‘— Você é cheio de surpresas, Elliétron! — Quinn olhou-o com um misto de curiosidade e encantamento. Apesar de terem construído uma amizade sem igual nos últimos oito meses, ainda havia muito sobre o que não tinham conversado. O passado surgia, vez ou outra, mas nunca com uma profundidade dolorosa. Os dois sempre souberam trazer leveza para as discussões quando necessário. Agora, estavam desbloqueando um novo caminho, no qual as conversas complexas eram inevitáveis. — Eu penso nisso o tempo todo em todo lugar, sabia? Sobre quem esteve aqui antes de nós e as escolhas que fizeram para mudar tudo. — Comentou, assentindo com a cabeça e percorrendo os olhos pelo perímetro do museu. Prestou atenção avidamente no que Elliot tinha a dizer sobre suas escolhas. Olhava-o e assentia em algumas partes, mas não o interrompeu nem por um segundo até que ele concluísse aquele capítulo da história. — Talvez não seja tão misterioso assim. Há um pouco de Química envolvida na arte de cozinhar, não é mesmo? E isso explica também os seus dotes culinários! Que incrível saber mais sobre os seus pais. Chefs de cozinha… Você deve ter tido uma infância regada à cheiros e sabores! — Sorriu, antes de continuar. — Uau…. Sempre me impressiono quando você me lembra sobre o doutorado em Química Nuclear. Você é mesmo um nerd, Elliot Hemsworth! — Brincou, levando as mãos até a cintura do rapaz e dando um aperto ligeiro e delicado, como se o provocasse. Mas seus olhos brilhavam de admiração, quando ela acrescentou. — Isso é que faz de você tão incrível! — Apenas deixou seus olhos se encontrarem por um momento antes de complementar. — É uma área extremamente importante para a sociedade atual. Tanto pode ser feito e descoberto a partir da ciência. Quando você fala sobre o laboratório, imagino você e outros cientistas malucos descobrindo a cura do câncer. Ou uma cerveja sabor chocolate. — Tentou soar leve, porque já tinham chegado próximos à esse assunto antes e ela podia notar que era algo especialmente delicado para Elliot. — Como era lá? — Tomou coragem para perguntar, ficando subitamente mais séria do que o normal. Soou até mesmo um pouco hesitante. — Fico feliz que tenha voltado. — Deixou os lábios se curvarem em um sorriso sugestivo. — Ando pensando nisso, ultimamente. Nas escolhas que nos afastam das pessoas importantes. E se realmente vale a pena…— Assentiu, começando a andar ao lado de Elliot, em um passeio pelo espaço vazio do museu. — Eu? A minha história é simples. Recebi um chamado divino que previu que eu seria uma atriz de sucesso e uma professora inesquecível. Fim. — Deu de ombros simplesmente, em tom zombeteiro. Depois, soltou uma breve risada antes de suspirar. Levou um ou dois segundos antes de começar a falar. Neste momento, assumiu uma postura diferente da que costumava transparecer perto de Elliot, mais centrada. — Eu sempre cresci com muito espaço para a imaginação. Meu pai é um ex-aristocrata que abandonou a fortuna pela minha mãe, uma hippie. Ela era artesã e contava histórias como ninguém. Cresci no barco e sempre me imaginei ganhando o mundo. Inventava um personagem por semana e assumia as personalidades deles para os meus irmãos mais novos. Eles se convenciam e eu gostava da sensação. Tudo mudou quando tive que assumir o papel da minha mãe. Ela tinha problemas com a bebida, sabe? Morreu de cirrose alguns anos depois. Foi quando decidi que queria mais para mim. Saí da Nova Zelândia com 20 anos e fui tentar a vida na Austrália. Fiquei na sua terra natal durante um bom tempo e me apeguei bastante. Fiz alguns filmes independentes, algumas peças pequenas. Depois viajei pela Ásia e morei um tempo na Índia, onde fiz uma ponta em Bollywood. Tive algumas desilusões, muitos perrengues e decidi que queria estudar. Acabei indo pra Inglaterra, conhecer meus queridos avós. Nós não tínhamos nada a ver, mas consegui uma bolsa na Universidade. Estudei Artes Cênicas, fiz pós em Literatura e entrei para um grupo de teatro bem reconhecido no cenário. Foi quando comecei a viajar pelos Estados Unidos e minha carreira deslanchou. Até ano passado, pelo menos. Meu irmão apareceu na minha porta, depois de anos isolado. Ele é… dependente químico. Heroína. Decidi que se ele tivesse que ter heroína na vida dele, que fosse eu. Fiquei sabendo da vaga como professora no Armstrong através da indicação de uma amiga. Fiquei sabendo que pagava bem e eu realmente precisava do dinheiro para pagar o tratamento dele. E aqui estou eu! Completamente ao acaso e surpreendentemente apaixonada por ser professora. — Respirou fundo. Já fazia um bom tempo que não contava nada disso para ninguém,mas sabia que precisava dizer a Elliot. Não podia cometer os mesmos erros do passado e se fechar em uma concha de segredos. Ainda tinha muito mais, mas era um começo. — Ufa, que monólogo! Acho que preciso de uma bebida antes de partirmos para as estrelas. O que acha?
---Verdade, cozinhar tem muito de química. Foi sim...tem coisas que eu me lembro e gosto até hoje. Mas eles cozinhavam mais pra o restaurante do que pra nossa casa na verdade, eram muito ocupados e aí quando eu cresci mais um pouco eu que comecei a fazer a minha comida e da minha irmã. Mas foi legal porque hoje eu não tenho problemas com cozinha, consigo fazer até que bem.--- Elliot gostava de lembrar da infância, cresceu numa casinha pequena e simples a beira do mar que hoje em dia era muito maior devido ao sucesso que o restaurante dos pais acabou fazendo mas ele amava lembrar de como era acordar e correr na praia com sua irmã. ---Eu não tenho como negar, eu sou mesmo. Quando você ver minha coleção de quadrinhos que vou ganhar o atestado de nerd mesmo--- deu risada assentindo com a cabeça ---Você acha? Eu fico feliz que ache incrível. Cerveja de chocolate?--- negou com a cabeça dando risada ---Não, a gente estudava várias coisas na verdade, era um laboratório gigante. Mas a minha pesquisa era ligada a parte da medicina, tem muita coisa de química nuclear que dá pra usar em exames, tratamentos...eu amava. Mas to feliz que voltei também, imagina só, se eu tivesse ficado lá não estaríamos aqui agora. Pensar em escolhas é um negocio assustador. --- sentia falta do laboratório mas não se arrependia nenhum pouco de ter saído, sempre tentou usar seus conhecimentos para o bem e não conseguiria dormir tranquilo se colaborasse com o que o laboratório estava fazendo. ---Um chamado divino? Okay eu até acredito porque você realmente já deve ter nascido com esse talento todo mas como que você descobriu o chamado divino?--- mudou a pergunta para ser mais exato e deu risada antes de ficar sério prestando atenção nas palavras dela e definitivamente, ele não esperava aquilo tudo. Ficou completamente sem palavras ao ouvir a história dela mas ao mesmo tempo sentiu-se especial, por ela ter confiado contar aquilo tudo e sentiu-se um pouco mal por não ter contado tudo sobre seus motivos para sair da Australia e voltar a Califórnia, pretendia contar ---Nossa...Quinn eu...de verdade fico feliz que confia em mim pra contar tudo isso. Você é ainda mais forte do que eu pensava...eu admiro você, por lidar com tudo isso e ainda ter esse sorriso assim...que alegra qualquer um. E quero que você saiba que pode contar comigo. O seu irmão tá melhor? --- sorriu a olhando com verdadeira admiração, nada como saber a historia de alguem para entender realmente quem era aquela pessoa. ---Uma bebida seria uma boa, será que aqui tem?-Eu acho uma otima ideia, quando é que eu não gosto das suas ideias?-- perguntou a olhando