Aquela era mais uma das semanas pertencentes aos frequentes meses em que Leonora ficava longe de Chemistry. Desde o final de agosto, mais ou menos, não via o namorado. E, bem, sua vida andava na normalidade de sempre, uma vez que já havia se habituado à frequência com a qual o químico precisava deixar o Instituto. Não se conformava com isso, claramente, mas respeitava o espaço e a autonomia do mais novo; antes de assumir qualquer compromisso com ele, descobrira, melhor do que ninguém, o quanto o garoto prezava sua liberdade. Sendo assim… Quem era ela para removê-la ou querer segurá-lo para sempre ao seu alcance?
Todavia, aceitar isso não queria dizer que mantinha-se bem. Harley e Alex até conseguiam manter sua mente nos trilhos, mas, no geral, Leonora estava bastante… Descontrolada. Não tanto emocionalmente, mas em relação aos seus poderes. Nas aulas de treinamento, com outros telepatas, mandou um antigo colega que compartilhava da telepatia, para a enfermaria, com sangramentos nasais. E uma amiga do mesmo ano que o seu, dona de telecinese, para o Hospital de Illinois, por conta da conversão catastrófica que fez nos poderes dela, invadindo sua mente e controlando-a, junto com seus poderes, para que machucasse a si mesma. Parkinson sabia que já não estava sendo bem vista dentro do Instituto por conta da agressividade de seus poderes e suas habilidades até que cruéis e desmedidas, mas também sabia que não havia muito que pudesse fazer. Era difícil se manter na linha quando havia, literalmente, tanta escuridão em sua mente já bastante problemática e desestruturada.
Então, na noite de quinta-feira, tendo recebido permissão do diretor para sair e passar as próximas horas fora, foi isso que a loira fez. Enfiando-se nas primeiras roupas que encontrou em seu armário, logo encaminhou-se para o centro da cidade. Possuía pouco dinheiro no bolso e muita vontade de arrumar confusão. Havia abdicado o título de monitora na semana retrasada e, bem, desde então, seus ombros pareciam ainda mais pesados. Sentia-se bastante confusa e atormentada desde o episódio com Vincent, e talvez parte daquela mudança brusca em sua personalidade derivasse daquilo.
Como, por exemplo, ter se tornado ainda mais irritadiça, como mostrou-se ao parar no segundo bar daquela noite. Já passava das duas e meia da manhã. Leonora estava ligeiramente entorpecida por conta de todo o álcool que consumira afim de clarear um pouco sua mente e otimizá-la o máximo possível. Em meio a tantas atividades num lugar como aquele, acabou apostando na sinuca. E ganhou. Mas não quiseram pagar seu dinheiro, o que, obviamente, deixou-a a possessa. Não precisava daqueles malditos dólares, realmente, mas era bom que a pagassem tanto por ter vencido, quanto por ter de aguentar aquelas olhadas descaradas para seu bumbum, suas coxas e as cantadas mais sujas justamente por conta das mesmas coisas.
Até dado momento em que o maior imbecil de todos, continuou se recusando a cumprir com o combinado. Sem muita paciência, Leonora tinha planos de ter dado apenas aquele soco que dera, nele. E então dar meia volta, retornar ao Instituto. Mas como nada podia ser tão simples, o cidadão em questão revidou. Ele e mais alguns colegas brutamontes. Até que Leonora conseguisse desativar o cérebro de um por um, já estava cheia de arranhões, com o cabelo desgrenhado e o rosto avermelhado, tal qual seu pescoço, com marcas de dedos. Quando conseguiu se reerguer, o dono do bar estava atordoado na saída do estabelecimento, na companhia de mais alguns humanos deprimentes. Estes foram os responsáveis por começarem com as especulações dela ser um dos “monstros” que estavam dominando a cidade. Certo, não era toda pessoa normal idiota que era um radical em relação aos mutantes, mas Leonora aprendera que devia ter cuidado com elas também, de tal maneira que acabou apagando, silenciosamente, boa parte da memória dos presentes. Estava dolorida, arranhada e machucada, mas mesmo assim retornou ao Instituto.
Como se não bastasse aquele tipo de acontecimento, de volta ao lugar, tendo gerado comentários diversos dos monitores que faziam a ronda pelo Instituto, ao retornar para seu quarto, revirou suas coisas. Numa das últimas gavetas de seu criado-mudo, havia pequenas cápsulas com pó branco. Sua mente estava começando a ficar nublada novamente, porque o efeito do álcool em si era consideravelmente rápido. Então… O que melhor do que drogas para controlar, principalmente, a umbracinese que começava a se dispersar pelo cômodo conforme sua cabeça ficava ainda mais cheia?
Assim como não havia nada melhor do que cocaína para tê-la feito retornar à enfermaria do Instituto e só despertar dois dias depois. Não era a primeira vez na vida que ela sofria uma overdose.
O químico nunca tinha sido, de fato, um homem de muitos hábitos. Odiava rotina, mas principalmente, odiava que qualquer coisa pudesse prendê-lo em qualquer lugar. Amava Leonora com todas as suas forças – estava escrito com letras garrafais na testa dele – mas esse amor intenso e grande não conseguia fazê-lo menos inquieto. O velho Rolland deixava que o garoto entrasse e saísse quando quisesse, porque sabia que ele era um tipo raro demais para se perder e porque sabia que ele sempre retornaria tanto por Leonora quanto por segurança.
Muito mais por Leo, que seja dita a verdade.
No começo daquela viagem tinha sido mesmo para resolver alguns problemas, mas depois ele quis buscar aventura. Ficar um tempo longe de tudo e de todos. Por alguns dias desligava até o celular, apenas para poder aprontar das suas encrencas sozinho. Seus poderes estavam meio estranhos e sua aversão à luz parecia ficar cada dia maior. Não achava que perderia os poderes, mas a sensação que eles estavam provocando dentro de si era muito complicada. No entanto, de bar em bar, de briga em briga, Chemistry ia se virando como dava. Álcool não tinha efeito, o modo que ele tinha de diversão era quebrar algumas regras. Algumas leis, na verdade.
E numa dessas, Chemmy foi realmente preso, mas antes que os policiais tivessem realmente tempo, o garoto foi logo se livrando de todo mundo com alguns socos e pontapés, nada de extraordinário e simplesmente sumiu no mundo outra vez. Só que o que realmente fez o livre químico voltar para casa foi um telefonema absurdo de seu grande amigo Charles avisando de novo que sua namorada havia sofrido outra overdose.
Deus sabe que Chemmy não tinha nada de moralista, mas sentiu um ódio tão grande dentro de si que ele roubou um carro e chegou ao instituto assim que pôde. Não sabia nem porque não estava pingando, mas a passada firme do químico marcava o chão por onde ele passava como se ele pesasse muito mais que toneladas. Ninguém ousou chegar perto dele ou sequer falar com ele, corria seriamente um risco de morrer. No entanto, quando Chemmy a viu adormecida na ala hospitalar do instituto, sua raiva foi como chuva passageira.
"Será que eu vou ter que voltar a usar drogas também?” Chemistry questionou ao vê-la acordando. Estava sim, aliviado por ela ter sobrevivido, mas também furioso por ela ter feito algo assim. “Por quê?” Resmungou antes de despejar qualquer irritação em cima dela.