Houve uma noite que durou tantos dias que o próprio tempo perdeu-se nela.
Essa noite foi tão longa que houve quem esquecesse que o dia existia. Houve quem se habituasse à escuridão.
Não por opção; por sobrevivência. Não só por sobrevivência; por que tanto a luz quanto o breu, em demasia, cegam. Não só por cegar; também foram cessando o escutar, passando apenas a ouvir. E não apenas pela surdez; mas por não sentir mais nenhum tipo de sentido, ou enxergar sequer uma faísca que fosse.
Ainda que (veja só) fosse a própria luz lutando para manter-se acesa.
Essa noite, podemos chamá-la de tristeza, e ela concorda com isso.
Grudou-se no céu, nas mãos, nos olhos e no coração como um tipo de piche que talvez não saísse nunca mais.
Digo talvez, porque talvez jamais saberemos o que foi aquela noite.
Do que se sabe sobre ela: anestesiante, paralisante, densa, pesada, lenta e um tanto lúcida (que ironia). Só que uma lucidez escura, entende? Então de nada adiantava ter olhos pra ver, ouvidos pra escutar, sentidos para sentir.
Até mesmo o ar era rarefeito e inócuo, pois não havia motivo para respirar. Lembra que nada se sentia nem tampouco fazia sentido?
Essa noite enganou o tempo por tempo demais. Acho até que esqueceu dela. Pois ele também parou - mas só por aquela noite.
E como ele estava parado, nada mais tinha direito de brilhar - então as estrelas emudeceram. E a esperança de tanto tentar, cansou e resolveu dar um tempo.
Ah, era tudo que aquela triste noite queria.
Entenda: ela não queria a melancolia, tampouco o sofrimento. Na verdade, o que ela queria era exatamente isso: nada. Logo, sentir não fazia sentido, e o próprio sentido foi deixando de sentir.
Aquela noite não era boa nem má, muito menos verdadeira ou falsa. Era apenas nada, como estou tentando explicar. E definir o nada é das coisas mais desafiadoras que já escrevi. A outra face do tudo.
Só que havia algo tão profundo e misterioso nessa noite, que sequer existia.
Pois até onde sabemos, para que algo exista, o que é necessário? Um pensamento, uma ideia, uma palavra? E existia algo inacessível dentro dessa noite que foi infinita enquanto durou.
Era o medo e o ódio. E o que é o ódio, se não o amor faminto, seco na fonte?
Já o medo não era ausência de coragem.
O medo era - por surpreendente que pareça - um instinto tão primitivo de sobrevivência que a noite nem sabia que ele existia, pois precedia a ela mesma. E ele estava lá, amalgamado ao medo, ao ódio, ao amor desnutrido, à coragem inválida.
Inesperadamente, se uniram e se tornaram fecundos, e foram criando pequeninas rachaduras no piche grudento daquela noite.
Como um musgo, se entrelaçando suave e lento à pedra, contornada por rios que serpenteavam a noite, foram tornando quebradiça a noite - por querer. E forçando a noite a começar a partir.
De modo que aqueles que esqueceram que havia o dia, lembraram. Os que deixaram de acreditar, voltaram o ouvir os gorjeios do sol.
Então quer dizer que o amor existe, que a luz é fato, que nada disso foi inventado e como toda invenção, pode ser uma mera e conveniente mentira? Perguntou-me a noite.
Aquela longa noite passou a sentir algo novo: dúvida. Esta, por sua vez, enzima e substrato, encaixou-se de tal modo ao medo, ao ódio, ao amor, à coragem (afinal eram todos frutos da mesma árvore) que não houve escapatória para a noite.
Pouco a pouco, o tempo - que é mais soberano que a própria natureza - voltou naquela noite.
Feito um animal feroz e protetor, porém invisível e frágil, o tempo fez o farfalhar das árvores voltarem a não só serem ouvidas, mas sentidas. Fez o perfume das auras cintilarem. Fez o vento correr, destemido, inconsequente.
E a noite nada podia fazer; afinal ela era tão somente tristeza. E sabia, aceitava (há quem diga que até queria) isso.
Todavia, a tristeza só existe se houver a alegria, lembra?
Na tenaz casca da noite foi brotando uma folhinha, minúscula, tímida, indefesa, porém verde. Precedeu outras mais foram surgindo, dando-lhes audácia para nascer. E essa noite, em que faltou luz mesmo quando era dia, quem diria: amanheceu. E a tristeza mais perene e duradoura que aquela noite já viveu, cedeu.
Foi aí que a alegria acordou. Todavia, pasmem: ela só durou uma noite.