Da busca pelo reconhecimento a todo custo, e de como desapegar.
Volte aqui toda vez que precisar se lembrar do porquê, e de como você PRECISA se desapegar da busca pelo reconhecimento dos outros.
Ontem eu senti a necessidade de gravar minha sessão de terapia, que nada mais é do que um grupo que eu tenho no whatsapp comigo mesmo, em que eu gravo áudios divagando pra tentar aplacar a minha ansiedade. Geralmente acontece na segunda de manhã, que é quando eu tenho que voltar ao trabalho depois de estar parado no fim de semana. Dessa vez, para além dos quinze, vinte minutos habituais, acabei falando por uma hora inteira, por conta dessa ideia:
"O que eu preciso aprender em cada fase da minha vida, e que eu poderia adiantar, pra evitar sofrimentos?"
E comecei a traçar um pensamento sobre como um ser humano cresce, se desenvolve, chega à vida adulta, e passa à terceira idade (ou se torna idoso), tentando pensar em como a pessoa funciona em cada uma dessas fases. Bom, aqui vai o que saiu disso.
Quando se é criança, você basicamente funciona por um impulso, que é ter prazer imediato a todo custo, e evitar toda dor, a todo custo também. Isso acontece porque a criança é um ser frágil, que precisa de proteção, e os prazeres dão a ela essa segurança, enquanto a dor é enxergada como uma ameaça, proximidade da morte, desalento, descuido, desamparo. A criança ainda não desenvolveu nenhum traço de empatia, e por isso é egoísta, por sobrevivência. Então, se você é um egoísta, quer tudo na hora e sofre consequências na mente se as coisas não lhe são dadas, você ainda é uma criança.
A partir dos 11 (às vezes mais cedo) aquele ser começa a ganhar outros impulsos, geralmente por causa do sexo (não o ato, mas o corpo se desenvolvendo). Como precisa de dois pra fazer, a mente dessa criança/adolescente começa a se preocupar em como os outros veem ela. Nessa fase ela busca pertencimento a um grupo, se apega a valores, personalidades, enxerga e respeita líderes (do grupo, não os pais), e começa a ensaiar sua atratividade. Nessa fase, a cabeça dela já entendeu que nao fazer sexo é não reproduzir, e que não reproduzir é meio que "morrer". Então, é aí que começam problemas. Como a mente ainda não está preparada para impor limites, e os impulsos infantis ainda estão muito próximos, o ser aceita certos sofrimentos em troca de reconhecimento do grupo, aceitabilidade. Aceita chacota, certos bullyings, pra poder andar naquele grupo. Aceita, pois estar sozinho é estar vulnerável, e estar vulnerável é morte. Aqui começam os problemas da busca pelo reconhecimento, pois nessa fase, ele também é no instinto de sobrevivência, e portanto, a qualquer custo. Então, se você aceita sofrimentos em troca de aceitação, foi aqui que isso começou, e você ainda é um adolescente.
O adolescente cresce mais um pouco, o escopo social dele também. Ele não olha mais somente praquele grupo de amigos da escola, mas sim pra escola inteira, que depois será uma boa parte daquela sociedade, cidade, empresa. Começa a pensar em objetos de valor, em roupas, em símbolos, em fotos em lugares diferentes, em número de curtidas, em fins de semana saindo, sendo convidade porque ele é da hora. Se tornou um jovem adulto, preocupado com grana, ou com a falta dela. Ser reconhecido aqui é crucial, porque vai trazer benefícios, acordos, cargos, amigos. O cara vai ficar com um monte de contatinho de mulher, e a menina vai despertar a inveja das outras meninas todas, afinal, ter vários contatinhos significa mais sexo, e mais sexo significa reprodução, gente, continuidade, cada vez mais afastado da solidão, e da morte. Pra mulher, causar inveja é ter aprovação, ser a primeira a ser escolhida pelo melhor cara, garantir que ele vai ficar do lado dela, porque não tem outra melhor que ela, e cada vez mais ser amada por ele, se afatando também da solidão, e consequentemente da morte. Então, se a aprovação de todos é prioridade, temos que acender um alerta vermelho aqui. Se isso não pára agora, boas são as chances de que isso nunca pare.
Existe uma transição enre o jovem adulto, e o adulto completo, que nada mais é do que a substituição dos valores impulsivos, imediatos, por alguns planos de maior prazo. Entra o pensamento planejador, a necessidade de se garantir. Nada mais é do que um jovem adulto Plus. Contudo, essa é a fase mais longa da vida humana, que vai durar dos seus vinte e poucos até os seus sessenta, anos esses que vão ser pautados pelo acúmulo e manutenção de coisas e pessoas. Nessa fase, já era pra ter aparecido a empatia, o respeito e a lógica, bem como o mais importante de todos: a resiliência.
Bom, chegamos ao velho, ao senil, ao idoso, ao terceira idade. Mais próximo da morte do que da vida, há que se perceber algumas coisas: os valores da sociedade mudaram, e você não consegue acompanhar. A tecnologia é outra. Os novos jovens adultos se acham os donos da razão. E se você chegar nessa idade ainda com qualquer resquício de necessidade de reconhecimento, você tá muito ferrado.
Aqui, é normal que o tempo nos traga algumas lições. A primeira delas, é que nas últimas três fases (criança, adolescente e adulto), nós vivemos como se fôssemos viver pra sempre. O esforço pra se afastar da morte foi tanto que nós achamos que ela estava realmente muito longe, mas aí ela apareceu ali na esquina, e chamou seu nome. Por que eu vivi tanto evitando a morte, se ela estava ali o tempo todo? Por que eu precisei tanto que os outros me vissem, me protegessem, me reconhecessem, me chamassem pras coisas, se no fim, não tem como evitar a morte?
Outra lição que o tempo traz... A efemeridade dos sentimentos. Sabe a busca do prazer e a fuga da dor? Então, pura idiotice. A criança vai ter prazer, e vai passar, e vai sentir dor, e vai passar. O adolescente vai estar em grupo, mas logo depois vai se ver sozinho. O adulto vai ter dinheiro, vai comprar as coisas que quer, mas aquele prazer, assim que conseguido, vai ser substituído por outra busca, e as dores vão vir, as dificuldades vão surgir, mas elas também vão passar. Chegar à velhice é um tapa tremendo quando se percebe que o principal valor que rege tudo, no final, é o tempo. Tudo chega, e tudo passa. Pessoas, dinheiro, cargos, até os próprios reconhecimentos que a gente tanto busca.
Então, fica a questão: viver a vida toda buscando reconhecimento é uma ilusão? Sim, com certeza. Quando se é idoso, você deixa de buscar esse reconhecimento? Bastante. Mas a principal pergunta que fica...
O que aconteceria se a gente vivesse a nossa vida toda sem ser escravo dessa busca pelo reconhecimento? Se a criança não buscar prazer e fugir da dor, se o adolescente não mudar quem ele é pra parecer com o resto das pessoas, se o adulto não sacrificar seus sonhos trocando eles pelos que as pessoas falaram pra ele perseguir? E se ao invés dessa escadinha, a gente meio que já desapegasse desses valores logo cedo? olhasse mais pra dentro, pensasse no que nos faz realmente felizes, sem precisar evitar a morte agarrando no pé dos outros?
A morte vem, de qualquer forma. O que às vezes não vem, é a vida.