Com a colher em mãos, ainda parado em seu lugar, apenas a ouvia contar sobre o que fez ou deixou de fazer durante o feriado. Seu rosto expressava algumas reações conforme Leo falava; fosse de surpresa, de animação e de dó ao ouvir sobre as escoriações. Nem todas eram cem por cento verdadeiras — assim como tudo que envolvia Brodie de alguma forma. Comparado ao feriado alheio, o seu tinha sido uma lástima. Não tinha feito nem metade daquilo tudo. Ou pior, nem um terço !
Então, apoiou um dos cotovelos sobre a bancada, bem ao lado dela, e se encurvou ligeiramente para ficar mais próximo do bolo. “Até pensei em ir.” contou. Agora, ele tinha uma expressão de desânimo no rosto. Seus planos eram completamente outros. E quando teve que repensar no que fazer quando descobriu que seus planos foram por água abaixo, desanimou de tal jeito que preferiu ficar em casa mesmo. Claro que não atribuiria toda culpa à Eleonor; nem seria capaz de culpá-la daquela forma. Como disse, Brodie passava um tremendo pano para ela. “Mas não rolou. Tive outras coisas para fazer também.” Mentira. Havia ficado em casa, vendo um filme ruim em sua televisão, comendo sorvete direto do pote. Então, espetou um pedacinho do bolo e enfiou em sua boca, passando a mastigá-lo vagarosamente, apreciando o seu sabor predileto.
“Do outro lado da cidade, celular descarregado. Isso é um perigo. Você sabe bem, né, Leo? Tem que tomar cuidado.” Uma discreta repreensão saiu da boca de Rogers. Claro que tinha um pouco de ciúmes escondido naquela frase também. Não precisava ser muito esperto para saber o desfecho da noite de Eleonor. “Nem todo mundo é bem intencionado em Valletta. E eu não quero ter que colocar a polícia atrás de você.” E se Brodie quisesse, pagaria até o Papa para ir atrás da mulher.
Então, o interfone tocou, mais uma vez. Os olhos azuis de Brodie miraram o relógio da parede. ‘Bem a tempo’, pensou. Teve que esconder um sorrisinho que quase brotou em seu rosto. Sem um minuto a mais e nem a menos, o presentinho que comprou para ela e que viria assinado como outra pessoa, como sempre, chegou na portaria. “Ué, está esperando mais alguém?” Perguntou, fingindo estar confuso com aquilo.
Pela proximidade, Eleonor levou uma das mãos aos cabelos de Brodie, afagando gentilmente os fios como costumava fazer com seus amigos num geral, sobretudo porque era muito afetuosa e gostava de todo tipo de contato físico. Voltou a sorrir quando ele demonstrou preocupação com seu bem-estar, como era o habitual entre eles. — Tudo bem, pai. Mas eu estou aqui, vivinha, não estou? E prestes a roubar seu bolo todo. — Comentou mantendo o tom divertido, pegando mais um pedaço do bolo. Ensaiara para colocá-lo na boca, quando o interfone tocou; e como Brodie havia pontuado, não, ela não estava esperando mais ninguém. Por isso, no mesmo instante, sua expressão converteu-se em confusão. Crispou os lábios e desceu da bancada, indo atender.
Quando ouviu da portaria que havia um buquê imenso lá embaixo e uma sacola com alguma coisa dentro, Eleonor associou tudo aquilo ao que já havia ganhado outras vezes. Desde roupas, a joias, maquiagens... Variava muito. E tudo vindo de uma mesma pessoa, aparentemente. O que no começo era bastante estranho, realmente, mas, no final das contas, era mais do que agradável. Champanhe, roupas caras, perfumes ótimos... O que mais Eleonor poderia querer?
— Eu já volto! — Anunciou a Broadie, antes de sair do apartamento e pegar o elevador até a portaria. Todo o trajeto durou aproximadamente três minutos e quando retornou para o amigo, estava com um sorriso de orelha a orelha, com um buquê enorme. Realmente grande, chamativo, com flores tão bonitas e perfumadas que Eleonor realmente não cabia em si de tanta emoção. Isso atrelado à sacola pendurada em seu braço, com a estampa de uma joalheria absurdamente famosa, como seu cisne podia indicar. — Meu Deus, é tão pesado! — Exclamou, aos risos, voltando para perto do amigo, deixando as flores com cuidado sobre a bancada onde estava. Observou haver um cartão no meio delas, tomando-o entre os dedos. Suas bochechas estavam coradas de excitação e ela sentia que seu coração ia explodir. Adorava ser mimada. — Foi o que eu te disse, essas belezinhas continuam chegando. — Comentou, ainda bem animada, agora abrindo a sacola para puxar de lá uma caixinha que indicava se tratar de mais alguma coisa envolvendo joias. — E eu continuo me derretendo. — Um novo sorriso incontrolável, enquanto revelava o conteúdo da pequena caixa azulada. Era uma gargantilha delicadíssima e um par de brincos igualmente delicado e bonito. — E ele ou ela também é poeta, veja só. — Riu, estendendo o cartão que recebera, após lê-lo, na direção do amigo.