Essa semana eu recebi conselhos, mas não os aceitei. Essa semana eu ouvi um jazz mais animado do que o blues deprimente que eu estava acomodado a ouvir sempre, mas não gostei. Essa semana eu tentei aproveitar a companhia de alguém, mas não consegui. Eu tentei sentir algo mais intenso do que a melancolia que a minha solidão me traz, e, adivinhe, eu não consegui. Eu tentei esquecer da vez em que você foi embora porque achava que eu era frio demais e não conseguiria manter uma relação normal com outra pessoa. E não. Não deu certo. Eu tentei meditação psicólogo igreja sexo álcool. Não funcionou, nada. Às vezes digo a mim mesmo que estou destinado a ser triste. Às vezes, eu me convenço de que é isso. Me convenço de que o céu azul é só uma máscara cobrindo um dia cinza como os outros. Que a grama dos vizinhos é mais verde sim, e não é só ponto de vista ou ângulo. Que meus conhecidos não me ligam mais porque eu realmente me tornei um chato. Que o meu cachorro só está comigo porque não tem outra opção. E digo, nem eu tenho. Não posso fugir de mim e mesmo se pudesse, não teria pra onde ir. Tentei fugir várias vezes, sem sucesso, claro. Tentei fugir quando tropecei em público. Quando tive que falar em público e tropecei nas minhas próprias palavras. Quando os meus estudos se acumularam e eu fiquei agoniado com as folhas nas mãos sem saber por onde começar. Quando minha mãe me brigava por sempre deixar a toalha molhada em cima da cama e passava horas repetindo a mesma coisa. Mas eu nunca consegui. E não vou conseguir. Não se pode fugir dos próprios pés e mesmo que você consiga, os problemas tornam-se seus fiéis seguidores. Até o fim. Semana passada eu disse a mim mesmo que essa seria uma semana de mudança. Agora, eu peço desculpas ao meu eu interior desleixado porque, não, eu não mudei nada. E não vou mudar.






