lauriel - p. 1
E de repente eu me sinto de novo como a muitos anos atrás. Um adolescente perdido com tantas informações e novas cobranças do mundo, tendo que aprender novas lógicas, formas de comunicação, maneiras de se manter vivo.
[maneiras de se manter vivo: você vai notando que quanto mais a gente vai compreendendo (me soando como comprimir, mais do que entender) o mundo cada vez mais concreto e o quanto é ardido e azedo e apimentada, então precisa buscar maneiras de diminuir, equilibrar ou até extinguir esse ardido e azedo e apimentado. experimentação. a gente não para de aprender coisas novas sobre nosso corpo, desde quando a gente foi paride. é isso, a experimentação dos nossos corpos por nós mesmos vai ficando cada vez mais carregadas, porque atravessa experimentação dos corpos alheios em relação ao nosso.]
- enfim, esse colchete é um pensamento dentro do pensamento. são reflexões que surgem sem fim na minha cabeça e eu preciso imediatamente parar minha linha de raciocínio primeira, para dar vasão a esse novo pensamento. depois volto para o pensamento primário.
Me entender como um homem trans tem sido um processo de reviver todo aquele período da adolescência, mas agora com asas maiores e mais bem treinadas. mas também com mais bagagens [bagagem pesa]. tudo mudou
a forma como eu me apaixono, como eu acho que as pessoas se apaixonam por mim, como eu percebo os lugares e eles me percebem (respectivamente nessa ordem), como eu acompanho a fluidez do meu corpo, como eu procuro palavras dentro da cabeça, como eu existo. por quê eu existo, até quando eu existo... São muitos lugares novos. Quando eu era criança, até os 5 anos, eu achava que o mundo era meu bairro. imagino que quando era mais novo ainda, meu quintal era o mundo, mas fui crescendo e quando percebi que o mundo era mais e maior que só o meu bairro ou o meu quintal, fiquei imbricado e sinônimos de imbricado. eu me sinto assim agora! me deparei com lugares para além do que eu achava que era mundo. me sinto imbricado e sinônimos de imbricado. é tudo um ciclo, né? as imbricações da infância e as imbricações da adolescência tomam novas formas, mas com a mesma argila e assim por diante, até o momento em que não precisamos estar mais nessa matéria - corpo.
{07 de Setembro de 2020 - Lauriel Lucio}













