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f l a s h b a c k
Tinha tanto que queria poder falar para ela. Ia desde como tinha sido sua rotina até chegar na escola — o que não era grande coisa assim agora que parava para pensar — até perguntas mais complexas em relação a como estava sua vida desde que o deixara em Wisconsin. Algumas poucas vezes que parava para pensar sempre a imaginava chegando ao posto que ela sempre almejara. Vez por outra pesquisava seu nome no Google tentando descobrir se teria algum filme que tivesse feito, ou se seu talento já tinha sido reconhecido. Porque Clive sabia o quão talentosa ela era; foi uma das primeiras coisas que observou ao assisti-la no teatro quando sua peça passou pela sua cidade. Claro, isso, e a cor dos seus olhos.
Estar assim de frente para ela já não mais estava sendo tão difícil como imaginava, baseado na primeira vez. Culpava a situação inusitada, a falta de preparação. Agora já fazia alguns dias e conseguia enxergar tudo voltando aos seus trilhos. Ainda que não estivesse totalmente confortável com a ideia de vê-la todos os dias e não poder tocar a sua mão; ao menos fingiria. Era o que ele precisava fazer. Até porque agora ela realmente parecia ter seguindo em frente; talvez estivesse vivendo algo incrível com o outro professor e quem seria ele para tentar tirá-la de sua bolha de felicidade. Se não conseguia encontrar uma para si, não iria destruir a dos outros. Afinal de contas, ela ainda era importante. Sempre seria. Será que era por isso que a imagem de Eliott beijando ela ainda doía? Torcia tanto para ser mentira, não passar de um boato, mas algo o dizia que não era bem assim.
“Dizem coisas que eu sequer seria capaz de repetir. Acho que você pega um pouco pesado com eles” brincou, percebendo que o riso que se seguia era genuíno. “Você quer me explicar agora porque diabos você faria isso? Está tentando matar alguém? Eu sei que a carreira do teatro é competitiva e que o lema para dar sorte é quebre a perna, mesmo que isso me faça refletir se é realmente um cumprimento de boa sorte, mas não imaginava que você tão competitiva assim.” As palavras saiam com certa facilidade. Sequer precisava se esforçar para encontrar o que considerasse ideal à situação. Tudo o que tinha que fazer era controlar-se para não falar demais e acabar arrependendo-se de algo que dissesse. Porém sabia que isso não era muito do seu feitio. Sentir… O que você sente agora? “Bem, acho que precisarei ir. Tenho uma aula em cinco minutos e já não tenho muita credibilidade por ser um mero professor de música. Atrasar-me não parece um bom método de conseguir respeito. Ou talvez eu comece com suas técnicas de terrorismo envolvendo cordas e andaimes para a sala. Aparentemente isso surte algum efeito.”
Tinha tanto para perguntar, para esclarecer. O ritmo intenso dos anos havia feito com que a Cowatt esquecesse da naturalidade com que Clive podia conduzir uma conversa. Ao menos com ela. Ele era direto, sem rodeios ou meandros, e parecia desnudar sua alma como ninguém. Quando estavam juntos, em Winsconsin, ele tinha o hábito surpreendente de deixar claro suas opiniões, dizendo-lhe o que ela precisava escutar. Ainda que não fosse exatamente o que queria ouvir. Isso sempre acabava por fazê-los rir em meio as provocações dessa doce sinceridade. Apesar dos encontros e desencontros, àquele fragmento insistente de familiaridade pareceu furar a bolha de hesitação. Era isso que o levaria longe, pensou Quinn, sua fidelidade aos princípios que o moviam. À música, à arte, à simplicidade poética da vida.
Disseram coisas que eu sequer seria capaz de repetir. O coração de Quinn afundou, como se pressionado pelo peso dos outros órgãos. Havia outra característica curiosa na sintonia compartilhada entre os dois: Eles eram capazes de se comunicar através de enigmas e meias palavras. Será que ele sabia? Será que tinha como saber? O fato dos boatos estarem circulando com velocidade avassaladora, não era tão difícil de processar quanto a possibilidade de Clive ter descoberto sobre seu envolvimento com Elliot por terceiros. O que ele estaria pensando? Será que estava magoado ou ressentido? Ou sequer estava ligando para isso, tendo transformado o que existiu entre os dois em memórias distratantes e insignificantes? Pensar nisso a fez sentir um tanto nauseada. Os barulhos externos e as fofocas sussurradas pelos professores também não ajudavam a fazê-la se sentir melhor.
Ainda que inundada por sensações desagradáveis, o resto do comentário do rapaz a fez rir. Um riso hesitante e surpreso, que escapou-lhe entrecortado por entre os lábios. A ideia inicial era responder-lhe com determinação, mas a forma como ele colocou o raciocínio venceu a superficialidade de suas deliberações. — Pesado? Eu não pego pesado. Eu... — Balançou a cabeça em negação, tentando encontrar as palavras certas. Mas foi vencida, por fim, fazendo um gesto inquieto e derrotado com as mãos. — É, talvez você tenha razão! Eu poderia tentar uma abordagem mais...amigável. — Desabafou, rindo mais um pouco sobre a referência usada por ele com a expressão quebre a perna. — Eu juro que estudei tudo muito bem para me certificar de que ninguém quebraria, literalmente, a perna. Ou a coluna. — Ergueu uma sobrancelha, divertida. — Eu estava tentando criar uma metáfora sobre a atuação ser um mergulho. Pular de cabeça. Deslocar-se minimamente do seu corpo para encontrar um novo eu. Faz sentido? — Perguntou, genuinamente curiosa para saber a opinião do rapaz. Minutos depois, ele anunciou que teria de partir. Algo nela não queria quebrar essa recém-descoberta atmosfera de paz armada. Muito embora soubesse que era inevitável. Talvez ela ainda não tivesse se acostumado a vê-lo partir. — Se estiver precisando de dias mais tranquilos já sabe o que fazer. Instale um andaime na sala de música e ninguém aparecerá. — Curvou seus lábios em um sorriso brincalhão. Subitamente a sensação de náusea voltou a dominá-la. — Quem sabe eu não te acompanho... Acho que o banco dos desajustados não está suficientemente excluído do resto do mundo. — Levantou-se e o acompanhou até a porta. No corredor, falaram sobre amenidades e em algum momento Quinn decidiu tocar no assunto do baile. — Sabe, os professores podem ser ainda mais fofoqueiros que os estudantes quando querem. Aposto que ainda estão discutindo o baile. Houve um acidente e... — Eu beijei meu melhor amigo e agora estou num abismo de sentimentos. Decidiu mudar o caminho. — Não te vi por lá. Estava fugindo do drama adolescente? — Tentou soar descontraída, mas manteve os olhos no chão. Ao chegarem na porta da sala de música, preparando-se para finalizar o assunto, —Bom, está entregue ao seu templo. Clive, eu... — Começou, apoiada no parapeito. Sustentou o olhar do rapaz, com os próprios olhos faiscantes. Hesitou, como começaria a falar. Então sua visão periférica registrou o piano e teve uma ideia. — Queria te mostrar uma coisa. Você se importa se eu entrar por um minutinho?









