobria o rosto com o chapéu. Aceitei, mas não o vesti. Ele se virou, ficando bem na minha frente. - Virem-se! - ordenou a seus homens. Eles obedeceram. Dei um jeito de vestir o casaco bem rápido, sentindo minha cara queimar ainda mais. - Conseguiu se cobrir?
- Sim, senhor - respondi baixo. Ele se virou. - Obrigada. - Obrigado, senhor.
- Sei que o que fez foi movido pelo impulso de querer salvar sua irmã, e foi um enorme ato de coragem, mas não posso deixar de lembrá-la que poderia ter, não só se machucado, como tirado sua própria vida, sem intenção, ao pular de lá de cima - zangou. Um maldito sermão depois de toda aquela confusão. Não conseguia manter os olhos nos dele, então abaixei a cabeça, o deixando falar. - Tem tanta confiança nos marinheiros, que decidiu, por si mesma, que seria uma boa ideia fazer tudo sozinha? Pensou na senhora Amélia? Se sua irmã tivesse morrido, e você também, o que aconteceria a ela? Tem noção do quanto foi egoísta ao fazer o que fez?
- Egoísta? - repeti baixinho. Eu senti cada palavra dele. O tom. Era como se estivesse falando com uma criança. Levantei a cabeça, alcançando o olhar dele. - Me chamou de egoísta?
- Senhorita...
- Não me venha com essa, Comodoro Norrington! - o cortei. - Se seus homens fossem tão bons e confiáveis quanto está sugerindo, os dois que estavam aqui, e viram que ela caiu de lá cima, teriam pulado na água para poder salvá-la! Mas não foi isso que eles fizeram, não é? - Ele ficou vermelho. Discutir com ele, na frente daquelas pessoas, não era uma boa ideia, mas minha língua ainda estava coçando. - E ainda acha que está no direito de me chamar de egoísta? Pulei, porquê sabia que não daria tempo de vocês chegarem até aqui e decidirem o que iam fazer! Pulei porquê ela é minha irmã, e não aguentaria viver com o fato de que se ela não fosse salva, eu não tinha feito nada para ajudar! Se eu morresse fazendo isso, e chegasse do outro lado consciente disso, de nada me arrependeria! - Estava tremendo, sentindo meu corpo queimar. Meu rosto principalmente, mas não era de vergonha. Tinha sobre mim o olhar do homem que não disse nada, mas estava vermelho. Não soube definir o que ele estava pensando e sentindo, então me limitei a ficar quieto, absorvendo e processando o que eu mesmo disse. Que merda tinha feito. - Eu...
- Comodoro? - O homem não se virou. - Comodoro, é melhor o senhor vir conosco. Conseguimos prender um pirata bêbado que estava perambulando por aí. - Os olhos dele ainda estavam fixos nos meus. A mesma expressão. - Comodoro?
- Está bem - disse por fim. Ele se virou. - Onde está?
- Está tudo bem? - perguntou Ágatha, observando, ao meu lado, os homens se afastarem.
- Na medida do possível, acho que sim - respondi. - Eu acho.
Coisas demais para pensar, coisas demais para sentir, mas decidi que ignoraria minha própria cabeça e o que estava sentindo, como sempre fazia, e depois de um banho quente, e uma conversa com Amélia, pedi licença, e me escondi no quarto. Passei o resto do dia lá, não saindo nem para comer alguma coisa. Amélia pediu para que levassem uma bandeja recheada com o que eu mais gostava, mas aquilo só me fez sentir pior do que já estava, sem saber o porquê. Acompanhei o anoitecer pela janela, e cedi a enxaqueca que estava sentindo, me enfiando debaixo das cobertas pesadas e afundando a cara no travesseiro. Adormeci aos poucos, mas não descansei naquela noite, conseguia sentir, e até ouvir o que estava acontecendo ao meu redor, tanto que marquei a presença da pessoa que foi até meu quarto, e acariciou minhas bochechas, chegando a beliscar e rir baixinho; um beijo carinhoso, e ela saiu. E também os estrondos, os barulhos, a confusão lá fora, não ali perto, que cessaram da mesma forma que tinham começado. E tudo ficou em silêncio. E foi esse silêncio que me acordou de manhã bem cedo. Meu rosto doía, minha cabeça também, e meu corpo estava pesado como uma pedra. Calor; chutei as cobertas para longe de mim, e rolei na cama, olhando para cima. Por impulso, levantei, peguei o robe e o amarrei de um jeito preguiçoso, enquanto saía do quarto apressadamente. Não encontrei nem Amélia, nem Ágatha. A criadagem estava silenciosa e estranha. Saí do quarto de Amélia, depois de mais uma tentativa de encontrá-lá, e esbarrei como uma das mulheres. Ela me olhou do mesmo jeito que alguns deles fizeram há dez anos quando cheguei naquela casa, e ainda faziam. Aquela cara. Perguntei à dona da casa, e ela se limitou em me dizer que ela tinha ido para o forte, mas não explicou o porquê. Não pensei, montando em um dos cavalos, mesmo de camisola, e segui para lá, sem saber o que estava acontecendo, e com o peito apertando a cada segundo que passava por dentro da cidade, observando os estragos da noite passada, me julgando por estar dormindo, enquanto o caos consumia aquele lugar. Não pedi licença, não me anunciei, e desci desajeitado, correndo na direção de Amélia que estava sentada em uma cadeira próxima ao governador e ao Comodoro que estava abaixado, traçando, pelo que imaginei, rotas sobre um papel meio jogado sobre a mesa; ele parecia cansado, os homens a sua volta, também. Mas nada se comparava com a expressão de Amélia. Nada se comparava ao jeito como ela olhou para mim antes de vir na minha direção.
- Me desculpe por sair desse jeito e não te avisar - adiantou. - Eu... - Ela parou e passou a mão nas minhas bochechas, fazendo um carinho que ela já tinha feito antes, mas o qual nunca me acostumei.
- Por que este lugar está um caos? O que aconteceu? Onde está Ágatha? - soltei sem pensar o que veio na minha cabeça, não prestando atenção no tom que estava usando. Me condenei por fazer isso, ao notar que ela estava segurando o choro. - Amélia - disse, passando os braços ao redor dela, a puxando para perto -, me desculpe. Eu não queria ter falado desse jeito. - Ela afundou o rosto no meu pescoço, me apertando. Ignorei as pessoas à nossa volta, e apertei também. Meu coração batendo esquisito. Haviam jeitos esquisitos dele bater, que eu já conhecia, mas aquele jeito, aquela coisa que ele estava me causando, atiçando algum tipo de ansiedade nova. - Te machucaram?
- Não - murmurou.
- E Ágatha?
- Eu... Assis - meu nome -, eles a levaram.
Assim como um e um são dois, aquela equação era simples de resolver. A confusão do lado de fora e os barulhos reais demais para um sonho; os empregados cansados e mal humorados; o caos na cidade; o forte que estava agitado, por causa dos marinheiros indo e vindo, tentando arrumar a bagunça da noite passada, e recolhendo os corpos dos que não tinham tido tanta sorte; Norrington com aquela cara de quem não tinha pregado o olho, debruçado sobre a mesa, trabalhando em rotas; o governador tão preocupado quanto Amélia, já que tratava Ágatha como filha; e o medalhão. Aquela confusão toda tinha sido um ataque causado por uma tripulação pirata que consumiu meus pensamentos na hora. O que escutei não foi qualquer barulho; canhões. Os malditos canhões do Pérola Negra. Mas se tinha uma peça que não se encaixava, era Ágatha. Ele podia ter pego a porcaria do medalhão e ido embora, poupando a cabeça de seus homens, mas não, ele não o fez, levando com ele alguém importante demais para ser ignorado.
- Amélia, foi ele - sussurrei próximo ao ouvido dela. A mulher se segurou nos tecidos das minhas roupas.
- Como sabe? - perguntou depois de respirar fundo. - Como tem tanta certeza?
- Conheço o barulho dos canhões do navio que passei alguns anos - contei. - E tem mais uma coisa.
- O que?
- Ele estava procurando por uma coisa específica.
- Do que está falando? - Ela levantou a cabeça e olhou para mim. - Do que é que você está falando? O que isso tem haver com Ágatha? - gritou.
- Eu não sei! Não tenho ideia! Mas sei que o que ele procurava, estava aqui, porquê estava pendurado no pescoço da sua filha! - soltei de uma vez. Ela se afastou, tentando entender. O governador se aproximou, e tentou dar apoio a mulher. - Eu sei que foi ele, e sei onde ele vai estar, mas não sei o porquê dele levar Ágatha - contei sem medo, sem me importar com os ouvidos atentos do Comodoro, que largou o que estava fazendo.
- Do que está falando? - perguntou ele. Se aproximou, e eu me mantive firme no lugar, mesmo sentindo uma pontada de arrependimento de ter jogado aquelas palavras ao vento, como se não fossem nada. - Sabe quem é o responsável por essa desordem?
- Sei - respondi baixinho, mas sem hesitar. - E se estão atrás dele, por causa de Ágatha, vão precisar esquecer tudo o que acreditam sobre maldições e tesouros amaldiçoados. Se é que acreditam, Comodoro.
- Tesouro amaldiçoado? - Cético. - Está brincando?
- Porquê eu faria isso? Estamos falando de alguém importante para mim. - Cruzei os braços sobre o peito.
- Vai me dizer que Jack Sparrow também está envolvido?
- Quem? - Arregalei os olhos. Pirata bêbado, perambulando por aí. Não era possível. - Ele está aqui? Ele, realmente, está aqui?
- Então ele está envolvido?
- Não, ele não está. Jack não é capitão do Pérola há dez anos, quando o Barbossa amotinou, junto com o resto da tripulação. O abandonaram em um pedaço de terra desprezado pelos deuses, para morrer. E, agora, o senhor está me dizendo que ele está aqui?
- Acha que estou em posição de mentir sobre isso?
- Não, senhor. Não. - Gesticulei sem parar. - O que estou tentando dizer é que... Eu não sei, na verdade. - A única coisa que me veio à cabeça, era a coisa mais idiota possível, mas não me segurei. - Posso falar com ele?
- Quer falar com Jack Sparrow, depois de contar coisas que podem comprometer o andamento do futuro de sua irmã, e do seu, a um oficial da marinha real?
- E o que tem? Não é como se eu fosse roubar um navio, para sair saqueando. E, também, vê alguma marca? Algum presente deixado pela Companhia? - Puxei as mangas da camisola. - E outra, senhor, não estou pedindo para falar a sós com ele.
- E porquê acredita que eu deixaria?
- Porquê? Porra! - O homem levou um susto. Não estava acostumado com "mulheres", falando daquele jeito, provavelmente. - Estamos do mesmo lado, não estamos? Está tentando encontrar uma rota para ir atrás de Ágatha, não está? Então confie em mim!
- Como posso?
- Porque alguém, em sã consciência, pularia daquela altura, com o risco de bater com tudo contra as pedras, para salvar alguém com quem ela não se importa, Norrington? Me diga? Consegue pensar em alguma coisa? - Ele não respondeu. Aquela expressão. Me irritava o jeito como não conseguia ler o rosto dele, porquê sempre consegui fazer isso com as outras pessoas, para evitar problemas. - Então?
- Comodoro, por favor - implorou Amélia. - Ágatha é só uma criança.
Ele não respondeu, mas fez sinal para que o seguisse até onde Jack Sparrow estava, esparramado no chão, como se não quisesse nada, coisa que não era verdade, levando em conta o osso que ele conseguiu lixar para poder enfiar no buraco da fechadura da cela. Ele se apoiou nos cotovelos, dando uma boa observada no que tinha à disposição.
- Posso ter um minuto a sós com a dama? - perguntou a Norrington.
- Não.
- Que pena. - Ele voltou a deitar.
- O Pérola esteve aqui na noite passada - comentei.
- Eu sei. Consegui ver pelas janelas, depois de escutar os barulhos dos canhões.
- E não conseguiu fugir? Patético, levando em conta que o senhor é Jack Sparrow, e a cela do lado está praticamente destruída. Um belo buraco.
- É capitão! Capitão...
- Capitão Jack Sparrow - completei. Ele vivia corrigindo as pessoas. - Me surpreende que continue falando isso, mesmo depois de perder o Pérola. - Ele se sentou. Ia dizer alguma coisa, mas fui mais rápido. - Perder, não. Você não o perdeu. Eles roubaram de você. O que é interessante, levando em conta a fama que tinha. - Tentou falar mais uma vez. - E, também, cômico, já que Barbossa conseguiu construir uma fama pior do que a sua em dez anos como capitão daqueles malucos traidores.
- É fácil quando se está amaldiçoado daquele jeito. - Ele sorriu. - Me surpreende que ninguém tenha te descoberto aqui, e que não tenha sofrido com a maldição ao longo dos anos.
- Não mexi na maldita arca. Não peguei uma única moeda, diretamente, daquela arca. Só que não esperava que depois de ganhar de um dos tripulantes que foram ao seu favor, contra Barbosa, o capitão desse um jeito de me afastar dele.
- Barbossa te tirou da jogada, e agora voltou para buscar uma coisa, que ele não sabia que estava com você, durante todo esse tempo? - Aquela cara. - Isso é impressionante e merecido!
- Do que ele está falando? - Norrington puxou minha atenção. Não respondi.
- Ele não te contou?
- Ele? - O homem franziu o rosto.
- Como te chamam por aqui, Assis? - indagou Jack zombeteiro.
- Assis?
- Joga sujo, Jack. - Ele sorriu mais uma vez. - Antes de contar ao Comodoro o que está acontecendo, preciso saber se ainda está com a sua bússola.
- Ela está escondida em um lugar seguro.
- É mentira. - Norrington foi até os pertences de Jack que estavam pendurados ali, bem perto, e puxou a bússola do meio deles. - É essa?
- Sim.
- Ótimo. - Ele se aproximou mais uma vez. - Venha comigo.
- Senhor, eu...
- Isso é uma ordem.
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- Por que está com essa cara?
- Porquê não consigo parar de pensar no fato de que eu passei por cima do que acredito, e deixei que dois piratas subissem no meu navio, junto com a minha tripulação, sendo que um deles é quem está nos guiando para sabe se lá onde! - zangou ele.
- Não sou um pirata - rebati. Ele deixou o rosto cair entre as mãos, evidentemente cansado de tudo o que tinha acontecido nos últimos dias. - Pelo menos, não mais - tentei mais uma vez. - Sei que deve estar cansado, irritado, estressado, e que o jeito dele não ajuda, mas não posso fazer nada a respeito. Sem aquele idiota, não vamos conseguir chegar a Isla de Muerta.
- Não pode fazer nada a respeito? Mesmo? - O tom dele. - Aquela bússola! Ele passa quase todo o tempo olhando para ela, o que é bem ruim, já que ela não aponta para o norte!
- Não - reforcei, balançando a cabeça. - Ela aponta para o que ele quer. E o que ele mais quer, no momento, é encontrar o Pérola; e o navio está sob a posse do Capitão Barbossa; e ele está indo para a Isla de Muerta, para tentar se livrar da maldição que a ambição dele o condenou.
- Isso fica pior a cada minuto - suspirou. Ele apertou um ponto da testa que estava doendo, fechando os olhos por alguns segundos. - Como pode confiar nisso? Como pode ter tanta certeza?
- Já o vi conseguindo coisas e chegando a lugares que pessoas normais não chegariam, já que não sabem de sua localização. E a Isla de Muerta é desse jeito.
- E quanto Ágatha? - Ele me encarou. - O que ela tem haver com essa história?
- Eu... - o coração - Eu não sei - murmurei.
- Comodoro? - chamou Gillette.
Norrington não pensou duas vezes antes de se afastar e ir atrás do tenente. Sobre o quê iam falar, eu não sei, mas estava curioso. Olhei em direção ao timão, lá estava Jack exibido e falando como nunca, contando aos homens sobre suas aventuras e exagerando em algumas partes, ignorando totalmente o que Norrington disse a ele sobre analisar todos os sentidos sobre ser silencioso como um túmulo. Não resisti e me aproximei. Ele não parou, entregando um dos desfechos mais mentirosos que já ouvi, mesmo tendo passado um bom tempo com ele à bordo do Pérola Negra. Barbossa vivia me dizendo para não acreditar naquele idiota, tendo na cola dele, o ex capitão, que fazia questão de torrar a paciência do ex imediato. Os dois viviam discutindo, ao ponto de puxarem as espadas um para o outro, mas no final sempre se resolviam bebendo até caírem em algum ponto do navio. Às vezes dormiam encostados um no outro como duas crianças. Isso me fazia pensar ainda mais no porquê de Barbossa se rebelar daquele jeito, mas tentei nublar isso, colocando na cabeça que negócio é negócio e amizade é amizade.
- Não é mesmo, Assis? - perguntou Jack.
- Não tenho certeza. Era apenas uma criança.
- Uma criança inteligente. - O tom. - Mas nem tanto, já que você não conseguiu aprender a navegar e nem ler mapas direito. E, com todo respeito - ele gesticulou -, era insuportável quando queria, provando ser um verdadeiro filhinho do papai.
- Você ainda está bravo comigo, porquê atrapalhei a noite que ia ter com aquele cara esquisito que só tinha uma perna? - Tombei a cabeça para o lado. Ele se calou. Algumas risadas baixas. - Já disse que sinto muito, e também já te devolvi a quantia que pagou para que ele...
- Ei! - cortou. Mais algumas risadas baixas. - Meu único amor é o mar!
- Sim, seu único amor é o mar. Mas o mar não sabe te chupar, não é mesmo? - Sorri travesso, e os homens não seguraram dessa vez. - Conseguiu encontrá-lo depois de tanto tempo para matar a saudade?
- Assis - advertiu. - Se não parar...
- Vai contar um segredo sujo? - perguntou o outro tenente que estava escutando tudo e se segurando para não rir alto. - Que tipo de segredo sujo, você pode ter, Assis?
- Esse é o ponto. Ele não tem nenhum segredo desse tipo. Nunca o vi com um homem - contou. - Nem com mulheres. Afinal, do que você gosta?
- Porquê quer saber?
- Porque é um homem, não é? - Ele se aproximou - O comum é gostar de mulher. Se gostasse de homens seria...
- Esquisito? - Sorri zombeteiro. - E o que tem? Porquê está tão interessado nisso? Não vai me dizer que está querendo me experimentar - brinquei. - Se for isso, não sinto dizer que fujo de homens como o diabo foge da cruz.
- Que pena. - Falso. Franzi as sobrancelhas. - É uma pena mesmo. O Comodoro vai, realmente, ficar aborrecido se souber disso.
- Espera aí.
- O que? Por que ele não pode saber? Não faz diferença mesmo, já que vive fugindo de homens. - Aquele jeito. - Não vai me dizer que aqueles olhos foram o suficiente para te fazer mudar de ideia? - Desviei o olhar do rosto dele, observando o resto dos homens que estavam próximos. Eles viraram a cara. - Falando nisso, o que acha dele?
- O que eu acho?
- Exatamente.
- Eu acho ele estressado. Acredito que ele pensa que sabe de tudo, e que as coisas estão no controle dele. O tom dele é insensível e cortante. O jeito como me olha, me faz querer me esconder, eu admito. A raiva inexplicável por piratas me sufoca, mas me faz pensar que se fosse a filha do governador no lugar de Ágatha, ele não pensaria muito, se a única resposta para encontrá-la, fosse um pirata. E tenho que admitir que me corrói, mesmo não tendo nada haver com a vida amorosa dele, o jeito como ele parece meio desesperado por ela, sendo que é escancarado, que ela não gosta dele, e morre de amores pelo amigo de infância, Will.
- Mais alguma coisa?
- Precisa de mais?
- Diga. Coloque para fora.
- Ah, ele é...
- Bonito?
- Sim, é bonito. O que tem?
- Mesmo? Qual parte dele gosta mais?
- Os olhos - disse sem pensar duas vezes. - E as sobrancelhas os realçam mais. Elas não são tão escuras, mas são expressivas, o que dá um charme a mais aquela carranca.
- Interessante. - Ele sorriu. Aquele jeito, ligado ao fato de que os homens não estavam rindo mais e se segurando para não deixar nem mesmo um sorriso transparecer, fez um arrepio percorrer meu corpo inteiro. - Comodoro? - Jack acenou.
- Você é traiçoeiro. - Não virei para trás.
- O professor que te deu aulas, aprendeu comigo essa arte, Assis. - Norrington passou ao meu lado, se aproximando de Jack. - O que achou?
- Voltem aos seus postos - mandou. O tom grave me faz querer sair correndo, mas lutei para me manter no lugar. Ele esperou que todos se afastassem. Jack não ficou ali. Ninguém ficou ali, a não ser ele, e eu. Merda. - Não te dei esse tipo de liberdade. - Ele se virou. Aquela cara. Inferno de homem. Dizer que ele era estressado, chato e lento, tudo bem. Agora, dizer que ele era feio, não tinha como. Seria muita hipocrisia da minha parte dizer que ele era horroroso, sendo que eu não pensava assim. Qualquer um ia entender que eu estava mentindo se o fizesse. - Minha vida pessoal não te interessa.
- Eu sei - me limitei a isso. Não fazia ideia do que dizer.
- Sabe, mas falou de mim, e da filha do governador.
- Eu não falei mal dela. Não disse nada sobre a aparência ou jeito dela. Só disse uma coisa que é óbvia para todos que te conhecem, e a conhecem.
- Se me conhecesse bem, saberia que não sinto nada por ela. Apenas respeito.
- Mesmo? - Ergui as sobrancelhas, cético. - Vamos dizer que deixou de se sentir atraído por ela, não que nunca gostou. Consegue me dizer há quanto tempo tem que não se sente assim?
- Consigo dizer com exatidão.
- Então, diga! - Aproximou-se de mim, e eu deixei o olhar vagar para outro lado. Norrington segurou meu queixo com firmeza e cuidado ao mesmo tempo, e puxou minha atenção para ele. - Comodoro?
- Me sinto assim, desde que brigou comigo no dia que salvou sua irmã - sussurrou. Meu corpo esquentou, e minha cara começou a queimar de vergonha e... Curiosidade? Tinha gostado de saber daquilo? - Admito que não consegui parar de pensar em você depois daquilo, mas as coisas aconteceram, e a verdade sobre você apareceu.
- Ah, é um dos que sabe que eu não sou filha de Amélia e do navegador. - Tombei a cabeça. - Pelo menos, fazia questão de tentar esconder para não chatear os dois.
- Fazia questão de esconder, para não chatear você.
- Por que?
- Porquê me pediram, e era só uma criança quando o conheci. Uma criança que, segundo o navegador, tinha passado por muita coisa. E eu acreditei, porquê consegui ver isso no seu rosto cansado. E então você cresceu, o mesmo semblante, mas o sorriso estava mais iluminado e gentil. Eu...
- Pode parar, Comodoro. - Me afastei. - Não estou me sentindo bem com o rumo dessa confissão. - Ele parecia... Perdido. - Sinto dizer, mas eu não sei o que sinto em relação ao senhor, ainda mais depois de ouvir isso. Nunca trocamos muitas palavras. Como pode saber o que está sentindo?
- Eu não disse o que eu sinto, só sei que sinto e que isso mudou alguma coisa dentro de mim. Mas ainda não cheguei a conclusão nenhuma. E se acha que sinto isso desde que era criança, está enganado, e me entendendo mal. Nunca senti atração nem por você, nem por Elizabeth quando eram crianças. Tenho respeito por ela do mesmo jeito que tenho por você. Me dói profundamente, que tenha pensado que eu sou um pervertido, um imoral, um homem sujo. - As narinas dilatadas. Os olhos brilhando. Pensei que ele fosse chorar, mas não, ele se afastou ainda mais, e desceu as escadas, seguindo para os aposentos.
- Merda - resmunguei.
- Ele parece mais perigoso do que o normal - comentou Jack, chegando mais perto. - O que disse a ele?
- Nada. Ele se ofendeu com a expectativa que ele mesmo criou, e não me deixou falar nada. - Suspirei pesadamente. - Vocês dizem que mulheres são complicadas, mas, porra, que homem difícil! - A risada suave de Jack. Suspirei mais uma vez. Ele olhou para mim, e eu para ele. - Não quero saber o que está tramando.
- Mesmo que isso te ajude a seduzir o homem?
- Seduzir? Sério? - Malícia. - Eu não sou o que pensam quando dizem gostoso, delicioso, sensual, bonito, agradável, ou qualquer outra coisa nesse sentido!
- Mas ele gosta de você.
- Ele gosta de uma coisa que ele inventou na cabeça dele, ou ele gosta de mim?
- Passava muito tempo com ele?
- Não.
- O via com frequência?
- Não.
- Tiveram conversas significativas?
- Também, não.
- Até terem que se aturar para poder procurar por sua irmã?
- Não.
- Então, como ele pode ter inventando qualquer coisa, se ele estava caindo de amores pela filha do governador, e começou a passar mais tempo contigo, por causa do sequestro da garota que estamos procurando? - Porra, Jack. - Ele gosta de você. Dá para notar.
- Como alguém pode gostar de uma pessoa que ele parece não suportar?
- Eu não sei como isso funciona, mas ele gosta de você, meu caro. Mesmo sabendo tudo ao seu respeito. Então, o que acha de...
- Não quero saber de nada do que tem a dizer.
- E porquê não?
- Não é confiável. Nunca foi. - Me afastei, segurando o corrimão da escada. - O professor que aprendeu com você, me ensinou uma lição bem importante para aqueles que tentaram aprender essa arte.
- E qual foi?
- Não confie em gente da sua própria laia.
Passei pelos homens, batendo na porta dos aposentos de Norrington. Ele tinha dado espaço para que eu pudesse dormir lá, mas durante o dia, se precisasse, ele ficava lá, fazendo o precisava fazer. Ele não me respondeu, mas eu abri a porta e entrei. Ele não levantou a cabeça e se limitou a perguntar o que eu queria. Não o respondi, me aproximando dele. Ele não se mexeu, e eu me sentei, o observando. Não se incomodou, tanto que ficou assim por um bom tempo, até o cair da noite, quando o tenente o chamou mais uma vez para avisar que tínhamos chegado. Saí com ele para fora, sentindo a brisa tocar meu rosto. Era possível ver o Pérola, mas pelo que eles disseram, parecia não haver ninguém a bordo.
- Tem uma caverna escondida. A arca está lá, assim como várias outras peças feitas de ouro puro, adornadas com pedras preciosas. - Norrington não disse nada, parecia inquieto. - Está tudo bem?
- Me disse que os tripulantes não podem morrer, esqueceu? Isso me preocupa.
- Comodoro, tenho um plano perfeito - disse Jack, dando um tapinha nas costas dele, e eu senti meu estômago ficar pesado.
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- Eu avisei aos seus homens que estava por aqui. - Ele sorriu.
- Não precisa se preocupar com isso - tranquilizou. - Precisa de alguma coisa?
- Vai mesmo atrás dele?
- Jack Sparrow?
- Capitão Jack Sparrow - imitei o jeito daquele idiota fujão, conseguindo uma risada sincera.
- Sim, vou atrás do Capitão Jack Sparrow. - Não consegui disfarçar a cara de insatisfação. - Sou um oficial da marinha, Assis. - Cansado. Era assim que ele estava. Mas, porra, o meu nome, meu verdadeiro nome, saindo da boca dele ainda me causava arrepios. Ele sorriu desanimado com a situação. - Mas não se preocupe, logo estarei de volta para podermos discutir sobre qualquer coisa que for interessante.
- Essa se tornou uma das minhas coisas favoritas desde que fomos obrigados a passar um tempo juntos, sabia? - Ele corou de leve. - Vou ficar entediado, enquanto não voltar. - O tom avermelhado se intensificou, e ele não conseguiu controlar o sorriso. - Mas não vim aqui para desejar boa viagem.
- Não?
- Não. - O entreguei o embrulho que estava embaixo do braço. Ele pegou, e olhou para mim. - Não consegui te devolver naquele dia, e nem depois que chegamos. - Ele desfez o laço, passando a mão no casaco azul que tinha me oferecido. - Tinha seu cheiro, mas pedi para lavar, para poder devolver.
- Tinha meu cheiro?
- Tinha.
- E mandou lavar por causa disso?
- Não. - Balancei a cabeça. - Não me incomodava nem um pouco, e era tão bom, que perdurou por dias no seu casaco.
- Fico feliz em saber que gostou.
- Mesmo? - Ele balançou a cabeça. O olhar fixo no meu. Suspirei. - Não te incomoda tudo que aconteceu e o que descobriu sobre mim?
- Não me importa de onde veio, não me importa se fazia parte da tripulação do Pérola Negra, sob os cuidados de Hector Barbossa. O lugar de onde veio te marcou, mas você provou que é uma boa pessoa, um bom irmão, um bom filho, e um amigo leal. Se não fosse por você, meus homens não teriam voltado para cá, nem mesmo eu. - Gentil. Só consigo dizer isso, porquê não pensei demais enquanto ele falava, só deixei suas palavras me tocar como um carinho leve. - Me deu mais motivos para te querer por perto, do que longe de mim. - Sorri envergonhado. - Esse sorriso é um dos motivos de eu estar travando uma luta interna para poder ficar aqui, e esquecer daquele homem.
- Queria ficar aqui, por causa de mim?
- O que tem?
- É... Interessante.
- Interessante?
- Estou tentando dizer que gostei de saber disso.
- Comodoro! - chamou alguém.
- Isso me irrita - confessou. - Não conte para ninguém.
- Sou silencioso como um túmulo, senhor.
- Mas é quente e marcante como uma brasa.
- Isso foi... - Minha cara esquentando. O sorriso travesso. - Atrevido!
- Não tanto quanto eu queria. - Ele passou a ponta do indicador sobre meu nariz, deixando sua mão tocar minha bochecha. Sorri malicioso. - Que cara é essa?
- A cara de quem quer muito te beijar até te deixar vermelho - confessei. O jeito dele de sorrir estava me matando aos poucos de um jeito tão doce. O polegar deslizando pelo meu lábio inferior, me fez ferver como a brasa que ele disse que eu era. - Não me provoque, se não pode me dar o que eu quero, senhor.
- E quem disse que não posso? - Ele se abaixou e esfregou o nariz no meu. Aquele hálito quente roçando minhas bochechas de leve.
- COMODORO?!?
- Deus, mais que inferno! - zangou. - O QUE FOI?! - gritou de volta. Gillette acenou para mim. Dava para notar que ele estava fazendo isso para provocar. - Eu vou esganar ele. Eu juro, que vou.
O tenente continuou a puxar a atenção dele, e eu aproveitei isso para puxar a gola da camisa dele com força, fazendo o homem se virar, não dando tempo para que ele dissesse nada, afundando meus lábios nos dele em um beijo roubado e desajeitado. Norrington se afastou de leve, deixando seu olhar vagar por meu rosto. Não sabia o que ele estava pensando, mas tive a certeza que não era ruim, porquê o homem deu início ao próximo beijo, acertando a boca na minha de um jeito firme e possessivo, agarrando minha cintura, me prendendo contra ele, mesmo com todos aqueles homens andando pra lá e pra cá no cais. Puxei o chapéu dele na tentativa de cobrir nossos rostos, mas não consegui, o deixei cair, enroscando o pescoço do homem em um abraço, o puxando para mais e mais perto. Suspirei, e ele me apertou, deixando um gemido tímido escapar. Ser ar, sem fôlego, mas tão satisfeito com aquilo, deixei ele tomar o que precisava, porquê eu precisava que ele fizesse isso. Mais uma vez alguém chamou por ele, e relutante, em meio a mais e mais vozes chamando por ele, Norrington se separou, encerrando o contato com um selinho. Ele se abaixou para pegar o chapéu, se ajeitou, e seguiu para o lado dos marinheiros, cruzando os braços atrás das costas. O observei, mordendo o lábio inferior, tentando espantar a ideia que me surgiu de repente. Inferno. Porquê, não?
-Como estão indo? - perguntou ele.
-Tudo certo para partirmos, senhor!
Os passos apressados na madeira do navio; as vozes; o barulho; a agitação; e eu, enfiado no meio das cargas que eles tinham guardado. Esperei. Esperei. Esperei. A agitação lá fora continuou, e eu não consegui mais me segurar. As coisas ali estavam apertadas. Dei um jeito de sair do canto sem fazer barulho e nem derrubar nada, subindo os degraus, cumprimentando os homens que passavam por mim, como se fosse parte da tripulação. Gillette foi o primeiro a me reconhecer, mas ele não disse nada. Estava conversando com Norrington, que estava de costas para mim. Ele sorriu.
-Comodoro, posso fazer uma pergunta? - Norrington resmungou. - Sobre aquele rapaz, o que pretende fazer?
- Porquê quer saber disso, tenente? - Grosso.
- Apenas fiquei curioso. A tripulação inteira viu os dois se beijando, já que, é claro, o senhor não foi o que consideramos discreto. - Atrevido e direto. - Mas queria saber o que sente por ele.
- Se está pensando que estou brincando com os sentimentos dele, está me ofendendo.
- Pretende se casar?
- Sim, tenente. Assim que voltarmos eu o farei.
- Vai se casar com ele?
- Com quem mais?
- E o que vai dizer quando for se declarar?
- Eu?
- Quem mais?
- Não vou mentir. Não faço ideia, e fico ansioso só de pensar em contar a ele tudo que sinto. - Ele suspirou. - O quero tanto, de um jeito tão…
- Possessivo e inapropriado?
- Tenente!
- Então?
- O que sei é preciso dele. E que preciso que ele precise disso, tanto quanto eu. - Ele suspirou pesadamente. - Aquele beijo roubado não está ajudando, não consigo deixar de pensar nele, e querer…
- Estar por perto?
- Sim. Mas, infelizmente, não posso ter o que quero, nesse momento.
- Creio que isso não será um problema, senhor.
- E por quê?
- É difícil explicar sem que o senhor queira me jogar do navio, assim que eu terminar de falar. - Gillette sorriu, acenando para mim. Acenei de volta, e Norrington se virou. O rosto dele ficou vermelho. - Vou deixar os dois a sós, e vou pedir para que ninguém incomode. - Ele passou para o meu lado. - Por favor, tente convencer o homem de que me matar é uma coisa ruim para ele.
- Pode deixar. Obrigado, tenente.
- O que está fazendo aqui?
- Decidi fazer uma surpresa. - Sorri bobo. Ele não recuou quando me aproximei. - Fiz mal?
- Eu… Não sei.
- Não sabe?
- Te quero aqui, mas… Não sei se isso é certo.
- Acha que vou atrapalhar na busca? - Ele não respondeu. - Fique tranquilo, não vou fazer isso. Não me importa esse negócio de pirataria. Não mais. Apertei a ponta do nariz dele, deixando meus dedos tocarem seus lábios, em seguida. - O quão atrevido pretende ser quando não tiver ninguém olhando, Comodoro Norrington?
- Meu nome, Assis.
- O quão atrevido pretende ser, quando não tiver ninguém olhando, James?