— Sabes aquela história sem fim? — perguntou ele, olhando-a nos olhos.
— Qual? — respondeu ela, curiosa.
— Aquela que leva esse nome.
— Sei… o que tem?
— É a nossa história — disse ele com um meio sorriso. — O problema é que até a história sem fim teve um fim… e nós nem sequer conseguimos dar um desfecho à nossa.
Ela soltou um sorriso simples, quase tímido, achando graça nas palavras dele. A conversa então tomou outro rumo, mas, quando ele foi embora, o silêncio da casa pareceu pesar mais do que deveria.
Deitou-se no sofá, barriga para cima, a cabeça apoiada num dos braços finos, enquanto o outro pendia solto, encostando no chão. Olhava o teto com um olhar fixo, mas sem enxergar nada. Estava perdida dentro de si.
“Não quero um fim”, murmurou para si mesma, quase num sussurro que ecoou apenas dentro do peito.
A simples ideia da palavra “fim” começou a apertar seu coração, e os olhos, agora úmidos, denunciavam o que ela tentava conter. Mas se segurou. Não deixou que a lágrima caísse.
Levantou-se lentamente e foi até o seu refúgio: o quarto. Encostou a porta, pegou o velho caderno escolar e sua caneta preta de ponta fina — a preferida, pois deixava a letra redondinha e bonita — e começou a escrever:
“Meu amor, mal sabes tu que, se um dia chegar esse fim que tanto temo, não viverei mais. Tudo perderá o sentido, porque o sentido da minha vida só descobri quando te conheci.
Quero jurar que ficarei ao teu lado até que a morte nos separe. Quero dançar contigo uma música lenta, a nossa música, aquela que embala nossos momentos mais felizes. Quero sentir a areia cobrindo nossos pés na beira do mar, enquanto o sol se põe preguiçoso no horizonte.
Nos dias frios, quero te prender comigo debaixo dos cobertores, assistindo filmes ou fazendo amor. Nos dias quentes, quero sorvete, risadas, ruas por onde nunca passamos.
Há tanto para viver, meu amor. Por isso, não me fale em fim. Não agora, não quando ainda há tanto de nós para existir.”
Fechou o caderno com cuidado, respirou fundo e encostou a testa sobre ele, como se, de alguma forma, o papel pudesse ouvi-la.
Lá fora, o dia seguia normal. Mas dentro dela, tudo parecia suspenso.