– Ah, os pais não querem nem saber do que seus filhos fazem na escola
– Ah, ninguém se importa com a situação dos professores
– Ah, não! Lá vem mais uma pessoa querendo se meter na escola!
Por incrível que pareça, as três frases acima são da mesma pessoa. Com pequenas variações, muitos professores insistem nelas sem perceber que, ora levantam uma barreira quase intransponível, ora reclamam que estão sozinhos em uma tarefa monumental. Não querem que economistas, empresários, jornalistas, psicólogos, artistas e outros “falem do que não vivem”, mas lamentam a falta de justiça financeira, investimentos, reportagens e compreensão.
O fenômeno é comum em vários campos da sociedade: ergue-se muros de tijolos ou mecanismos de proteção que impeçam a entrada de desautorizados sem perceber que as pessoas do lado de dentro é que acabam limitadas a um único perímetro, a uma vista sem horizonte ou a círculos restritos de consulta e cooperação. Tudo em nome de uma segurança questionável.
Lembro da primeira vez que vi uma cidade sem muros. Eu cresci em uma rua de terra em Mogi das Cruzes e a casa da minha família ficava em frente a uma fazenda, mas tinha um murinho. Mesmo cidades menores da região ou as do litoral tinham sempre o terreno delimitado por tijolos ou ao menos uma cerca – ainda que toda criança pulasse sem cerimônia para buscar uma bola lançada a taco. Eu tinha naturalizado as paredes cada vez mais altas quando visitei Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, em 2003, e percorri ruas inteiras sem muros.
Era uma excursão do Curso Estado de Jornalismo, que eu fazia como recém-formada, e aquela falta de divisão entre os quintais e as calçadas ou a grama de uma casa e outra logo virou assunto no nosso ônibus de jovens curiosos de vários estados do país. Meus colegas mais viajados explicaram que era resultado da colonização europeia e refletimos sobre a falta de segurança que nos levava a esconder nossas casas no Brasil.
Tempos depois, na cobertura de alguma das tantas barbáries sobre as quais jornalistas costumam escrever, um especialista em segurança me explicou que muros e portões extremamente fechados tornavam uma casa alvo fácil. Depois de entrar, os criminosos podiam se alongar pois ninguém os veria mais. A recomendação para casos assim era a instalação de câmeras de vídeo para que, na falta de vizinhos e transeuntes, alguém pago pudesse perceber movimentações estranhas. Pois é.
Logo passei a me interessar mais profundamente por educação e reparar nos muros – e principalmente na falta deles – nas instituições de ensino. Em Nova York, da rua é possível ver a criançada correndo no intervalo, em Berlim os alunos mexem com os transeuntes pelas janelas e em Havana até um turista pode entrar até certo ponto do corredor e apreciar os trabalhos dos estudantes.
Escola estadual Fernão Dias, sem muro na fachada
O que faz da Cidade Universitária em São Paulo, um lugar tão agradável? Não tem nada demais, mas tem de menos os muros entre os prédios. E as escolas públicas paulistanas mais bonitas como as estaduais Fernão Dias e Rodrigues Alves ou municipal Villa Lobos? Por dentro há outras tão ou mais equipadas, mas estas são as que podemos admirar de passagem. E as que são decadentes? O que aconteceria se pudéssemos ver por cima do muro ou da barreira invisível imposta a quem não faz parte à escola?
No primeiro centro de educação infantil municipal dos meus filhos havia um muro com colunas diagonais vazadas. Não dava para ver exatamente o que estava acontecendo, mas para perceber o movimento e o colorido. Notei a diferença quando nos mudamos para a atual unidade. Como já disse, a instituição é excelente. Por dentro, os corredores estão cheios de lindas exposições, mas um muro estéril esconde absolutamente tudo de quem passa na rua. A diretora já me explicou que, por causa do grande movimento de carros, qualquer abertura prejudica a acústica, mas concordamos que é preciso criar uma abertura ainda que não seja no concreto.
Em 2013, fui conhecer uma creche noturna em Paraisópolis para uma reportagem. Saí de casa depois de ter colocado meus bebês de 10 meses para dormir e percorri as ruas de vários bairros onde só havia outros carros pensando em como era estranha a sensação de ir a uma escola enquanto todos dormiam. Só quando cheguei ao bairro pobre cheio de gente nas calçadas vivendo em comunidade me toquei que ainda eram 9h da noite. Adultos não dormem tão cedo, apenas estavam invisíveis para mim.
Como vamos resolver juntos os problemas da educação, que são de toda a sociedade, mantendo invisibilidade? Queremos ou não a participação e o interesse das pessoas em geral? É só durante uma greve ou uma festa que outros pessoas deveriam olhar para dentro das escolas? Sei que é difícil conversar com alguém “de fora”, que não conhece o cotidiano e não sabe como realmente funciona, mas quem além dos educadores poderia os informar sobre a realidade?
Não posso responder por todos os demais profissionais, mas nós jornalistas também recebemos sugestões sem pé nem cabeça ou pedidos em tom de ordem que desanimam. Mas quanto mais ouvimos, mais sugestões interessantes recebemos também. Se não servem exatamente como chegaram ajudam a construir uma nova ideia. A escola pública e a cidade ganhariam com menos barreiras que impeçam ver a beleza da educação que ocorre lá dentro ou a realidade difícil que não pode ser escondida.
***
Cinthia se tornou jornalista em 2002 e aos poucos abraçou a educação como sua pauta permanente. Em 2013, matriculou os filhos em um centro de educação infantil público. Desde então, faz o que pode para que esta seja a melhor escola para eles. Escreve no blog Escola Pública.
Carta aberta ao homem, branco, de meia idade, em um carro sedan, que me insultou pelo simples motivo de eu ser mulher e estar atravessando a rua.
Camila Haddad
Moço,
A rua que eu atravessava não tinha semáforo, e eu estava usando a faixa de pedestres. Pela lei, eu tinha a preferência. Estávamos em uma rua em frente ao metrô, portanto com alto tráfego de pessoas. Pelo bom senso, carros tem de diminuir a velocidade. Por qualquer ângulo que você queira olhar, eu não fiz nada de errado.
Se você achou, por algum motivo, que eu merecia um insulto, é só porque o mundo lhe diz que você, por ser homem e estar em um carro, tem mais direito à rua do que eu. Portanto era eu quem deveria parar, ficar atenta, dar preferência.
Mas será que você pensa mesmo assim?
Talvez você nunca tenha parado para olhar para isso. Talvez, por nadar em um oceano de privilégios, você nunca tenha se dado conta de que há outros seres humanos (e não humanos) que tem os mesmos direitos que você mas não gozam das mesmas oportunidades. Nunca parou para olhar que você não é a norma, não é a média, nem é o centro do mundo.
eu tenho o privilégio de ser totalmente inconsciente dos meus próprios privilégios.
Quando eu recebi seu insulto, passei reto e segui meu caminho. Por um milésimo de segundo, me senti envergonhada e humilhada. Mas logo depois pensei: por que eu deveria me envergonhar? Talvez porque o mundo me diz que você, por ser homem e estar em um carro, tem mais direito à rua do que eu. Portanto era eu quem deveria parar, ficar atenta, dar preferência.
Se eu fosse homem, o que você teria gritado? Vadio? Puto? Filho da puta (insultando instantaneamente a mãe vadia), ou viado (pressupondo que ser gay é um insulto) são respostas mais prováveis.
Não foi a primeira vez que eu ouvi algo do tipo, mas sei que na maior parte do tempo estou em uma posição de privilégio: sou branca, cisgênero, hetero, de classe alta, toda a minha rede de suporte é de classe média/alta, a cultura ocidental da qual faço parte é a hegemônica.
Um pouco antes de nossos caminhos se cruzarem, estava pensando justamente sobre isso: algumas pessoas tem uma vida muito mais difícil pelo simples motivo de habitarem o próprio corpo. E naquele milésimo de segundo, foi como se eu carregasse a dor e a humilhação de toda "minoria" que passa por isso de formas muito mais opressoras do que eu. E pensar sobre isso me entristeceu muito.
Imagino que nesse momento você siga a sua vida normalmente. Que nem se lembre desse acontecimento. Que talvez essa situação tenho ocorrido mais de uma vez com você. Quando você xinga um amigo de viado, comenta da mal comida do escritório, ou do neguinho folgado que te ultrapassou. Mas me pergunto: se você sentisse a dor que essas agressões provocam na pessoa a que se destinam, será que você as repetiria? Se você entendesse que está replicando uma estrutura de opressão que humilha, machuca e mata tanta gente (inclusive os homens brancos, heteros e ricos), será que você seguiria?
Eu escolho acreditar que não.
Não acho que você tinha a intenção clara de me humilhar. Acho que, naquele momento, você acreditava mesmo que era eu que estava errada. Acreditava que "vadia" era um xingamento como qualquer outro, afinal, todo mundo xinga quando está nervoso. Que descarregar sua raiva não machucaria ninguém. E que, como você, em 10 segundos eu esqueceria esse fato e seguiria com a vida.
E eu segui. A diferença é que eu continuo habitando meu corpo e você o seu. Por isso eu ainda devo ouvir alguns "vadias" e suas variações, na rua, em casa, no trabalho, na televisão. Eu ainda vou ser avaliada pelo meu corpo e a minha beleza (ou falta dela). Eu ainda vou ter medo de andar sozinha à noite. Eu ainda vou ter minha competência questionada antes de me provar capaz. Eu ainda vou ter que escolher entre filhos e carreira. Eu ainda vou perder valor social na mesma medida que ganho rugas. Você não.
Por isso escrevo essa carta. E por isso escolho, todo dia, olhar para os meus privilégios e tentar, se não eliminá-los, ao menos não usá-los para reduzir/humilhar/subjugar. Espero que você faça o mesmo.
Senhor juiz e taxistas: temos o direito de escolher como ir e vir.
Ana Pellegrini
Pra quem não sabe, Uber é um aplicativo que conecta motoristas particulares e usuários que desejam percorrer determinados trajetos em cidades espalhadas por 57 países em todo o mundo.
Conheci e comecei a usar o Uber quando me mudei para a California, em 2013. O interesse e o fascínio que serviços como o Uber me despertaram fizeram com que a tese final do meu mestrado em Direito e Tecnologia na Universidade de Berkeley fosse dedicada aos serviços de sharing economy, ou economia colaborativa (além do Uber, serviços como o AirBnb, MonkeyParking, TaskRabbit, DogVacay, etc).
Quando voltei para o Brasil, no ano passado, o Uber tinha acabado de chegar por aqui, e desde então tenho usado frequentemente o aplicativo para me locomover em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Brasília (o aplicativo também já está disponível para usuários em Belo Horizonte).
A justiça de São Paulo determinou, no dia 28/04, que o Uber “cessasse a disponibilidade e o funcionamento do aplicativo em questão (nacionalmente), bem como suspenda suas atividades na cidade de São Paulo”. A decisão determinou ainda que as empresas Google, Apple, Microsoft e Samsung deixassem de fornecer nas suas respectivas lojas virtuais o Uber, e suspendessem remotamente o aplicativo dos usuários que já o possuam instalado em seus celulares.
De acordo com a decisão judicial, o serviço prestado pelos motoristas que usam o aplicativo é “idêntico ao ofertado pelos taxistas” e “os profissionais taxistas estariam sendo diariamente prejudicados pela vertiginosa expansão do Uber”. Assim, conclui o juiz que a atividade dos motoristas do Uber seria ilegal porque os motoristas não têm autorização do poder público municipal e porque a atividade deles não observa a legislação e regulamentação aplicáveis aos taxistas.
A decisão é contraditória porque ao mesmo tempo em que afirma que o serviço dos motoristas Uber é igual ao serviço de táxi e seria ilegal por não observar a regulamentação de táxi, afirma que tal serviço carece de regulamentação “a qual é condição prévia para seu exercício”.
Vou falar primeiro como advogada.
O resultado da aplicação da regulamentação tradicional a serviços viabilizados por meio da inovação tecnológica, como os serviços de sharing economy, pode ser desastroso.
Se a implementação de algo inovador depender de previsão normativa, nunca teremos inovação. E sabemos que é impossível que a legislação acompanhe as inovações tecnológicas. Certamente, a partir do surgimento desses novos serviços há a necessidade de regulação (por exemplo, para resguardar interesses e direitos dos usuários, dos profissionais envolvidos, para evitar ilícitos, etc.). Mas o fato de não haver regulação para determinado serviço não torna o seu exercício ilegal.
A decisão judicial que determinou o bloqueio do Uber foi fundamentada na regulamentação tradicional, aplicável aos táxis. E o Uber, definitivamente, não é táxi. A Lei Federal nº 12.587/2012, que instituiu a Política Nacional de Mobilidade Urbana, estabelece dois tipos de serviços de transporte individual: (i) o transporte público individual; e o (ii) transporte motorizado privado.
De acordo com a referida Lei, Transporte Público Individual é o serviço remunerado de transporte de passageiros aberto ao público, por intermédio de veículos de aluguel, para a realização de viagens individualizadas. É o serviço de táxi, conforme definido pela própria Lei nº 12.587/2012, e também pela Lei nº 12.468/2011, que regulamenta a profissão de taxista. A profissão de taxista está regulamentada não só por meio da legislação federal (Lei nº 12.468/2011) como também por meio das legislações municipais (como, no caso de São Paulo, a Lei nº 7.329/1969).
Por outro lado, de acordo com a Lei nº 12.587/2012, Transporte Motorizado Privado é o meio motorizado de transporte de passageiros utilizado para a realização de viagens individualizadas por intermédio de veículos particulares. A partir da leitura dessas definições fica claro que o serviço prestado pelos motoristas que usam o Uber se enquadra na categoria de transporte motorizado privado, já que é realizado por meio de veículos particulares. Tal serviço ainda não foi regulamentado nem por legislação federal nem por legislação municipal.
O fato de não ter sido regulamentado, entretanto, não significa que o exercício de tal serviço seja ilegal. A própria decisão judicial menciona o artigo 170, parágrafo único da Constituição Federal, segundo o qual “assegura-se a todos o livre exercício de qualquer atividade econômica, independentemente de autorização de órgãos públicos, salvo nos casos previstos em lei”. Além disso, o artigo 5º da CF estabelece que é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer.
Ainda não há qualificações e exigências legais ou regulamentares estabelecidas em lei para o exercício do serviço de transporte motorizado privado, sendo portanto assegurado o livre exercício dessa atividade pelos motoristas Uber.
A decisão judicial ainda pode ser questionada porque (i) viola a livre iniciativa e a livre concorrência, princípios norteadores das atividades econômicas no país; (ii) afirma que os motoristas Uber estariam prestando um serviço clandestino com base em uma resolução da ANTT que não é aplicável ao presente caso, porque não é competência da ANTT regulamentar ou fiscalizar serviços de transportes individuais prestados no âmbito de Municípios; e (iii) viola a competência de cada Município do país quanto à determinação de quais serviços de transporte podem ser prestados em âmbito municipal, conforme determina o artigo 30 da Constituição Federal.
Finalmente, vou falar como cidadã/usuária.
O Uber é mais uma opção de transporte na cidade além dos táxis, é super seguro (o aplicativo permite que os usuários avaliem os motoristas e os motoristas avaliem os usuários, e os motoristas que não têm boa conduta são excluídos), os motoristas do Uber têm carros mais luxuosos e seguros que os táxis comuns, não cobram adicional de 50% para o aeroporto, oferecem água, usam o Waze, garantindo aos passageiros sempre a melhor rota/menor tempo, e o valor do serviço é em geral similar ao valor do táxi.
Eu não tenho nada contra os táxis, ainda uso táxi, mas quero poder escolher quando usar o taxi ou quando usar o Uber. Não consigo entender como os interesses de uma única categoria podem se sobrepor ao direito de escolha da população quanto a que tipo de transporte usar na sua cidade. Não consigo entender como um aplicativo inovador e criativo que somente melhora a qualidade de vida dos cidadãos pode estar sendo questionado e ameaçado de sobreviver no nosso país.
Eu quero ter o direito de escolher como ir e vir pela minha cidade.
* Ana Carolina Pellegrini Monteiro é advogada, head da área regulatória do escritório Stocche Forbes, com mestrado e especialização em Direito e Tecnologia pela Universidade de Berkeley - California.
Guia rápido de como falar (ou não falar) com mulheres sobre feminismo.
Anna Haddad
***
[Nota prévia: esse texto não é para homens que acham que está tudo bem, que não vivemos em uma sociedade machista ou que não vêem sentido em feminismo. É para aqueles que enxergam a desigualdade de gêneros que vivemos e entendem a importância dos movimentos feministas.]
***
Dia desses estava num almoço com um amigo de longa data (e bem próximo de redes e veículos que discutem com profundidade assuntos de gênero), conversando sobre uma situação bem específica: estávamos os dois em uma vivência de alguns dias, onde homens e mulheres exploravam seus corpos e sexualidade através de vários tipos de práticas, meditativas e corporais.
Levantei, entre uma garfada e outra, um incômodo meu: não estava me sentido acolhida, como mulher, por aquele espaço.
Disse pra ele:
- Acho que esse espaço não deveria tratar todos os seres como iguais, homens e mulheres, de um jeito ingênuo e simples. Deveria considerar o contexto social de desigualdade e cuidar pra que o ambiente acolha realmente as mulheres.
Ele perguntou em seguida:
- Qual contexto, Anna?
Comecei a me exaltar um pouco na fala - confesso - e disse:
- As mulheres sofrem todos os dias, o tempo todo, na rua, nos ônibus, nos empregos, com a desigualdade de gênero... - e segui um bocado mais, tentando explicar o contexto socio-cultural que, ao meu ver, não podia ser ignorado, nem sequer ali, naquele espaço espiritualizado.
Falei aproximados 40 segundos. Foi quando meu amigo me interrompeu com um comentário-bomba:
- Entendo tudo isso e concordo, mas acho que precisa tomar cuidado pra não aumentar demais o volume e começar a adotar uma fala anti-homem.
Mesmo sendo um comentário bem comum de vários homens sobre as falas feministas, aquele me caiu como uma bigorna, por vir daquele amigo em especial.
Daí em diante, tudo descambou pra uma discussão longa, sem muitos pontos positivos. Dela, eu espremo os seguintes parágrafos, itens guia pra qualquer homem ter uma conversa sensata com uma mulher sobre feminismo.
Preparado?
(Se ainda não leu, recomendo ler a nota-prévia no começo do texto antes de seguir em frente).
1. Amplie a escuta
Primeiro de tudo: ouça.
Deixe a mulher se expressar sobre a questão dela, o sofrimento, o incômodo, qualquer que seja. Não interrompa, não pontue nem virgule. Não importa se você acha que tem algo super relevante pra ser dito. Não importa se é a sua mãe, avó, amiga, namorada ou uma feminista da web que você nunca viu antes. Comece ouvindo, com carinho, atenção e coração aberto.
Tente se colocar nos sapatos dela.
Se é difícil demais (e geralmente é), nada como começar treinando empatia de um modo amplo.
Empatia não é pena, dó, caridade — todos sentimentos condescendentes. Empatia não é amor, simpatia, agrado — todas manifestações de afeto pessoal. Empatia não é entendimento, compreensão — todas operações de redução e controle. Empatia não é algo que se exerça de fora para dentro, de uma pessoa para outra. Empatia é ESTAR dentro de outra pessoa, sentir o que ela sente, pensar o que ela pensa. E, sim, é tão impossível quanto soa e tão imprescindível quanto parece.
Não, não é nada fácil. Pra noção de empatia ficar menos etérea e mais tangível, recomendo demais os textos incríveis (e exercícios) do Alex Castro.
2. Treine a não-opinião
Junto com ampliar a escuta, treinar a não-opinião é outro guia mestre para essas conversas.
Mas são bem diferentes.
Podemos ser bons ouvintes, mas, lá dentro, estarmos maquinando e desenvolvendo pensamentos, conectando pontos, articulando boas respostas e opiniões afiadas.
Pare.
Em nossa sociedade narcisista, onde somos criados para achar que o mundo gira à nossa volta, tendemos a dar um valor excessivo a nossas próprias opiniões. (Afinal, são opiniões dessa pessoa tão incrível: eu!)
Pior, achamos não só que temos um direito divino de ter opinião sobre tudo, como também de expressar essa sabedoria a todo momento, e, mais ainda, que é um favor que fazemos às pobres mortais dizer a elas o que pensamos sobre suas vidas. Mas essa constante e infindável salva de opiniões que atiramos umas contra as outras é uma violência, é uma intrusão, é puro egocentrismo.
Alex castro - Exercer a não-opinião | exercício de empatia 6
Treinar a não-opinião é libertador, e, ouso dizer, o maior exercício de empatia de todos os tempos.
3. Feminismo não é um escudo de proteção
Depois de falar do combo ouvir + treinar não opinar, ouço com frequência a grande tirada do escudo de proteção de titânio:
- Ah, mas não posso abrir a boca? Assim é fácil pra vocês. Só porque a mulher é feminista isso serve de proteção pra que ela possa falar qualquer baboseira?
A resposta é não.
O feminismo não é um escudo de proteção nas conversas. Você não precisa ouvir tudo calado, concordar com cada palavra.
Mas fique atento. O mais importante de tudo é exercitar os dois primeiros itens e saber quem são, simbolicamente, os interlocutores. De um lado, você que, por ter nascido homem, ocupa socialmente o espaço de privilégio do opressor. Do outro, uma mulher, seja qual for, que pelo simples fato de ter nascido mulher faz parte de um grupo oprimido.
Não entre num embate, numa discussão, argumentação ou convencimento.
Uma coisa é certa: aquela mulher ali, falando de como é ser mulher, provavelmente sabe mais disso do que você.
4. Não solte falas humanitárias
- Vocês estão sendo muito agressivas. Nós todos somos seres humanos, e precisamos de menos luta, mais paz.
Não faça isso, meu rapaz.
Essa fala, entre outras falas espiritualizadas, tem seu momento. Esse, com certeza, não é um deles.
Falas generalistas, que colocam todas as pessoas em grupos maiores, como iguais (seres humanos, indivíduos, cidadãos), não são muito úteis em contextos onde se discute opressão de certos grupos sob outros.
Para tratarmos de grupos minoritários e direitos humanos precisamos, antes de tudo, ter em mente o princípio constitucional da igualdade: dar tratamento isonômico às partes significa tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais, na exata medida de suas desigualdades.
Chamar toda a galera - homens e mulheres - de "seres" ao discutir desigualdade de gênero não faz qualquer sentido e de duas uma: ou é bastante ingênuo ou é bastante injusto. Ou os dois.
5. Não use uma amiga de exemplo
- Ah, mas eu tenho uma amiga que adora receber cantada na rua!
Não use a opinião de uma mulher para legitimar a sua própria.
Muito possivelmente ela está reproduzindo posturas machistas da sociedade em que vive.
De qualquer modo, aquela, na sua frente, é outra mulher. Com outras vivências e opiniões. Escute.
6. Não fale sobre si ou sobre os homens
Esse item tem bastante relação com treinar a não-opinião e é um dos principais motivos pelos quais muitas feministas decidiram não dialogar mais sobre feminismo com homens e focar toda a força de diálogo em grupos de empoderamento feminino apenas.
Vira e mexe os homens cometem o grande erro de levantar questões sobre si próprios em meio a discussões feministas:
- Mas nós homens também sofremos com o machismo.
- Será que vocês não estão sendo muito duras com os homens, adotando falas anti-homem?
É comum indivíduos de grupos privilegiados (eu, como branca de classe média, e talvez você ainda mais, como homem, branco, de classe média) não enxergarmos de cara os nossos privilégios e termos respostas prontas, argumentos fortes e visão estreita pra combater os tapas na cara que nos dão quando nos dizem: - oi, você é sim um privilegiado e opressor.
Retrucar com um grande não, se irritar, rebater sem ouvir o outro lado e principalmente trazer a fala de volta para si, seu próprio grupo e suas próprias questões só reforça que você é, de fato, privilegiado e está escancaradamente ensimesmado, com olhos no próprio umbigo.
Não cometa o erro do meu amigo.
Ao ouvir uma mulher falar sobre as dificuldades de ser mulher em uma sociedade machista e patriarcal, não leve para o pessoal, não se sinta atacado, não traga pra mesa as suas dores.
O mundo já é seu palco. Tem sido por anos a fio.
Mas essa conversa não é sobre você.
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*Queremos convidar todas as minas pra incluírem tópicos nesse guia, comentando aqui no texto. O que você acha que é importante dizer pra um homem sobre o assunto? O que ele deve ter em mente ao falar de feminismo ou ouvir uma mulher? Esperamos os comentários das mina tudo. :) Beijos grandes das cinéticas.
Não adianta mudar de marca: você precisa mudar a sua lógica de consumo.
Anna Haddad
No último texto que publicamos aqui, Pare de agir aleatoriamente, trouxemos nossas listas individuais de ações - que ou estimulam as coisas nas quais acreditamos ou boicotam aquelas com as quais não concordamos.
Depois dele, recebemos vários comentários da galera pedindo que a gente publicasse, além dessas listas de boicotes, listas de marcas que gostamos, pra ajudar no processo de compra.
Esse texto aqui é pra isso. Mas antes, é pra te contar porque você não precisa de uma lista de marcas bacanas.
(Acredite, você não precisa).
1. O boicote não é só deixar de comprar: é o começo de um processo dolorido de ressignificação das nossas relações de consumo.
Muita gente leu nossas listas de boicote e de cara relatou uma sensação de paralisia:
Ih, tá difícil. Se não devo comprar dessas marcas todas, de quem devo comprar?
Antes de tudo, precisamos entender que não basta substituir um monte de "nãos" (pras marcas que boicotamos) por um monte de "sims" (pras marcas bacanas e confiáveis). Isso, de novo, seria operar na mesma lógica binária e habitual de consumo: comprar ou não / aqui ou ali.
Então, muita calma nessa hora.
A sensação de congelamento frente ao vislumbre de uma montanha de dificuldades práticas na hora de ir às compras é normal e bem-vinda. Mas antes de fazer qualquer coisa, é bastante importante abraçarmos de verdade essa noção de que nossos atos (e nosso dinheiro) alimentam diretamente as coisas. Parece simples dizer, mas no dia a dia essa ideia ganha várias cores e muita profundidade.
Andar por aí com essa clareza, deixar decantar e ir entendendo, devagar, o poder disso, é o primeiro passo.
Em seguida, nesse processo, cai uma baita ficha. De repente sentimos que andamos muito tempo agindo aleatoriamente e financiando coisas escrotas, e ficamos sem saber ao certo como seguir. Essa é a hora do luto.
Com o luto (que pode durar um tempo, e é bom que dure), vem uma fase importante de repensar necessidades (o que eu preciso mesmo ter? o que tenho e posso abrir mão? como utilizar melhor meus pertences, ativos e recursos?) e de diminuir consideravelmente os movimentos de compra.
Só então, por último e pra fechar o ciclo, vem a lista dos "sims": onde comprar o que realmente preciso? que marcas, artesãos, produtores podem me fornecer o que quero dentro dessa nova ética de consumo?
2. Consumo sustentável: cuidado com a cilada.
Nessa hora, de repensar hábitos de compra ativa, é preciso tomar cuidado com uma velha cilada: a do consumo sustentável.
Não era amor, ôh, ôh
Não era
Não era amor, era
Cilada
O consumo sustentável ainda funciona em uma lógica conservadora e binária de que a única mudança que podemos operar é no papel de consumidores, através da compra ou da não compra. Além de estreita, essa percepção traz junto uma mala cheia de carga e culpa: agora, o peso está todo nas costas de um consumidor consciente.
Deixar de comprar é um ato político, sim. É importante depositarmos nossa grana a favor do que acreditamos, também. Mas é importantíssimo entender que precisamos, no caminho, mudar a nossa lógica de consumo e nos reconectarmos com o processo de produção.
Quando a questão complexa do consumo é colocada assim, sob responsabilidade do indivíduo como consumidor apenas, em termos do seu auto-sacrifício, enfrentamos um falso trade-off entre satisfação pessoal através da compra e um bem-estar social mais amplo. E, sendo humanos, é quase impossível escolher sistematicamente a segunda opção.
Além disso, o consumo sustentável também deixa de lado o processo, sua justiça distributiva e os impactos causados no percurso. Ou seja, acaba nos transformando em meros reféns da gôndola.
Não é por aí.
Não precisa se chibatar, se punir, se sentir culpado ao comprar, nem virar o louco dos rótulos. O consumo sustentável não é a única resposta. Ao meu ver, existe um outro caminho, onde a conta realmente fecha.
3. Então, qual é o caminho?
Só mudamos mesmo essa lógica antiga de consumo quando imprimimos um novo olhar pras coisas, mais circular e amplo: saímos da posição única de consumidores e passamos a enxergar o ciclo completo de produção, otimizando recursos (nossos e do mundo).
Dentro dessa perspectiva, tudo bem ler um rótulo pra saber se aquele produto que te interessa foi testado em animais ou não.
Mas melhor ainda é deixar de ir a shoppings (lojas aleatóreas) e comprar direto quem faz (quem produziu ou tem consciência da cadeia que fomenta). Diminuir as idas aos supermercados e comprar de produtores orgânicos. Ir à feiras de trocas. Comprar usados. Consertar ao invés de jogar fora. Passar a fazer parte de movimentos colaborativos em geral, como, por exemplo, plataformas e comunidades que te permitem alugar o apê de alguém que vai viajar no fim de semana ou oferecer para aluguel seu carro em um período que ele estaria parado na sua garagem.
A nova lógica truca o "ter" o tempo todo ao invés de ser refém dele.
4. Calma, a gente te ajuda.
Pra dar uma clareada nas ideias e a pedidos, preparamos uma lista, claro.
Tentamos dar pra lista essa visão mais ampla, esse novo olhar, e por isso a dividimos em ações colaborativas (plataformas de compartilhamento e mercado redistributivo), projetos e movimentos (que te ajudem a se aproximar dos processos de produção) e marcas amigas (aqui falamos de algumas marcas que curtimos, por diversos motivos).
A lista está aqui, ó. Se você tiver dicas de plataformas, movimentos, projetos e marcas que acha que devem fazer parte da lista, deixa sua contribuição aqui nos comentários. ;)
Fontes das fotos: flickr de what what e de streetwrk.com.
Em São Paulo / via internê / comprei um livro de francês / de uma livraria carioca / editado na Polônia / fabricado em Barcelona / e que o correio acabou que mandou para a Bahia. / Quando ele chegar, / se ele chegar, / vou escrever na contra-capa, / de caneta colorida: livro-sem-fronteiras.
1. As cadeias longas de produção
Há três anos, quando escrevi esse poeminho espirituoso que chamei de Poemeu da Globalização, não sabia bem o que significava uma cadeia longa.
Em resumo, nada mais é do que o próprio poema descreve: uma cadeia de produção e distribuição com inúmeras etapas, ramificações e intermediários. Tantos, que fica difícil saber quem foi que produziu cada parte do produto final e quais os impactos gerados por aquele produto no mundo.
Paulo Brabo, num texto detalhado publicado no Blog Forja Universal, fala sobre as cadeias longas em oposição às produções locais. Traduz bem objetivamente meu poeminho ingênuo:
Um dispositivo que teve o seu design estabelecido nos Estados Unidos têm os seus componentes produzidos em vinte países e três continentes. Essa multidão de componentes multinacionais descobre modo de se reunir magicamente numa única fábrica da China, nas mãos de um único e anônimo ex-camponês, antes de atravessar montanhas e mares e encontrar o caminho de uma loja de shopping em São Paulo ou de um supermercado de bairro em Campina Grande – tudo para que você tenha como jogar Candy Crush na sua próxima ida ao banheiro.
E aí, qual o problema de ter um produto rodado?
Todos.
Num sistema capitalista onde o que mais vale é a produtividade e maximação dos lucros, há incentivo total ao alongamento bestial das cadeias para que o melhor seja extraído de cada parte, mantendo o custo final do produto lá embaixo. Isso é feito em detrimento de muita coisa no caminho.
Em resumo, as cadeias longas inibem a cultura local (modo de fazer, sistema de tradições), esmagam a economia local (deixo de fazer e vender localmente para fazer parte de um sistema grande de produção, ou seja, passo de produtor local a empregado), além de trazerem impactos ambientais e humanos impressionantes.
Quando compra um artigo de 1,99 você via de regra não o faz por um ódio deliberado à economia local. Na verdade, determinados preços são tão excepcionais que geram a impressão de que ninguém está sendo prejudicado por eles; parecem existir literalmente fora da competição. O fato é que nada no planeta custa 1,99, a não ser que alguém fora do seu campo de visão esteja pagando a diferença. Essa transferência de custos é o mecanismo mais essencial do sucesso das longas cadeias, mas não é o único.
A mágica é que esses custos locais, globais e humanos permanecem espalhados por aí, quase invisíveis, e bem distantes do consumidor final: você.
2. E aí, o que eu tenho a ver com isso?
Tudo.
Parte por conta dessa estrutura capitalista de produção, que estimula cadeias longas globalizadas sem grandes consequências visíveis, parte por conta do nosso mundo interno (falta conexão, empatia, compaixão), andamos bastante desconectados do que consumimos, usamos e fazemos. Um bocado (bastante) zumbis.
Não sabemos do que é feito, pra que realmente serve, de onde veio, quem foi que fez, o quanto custou pra ser produzido. Nos ligamos às coisas de um modo muito superficial e utilitário: eu quero, vou (ou não vou) comprar.
Agimos pelo mundo aleatoriamente, sem de fato ponderar consequências ou pensar na ética dos nossos atos.
Eu não escravizo ninguém, só financio quem faz
Daí que acabamos cometendo várias atrocidades. Não só com nós mesmos (comemos coisas que nos corroem por dentro, usamos produtos de "higiene e cuidado" que levam componentes prejudiciais à saúde, e assim por diante) como com os outros.
Financiamos, sem prestar muita atenção ou sermos afetados diretamente pelos resultados, milhares de tecelagens que funcionam à base de trabalho escravo e criações desumanas de frangos que crescem confinados, sob luz branca 24 horas, de bicos cortados pra não se auto-flagelarem.
Vivemos tranquilamente, achando que não temos nada a ver com o que acontece com os bolivianos na Barra Funda ou com os frangos em Santa Catarina, mesmo quando compramos roupas de marcas explicitamente condenadas em segunda instância judicial e comemos asinhas da Sadia todos os domingos.
Seguimos sustentando situações bizarras com as quais nem se quer concordamos, independentemente de quais sejam.
3. Como sair disso?
No texto A prática do boicote num mundo interligado, publicado originalmente no Papo de Homem, Eduardo Pinheiro fala do assunto de um jeito bastante direto e traz uma solução prática pra que possamos, ainda nesse mundo de cadeias longas e desconexão humana, gerar um ciclo virtuoso, de acordo com nossa ética e dentro do nosso alcance: estabelecer hábitos ligados ao que queremos fomentar ou ao que queremos mudar.
Uma vez que o hábito da virtude é gerado, se torna mais fácil ser virtuoso e lembrar-se de ser virtuoso. Portanto, é importante treinar em raciocinar, lembrar-se das conclusões, e agir repetidas vezes de acordo o maior apuro, de forma a gerar esse hábito de virtude.
Já fazíamos isso sozinhas aqui no Cinese, mas pegamos o bonde do texto do Pinheiro e resolvemos parar um pouco, pensar de novo em questões latentes pra cada uma de nós e listar bons hábitos.
As listas trazem ações que: 1. estimulem as coisas nas quais acreditamos, ou 2.inibam (boicotem) aquelas com as quais não concordamos.
Embora não se deva abandonar as pressões sobre os governos, o boicote hoje tem muito mais valor até mesmo do que o voto.
E o boicote não significa apenas deixar de comprar, mas fazer bom uso das redes sociais. Se uma empresa pisou na bola – não só em termos de direitos do consumidor, mas em termos éticos mesmo – é preciso tentar criar uma reação em cadeia contra ela. Essa prática de guerrilha da era da informação já se mostrou efetiva em alguns casos – mas ainda se está por ver os verdadeiros gigantes tremerem.
Dividimos aqui nossas listas de ações e boicotes:
- Eu, entre outras coisas, pego pesado quando a questão é trabalho escravo. Fiz uma lista de marcas que boicoto por conta do envolvimento com o assunto (pra fazer isso com maior detalhamento, recomendo o app Moda Livre, do Repórter Brasil). Aí vai a minha lista.
- A Gi tem aversão a sofrimento animal. É vegetariana desde muito cedo e fez uma lista que ressalta marcas que tratam animais como objetos.
- A Cami boicota eletrônicos. Olha muito pra questão da obsolescência programada e pra empresas que tratam as coisas como descartáveis. Fez a lista de boicotes e ações nesse sentido aqui.
Para as três o feminismo é uma questão muito forte. Em todas as listas aparecem boicotes à marcas que reforçam prisões estéticas femininas e padrões machistas de comportamento.
Pronto.
E aí? No que você acredita? O que quer catapultar? O que quer que deixe de acontecer?
Hora de fazer a sua lista e parar de agir aleatoriamente.
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Fontes das fotos: Flickrs de Light Brigading, Nello Coppeto e DizDao
O que podemos fazer, juntos, para mudar a nossa relação com a água agora?
Anna Haddad
A água é o recurso natural mais abundante do planeta.
Ela está por toda a parte. No nosso corpo (na maior parte dele), nos outros animais, nos alimentos, nas milhares de bacias hidrográficas. Ainda assim, 40% da população global vive hoje um momento de crise de abastecimento e estresse hídrico.
Então, que raios está acontecendo?
Está acontecendo com a água o mesmo que com vários outros recursos. Criamos, produzimos e desenvolvemos cuidadosamente (e eficientemente) ao longo dos anos essa situação de escassez. Somos, nessa sociedade industrial, mestres da escassez artificial.
Segundo Otto Scharmer, fundador do ULab no MIT e autor da U theory, uma das várias desconexões que vivemos na sociedade atual, que ele donomina ego-system, é a desconexão entre o imperativo do crescimento infinito e os recursos finitos do planeta Terra. A lógica do sistema econômico atual produziu uma bolha imensa: o uso abusivo de recursos como a água e o solo levou à perda de um terço da terra agriculturável existente em uma geração.
É uma questão sistêmica.
Além de usarmos os recursos existentes de forma irresponsável em prol de uma lógica econômica incongruente, também, operando sob essa mesma lógica cruel, tomamos atitudes diversas que só aumentam ainda mais o buraco e nos levam ao limite. Produzimos, coletivamente, resultados que ninguém individualmente quer.
Com relação à água, sim, consumimos exageradamente, com olho no pote de ouro e no nosso próprio umbigo. Nesse caminho, produtificamos água, privatizamos nascentes, desperdiçamos em casa e no comércio.
Mas também destruímos a mata ciliar e desenvolvemos projetos urbanísticos (ou simplesmente nos apropriamos das cidades) de forma absurda e desconectada: a impermeabilização das superfícies (cimento por todo lado impedindo a reabsorção da água), a falta de tratamento do sistema de esgoto, a não captação de água pluvial e as enormes perdas de água no sistema, além da canalização dos rios (todos os dias a população de São Paulo caminha sobre três mil quilômetros de cursos de água - rios invisíveis, que foram canalizados e enterrados vivos sob o concreto da cidade).
Somos nós que criamos a escassez e somos nós que podemos revertê-la.
Agora, frente a uma crise hídrica sem precedentes, podemos escolher mudar a lógica em que operamos ou seguir nela. Guerrear ou colaborar? Deixar o medo imperar e armazenar ou repensar a relação com os recursos hídricos para já? Sair da cidade ou aproveitar a oportunidade pra discutirmos o que realmente importa, com profundidade?
O que sabemos fazer, aqui no Cinese, é chamar pro encontro. É provocar espaços de aprendizado coletivo, de troca, de cocriação, de abundância e soluções múltiplas. É botar a mão na massa, junto.
É por isso que fazemos esse chamado pro encontro do dia 10 de março, na Laboriosa 89, Vila Madalena: Existe água em SP.
A ideia é discutir o problema e sair com ações rápidas e diversas para o bairro.
Queremos que você faça o mesmo, na sua rua, seu bairro, sua comunidade, seu trabalho. É simples:
1. Pense num encontro com o tema água e com o propósito de criar soluções, diretas e indiretas, pra sua comunidade local: mutirões de construção de cisternas, um tool kit pra construí-las, um fim de semana pra transformar espaços impermeabilizados em locais vivos, estudos e discussões, guia de como economizar água, e por aí vai.
2. Depois, vai lá no Cinese, proponha o encontro e divulgue nas suas redes. Ao mesmo tempo, nos dê um alô, pra te ajudarmos com a divulgação nas nossas redes também.
3. Criamos, lá no site, um canal curado chamado Existe água em SP. Colocaremos lá todos os encontros oferecidos em todo o Brasil sobre o assunto (se você for de outro Estado e quiser fazer um encontro por aí, manda bala!), pra facilitar que as pessoas vejam tudo o que está acontecendo em todo o país e consigam enxergar a movimentação em torno do tema.
4. Também, criamos um tópico no Fórum do site com o mesmo nome, pra podermos conversar sobre o assunto online e discutirmos sobre os encontros que estão acontecendo.
A Laboriosa 89 e o Hilo Coworking são dois dos muitos espaços abertos em São Paulo para encontros sobre a água. Se você precisa de um espaço, fala lá no tópico do fórum que a gente te conecta com um próximo de você. Se você tem um espaço e quer abrir as portas para encontros como esses, fala lá no fórum também pra gente te colocar no radar.
Muita gente tem trauma de desenho ou tem vergonha de mostrar os próprios desenhos pros outros. Engraçado isso. Todo mundo nasce desenhando furiosamente, sem a menor preocupação, e aí, lá pelos doze anos, a criança começa a comparar os desenhos com a realidade, fica obcecada pelo realismo, se frustra com os próprios esforços e desiste se sentindo inábil.
O que aconteceu?
Nada. O que acontece é que a habilidade do desenho, da expressão, assim como muitas outras, não é incentivada e nem ensinada no período escolar enquanto o raciocínio lógico é super valorizado nessa fase.
Do contrário, desenhar é quase como um pecado escolar. Sinônimo de diversão, dispersão, falta de comprometimento com o que "realmente importa": português, matemática, geografia e história.
Daí, vem uma sensação de que é preciso ter talento pras artes. Não que não haja inclinação, vocação, vontade. Mas muitos de nós não desenvolve habilidades artísticas porque passamos a vida inteira desenvolvendo outras. Só isso.
Dizer "você não tem talento pra desenhar" é igual a dizer "você não tem talento para aprender a ler ou aprender a dirigir". Desenhar é uma habilidade que pode ser aprendida por qualquer pessoa normal com visão e coordenação motora medianas.
Erro pensar que é preciso nascer com um dom divino.
Eu nunca tive aulas formais de desenho. Meu pai é ilustrador e desde pequeno desenhar foi uma coisa natural pra mim, permitida, incentivada. Consegui atravessar a fase traumática dos doze anos, continuei desenhando e por isso me desenvolvi. O meu processo foi muito intuitivo, e durante muito tempo só fiz desenhos de observação. Desenhava o que via, meus amigos na escola, e passava um tempão preenchendo folhas com desenhos que me vinham na cabeça. Só bem mais tarde fui mergulhar em técnicas porque eu realmente quis aprender e me aprofundar.
Acredito de verdade que desfazer algumas travas adquiridas no passado e entender o desenho de outro jeito são cruciais pra conseguirmos praticar e nos desenvolver. É por isso que não gosto de ensinar a desenhar de uma forma muito técnica e prefiro deixar mais espaço para a intuição, pra que a própria pessoa possa ir descobrindo por si algumas coisas ao invés de, logo de saída, ter regras pra serem observadas.
Dentro desse contexto, organizei a oficina Desbloqueio do Desenho, na Laboriosa 89, Vila madalena, São Paulo, dia 24 de janeiro.
Nela, a Eliza, formada em Facilitação Criativa pela Artéria/PYE, trará algumas atividades pra liberar a criatividade e eu vou poder mostrar o início desse processo de aprendizado, que já é o suficiente para você poder sair praticando. <3
[Gosto de usar muitas das técnicas apresentadas no livro "Desenhando com o lado direito do cérebro" da americana Betty Edwards. Vejo que muitos dos meus alunos gostam da proposta e se desenvolvem bem com ele. É claro que não há um método mágico e a prática é o que realmente vai fazer a diferença]. :)
Vamos lá?
#partiuoficina
Daniel Gisé é formado em Artes Plásticas pela UNESP (2005) é ilutrador, autor de histórias em quadrinhos e professor dos cursos de desenho artístico, ilustração e histórias em quadrinhos na escola ABRA. Começou a dar aulas em oficinas em 2009, de lá pra cá já deu oficinas em unidades do SESC, Centro Cultural São Paulo/GIbiteca Henfil, Centro da CulturaJudaica, Sistema Municipal de Bibliotecas de São Paulo.
Recentemente, uma amiga me fez uma pergunta que eu ouço com frequência: "Como você gerencia pagamentos pelo seu tempo e seus workshops?" e com isso ela também queria saber, "Como eu posso fazer isso de um jeito que funcione na prática mas também me pareça o certo a fazer?". Eu gostaria de responder essa questão publicamente, tanto para pontuar a percepção errônea de que eu sou um tipo de ser puro e altruísta que não suja suas mãos com dinheiro, como para trazer à realidade aqueles que, invocando meu nome associado a ideias simplistas do que é "viver no dom", adotam práticas pouco realistas que estão fadadas ao fracasso.
A maioria das pessoas que fazem essa pergunta estão fazendo trabalhos de cura, arte, música, ou algo que lhes é sagrado. Por várias razões, eles não querem cobrar uma taxa por seus serviços. Primeiro porque eles não estão fazendo isso fundamentalmente pelo dinheiro, portanto, não querem negar serviço para alguém que precisa simplesmente porque essa pessoa não pode pagar. Até para aqueles que podem pagar, encaixotar o trabalho em categorias convencionais de taxa por serviço parece empobrecê-lo, reduzi-lo. Até porque qual o preço certo por algo sagrado? Qualquer valor é, ao mesmo tempo, muito e pouco.
Muitas dessas pessoas se sentem frustradas com a limitação que o dinheiro impões sobre o livre exercício do seu trabalho. Eles só querem trabalhar; não querem ter de se incomodar com dinheiro.
Por favor, não diagnostique a situação como, "Ela está relutante em cobrar por seus serviços porque não se sente merecedora, tem dificuldade em se abrir para receber, está na mentalidade da escassez, etc. etc". Não é que nós, que estamos lutando com essa questão, não olhamos para essa possibilidade, às vezes ela está realmente presente. Nós que fazemos trabalhos de vanguarda às vezes internalizamos a desvalorização social implícita desses trabalhos, que normalmente não cabem dentro das categorias profissionais pré-existentes. Mais frequentemente do que isso, contudo, a dificuldade não é psicológica, mas sistêmica. No fim, muitas pessoas que se sentem atraídas a explorar modelos de negócio baseados no dom são pessoas que foram bem sucedidas no modelo antigo mas passaram a se sentir desconfortáveis com ele.
A dimensão sistêmica do problema é destacada pelo fato de que muito desses artistas, curandeiros, permacultores, etc. não foram bem sucedidas no modelo antigo. Uma interpretação do porquê deste fato pode ser a de que, me desculpe, mas sua oferta é de segunda-classe ou não é útil para a sociedade. É por isso que ninguém quer pagar por ela. Isso pode ser verdade - às vezes, quando o mundo parece rejeitar seu dom, é uma mensagem que você tem de desenvolvê-lo mais, ser mais sensível às necessidades reais das pessoas, ou então fazer uma transição. Contudo, nós também temos de reconhecer que a precificação relativa dos serviços depende do contexto dos valores da sociedade; e "de segunda-classe" poderia, na verdade, significar "não se conforma com o que a sociedade instituiu como valoroso". Se você passou por uma faculdade de medicina e conseguiu um diploma em psiquiatria, você pode ganhar centenas de dólares por hora, porque em algum nível a sociedade decidiu que isso tem mais valor que os serviços de quem passou por quatro anos de treinamento em cura energética ou regeneração do solo. Mas isso não significa que, de fato, esses últimos serviços tenham menos valor.
Em geral, as vocações que a sociedade mais recompensa são aquelas que contribuem com a manutenção do mundo como conhecemos, porque é desse mundo que nasceram as instituições que definem valor. Não é de surpreender que atividades que contribuem para a máquina-devoradora-do-mundo - que azeitam suas rodas e camuflam seus defeitos - são recompensadas pela máquina, da qual o sistema monetário é um componente chave. Por isso, todo trabalho que a desafia, que contribui para a recuperação do planeta e para a retomada da soberania sobre as nossas próprias vidas, ou que rompe sistemas de exploração, provavelmente não será bem paga ou valorizada como serviço profissional. Claro que existem muitas excessões, mas não o suficiente para acomodar todos que desejam fazer esses tipos de trabalho - uma escassez inserida no sistema em um nível profundo.
É por isso que o aspirante a fazer trabalhos de ponta está no mesmo barco que as pessoas bem sucedidas no modelo antigo procurando novos caminhos. Apontar suas dificuldades de maneira simplista apenas aos aspectos psicológicos negligencia questões sociológicas e passa por cima de questões sérias e concretas que devem ser endereçadas. Mas praticamente falando, quais são as alternativas ao modelo usuais de taxa por serviço ou modelos de negócio com fins lucrativos? Ao invés de descrever essas alternativas, eu gostaria de explicar o paradigma motivacional do qual elas surgem. Se a motivação é parcialmente calcada nos valores do que eu chamo de "a velha história", os resultados vão revelar inconsistências escondidas e o modelo provavelmente não vai funcionar.
Enquanto eu descrevo essas "motivações escusas", por favor não se sinta envergonhado se você notar algumas delas operando em você. Elas são a velha programação que está em todo lugar da cultura dominante. Além disso, eu mesmo só consigo descrevê-las porque tenho experiências pessoais com cada uma delas.
Uma das motivações para trabalhar no dom é o desejo de se exonerar pelos crimes que uma sociedade movida pelo dinheiro perpetuou nos seres humanos e no planeta. Agora ninguém mais poderá acusá-lo, nem você se acusará, de ganância, usúria ou exploração de outras pessoas. Você será inocentado. Infelizmente, evitar a culpa não é generosidade; é um tipo de narcisismo que motiva níveis de ação superficiais, suficientes apenas para aliviar a própria culpa. Além do mais, essa situação expressa uma forma de pensamento de escassez: uma condicionalidade da auto aceitação. Ela deixa um certo odor de moralismo, e resulta em um modelo de negócios que não funciona, já que a meta de absolvição pela culpa é melhor servida por um mártir inocente.
Agora, eu não estou dizendo que esse motivo domina qualquer um que se atrai por práticas de negócios baseadas no dom. É uma sombra que deve ser notada, endêmica em nossa sociedade devido à ubiquidade da "luta por ser bom". Ela promove um certo alívio do desconforto provocado pela culpa de ser opressor e do condicionamento devastador em nos vermos como fundamentalmente pecadores, egoístas e auto-interessados. Se uma prática baseada no dom "não está funcionando", pode ser porque essa sombra está presente no pano de fundo.
Outra motivação-sombra pode ser o desejo de lavar suas mãos de todo os problemas em torno do dinheiro, de evitar as situações problemáticas e desconfortáveis que surgem quando a questão financeira é confrontada. Todos nós conhecemos o desconforto que surge quando chega a hora de "falar sobre o dinheiro"; todos notamos que o custo de eventos é produtos se mantém escondido até o último minuto, ou lá no fimzinho da página. Que ótimo seria se não precisássemos lidar com isso! Infelizmente, quando agimos assim estamos varrendo os assuntos espinhosos para debaixo do tapete, mas eles ainda estarão lá. Dinheiro pode ser um meio de negociação de relações sociais, para a definição de papeis e responsabilidades. Ele compreende, na verdade, alguns dos principais rituais da nossa cultura. Desconsiderá-lo sem nenhum tipo de substituto deixa ambas as partes em um estado de limbo, sem a compreensão clara de qual deveria ser a relação estabelecida. Talvez seja por isso que um amigo meu, médico homeopata, batalhou tanto para conseguir clientes quando atendia de graça e porque os pacientes que ela tinha não se comprometiam, e não a viam realmente como médica. A situação melhorou quando ela começou a cobrar taxas de mercado. Por outro lado, o desaparecimento de meios normais de negociação de papeis e relações econômicas pode ser muito fértil, convidando à uma desconstrução e ao redesenho desses papeis, mas eventualmente algum meio alternativo deverá surgir. Deixar os arranjos monetários convencionais (como a taxa por serviço) não é escapar do desconforto de uma negociação; é apenas entrar em um novo.
Essas duas sombras aparecem do mesmo impulso básico: estar acima do mundo, se desengajar de participar nele completamente. Assim, alguns associam espiritualidade à abstenção do comércio, do reino do dinheiro e do mundano. Mas eu não preciso dizer que estamos evoluindo e nos distanciando daquela espiritualidade celestial, e buscando participar no mundo de forma diferente, ao invés de transcendê-lo. Não queremos estar acima do drama humano, mas rescrever seus papeis. É essa motivação que vai estimular uma transição bem sucedida à cultura do dom.
Ao mesmo tempo em que não desprezo o valor de “simplesmente dar de graça”, os resultados desta prática certamente serão decepcionantes se ela estiver embasada em qualquer destas motivações sombrias que descrevi. Mesmo que a motivação seja pura, todos os tipos de desigualdades sociais e conflitos pessoais ocultos vêm para a superfície quando as estruturas econômicas existentes são removidas, porque elas codificam a maioria das regras que guiam comportamentos e pensamentos.
O relato de Marie Goodwin sobre a Free Store (um projeto que consiste em uma “loja” de trocas onde pessoas podem doar objetos e trocar por outros, sem custo algum), em Media, Pensilvânia, vem à minha mente. Normalmente, se você tem muito dinheiro, você pode levar para casa o que quiser de uma loja; se você não tem dinheiro, você não pode levar nada, sob a ameaça da lei. O que acontece quando este condicionamento profundo é subitamente removido? O que você faz? Como você limita aquilo que vai levar? Qual é a quantidade correta de coisas que você pode levar se não tiver doado nada? O dinheiro normalmente utiliza uma série de respostas socialmente construídas para responder a estas perguntas. Elas podem não ser as respostas ideais – na verdade, elas constituem um sistema injusto e ecocida – mas são ao menos um referencial, um guia prático e moral. A experiência da Free Store inspira muita reflexão, questionamento e, às vezes, desorientação. Também dispara muitas críticas ferozes daqueles que se sentem ameaçados por seu desprezo às convenções. E expõe feridas sociais que, de outra forma, permaneceriam escondidas; por exemplo, a mulher que vinha diariamente, pegava tudo o que havia de valor e vendia para sustentar o seu vicio em drogas. Este fato convidou os organizadores a terem discussões apaixonadas a respeito. Eles deveriam estabelecer um limite (“você só pode pegar algo se você também doar”) para substituir o antigo limite “você só leva se você pagar”? Eles deveriam resistir a julgar a mulher e suas necessidades?
Estas perguntas exemplificam as questões que surgem quando se altera as regras em relação ao dinheiro. Vamos adicionar mais algumas. O que acontece se você der algo a alguém e esta pessoa não valorizar isto? Você não preferiria dar para alguém que valorizasse? E se ninguém me dá nada, apesar de minha doação generosa? Se não o dinheiro, o que mais pode decidir quem quer ou necessita mais de algo? Nas antigas culturas de doação isto não era um grande problema, porque as necessidades e desejos de todos eram óbvios para toda a comunidade.
Relacionada à função do dinheiro como instrumento de negociação de papéis sociais, está sua função como ferramenta ritual. Ouvi vários curadores e artistas trabalhando com a economia da dádiva reclamando que quando não há preço, as pessoas não valorizam aquilo que recebem. Por esta razão, eu geralmente reluto em oferecer eventos “gratuitos”, porque algumas pessoas não os levam a sério. Elas chegam tarde, marcam outro compromisso para parte do dia e chegam com uma atitude de expectativas baixas. Fazer um pagamento é um ato ritual (envolvendo uma manipulação prescrita de símbolos com a crença de que isto afetará a realidade – isto é um ritual) que sinaliza à mente subconsciente, “Isto é real, isto tem valor”. Na ausência deste ritual, o workshop normalmente não é tão poderoso quanto poderia ser – a menos que haja algum outro ritual para substituí-lo, alguma outra forma de “pagamento”, num sentido mais amplo.
Como é este “outro ritual”? Algumas vezes ele envolve dinheiro. Por exemplo, podemos ter um processo antecipado de inscrição no qual as pessoas fazem um pequeno depósito, ao qual elas podem acrescentar ou subtrair no dia do evento. Ou podemos vender ingressos no estilo “pague quanto puder” (o que pode ser zero) para uma palestra. Eu tentei várias coisas e não posso dizer que não há problemas com todas elas; são explorações do que é, para a maioria de nós, território novo.
Também estou interessado em explorar rituais de pagamento que não envolvam dar dinheiro para mim, ou que não envolvam dinheiro de forma alguma. Preencher um formulário de inscrição complicado, conseguir algum objeto da natureza, fazer um serviço, correr um risco emocional, todos estes podem ser modos de construir rituais de ingresso a um espaço de grandes expectativas.
Eu sempre me arrepio quando alguém escreve para mim dizendo “Graças às suas ideias sobre economia da dádiva, Charles, eu parei de cobrar por minhas sessões de cura e me abri para a abundância do universo”. Arrepio-me primeiramente porque esta pessoa provavelmente terá que enfrentar muitas dificuldades (pelas quais ela poderá me culpar), e depois porque esta não é uma fórmula que eu defendo. Devo acrescentar que não é algo que eu não defenda também. Para algumas pessoas, especialmente aquelas que estão livres dos motivos sombrios citados anteriormente, este pode ser um passo perfeito. Recebo muitas histórias de pessoas que fizeram isto – doaram todo o seu dinheiro, pediram demissão de seus empregos remunerados, etc – e passaram a experimentar vidas que são muito mais ricas em todos os aspectos mais importantes. Por vezes elas acabam até com mais dinheiro vindo de fontes inimaginadas. Mas isto não é um resultado garantido. De fato, quando se usa a dádiva como uma maneira de se obter retorno da parte de outras pessoas ou do universo, não é generosidade verdadeira, e os resultados tendem a refletir isto.
O que ofereço aqui não é de maneira alguma uma fórmula, é uma orientação: compreender que doar é um propósito profundo na vida e trabalho das pessoas e contribuir com algo belo para você. Os meios, as estratégias, os modelos, todos fluem daí, assim como as retribuições. Para a minha amiga médica, cobrar o tradicional valor por consulta foi um alinhamento em sua doação. O princípio de navegação não é realmente um princípio, nem uma ética; é seguir o que sentimos como generoso, correto e vivo.
Sintonizar-se a este sentimento não é algo trivial, porque nossa programação cultural o obscurece e distorce até quase o ponto dele se tornar irreconhecível. Não são apenas as motivações sombrias; nossa própria linguagem nos afasta dele. Considere o questionamento original de minha amiga, que usou as palavras “pagar por seu tempo”. Há várias afirmações tóxicas implícitas aqui: (1) Que qualquer quantia em dinheiro possa ser equivalente em valor ao tempo; que o infinitamente precioso possa ser reduzido a uma soma finita; (2) Que eu preferiria usar meu tempo fazendo outra coisa; desta forma, eu preciso ser recompensado por passá-lo com vocês; e, relacionado a isto, (3) Que trabalho é algo fundamentalmente condenável, contrário ao prazer e ao lazer. Esta minúscula frase revela uma oposição profundamente estabelecida em nossa visão de mundo, refletindo uma narrativa sobre seres separados cujo estado natural é a competição.
Viver realmente na dádiva requer que nos sustentemos em uma história diferente. É claro que, em certa medida, a história da Separação está infiltrada em nossa linguagem tão integralmente que é impossível escapar dela, mas podemos com frequência usar outras palavras para manifestar uma postura diferente. Eu evito palavras como “compensação” por este motivo; por outro lado, se existe uma taxa, vamos chamá-la de taxa, e evitar recorrermos a eufemismos que ocorrem quando estamos tentando evitar a verdade pura e simples.
O ponto crucial não são as palavras que usamos, é o pensamento de onde elas se originam, a história que nos sustenta. Quanto mais nos sustentamos na história da Dádiva, mais motivados ficamos a alinhar nossas ações a ela, e fica mais claro quando estas estão ou não em alinhamento. Então, segue-se uma longa navegação através dos riscos sociais e psicológicos, das feridas e conflitos escondidos que emergem quando o condicionamento em relação ao dinheiro é rompido e nossas relações econômicas se reconfiguram. Quando isto acontece, um novo mundo surge, nos alimentando nesta jornada, conforme testemunhamos mais e mais generosidade, mais e mais gratidão para conosco e para o nosso entorno. É este, afinal, o território que tenho visto na minha hesitante jornada em direção à dádiva.
* Nota do editor: esse texto foi publicado originalmente em copyleft no blog do autor: Shadows, Rituals and Relationship in the Gift.
E a primeira coisa que fizemos essa semana foi tomar um café e repassar vontades e desejos pro Cinese nesse ano. Várias surgiram, mas uma veio à tona com muita força: que o Cinese seja uma comunidade ainda mais ativa.
Estamos caminhando, desde o meio de 2014, pra isso. Libertar o Cinese. Distribuir, abrir, despersonalizar. O primeiro grande passo foi tirar a taxa do site. Cobrávamos 12% do organizador de encontro pelo valor cobrado (quando cobrado). Desde outubro o Cinese passou a ser free, ou seja, não existe mais taxa. E nós não somos mais intermediários das transações: pagamentos, cobranças estornos, tudo é resolvido entre organizador do encontro e participantes.
A ideia é que o Cinese se mantenha vivo por apoios recorrentes (mensais) através da plataforma Unlock, ou apoios pontuais através do Moip.
Mas esse ano queremos ir mais longe. Bem mais.
Deixar a plataforma mais aberta, interativa e com mais ferramentas de autonomia pra que as pessoas se apropriem dela de verdade. Queremos que o Cinese seja uma comunidade engajada de aprendizagem livre. <3
Por isso, resolvemos compartilhar aqui nossa carta de intenções pro Cinese em 2015:
1. Descolar, de vez, o Cinese da Camila, Anna, Gigi, Rafa e Kenzo. Dar o empurrão que falta pro Cinese ser uma comunidade, gerida pelas pessoas.
2. Lançar o novo site - lindo de morrer e com novas ferramentas de autonomia (estamos quase!). <3
3. Abrir o código do site e operar 100% open source + creative commons.
4. Deixar, aos poucos, a página do facebook. Não acreditamos na política do facebook, nem em uma comunicação centralizada e pouco interativa, como acontece nas páginas de marca. Gostamos mais da ideia de grupos abertos e fóruns.
5. Fomentar o fórum do Cinese, espaço onde as pessoas possam trocar ideias sobre colaboração e aprendizagem, sem intermediários nem publicidade.
6. Dar aquele empurrão pro Cinese expandir em outras cidades pra além de grandes centros.
O fantástico mundo do encontro: conexão e presença
Anna Haddad
A gente vive falando de encontro aqui no Cinese. Oficina, workshop, curso, imersão, chamamos tudo, carinhosamente, de encontro.
Isso porque, pra gente, encontro representa algo maior e resume muito da essência do Cinese. Envolve, além da troca de conhecimento, do aprender e ensinar, a ideia de atmosfera, conexão e presença.
Pra encontrar alguém você precisa querer, ter vontade. Precisa estar lá, de verdade, engajado - muito mais do que numa aula qualquer. Precisa interagir, estar disponível e aberto.
É esse mundo que o Cinese veio pra criar. Queríamos muito mais do que desenvolver um site com cursos e aulas. Queríamos construir um espaço onde as pessoas pudessem, de forma simples e leve, se conectar com outras, com interesses comuns, aprender habilidades novas, ensinar o que sabem, abrir portas e espiar janelas. A gente queria ser uma ponte que ajudasse as pessoas a se encontrarem - pro que quer que fosse. Pra formar novas redes de apoio, pra dividir ideias, pra elaborar projetos, pra testar, pra trocar.
E foi isso que o Cinese virou. Um espaço de liberdade e conexão.
Junto com tudo isso, que paira no campo mais sutil, tem o lado bastante pragmático do encontro. Olha só:
1. Conhecimento livre e barato
Encontro também significa conhecimento livre e barato (ou gratuito!). Significa um bocado de gente ensinando o que sabe de um jeito bastante desburocratizado, sem intermédio de nenhuma instituição. Um curso de 16 horas que custaria R$600 em uma escola criativa é facilmente encontrado no Cinese por menos de R$250, com a mesma qualidade e a mesma mente brilhante por detrás, simplesmente porque não há barreiras ou entraves, como taxas de intermediação e regras. Também, é empolgante ver a quantidade de coisa bacana e gratuita ou de contribuição voluntária que aparece no site. É exatamente isso que a gente sempre quis: fazer o conhecimento escoar, sem travas.
2. Ferramenta e autonomia
Por outro lado, quem oferece o encontro tem, além da ferramenta pra ajudar na organização de inscrições e recebimento de pagamentos, total autonomia e apoio pra desenvolver o encontro e decidir como quer fazer - ou seja, tá tudo na mão. Ainda, se preciso, nós aqui ajudamos no planejamento do encontro e construção de comunidade em torno do projeto, pra que as coisas aconteçam do melhor jeito possível pra todo mundo.
Assim, é sempre ganha-ganha: quem organiza o encontro ganha com mais liberdade, autonomia e grana, e quem participa dele ganha com mais facilidade, diversidade e custos bem menores.
3. Diversidade e criatividade
Também, a abertura gera um campo imenso de possibilidades, o que faz nascerem encontros (e projetos) incríveis e criativos como esses que a gente vê no Cinese: encontros gratuitos de yoga no parque, andanças pelo centro de São Paulo pra explorar os entornos e despertar um novo olhar para as coisas ao redor, uma série de jantares que propõe nossa reconexão com os alimentos e com as pessoas com quem dividimos as refeições, discussões sobre feminismo e gênero, aulas de grafiti, chás da tarde da terceira idade, workshop de alimentação saudável pra crianças com um chef de 12 anos de idade, e por aí vai.
Lindo demais ver tudo isso acontecer. Mais ainda: lindo demais ser uma ferramenta pra que isso aconteça.
Lendo um artigo sobre o fracasso do protesto dos estudantes da Universidade de Alberta, Canadá, em 17 de novembro, sobre a priorização da educação pós-secundária, meus pensamentos foram instantaneamente levados para o modo como Karl Marx descreveu os níveis impressionantes de alienação que uma linha de montagem pode causar nas vidas e psiquês dos trabalhadores. As universidades estão cada vez mais reproduzindo realidades comparáveis à realidade fabril no sentido de que, para um estudante estar lá, ele tem que se desconectar - de si mesmo, de sua relação subjetiva com o tempo, com os professores, e, em muitos casos, do próprio tema que guia o curso - para poder então seguir o script de “como passar em determinada matéria”.
Não há tempo a perder quando você é um estudante. Não existe espaço para outro tipo de preocupação quando a universidade parece estar te vigiando como uma entidade exigente que conta os minutos até mesmo enquanto você dá aquela corridinha até o banheiro antes da aula de PSYCO 104. Ao mesmo tempo, temos a sensação de que é impossível ficar por fora do que está acontecendo no campus. Há incontáveis emails sendo recebidos o tempo todo: jornal dos estudantes, notícias do corpo discente, emails do grupo da classe com seus fóruns e anúncios constantes. As salas de aula são enormes. Há muita gente e muita coisa para ser vista, feita e conhecida a cada hora. Qualquer pessoa elogiaria a quantidade de atividades e experiências interessantes que a universidade pode oferecer. Também imaginaria que fazer amigos é só questão de virar a esquina. Uma ilusão de superconectividade impede os estudantes de entenderem que eles estão mais desligadis desse ambiente precioso do que eles imaginam.
A experiência universitária pode ser - e em muitos casos é - de puro prazer e despertar intelectual. Eu acredito que não deveria ser nada além disso. É estranho para mim ver que, andando pelo campus, eu não escute nenhuma conversa sobre os tópicos interessantes dessa ou aquela aula ou como aquele curso poderia ser melhor. Se essas conversas existem, não parecem ser tão abundantes quanto eu julgo necessário.
Por mais estranho que pareça, confesso que faço um esforço para ouvir a conversa dos outros pelo máximo de tempo possível (pelo menos as que são em inglês ou português). Porque, como uma estudante em um ambiente acadêmico, eu me importo com as conversas que as pessoas estão tendo. Essas conversas pavimentam o caminho para um entendimento mais amplo da nossa condição de "colegas estudantes". Não há muito tempo e energia disponíveis para regurgitações intelectuais espontâneas entre as aulas, nem para reflexão política. Existe espaço basicamente apenas para dever e ansiedade. Os momentos de debate, pensamento crítico e engajamento político fazem parte de eventos pré-agendados que você vai comparecer se conseguir fazer um clone de si mesmo antes da data marcada. Que é daqui 4 dias. Ops, calma, era hoje. Merda, perdi!
Estudos sugerem a necessidade de crianças terem momentos de ócio para praticar auto-reflexão e, como resultado, desenvolver empatia. Porque auto-reflexão gera auto-conhecimento. E auto-conhecimento te dá ferramentas para se conectar com o próximo. O mesmo deveria se aplicar à nossa vida na universidade. Precisamos rejeitar a ideia de universidade como caminho prático para um diploma que vai nos levar a um pote de ouro. Precisamos ter o direito e o tempo de parar, respirar e discutir, para conseguirmos desenvolver ferramentas que nos conectem empaticamente com o aspecto coletivo da universidade, nos identificando como o seu corpo vivo, e não apenas como um ID de estudante em meio a outros 300 na aula de estatística. Porque, se você é pequeno suficiente para não ser reconhecido pelo seu professor, porque você faria alguma diferença em um protesto em frente à Assembléia Legislativa?
Estudantes universitários falhando em lutar por algo em que eles abertamente acreditam é apenas um dos exemplos dessa relação perversa entre educação e um mundo movido a dinheiro. Entre sonhos e fadiga. É um reflexo da associação aparentemente indestrutível entre capitalismo e alienação, que transcende a linha de montagem um pouco mais a cada minuto que passamos na fila do café do campus, na esperança de ficar acordados por mais 30 minutos porque parece que o mundo depende mais daquele trabalho que você ainda precisa terminar do que de uma educação democrática e acessível.
Eu não sei se mudar isso tudo é possível. Talvez seja tarde demais. E este pensamento é amedrontador.
***
Mariana tem 25 anos, nasceu no Rio, mora em Edmonton (Canadá) e estuda Psicologia na University of Alberta. Gosta de gente que se movimenta, se importa e se informa, e de bons debates regados à controvérsia. Eventualmente solta fumaça pelas orelhas.
Nota do editor: foto em creative commons de Concordia University.
Black Friday: algo te toma quando você vai às compras.
Camila Haddad
Essa sexta-feira marca o aniversário de 6 anos da morte de Jdimytai Damour.
Não é à toa que esse nome provavelmente não significa nada para você.
Apesar de a notícia ter chegado às manchetes dos principais jornais americanos, em sua morte Jdimytai permaneceu tão anônimo quanto em vida. Jimbo, como era chamado pelos amigos, trabalhava como temporário no Walmart de Long Island quando foi pisoteado por uma multidão de compradores que tentava invadir a loja para aproveitar as promoções da Black Friday. Testemunhas relataram que, mesmo depois da chegada da polícia, a loja permaneceu aberta e as pessoas seguiram com suas compras.
De longe, é fácil notar que a morte de Jimbo não foi um acidente. Ele não morreu, ele foi morto. Mas quem é culpado por sua morte? De quem eram os pés que pisotearam Jimbo? Se não é possível identificar os pés, todas pessoas que estavam na loja naquele dia são igualmente culpadas? Ao perceber que havia algo de errado, mas continuar correndo, elas imaginavam essa consequência? Cada uma, individualmente, achava que suas compras eram mais importantes do que uma vida?
Não há quem consiga justificar o acontecido de forma moralmente confortável. Mas antes de apontarmos o dedo para os americanos-consumistas-ganaciosos, é importante refletir sobre o que nos aproxima.
Sobre como não somos tão diferentes assim.
Consumo e desconexão
o que te toma quando você vai às compras?
Se dermos alguns passos para trás é fácil notar como toda experiência tradicional de consumo é baseada na desconexão.
Não nos conectamos com as nossas próprias necessidades. Uma faxina no armário comprova como possuímos muito mais do que o necessário. Ou ao menos temos muitas baboseiras das quais não precisamos. Dia desses, durante um passeio por uma feirinha de rua me vi ansiosa com o tanto de coisas lindas, decidindo o que deveria ou não comprar, dadas as minhas limitações orçamentárias. O que era para ser um dia de relaxamento, virou uma experiência de estresse e me mostrou que a minha relação com o consumo está pautada por um bando de necessidades emocionais que eu ainda preciso explorar, entender e direcionar de outros modos, mais perenes e satisfatórios do que com uma "boa aquisição".
Não nos conectamos com os produtos que compramos. No filme Money&Life, uma fala de Vicki Robin chama atenção: ela diz que, na verdade, somos péssimos materialistas. Sabemos muito pouco ou quase nada sobre os materiais daquilo que consumimos, temos pouco cuidado e apreciação com eles. A nossa relação com os produtos é frágil, descartável e utilitária. O material, por si só, não tem valor algum: quando o valor circunstancial de uso se esgota - seja ele objetivo ou subjetivo - o produto está pronto para ir para o lixo.
Não nos conectamos com os processos produtivos. Cada vez mais nos afastamos dos processos e do "fazer". Habilidades como plantar, costurar, cozinhar, consertar objetos, tão comuns na geração de nossos pais ou avós, hoje são raras. Temos uma visão limitada e fragmentada do todo. Sabemos muito pouco sobre como as coisas são feitas, e o quanto de trabalho e energia demandam.
Não nos conectamos com as pessoas que nos prestam serviços ou que fabricam nossos produtos. Por não entender o processo, naturalmente nos desconectamos das pessoas que fazem parte dele. Se alguma delas for à falência, ficar doente ou morrer certamente haverá outra que aceitará meu dinheiro para fornecer um produto ou serviço semelhante. Aqui o dinheiro tem um papel extremamente importante: ele alimenta a ilusão de que somos independentes uns dos outros.
Quando eu não me enxergo como parte de algo maior, quando me entendo como separado dos processos e independente das pessoas, é natural que eu não apresente nenhum tipo de ligação emocional ou empatia. Nesse contexto não é difícil entender porque seguimos comendo Corn Flakes, dirigindo SUVs e usando roupas da Zara. É porque não nos vemos como integrantes dos processos que causam destruição da biodiversidade e empobrecimento de pequenos agricultores; aquecimento global e redução da mobilidade; tráfico de pessoas e condições de trabalho análogas à escravidão.
Então o que me faz tão diferente dos compradores agitados daquele WalMart? Mark* só queria comprar aquela máquina de lavar que estava precisando há tempos. Desiree* queria presentear o filho com o video game que, em outra situação, estava fora da sua capacidade orçamentária. A morte de Jimbo não é só culpa deles: é sintoma de uma sociedade adoecida.
Não me entenda mal. Esse texto não é uma tentativa de te apontar como parte do problema. Também não é uma argumentação para demonizar "o sistema". De nada adianta culpabilizar o indivíduo ou as instituições, porque isso só reforça uma cultura de separação. E o que precisamos agora é começar a agir a partir de uma outra lógica, uma de reconexão. Confirmar o que já sabemos intuitivamente - que somos todos interdependentes - e agir a partir desse entendimento. É o que Tocqueville chama de "auto-interesse entendido corretamente": em uma rede de confiança e reciprocidade generalizada, ações que imediatamente nos parecem altruístas somadas, no longo prazo, geram resultados positivos para todos os "participantes".
Por isso, fica aqui a minha provocação. Antes de abrir aquele email marketing recheado de ofertas bacanudas, pare por um minutinho e se pergunte, sem julgamento: que diferença real essa aquisição vai representar na minha vida? De onde vem a energia que me leva a fazer essa compra? Essa felicidade pós-compra vai se sustentar por quanto tempo? Qual a história e processo que esse produto passou/vai passar para chegar até mim? Eu gosto de fazer parte dessa história?
No nosso coração, sabemos que estamos todos juntos em um navio prestes a naufragar. De nada adianta perder tempo tentando encontrar os culpados. É hora de começarmos a construir os botes salva-vidas e navegar em direção à outra realidade. Uma onde histórias como a de Jimbo não possam mais se repetir.
Crédito das imagens: Buy now, por edkohler; Shopping ecstasy, por David Blackwell.
* tomei a liberdade poética de inventar nomes e histórias.
Nossas roupas são nossa segunda pele. Estão entre a gente e o mundo. Tecidos que cobrem, protegem, delimitam, mostram ou escondem nosso corpo. Mesmo que você não dê a mínima importância para as suas roupas, uma coisa é fato: se você está lendo esse texto, você se veste todos os dias. Mas o que será que a forma como a gente se veste diz sobre nós?
Se parássemos de produzir roupas novas à partir de hoje, ainda teríamos vestimenta suficiente para algumas gerações de mundo. Apesar disso, a sensação é sempre de escassez, de precisar de mais. Quem diz isso são as sedutoras ofertas, as capas das revistas, ou aquele novo modelo de blusa que, de repente, está em todo lugar.
Não raro, no meio disso tudo, nos sentimos frustrados por não cabermos na peça que está todo mundo usando ou por não darmos conta de acompanhar - financeira e fisicamente, a tal da moda. Assim, nos afastamos de uma relação que poderia ser mais íntima e de mais carinho com nós mesmos e com o mundo.
Será que a gente precisa de tanto?
O que surgiu para suprir uma necessidade de proteção básica acabou virando uma forma de expressão legítima, a moda, que diz muito sobre o tempo, cultura e sociedade em que se vive. E é aí que mora a nossa chance de irmos do consumo compulsório à uma relação mais carinhosa e duradoura com os mesmos itens.
Se somos essencialmente criativos, podemos exercitar esse olhar com o que já existe dentro do contexto de mundo em que vivemos e exercitar uma nova forma de nos relacionarmos com as roupas. Transformar, trocar, usar diferente. Usar melhor.
Não precisamos de mais. Precisamos de coisas melhores, que tragam benefícios pra gente e pro mundo.
Se considerarmos todos os recursos e processos envolvidos na produção de roupas - matéria prima, transporte, embalagem, mão de obra - vamos perceber que o custo de manter uma relação descartável com as nossas peças é muito alto: para nós, para os envolvidos na cadeia e para a natureza.
O que eu aprendi transformando e trocando minhas roupas
Fui observando um pouco de cada uma dessas questões ao tentar me vestir mais da forma que acredito. Uma busca que me fez ir atrás de costureiras e tentar fazer minhas próprias roupas. Me inspirar em quem está propondo uma relação diferente com o que veste (menos ditadura da tendência e mais estilo individual). Priorizar as trocas ou compra de usados em vez de roupas novas. Conhecer melhor a relação das marcas com quem produz as roupas. Aprender a costurar.
Passei a me preocupar mais com a qualidade do que com a quantidade, em conhecer mais o tamanho e proporções do meu próprio corpo e perceber que são elas que deveriam ser minhas únicas referências ao compor meu estilo. Passei a valorizar muito mais o trabalho e tempo envolvido em todas as etapas de produção. Detalhes que a gente só percebe o valor quando experimentamos, na prática, um envolvimento mais profundo com as coisas. E é isso que me proponho a fazer: cultivar novas formas de olhar a roupa e transformar a relação com o que você veste. Por isso e pra isso, nasceu o Roupa Livre, projeto que tem a intenção de mudar nosso olhar para as coisas que temos.
Nos próximos dias 14 e 15 de novembro eu, junto com as pessoas que me aproximei por terem afinidade com esse olhar, vamos fazer o Roupa Livre Weekend. Dois dias de encontros para aprender como podemos usar melhor o que já temos, transformar o que está no fundo da gaveta em roupa nova, trocar e comprar só o que for usado ou feito de materiais reaproveitáveis, enfim, se vestir com consciência.
Que tal? Vamos juntos?
Inscrições aqui
Mari Pelli é curiosa, gosta de investigar de onde as coisas vêm, como são feitas e como a gente se relaciona com elas. Começou a costurar e a transformar suas próprias peças de roupa, depois disso, nunca mais enxergou as coisas da mesma forma.
Fontes das fotos: Flickrs de Rubbermaid products e Henry Jose.
Escassez é uma das características que melhor define a vida moderna. Em todo o mundo, uma em cada cinco crianças sofre de fome. Lutamos guerras por recursos escassos como o petróleo. Esgotamos os peixes dos oceanos e a água limpa dos subsolos. Ao redor do planeta, pessoas e governos estão economizando, cortando gastos, por causa da escassez de dinheiro. Poucos irão negar que estamos vivendo uma era de recursos escassos; muitos diriam que seria perigoso assumir o contrário.
Contudo não é difícil enxergar que a maior parte dessa escassez é artificial. Considere a escassez de alimentos: as estimativas de desperdício na produção chegam a 50% no mundo ocidental. Vastas áreas de terra são dedicadas à produção de etanol; outras tantas ainda são usadas para a plantação irrigada número um nos Estados Unidos: gramados residenciais. Enquanto isso, as áreas dedicadas à produção de alimentos são tipicamente químico-intensivas, mecanizadas e usam métodos que são menos produtivos (por hectare e não por unidade de trabalho) do que a permacultura e a agricultura orgânica.
A escassez de recursos naturais em geral é um artefato produzido pelo nosso sistema econômico. Além dos nossos métodos produtivos gerarem tremendo desperdício, muito do que se produz nem ao menos contribui com a expansão do bem-estar humano. Enquanto isso, tecnologias de conservação, reciclagem e energias renováveis continuam subdesenvolvidas. Sem nenhum sacrifício, poderíamos viver em um mundo de abundância.
Talvez em nenhuma outra área a escassez artificial seja tão óbvia quanto como no caso do dinheiro. Como no exemplo dos alimentos, a maior parte da necessidade de bens materiais nesse mundo se dá não pela falta de algo tangível - como, por exemplo, terras produtivas - mas pela falta de dinheiro. Ironicamente, dinheiro é a única coisa que podemos produzir em quantidades ilimitadas: são meros bits em um computador. Ainda assim, criamos um caminho que o torna inerentemente escasso, e que nos leva em direção à concentração de riqueza, o que significa superabundância para alguns e escassez para o resto.
Mesmo a riqueza não oferece um alívio para a percepção de escassez. Em 2011, um estudo do Boston College’s Center on Wealth and Philanthropy pesquisou a atitude em relação ao dinheiro em domicílios com um patrimônio de US$25 milhões ou mais (a média era US$78 milhões). Surpreendentemente, quando perguntados se eles se sentiam financeiramente seguros, a maioria dos respondentes disse que não. Quanto custaria para chegar num patamar de segurança? Eles responderam valores, em média, 25% maiores que seus ativos correntes.
A forma mais pervasiva de escassez é a de tempo. Povos primitivos geralmente não experienciam falta de tempo. Eles não vêem seus dias, horas e minutos contados. Eles nem tem o conceito de horas e minutos. Ao descrever a área rural de Ladakh, na Índia, a pesquisadora Helena Norberg-Hodge diz que seus habitantes vivem em um "mundo atemporal". Li relatos de que os beduínos se contentam em não fazer nada além de ver a areia passar, que os Pirahã do Amazonas ficam totalmente imersos ao observarem um barco aparecer no horizonte e desaparecer horas depois, e que alguns povos americanos nativos se contentam em sentar e literalmente assistir a grama crescer. Essa é uma riqueza que a maioria de nós desconhece.
A escassez de tempo vem da "História da Ciência" que busca medir todas as coisas e, por isso, considera que tudo é finito. Ela delimita a nossa existência às fronteiras de uma única linha do tempo biográfica, o tempo de vida finito de uma pessoa isolada.
A escassez de tempo também se alimenta na escassez de dinheiro. Em um mundo de competição, a qualquer momento você poderia estar fazendo algo a mais para estar na frente. A qualquer momento você tem a escolha de usar ou não o seu tempo de forma produtiva. Em um mundo de escassez material, você não pode se dar ao luxo de descansar com tranquilidade. Nosso sistema monetário incorpora a máxima da separação: "mais para você é menos para mim". E isso não é só uma crença ou percepção: o dinheiro como ele existe hoje não é, como alguns dizem, "apenas energia"; ao menos não uma energia neutra. Na nossa economia todo dinheiro é criado como dívida, e nessa dívida correm juros, o que significa que, a qualquer tempo, necessariamente haverá mais dívida do que dinheiro disponível. Nosso sistema espelha as nossas percepções coletivas de escassez.
"Mais para você é menos para mim" é o axioma que define a separação. Isso é verdadeiro em uma economia monetária competitiva, mas é falso em culturas antigas, as culturas de "doação". Nelas, por conta do compartilhamento generalizado, entendia-se que "mais para mim é mais para você". O condicionamento à escassez se estende para muito além do reino econômico, se manifestando como inveja, ciúmes, arrogância, competitividade social, entre outros.
A escassez de dinheiro, por sua vez, é alimentada pela escassez de amor, intimidade e conexão. O fundamento principal da economia afirma nesse sentido: seres humanos são motivados a maximizar seu auto-interesse racional. Esse axioma é a declaração da separação e, eu temo dizer, da solidão. Todo mundo é um maximizador de utilidade; estão todos cuidando de si mesmos. Você está sozinho. Porque isso parece tão real, ao menos para os economistas? De onde vem essa experiência de solidão? Em parte ela vem da própria economia monetária, que nos cerca de commodities padronizadas e impessoais, divorciadas da sua matriz original de relacionamentos, e substitui comunidades de pessoas fazendo as coisas umas pelas outras por profissionais prestadores de serviço. Como eu descrevo no meu livro Economia Sagrada, comunidades se tecem a partir de presentes, doações. Presentes criam laços de diversas formas porque geram gratidão: o desejo de dar algo de volta ou passar algo à frente. Uma transação monetária, em contraste, termina sempre que o produto e o dinheiro trocam de mãos. As duas partes seguem seus caminhos, separadas.
A escassez de amor, intimidade e conexão também é inerente a nossa sociedade, que vê o universo como composto por componentes genéricos, vazios de sentido, propósito ou inteligência. Também é resultado de um sistema patriarcal e da possessividade e ciúme que o acompanham. Se existe uma coisa abundante no mundo humano, essa coisa é o amor, a intimidade, sejam eles sexuais ou não. Somos tantos! Aqui, como em nenhuma outra área, a artificialidade da escassez é obvia. Poderíamos estar vivendo no paraíso.
Às vezes eu promovo uma atividade em meus workshops em que as pessoas tem de olhar nos olhos umas das outras por algum tempo. Depois que o desconforto inicial desaparece e à medida que o tempo passa, a maioria das pessoas experimenta uma intimidade indescritível, uma conexão que ultrapassa todas as máscaras e simulações que definem as nossas interações cotidianas. Essas simulações são muito mais frágeis do que a gente gostaria de imaginar - elas não conseguem resistir a mais de meio minuto de um olhar real e atento, e talvez seja por isso que consideramos rude olhar nos olhos de alguém por mais de alguns segundos. Esse é o máximo de intimidade que nos permitimos. Não conseguimos lidar com mais do que isso. Algumas vezes, depois dessa atividade, eu digo para o grupo: "Conseguem imaginar que toda essa riqueza está disponível o tempo todo, apenas a 60 segundos de distância, e ainda assim a gente vive sem ela por anos a fio? Se experimentássemos isso todos dias, será que ainda teríamos desejo de comprar? Beber? Apostar? Matar?”
Quão perto está o mundo mais bonito que o nosso coração diz ser possível? Ele está mais perto do que você imagina.
Qual necessidade, além das necessidades básicas de sobrevivência, é mais importante para um ser humano do que ser tocado, abraçado, cuidado, visto, ouvido e amado? Quantas coisas a gente não consome em uma tentativa fútil de se compensar por essas necessidades não atendidas? Quanto dinheiro, quanto poder, quanto controle sobre os outros precisamos ter para preencher nossa necessidade de conexão? Quanto é o suficiente? Como o estudo da Boston College sugere, não há quantidade suficiente. Lembre-se disso a próxima vez que pensar que a ganância é o vilão por trás de todos problemas de Gaia.
Um tipo de excesso obsceno acompanha cada dimensão da escassez no nosso planeta: fome e obesidade; seca e enxentes; racionamento de energia e desperdício; solidão e hipernetworking virtual; dívidas enormes e excesso de reservas bancárias; casas cada vez maiores e espaços públicos cada vez menores.
Eu poderia continuar mencionando muitos outros tipos de escassez que são tão presentes na nossa sociedade que acabamos por não notar: escassez de atenção; escassez de brincadeiras; escassez de escuta; escassez de silêncio; escassez de beleza. Eu vivo em uma casa de 100 anos. Que contraste existe entre espaços commoditificados, padronizados, perfeitos e prédios que nos acolhem, nos ambientam, e os velhos radiadores da minha casa, estalando e assoviando a noite toda, com seu ferro curvado, suas válvulas e conectores irregulares, feitos com um toque a mais de cuidado do que era necessário, que parecem possuir alguma qualidade diferente, ter vida.
Quando eu passo por shopping centers e grandes lojas de varejo, estacionamentos e concessionárias, prédios de escritório e empreendimentos imobiliários populares, cada um deles um exemplo de eficiência de custo, eu penso: “5000 anos de desenvolvimento da arquitetura e foi aqui que chegamos?”. Nos prédios vemos a verdadeira expressão física da ideologia da ciência: só o que é mensurável é real. Maximizamos nossa produção do mensurável - o metro quadrado, a produtividade por unidade de trabalho - em detrimento de tudo que é qualitativo: o sagrado, a intimidade, o amor, a beleza e o brincar.
Quanto de feio é necessário para substituir a falta do belo? Quantos filmes de aventura são necessários para compensar a falta de aventura? Quantos filmes de super herói precisamos assistir para compensar a expressão atrofiada da nossa própria grandeza? Quanta pornografia para preencher nossa necessidade de intimidade? Quanto entretenimento para substituir a brincadeira? É preciso uma quantidade infinita. O que é ótima notícia para o crescimento econômico, mas péssima para o planeta. Felizmente, o sistema natural não permitirá que isso continue indefinidamente, nem nosso tecido social, já devastado. Estamos esgotados da era de escassez artificial, falta apenas soltarmos os velhos hábitos que nos prendem nela.
Da nossa imersão na escassez surgem hábitos de escassez. Da escassez de tempo surge o hábito de se apressar. Da escassez de dinheiro surge o hábito da ganância. Da escassez de atenção surge o hábito do exibicionismo. Da escassez de trabalho com significado surge o hábito da preguiça. Da escassez de aceitação incondicional surge o hábito da manipulação. É de se admirar que estamos causando tanto estrago no planeta?
Nota do editor: texto publicado originalmente na edição 286 da Ressurgence, traduzido por Camila Haddad, com a autorização da revista e do autor. Usamos, no texto, imagem de Pedro Serra.
Charles Eisenstein é o autor do livro The More Beautiful World Our Hearts Know Is Possible (North Atlantic Books). Saiba mais sobre seu trabalho em: www.charleseisenstein.net.
Há dois anos atrás, criamos uma plataforma de aprendizagem colaborativa, onde qualquer pessoa pode compartilhar o que sabe, propondo um encontro de qualquer formato, sobre qualquer coisa. No Cinese, o importante é se encontrar, aprender, trocar e se conectar.
Mais de 4.000 pessoas já participaram e aprenderam em mais de 700 cursos, oficinas, palestras e workshops sobre gastronomia, empreendedorismo, design, auto conhecimento, saúde e muitas outras cosas mas, no Brasil inteiro.
Enquanto isso, nós aprendemos que o Cinese não é só um site para fazer cursos. É uma comunidade aberta pra todo mundo compartilhar aquilo que ama, viver o encontro, conhecer gente nova e até ser remunerado por isso.
Sempre sonhamos que mais pessoas pudessem se encontrar e aprender de forma mais barata, abundante, distribuída, autônoma e livre. E entendemos, no caminho, que precisávamos dar mais um passo.
Chegou a hora.
A partir de hoje não existe mais pedágio no Cinese. Não cobramos mais taxa dos organizadores de encontro.
Mas e agora? Como o Cinese vai seguir vivo?
Agora é taxa zero, meu amigo.
Organizadores só vão arcar com os custos de realização dos seus próprios encontros e com as taxas do meio de pagamento (a do Moip, cerca de 6%). Não vai mais ter taxa de uso do Cinese.
Mas a plataforma ainda tem alguns custos (desde servidor até algumas pessoas por detrás, pra dar o mínimo de manutenção necessária, resolver bugs, responder emails, etc) e precisa de você pra seguir vivo.
A gente pensa assim, ó: o Cinese tem que continuar vivo se as pessoas quiserem, se for útil. Então, abrimos os custos mensais do site (aqui), que totalizam cerca de R$10.435. Essa é a meta de arrecadação mensal, pra que ele continue existindo e operando.
Você pode contribuir com o quanto quiser, pontual ou recorrentemente.
Se 200 pessoas contribuirem com R$50 por mês, os custos estão pagos e a plataforma segue viva. Agora, olha só. Se todos os usuários da plataforma contribuirem, o Cinese segue existindo com R$1,00 por usuário/mês.
Quanto mais gente usando e contribuindo, menor esse custo fica.
Acreditamos absurdamente nesse modelo. As pessoas sustentando, coletivamente os projetos nos quais acreditam, libertando eles de patrocinadores, propaganda e modelos de negócio baseados na escassez. Por outro lado, se reapropriando dos processos (no caso do Cinese, o processo de educação) de um jeito mais autônomo e livre.
Como era antes?
Seguinte: até agora, nosso modelo de negócios era baseado em uma taxa (12%) que cobrávamos de quem oferecia o encontro, sobre o valor das inscrições. Ou seja, se você oferecesse um curso de R$100,00 por inscrição usando a plataforma, R$12,00 ficariam com o Cinese, além dos 6% do Moip (plataforma de pagamento seguro).
Mas esse modelo, apesar de ser bem comum a várias plataformas, nunca fez muito sentido pra nós.
Explicamos.
a) Economicamente, esse modelo é exclusivo (exclui) e inflacionário.
Excluí porque é uma catraca. Só usa quem pode pagar a taxa.
É inflacionário porque quanto mais o organizador de encontros usa, mais paga. E deveria ser o oposto. Do ponto de vista da abundância, quanto mais pessoas se beneficiam de um serviço, menor o custo por pessoa. Ou seja, quanto mais gente usa, menor o custo por pessoa.
Não queremos ser um gargalo no fluxo de encontros que entram na plataforma. Não queremos ser mais um pedágio.
b) Subjetivamente, queremos poder dedicar mais tempo ao que adoramos fazer: atender pessoas e projetos, individualmente.
Nesses anos de Cinese, ganhamos bastante conhecimento ligado ao planejamento e organização de encontros, à lógica de rede, articulação e cultivo de comunidade. Também, surgiu uma demanda imensa de pessoas e organizações por um serviço de consultoria nosso, que ajudasse a pensar projetos e organizar encontros usando esse pano de fundo que rege o Cinese, formado por pilares como economia colaborativa, inteligência coletiva e educação.
Pra não correr o risco de onerar a plataforma (tentando embutir na porcentagem um serviço que atendia a alguns, apenas), ou nos onerar (atendendo às pessoas sem sermos remunerados por isso), entendemos que o melhor era libertar o Cinese pra ele ser o que nasceu pra ser: aberto e horizontal.
Em paralelo, criamos o Barba, Cabelo e Bigode: serviço de consultoria de organização e produção de encontros.
SOMOS LOUCOS?
Sepá.
Poderíamos enxergar o Cinese como uma empresa tradicional. Aceitar investidores, seguir com modelos de negócio de sempre, focar em produtos que têm escala e crescer em doses cavalares.
Mas nós não somos uma empresa tradicional. Acreditamos numa economia colaborativa, baseada em modelos de negócio distribuídos e disruptivos e guiada por valores humanos.
Queremos seguir trabalhando no Cinese como pessoas, usuários e prestadores de serviços, ajudando mais gente a aprender livremente, se empoderar através dos encontros, se conectar com os outros e com o espaço onde vivem. Queremos ser remunerados pelo que fazemos de maneira justa, sem ter que abrir mão desse propósito.
Se você acredita em uma educação livre, autônoma e distribuída e vê valor no Cinese, contribua pra que a plataforma continue existindo, fomentando encontros e conversas reais, desengavetando conhecimento.
Clica aqui e contribua com um valor por mês. <3
Obrigadas enormes ao Kenzo Okamura, o ninja da programação que fez os ajustes necessários pra que a plataforma pudesse rodar a 0%, o Caue Rego, outro anjo da programação que surgiu na hora certa e se dispôs a ajudar como pudesse, o Oswaldo Oliveira, guia constante de desobstrução de fluxos, o Daniel Larusso, Gui Neves, Leo Correa, por compartilharem aprendizados o tempo todo, Mari Pelli, pelos toques de sempre úteis de comunicação e linguagem, o Daniel Weinmann, por ter estalado os dedos e criado o Unlock, plataforma de crowdfunding recorrente, o Rafa Nepô, fera do design, por dar o tapa na peteca com ícones e cores sempre que preciso, e a toda a rede que sustenta a Laboriosa89, espaço que nos acolhe e semeia as nossas ideias e sonhos, e a comunidade do Cinese, sempre ativa, engajada, com a qual contamos pra manter a chama acesa.
Você não tem que trabalhar por sua aparência, ela tem que trabalhar por você.
Érica Minchin
O ser humano é visual. Em segundos, antes mesmo de alguém abrir a boca, a gente processa cores, formas, texturas e proporções e formula conceitos a respeito de alguém. Sim, rola aquele julgamento consciente de “bonito/feio”, mas nosso cérebro lê essas informações e forma concepções que vão muito além disso.
E, assim, quando você se veste, você não só determina como o outro te vê/age com você, mas como você se vê/se sente/se comporta. Então, eu te pergunto: você tem se sentido bem quando olha no espelho? Se reconhece ali? Ou se sente fruto de uma enxurrada de informações que a mídia, as novelas, os filmes, a amiga e até a vendedora da última loja em que você comprou disseram que você deveria absorver, mas nenhuma faz lá muito sentido?
Muitas mulheres se sentem aprisionadas por esse tanto de informação. Olhamos para exemplos de beleza e moda que estão muito distantes da nossa realidade, o que acaba gerando dois caminhos pouco saudáveis: ou o afastamento de qualquer processo de cuidado com a própria imagem; ou a corrida insana por conquistar o corpo, o rosto e o guarda-roupa "ideais". Eu encontro muita gente que acha que se vestir bem é acordar 2h30 antes para fazer cabelo, maquiagem e provar 18 roupas (da “moda”) antes de sair de casa.
Mas, não é.
Se vestir bem é se conhecer perfeitamente, entender o que fica legal no seu corpo, saber usar seu estilo a seu favor (e adaptá-lo sempre que necessário - afinal, ainda vivemos em sociedade) e usar complementos para maximizar isso. É entender que imagem é uma forma de comunicação e escolher exatamente o que vai contar pros outros sobre si. Mais importante ainda, é saber que ninguém é igual ao outro, entender como isso é maravilhoso e fazer uso dessa sabedoria, em vez de ficar seguindo ordens de revista.
E vou te contar um segredo: quando você descobre essas coisas, você passa a economizar tempo, espaço e até energia. “Armário bom é o que trabalha por você e não o que você trabalha pra pagar” – esse é o meu mantra.
Nos dias 30/09 e 01/10 eu vou te ensinar a lidar com duas coisas que vão fazer o seu armário funcionar: as melhores maneiras de descobrir e valorizar o seu tipo físico e como maximizar o seu armário com os acessórios.
Vem se reencontrar na frente do espelho?
É só se inscrever por aqui e se preparar para duas noites de muitos (auto)aprendizados.
A Érica é apaixonada por moda desde sempre e profissional há 10 anos, e acredita que a aparência é a ferramenta de comunicação não-verbal mais poderosa que temos. Por isso ela gosta de explorar as melhores maneiras de fazer uso dela, e ajudar os outros a fazerem o mesmo.