O desastre da vez não é no meio ambiente natural, é nas construções políticas e sociais brasileiras. Parte incontestável do meio ambiente visto de maneira integral - o meio político onde vivemos e as estruturas legais que regem nossa vida em sociedade.
Partidarismos deixados de lado, estas estruturas de governança social se revelaram ontem (05/04/2018) flácidas e sujeitas a casuísmos na votação do Habeas Corpus do ex-presidente Lula pelo STF. Comemorada por uns e lamentada por outros, a decisão do STF, por placar apertado diz abertamente para a nação - julgaremos como bem entendermos, quem quisermos. Com o desplante de, em seguida julgar contrário*.
Onde está a ligação com o Meio Ambiente?
Ora, uma nação que tem estruturas políticas flexíveis a este ponto não tem como criar normas pactuadas socialmente sobre o uso de seu patrimônio natural. Estamos ainda no estágio de colônia de exploração. Extrair ao máximo e curtir a vida em condomínios isolados de classe média/alta ou em Miami. A desigualdade social não parece preocupar.
Nessa perspectiva, não temos maturidade para descentralizar, por exemplo o licenciamento ambiental em municipalidades fracas e sujeitas a poderes locais. Muito menos para adotarmos o modelo de autodeclaração. Não temos condições de aliarmos o meio ambiente com a agropecuária, coisa que deveria ser mais que natural, afinal a última depende fortemente do primeiro.
Mas não. Somos lobos de nós mesmos e não temos pacto social.
Resumo nosso drama nacional à incapacidade de atendermos ao enunciado do único artigo da Constituição Federal que versa sobre o meio ambiente:
“Todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações” (grifo meu)
O Meio Ambiente é tudo aquilo que nos rodeia, em seus aspectos naturais, sociais, culturais e econômicos. O equilíbrio ecológico visa a manutenção da “sadia qualidade de vida”. Mas não. Este equilíbrio é frágil e tende a se erodir a cada pá exploratória e expropriatória, prejudicando a sadia qualidade de vida desigualmente na sociedade.
Chamo atenção para o “Todos” em maiúsculas e negrito. Se uns são julgados assim e outros assado, tudo dentro da legalidade, não há segurança jurídica. Se não há segurança jurídica, não há segurança econômica, se não há segurança econômica, não há segurança social, se não há segurança social, não há como preservar o meio ambiente ecologicamente equilibrado. Perdem as presentes e futuras gerações.
Somos um povo em busca da construção de identidade enquanto nação madura e autodeterminada. Teremos tempo de tratar nosso patrimônio ambiental de forma equilibrada antes de ele se deteriorar irreparavelmente?
*o que ainda não aconteceu, mas a promessa de julgamento das ADIN (Ação Direta de Inconstitucionalidade) sobre condenação em 2a. instância é banir a prática
Compartilhando Água é o tema da 8a. edição do Fórum Mundial da Água - FMA - que,pela primeira vez é sediado no Hemisfério Sul e acontece de 18 a 23 de março de 2018 no Brasil, em Brasília. Os Fóruns Mundiais da Água são promovidos pelo Conselho Mundial da Água. Uma organização fundada em 1996 e que, até o ano passado tinha 341 membros, entre eles organizações das Nações Unidas, como o PNUD, UNESCO e FAO, diversos órgãos governamentais de diferentes países, associações internacionais e organizações do setor privado. (Fonte: Wikipedia, 2018)
Em um momento histórico quando se discute a escassez de água trazida pelas mudanças climáticas e pelo intenso avanço humano sobre os ambientes naturais o tema não poderia ser mais apropriado. Aproxima-se a época em que o termo Ouro Azul, como a água já foi chamada, terá cada vez maior significado.
No entanto, em se tratando de um bem essencial à vida e com o tema - Compartilhando Água - O Fórum Mundial da Água é posto sob suspeita e acusado de representar prioritariamente interesses de privatização da água. De fato, o Conselho Mundial da Água é composto por cinco colégios e o maior destes e o das empresas e instalações (e.g. barragens, adutoras, hidrovias etc.), representando 30% dos componentes do conselho. Como resposta a esta suspeita surgiu Fórum Alternativo Mundial da Água - FAMA - como um braço do Fórum Social Mundial que acompanha os Fóruns Mundiais da Água desde o terceiro FMA em 2003, Kioto (DE LA PORTE, 2007). Neste ano, o FAMA acontece na mesma época e lugar, de 17 a 22 de março, também em Brasília. O tema central deste fórum alternativo é "Água é um direito, não mercadoria" e claro, diz respeito às formas de compartilhamento da água.
Uma das riquezas do Brasil é a água em abundância, parte de nosso pouco valorizado patrimônio ambiental. Ou, pelo menos é o que se ouve de maneira relativamente descompromissada. O que o senso comum não se dá conta é o porquê de termos água em abundância. E, diga-se de passagem, que Brasil é esse, de água em abundância. Vários Brasis já não têm água em abundância e alguns Brasis nunca tiveram desde o tempo da colonização.
Vamos começar por aí. O Brasil não é extremamente rico em água. O Brasil que está na Amazônia é, no Pantanal é. Na Mata Atlântica está deixando de ser. O país é dividido pela Agência Nacional de Águas em 12 regiões hidrográficas (Figura 1) e dessas a região amazônica tem aproximadamente 80% da disponibilidade hídrica total do país (AGÊNCIA NACIONAL DE ÁGUAS, 2017). Ou seja, nas regiões mais populosas do país a disponibilidade hídrica se assemelha à de regiões igualmente populosas na Europa (OKI & KANAE, 2006).
Figura 1. Divisão do Brasil em regiões hidrográficas de acordo com a Agência Nacional de Águas - ANA (Fonte: ANA, 2017)
Agora a questão do porquê. Porque o Brasil é rico em água. Primeiro, por causa da Bacia Amazônica. Não apenas pela água dos rios da bacia amazônica, mas também pelas complexas interações entre o ecossistema amazônico e a "produção de água". Vindo do Leste, passam pela Amazônia milhões de metros cúbicos de água provenientes dos oceanos e empurrados para o continente pelos ventos alíseos. Pelo Oeste, na Cordilheira dos Andes, na Bolívia e Peru, a água de degelo abastece os grandes rios formadores do Rio Amazonas. As altas temperaturas e a vegetação amazônica promove a evapotranspiração , colocando no ar uma enorme quantidade de água e que, mais uma vez segue os ventos alíseos e, ao se chocar com a Cordilheira dos Andes se desvia para o Sul, alcançando a região do Pantanal e os estados do Sudeste e Sul do Brasil e países vizinhos. Assim é que as regiões hidrográficas da Amazônia, Paraná e Paraguai, as que têm a maior disponibilidade hídrica do Brasil, recebem sua carga de água - chuvas e degelo dos Andes. Outras regiões do país não têm estes mesmos mecanismos e dependem de evaporação no Oceano Atlântico, sendo características as chuvas orográficas (que caem quando as nuvens encostam nas serras).
Nas duas situações, a vegetação, especialmente a nativa, tem enorme importância na transpiração e na diminuição do escoamento superficial das chuvas (runoff). A transpiração bombeia a água para as nuvens e a diminuição do escoamento superficial retém a água, proporcionando mais tempo para evaporação e para a penetração da água no solo e o abastecimento do lençol freático e de aquíferos (Figura 2).
Figura 2. Relações entre rios e aquíferos. Primeira imagem um rio formado pelo afloramento da zona freática e que é abastecido pelo mesmo, possivelmente conectado a um aquífero, caso exista. E rio formado por água de escoamento superficial proveniente de regiões a montante e que abastece a zona freática e aquífero. (Fonte ((O))Eco, 2018)
Quadro 1 - O lençol freático é a porção do subsolo encharcada e, frequentemente os rios nada mais são que o afloramento desse lençol. Dependendo das características do solo em uma região os rios podem abastecer ou serem abastecidos pelo lençol freático ou aquíferos. Os aquíferos são formações geológicas subterrâneas que armazenam água em rochas porosas, fraturadas ou bolsões livres e frequentemente se conectam com rios e regiões alagadas mantendo a perenidade dos corpos hídricos superficiais.
E o que isso tem a ver com o tema central do Fórum Mundial da Água? Ora, se uma de nossas riquezas é a água em abundância, como fazemos para compartilhar nossa água? Aí é que começa o conflito. O ser humano não é especialmente hábil em compartilhar e quando se trata de um bem tão precioso, que define a vida das pessoas, os ânimos se acirram. Em primeiro lugar, quando falamos de compartilhamento, não estamos falando apenas da água potável (mas também dela), mas principalmente dos aproximadamente 80% de toda a água consumida no país e no mundo destinada a irrigação e pecuária. O consumo doméstico, tanto no Brasil quanto no resto do mundo é de aproximadamente 10% da água disponível. Os 10% restantes vão para a indústria. Isso quer dizer que o consumo direto de água é de 10%. O grande volume de água consumida está direcionado para o setor produtivo.
A principal forma de compartilhamento da água, ao contrário do que se pode pensar, não é o transporte e distribuição de água líquida em si, mas o que se tem chamado de transferência virtual de água. A transferência virtual de água se dá quando a produção, principalmente agrícola pela quantidade de água utilizada em irrigação, é levada de sua área de produção para os centros consumidores. Desde locais próximos como a Serra do Mar, entre as cidades de Teresópolis e Nova Friburgo para a cidade do Rio de Janeiro, RJ, como distantes como as grandes quantidades de soja brasileira exportada internacionalmente. As verduras do interior fluminense transferem a disponibilidade hídrica da região para a grande metrópole. A soja brasileira teve 77,8% de sua exportação em 2017 destinada à China (FORMIGONI, 2017). Recentemente a China triplicou sua importação de produtos que transferem água, desta forma contribuindo para aliviar o estrese hídrico no país (ZHUO, MEKONNEN & HOEKSTRA, 2016). Assim como a soja, uma importante commodity brasileira, outros produtos agropecuários carregam um forte componente de disponibilidade de água (e território) que não é levado em conta na comercialização. Em termos internacionais, quem detém água, detém alimentos e nações dependentes de importação para alimentação estão em forte desvantagem na geopolítica. Se por um lado a transferência virtual de água pode ser vista como instrumento de pressão geopolítica, por outro, pode também ser vista como solução para otimizar o consumo hídrico no planeta. O mesmo dilema pelo qual passa o comércio internacional globalizado.
A Transferência Virtual de Água é o maior fluxo de compartilhamento de água, mas há formas diretas de compartilhamento. O transporte da água, um mineral bastante pesado, é caro. No entanto, desde a antiguidade são construídos aquedutos para trazer água de lugares distantes para os locais de maior consumo. A comunicação entre bacias hidrográficas através de projetos de transposições de água é a expressão máxima e atual dos aquedutos. Projetos custosos, do ponto de vista financeiro, em materiais e energia são realizados ao redor do mundo para transportar água entre bacias hidrográficas adjacentes como forma de solidarizar a disponibilidade de água. Contudo, os prejuízos ambientais para ambas as bacias e frequentemente de disponibilidade hídrica nas bacias doadoras mostram que essa prática despe um santo para cobrir outro. Quero dizer, tenta resolver um problema e causa inúmeros outros. No Brasil temos o exemplo mais conhecido do Projeto de Integração da Bacia do Rio São Francisco com as Bacias do Nordeste Setentrional que, se propõe a transpor 2,5% da água do Rio São Francisco para o Semi-Árido brasileiro. Menos conhecida é a transposição do Rio Paraíba do Sul, que transfere 60% de sua água para a Bacia do Rio Guandu através do Complexo de Lages para abastecimento de parte da cidade do Rio de Janeiro. Não é preciso dizer que esse rearranjo de águas no Estado do Rio de Janeiro trás consequências para o interior e benefícios para a cidade.
Outras formas de transferência direta de água líquida são os produtos mais intensos em uso de água - as bebidas. Não é atoa que as grandes corporações de bebidas internacionais são grandes players na discussão sobre compartilhamento de água. Na maior parte dos casos, os interesses corporativos de exploração de mananciais conflita com os interesses das comunidades locais. Implicando em disputa, não apenas pela água, mas especialmente pelo território onde a água é disponível. Um território sem água, ou onde a maior parte do uso da água é destinada à indústria (de bebidas) se torna inviável para viver. E o conflito entre os "novos" usuários e os usuários tradicionais da água e do território emergem. Inclusive usuários não-humanos, a biota. Os limites para o consumo de água são arbitrados tecnicamente e, frequentemente, não consideram ou subestimam a função ecológica das águas superficiais, territórios alagados e aquíferos.
As diferentes formas de consumo de água, embora inegavelmente sejam dos usos mais importantes, não são os únicos tipos de uso. A água tem diversos usos que não são consuntivos (indiretos, que não geram consumo).
Enormes conflitos surgem de maneira semelhante aos da exploração de fontes de água por grandes indústrias. As grandes alterações na paisagem ocasionadas pela construção de barragens hidroelétricas ou para abastecimento trazem perdas irreparáveis para o ecossistema e as comunidades humanas locais. As decisões sobre qual a forma ótima de uso da água são inevitavelmente trade-offs. Mas, se realizados com cuidado podem evitar maiores danos às populações humanas e aos ecossistemas que provém a qualidade de vida para aquelas populações.
Estas formas de conflitos no compartilhamento da água são discutidos tanto no FMA quanto no FAMA. Resumem-se no uso da água para benefício de populações distantes em detrimento das populações das regiões doadoras. A diferença entre os dois fóruns situa-se principalmente na discussão sobre a legitimidade de abordagens capitalistas versus socialistas na gestão da riqueza. Neste caso a riqueza representada pelo uso dos recursos hídricos.
E como multiplicar esta riqueza? Sim, porque pensar riqueza apenas em termos de gastar o que se tem (o uso) não é sustentável no sentido mais simples do termo. Começa por pensar que essa riqueza hídrica é distribuída no território nacional. Já mostrei que não é e o mundo está atento a isso. E depois, que a riqueza existente no território brasileiro é uma dádiva divina e não carece de cuidados. Um antigo provérbio árabe já dizia: "confie em Alah, mas amarre seu camelo." Ou seja, temos, em uma boa parte do Brasil e da América do Sul, excelentes condições de disponibilidade hídrica e é uma questão de governança cultivar (ou gerenciar) este recurso para benefício de todos, nas presentes e futuras gerações.
Doze anos atrás saimos num passeio em família para Patrópolis. Ainda éramos eu, Carla e Joaninha, com seus dois anos e pouco. Resolvemos atravessar a estrada Petrô-Terê, lindíssima com suas paisagens e também assustadora em sua sinuosidade estreita. Com tempo bom, o passeio foi lindo.
Chegando a Teresópolis resolvemos fazer um lanche naquele Shopping da praça da feirinha. Depois de comer, demos uma volta no shopping. Joana, então com 2 anos, desaparece dentro de uma petshop e reaparece arrastanto um vira-latas pelo rabo. Aquele toquinho de gente puxando um cachorro pelo rabo que, estava estático, apenas escorregando as patas pelo chão. Que cão poderia ser tão manso assim que suportaria uma criança lhe puxando pelo rabo sem um único latido? [corta]
Na cena seguinte, estamos voltando para o Rio de Janeiro com um filhote de Afghan Hound enrolado nos pés da Carla. E nós perplexos - tivemos um cão não encomendado.
Assim, nosso cão, Su, apelido do longo nome de pedigree (que ele nunca recebeu o certificado) entrou na nossa família. Nosso Suzão, Subirito, Surito, Su. Cachorrão peludo, sempre obediente, sempre comunicativo. Ele não precisava falar, não latia. Falava com os olhos. O cão mais expressivo que conhecemos. Bonzinho ao extremo, nunca mordeu ninguém, a não ser um camarada que sempre passava pelo portão de Santa Teresa e implicava com ele. Um dia o portão estava aberto e o Su não perdeu a oportunidade de cravar-lhe os dentes no braço. Logo depois, ficou por ali mesmo e até recebeu um afago do moço que, gostava de cachorro e admitiu que sempre provocava ele.
Companheiro de brincadeiras de Joaninha, Marquinhos e mais recentemente, Rafinha. Não era tanto de brincar, mas tinha uma paciência infinita com os pequenos. Que hoje nem são mais pequenos.
Dizem que os cães da raça Afeghan Hound (ou Galgo Afegão) são burros. Outros dizem que não são, são inteligentes e independentes. Por isso não obedecem comandos.
Su obedecia, quando queria.
Claramente entendia o que queríamos. Andava com ele solto quando não havia perigo de atropelamento. E todos ficavam surpresos de ele atender quando eu chamava ou assoviava. Só andava na coleira mesmo para não ir atrás de outros cães e correr o risco de ser atropelado. Se dava bem com todo mundo - fosse gente, cão ou gato. Tanto que, quando era jovem, foi cheirar um gato na casa de Santa Teresa e tomou uma unhada no canto do olho. Chegamos em casa e encontramos ele com uma lágrima vermelha escorrendo.
Na rua era a coisa mais engraçada: - que horrível! - que lindo! - que esquisito! - Que bicho é esse moço? - É macaco? - Achei que era um bode (com os sapatos pretos)! Parece um camelo! - Parece um babuíno! - Parece gente!
Não tinha um passeio que não voltasse com um comentário, fosse elogio, pergunta ou conversa com outros donos de cachorros ou ex-donos de Afghans.
Uma vez fui abordado por um juiz de concursos de cães. Ele me disse que o Su estava fora do padrão, pois era pequeno para um macho. Mas me deixou muito orgulhoso por elogiar como ele estava tratado e como era obediente.
Foram muitas histórias, muita vida passou. Longas caminhadas científicas, como eu chamava. Enquanto passeava com ele, ouvi por anos a fio o Podcast da Science e Nature. Mais recentemente os audiolivros da Audiobooks. Agora estas mídias não fazem mais sentido.
Vamos sentir muitas saudades e você nunca será esquecido Peludão!
Sussex Ahmed Tropa de Elite
06-08-2002* - 19-02-2015+
Nesta última quinta-feira, o eminente biólogo evolucionista Richard Dawkins em uma discussão no twitter fez mais uma publicação que provocou alvoroço no seu público cativo e outros círculos relacionados (ver a reportagem dO Globo). O trecho que causou comoção foi exatamente este:
“@InYourFaceNewYorker Eu honestamente não sei o que faria se estivesse grávida de um bebê com Síndrome de Down
@RichardDawkins Aborte e tente novamente. Seria imoral trazê-la ao mundo se você tivesse uma escolha.”
Imediatamente surgiram diversas linhas de discussão sobre o ocorrido. Interessante ver como diferentes visões deram origem a linhas de pensamento e discussões também distintas. Eu mesmo escrevi em pelo menos três linhas do tempo do Facebook comentando este caso. Me senti na obrigação moral de entrar mais a fundo nesta discussão, já que sou biólogo, evolucionista e pai de um menino que tem Síndrome de Down.
Embora discorde, entendo a perspectiva de Dawkins. Não me espanta sua opinião ainda que lamente profundamente. Ela reflete a opinião de muitas pessoas, especialmente profissionais de saúde e cientistas, incluindo biólogos como Dawkins e médicos geneticistas.
Richard Dawkins vem de uma escola de estudo da evolução extremamente adaptacionista e restrita à genética, e que ele não criou, o Neo-Darwinismo, mas difundiu de maneira brilhante - e também radical. Nesta escola a medida de sucesso é muito estreita do ponto de vista biológico. Sucesso evolutivo significa exclusivamente passar seus genes adiante. A ponto de que os organismos em si não são considerados os protagonistas da evolução, mas simples veículos para os genes - estes sim as unidades da evolução biológica.
Para a biologia, sucesso evolutivo é igual a sucesso reprodutivo. Não para um ou outro indivíduo, mas para a população. Se a chance de ter filhos já é reduzida (não nula) em pessoas com Down, é inegável que a capacidade de prover a prole quando esta existe também é reduzida. Usei jargão biológico para dar exemplo da linha de raciocínio que estuda evolução. Contudo, o sentimento de transformação e sensibilização que a convivência com uma pessoa com Down promove quando é reconhecida como pessoa de fato e direito tem um enorme poder de promoção de laços sociais e comunitários. Isso se traduz em benefício e aumento do sucesso reprodutivo daquela população biológica de humanos como um todo. Sendo assim, em última análise, a pessoa com Down pode ter um impacto positivo no sucesso biológico da população.
Pode-se argumentar que um bebê com menor autonomia diminuiria a chance de sobrevivência do ser humano na maior parte de sua existência evolutiva e por isso práticas abortivas ou infanticídios seriam justificáveis para assegurar a sobrevivência de pais e irmãos. Mas, além de não representar as possibilidades do ser humano contemporâneo, esta é uma perspectiva que pode ser considerada inválida se reconhecemos que uma das características biológicas da espécie humana é justamente o maior tempo de dependência que os infantes apresentam em relação a outros primatas. O maior tempo de dependência que uma criança com Down impõe a seus pais pode ser, dependendo da postura dos pais especialmente, traduzida em benefício para a família próxima, amigos, conhecidos e sociedade como um todo. Isso através da propagação de sentimentos e ações de suporte mútuo e educação de crianças normais em práticas de compreensão das limitações da criança Down, como modelo, e por extensão a qualquer outra criança e membro da sociedade.
Mas a biologia evolutiva não se limita ao discurso do Dr. Dawkins. A discussão sobre seleção de grupos, aspectos de construção de altruísmo como valor adaptativo e outras esferas evolutivas além da genética são amplamente reconhecidas (ver Evolution in Four Dimensions de Eva Jablonka e Marion Lamb). Muito embora existam estas outras correntes, a formação de biólogos ao menos no Brasil ainda é especialmente centrada no Neo-Darwinismo, e esta é a corrente defendida arduamente pelo Dr. Richard Dawkins.
Em um primeiro momento, para o evolucionista adaptativo Neo-Darwinista, ter Down é uma severa limitação para o sucesso de uma linhagem genética. E é, mas não para uma linhagem de idéias. Neste caso é justamente o contrário.
Em sua obra mais conhecida, O Gene Egosísta, Dawkins resume a evolução biológica à passagem de genes para futuras gerações. Mais tarde, ele mesmo (re-)lança a ideia de Memes. Os memes são códigos de informação, resgatados de uma literatura obscura e adotados pelo próprio Dawkins. Assim como os genes transmitidos pelo DNA os memes seriam partículas de idéias que se serviriam dos seres humanos como veículos para sua propagação. Apesar disso, o atavismo da evolução exclusivamente genética permaneceu e parece que ele esqueceu sua própria ideia como possibilidade de influência sobre a sociedade. Ou talvez reconheça a influência, mas não como parte da evolução biológica, apenas cultural. Ao contrário de Eva Jablonka e Marion Lamb, Dawkins não reconhece a cultura como um aspecto da evolução biológica.
Talvez passe desapercebido a ele que, ainda que as pessoas com Down tenham uma significativa diminuição em suas chances de passar genes adiante (ele argumenta exatamente isso em tweets posteriores), tem grande sucesso em passar memes.
Não bastasse o peso científico que a palavra do Dr. Dawkins carrega, a extrapolação para uma filosofia de pouca reflexão arrasta os desavisados. Ele se utiliza de uma conceituação pretensamente moral sobre “…o desejo de aumentar a soma de felicidade e reduzir o sofrimento…” Nesta perspectiva ele acredita que:”…a decisão de deliberadamente dar à luz o bebê com Down, quando você tem a chance de abortar no começo da gravidez, pode realmente ser imoral do ponto de vista do próprio bem estar da criança”.
Assim pressupõe uma existência de sofrimento para a criança sendo gestada e para os pais. Nada mais longe da realidade. Mas é o que pode transparecer a quem não vive o cotidiano de convivência com qualquer pessoa com deficiência. O medo do desconhecido é um motivador evolutivo poderoso e faz repelir o diferente. Especialmente para aqueles que estudaram ciências biológicas e medicina no século XX, a perspectiva de alterações cromossômicas é terrível. Lembro perfeitamente dos livros que desumanizavam completamente as pessoas com alguma alteração. Certamente uma decorrência de uma perspectiva Neo-Darwinista que beira o Darwinismo Social. Uma interpretação extremista e reconhecidamente equivocada da teoria evolucionista.
Por sinal, todo o entendimento de evolução biológica tem uma incrível resistência dos estudiosos das ciências sociais que compreendem as teorias derivadas da seleção natural muitas vezes como artifícios para justificar a predominância política de grupos de influência. A coisa se complicou quando Dawkins se utiliza do que ele chamou de argumento moral para o aborto de fetos com Down.
Não sou filósofo de formação, mas até onde sei moral e ética derivam de costumes socialmente aceitos e estabelecidos. Mesmo assim, e talvez principalmente por isso, a meu ver não basta que o aborto seja considerado legal, como é nos EUA, para que a decisão de ter ou não um bebê com Down se torne apenas um dilema pessoal. Seria dilema pessoal se a sociedade como um todo não julgasse o nascimento de uma criança com Down uma desgraça. A postura de Richar Dawkins reforça o imaginário coletivo no sentido de considerar o aborto de um feto quando há possibilidade do nascimento com SD algo natural. Afinal, segundo esta visão, a pessoa com Down apenas traria sofrimento para si e para sua família. É preciso é desmistificar a opinião geral de sofrimento. E isso as diversas associações e coletivos de parentes, amigos e pessoas com Síndrome de Down têm feito de forma brilhante.
Meu papel de pai e formador de opinião me compele a mostrar e demostrar que ter um filho com Down está longe de ser uma desgraça. Aliás, com nenhuma "deficiência" seria. É apenas um detalhe. Não é um detalhe desprezível, mas é infinitamente menos importante do que ter um filho ou filha. Filhos são responsabilidades e preocupações para sempre. Tenham eles alguma condição de deficiência e/ou se tornem altos executivos ou cientistas brilhantes. As preocupações e orgulhos não são exatamente as mesmas, mas estão lá, e na mesma intensidade.
Se a sociedade passar a entender que não é desgraça ou mesmo desvantagem ter um filho, não apenas com Down, aí sim a afirmação de Dawkins passaria a ser apenas uma opinião pessoal e não o reflexo de uma cultura. Mas aí você se pergunta: como assim ter um filho? Richard Dawkins não se referiu a um filho qualquer, mas um filho com Down.
Se você não tem convívio com ninguém com qualquer deficiência, mas tem filho(s) e cuida dele(s), sabe que a vida pessoal e profissional de quem não tem filhos é em muitos aspectos mais simples e por isso mais “bem sucedida” do que aqueles que tem crianças sob sua responsabilidade. Isso para qualquer filho.
Se você já passou dos 40 e não teve filhos sabe o peso das aspas que coloquei no parágrafo acima.
Para atingir este entendimento, é preciso que aqueles de alguma maneira envolvidos com a causa se exponham e mostrem que seus filhos ou irmãos ou amigos não são excepcionais de nenhuma forma, só são indivíduos e como indivíduos, peculiares.
Como disse um amigo, faltou ao Dr. Dawkins algum estudo na área de humanas. E eu complemento, que faltou também a experiência prática de convivência com alguém com Down. Não por ser nenhum tipo de experiência iluminadora, mas apenas por espantar fantasmas. E hoje em dia, convenhamos, fantasmas não assustam mais ninguém.