encargos
viver é um consentimento que sangra?
sim.
na medida em que “o amor cura mas também é loucura”
e ainda não sei em que dimensão uma se
sobressai à outra em mim.
porque me pego voltando a esse lugar de:
querer que o outro me leve nas costas,
sendo capaz de carregar meu peso emocional.
almejar que ele me conduza por lugares que não faz ideia da localização,
tendo em vista que estes estão, sobretudo, dentro.
é sobre derramar cargas corpulentas/abafadas/asperosas,
que pulsam em função da incapacidade de agir
e esperar que não estejam só dispostos para leveza.
no fim/meio/{re}começo ainda é sobre ser humana,
ter essa necessidade de amor.
aspirar o amparo perante qualquer ser que demonstre afeto,
amigos ou amantes, só para entulhar o buraco.
se auto repetir que não tendo controle sobre a minha vida
não posso ter sobre a de mais ninguém.
saber que, tal qual “o coração, que faz seu movimento de sístole e diástole”,
o outro também faz, mas querer restringi-lo ao fechamento.
entender que nascemos para trocas,
mas se angustiar em consenti-las.
no mais: é sobre “querer compromisso com a felicidade mas ter essa tendência pra ruína.”
também diz respeito a esse derramamento de {re}construção,
de absorver tudo que se pode tomar como algo para tal.
ser gentil consigo e entender que a perfeição é uma ilusão
e que tudo bem ser trôpega,
cair e levantar de novo.
descortinar que há tempos difíceis,
mas não uma vida penosa.
r e s s i g n i f i c a r
constantemente lembrar-me que,
no fim,
sendo dona de mim,
sou a melhor pessoa/apoio neste percurso.
sentir que o processo de crescer e
construir-se enquanto ser subjetivo dói,
mas sara.
e, em meio a conversas-situações-perguntas diretas e indiretas,
ser estimulada a reflexão.
é questionar onde está em mim aquilo que me faz ser para além do eco do mundo,
o que me faz eu própria,
onde está minha voz e até onde ela ressoa.
absorver que “é preciso se organizar muito bem
na falta para aceitar e lidar bem com a permanência nela”
e tencionar que, talvez e com certeza, eu não me organizo.
recorrer ao universo pra justificar qualquer ação-pensamento inconsciente,
que vem de mim,
unicamente de mim.
é inquietar-me para depois me acalentar.
me jogar a bomba de mensurar do quanto me gosto,
do quanto estou feliz,
do meu tamanho no mundo,
e o quanto eu ocupo nas pessoas.
é sobre saber que os sinais não são cósmicos, são percepções.
mas transferir, como algo que vai além,
em função de não saber ao certo se estou apta a resolver sozinha,
principalmente esses encargos de amor.
porque, como diz larissa lisboa, artista recifense,
é amor que eu tenho e nada mais.
tanto que preciso colocar em algo.
mas não sei que algo-coisa-pessoa seja.
sinto que não há e se houver, é pendular.
{agora} não têm mais flores ou gatos que supram
esse papel de canalizar tanto sentimento.
então, enlaço o viver a vida
“como alegria e festa para fugir da dor de que o mundo não está aos meus pés”.
e recorro a esse falso apoio,
mas verdadeiro na medida em que é cheio de significação pra mim.
e o que é de fato a realidade
se não o que a gente interioriza/interpreta/absorve dela?
















