i. fumaça
Luzes coloridas. Decidiu ali mesmo com o grave retumbando no seu corpo que iria começar a fumar mais que só as vezes. Da janela, Kalfr viu Raven e Steven conversando no quintal, os pontos brilhantes de seus cigarros como duas estrelas no céu noturno. Falavam gesticulando numa conversa acalorada, entretendo um ao outro, o que de perto, ele sabia, devia fazer a fumaça ganhar mais curvas, se enroscando no ar até desaparecer. Teve a impressão que ela subia até o segundo andar, atravessava o vidro da janela, e embaçava-lhe a vista.
ii. carro
"Como Ă© que a gente vai voltar pra casa?"
Steve começou a rir às custas do rapaz. Quando Raven disse que não, a essa hora não passavam mais ônibus, Kalfr entrou num estupor e sentou no meio-fio. Achava graça porque via Kalfr como um caipira que veio dum lugar muito, muito gelado. A embriaguez deve ter o feito se esquecer das tecnologias que já existem.
Controlou seu riso para poder provocá-lo. Fingiu: "Não estamos com carro, então vamos ter que ir andando."
"Porra, mas todas as coisas aqui sĂŁo muito distantes!"
O ruivo se encostou numa lamúria na perna de Raven, que estava em pé logo ao lado, celular em mãos.
"A gente vai pedir um motorista, Kalfr," explicou finalmente, a voz distante, de sono e de falar alto por cima de mĂşsica. "Steve. Vem com a gente?"
Gostava disso; gostava do pedido ao invés da pergunta você vem ou não?, gostava de conversar com Raven depois de algumas boas doses, como ele abandonava a polidez que o distanciava dele. Hoje Raven o abraçou espontaneamente, talvez depois de ouvir algo engraçado vindo dele ou que achou adorável, porque veio acompanhado de um cômico "eu te adoro, nunca mude!", mas Steve já não lembrava mais o que causou a reação. Só lembrava da melhor parte.
Na viagem de volta, ficou no meio de dois sonolentos. Seu corpo ainda funcionava no fuso horário dos Estados Unidos, acrescido da euforia da festa e da bebida. Puxou conversa com o motorista sem nem saber por quê, falou que para ele que era bom os vidros meio abaixados. O frio da noite corria. Kalfr agora se encostou no ombro dele, sua presença sempre morna; o ombro de Raven contra o dele era firme, e seu cabelo longo agitado pelo vento às vezes lhe fazia cócegas no pescoço.
iii. café
O relógio marcava duas horas e meia da manhã quando chegaram. O apartamento de Raven parecia diferente naquele horário, o prédio todo em silêncio. Até as quinquilharias pareciam estranhamente mais estáticas, como se esvaziadas.
"Eu passei a minha vida toda considerando que-" ele pausou para desligar o fogĂŁo, "se volto Ă s duas da madrugada, Ă© tarde. Mas se eu estiver voltando Ă s cinco, Ă© cedo. Isso nĂŁo vai ficar tostado demais?"
Kalfr tinha puxado uma cadeira e sentado na cozinha, monitorando os queijos-quentes. Ele escutava Raven falar e ao mesmo tempo ouvia o que Steve, na sala, colocava para tocar na caixa de som.
"Não, vão ficar perfeitos. Eu conheço sua sanduicheira melhor do que você."
"É só o que você faz nessa cozinha."
"Que mentira. Passo café e faço pipoca de microondas também. Por que cê tá fazendo coado ao invés de espresso?"
"Kalfr, eu sou mais velho do que vocĂŞ, nĂŁo Ă©?"
"O que isso tem a ver?"
"E eu sei de algumas coisas que vocĂŞ ainda vai aprender, nĂŁo Ă©?"
"Mas o que isso—"
"VocĂŞ nĂŁo vai querer o espresso agora."
Logo o cheiro de café começou a estar presente. Raven alternava entre adicionar mais água quente e olhar para Kalfr, que já buscava suas canecas favoritas, a dele e a de Raven, e mais uma para Steve. Kalfr, que já sabia onde achar as coisas na casa dele. Kalfr, que navegava por seu apartamento com tranquilidade, como se sempre tivesse pertencido ali. Kalfr que tinha sua caneca favorita da coleção que na verdade era de Raven.
Raven soprou o café enquanto continha um pequeno sorriso.
iv. conversa
Deu o seu melhor para manter sua energia alta durante a noite inteira, elétrico o suficiente para ceder um pouco dela até para quem precisasse. Mas acabou que, depois de tocarem música no limite máximo do que era apropriado pro horário, Kalfr precisou fechar o olho um pouco.
Ficou com o sofá todo para si e os dois outros foram para a mesa logo atrás. Quando acordou dos quinze minutos de cochilo, as vozes deles se misturavam com a de Billy Corgan, que ressoava mais baixa na caixa de som como uma lembrança vaga. Pôs-se a escutar.
"...E essa Ă© a histĂłria. Ela era muito carente e eu nĂŁo."
"Mas no resto do tempo, vocĂŞs davam certo," Raven disse.
"É. Na cama." Ouviu uma risada.
"Ăšnico lugar em que a carĂŞncia dela nĂŁo te enchia o saco."
"...Exatamente. Meu Deus, Raven, vocĂŞ Ă© horrĂvel."
"SĂł porque eu divido neurĂ´nios com vocĂŞ."
Havia alguns assuntos que Kalfr não conseguia conversar com Raven e Steven. Como mulheres e sexo. Qual vinho de preço médio é o melhor. Em que lugar se comprava loção pós-barba tão cheirosa.
Talvez ele deveria ter mais amigos da idade dele.
Ele se direcionou para onde estavam e levantou as mĂŁos. "Parem essa conversa agora."
Ficaram quietos. Se entreolharam antes de voltar a atenção para o rapaz. Sua postura dizia que anunciaria algo.
"Vou começar a fumar."
...Se entreolharam de novo, mais sutil agora. Até que começaram a dar risada. Kalfr sentiu a ponta das orelhas esquentarem. "Qual a graça agora?"
"Olhe." Raven mexeu na taça de vinho. "Você não deveria. E outra coisa, Arisen, você vai ficar roubando os meus ao invés de comprar os próprios cigarros."
"Já aprendeu o trago francês?"
Como se lembrado de que roubar era algo que podia fazer, Kalfr tomou um gole da taça alheia. Raven sequer piscou. "NĂŁo aprendi. Dos franceses eu sĂł gosto do jeito que fazem revolução." Observou o lĂquido escuro girar no vidro. "Como Ă©?"
Tudo que nĂŁo presta Kalfr aprendeu eles.
v. sacada
"Pela última vez." Kalfr aspirou o ar noturno, tentando recobrar a calma. "O seu corpo não sabe a diferença entre vinho, cerveja e qualquer destilado. É tudo álcool! Ele metaboliza tudo como álcool! Misturar não faz diferença!"
"Mas eu estou te dizendo que eu nĂŁo posso misturar cerveja com vinho, que eu passo mal."
Eles davam voltas no mesmo assunto, reformulando as mesmas sentenças toda vez. Raven teve que se segurar na sacada para não correr o risco de cair de tanto rir. "Ele está zoando contigo, Kalfr." Mas ninguém pareceu escutar.
"Sabe o que eu acho? Você deve ser alérgico a cevada."
Steven parou.
"Alérgico a cevada? Isso não existe."
"Existe." Raven limpou uma lágrima. "SĂŁo os celĂacos."
"CelĂacos?"
"É gente que tem alergia a glúten. Tipo cevada, como você falou."
"Eu nĂŁo acredito em celĂacos." Steven tomou um longo gole de vinho e se endireitou, prestes a discursar. "Porque se Deus mandou que compartilhássemos o pĂŁo..."
Ainda faltava um bocado para o sol nascer.
vi. cama
Quando Steven comentou que precisava esticar as costas, não imaginou que o dono do apartamento ofereceria a própria cama ao invés de um educado pode ficar com o sofá só pra você. E não antecipou que os dois viriam junto: Raven, pelos mesmos motivos que ele, e Kalfr, por causa da companhia.
SĂł porque a cama de Raven era de casal nĂŁo significava que ela era gigante, o que os deixava com os ombros encostando nos do outro. Mas estamos irritantemente muito vestidos, pensou, e pouco enroscados, como se fĂ´ssemos ĂłrfĂŁos pobres dividindo cama.
Até que Kalfr sentou na cama e, com naturalidade, tirou a camiseta e a jogou numa cadeira que já acumulava outras. "Calor," explicou, e deitou de novo ao lado de Raven.
Steve, do outro lado, considerou a situação. Raven ofereceu sua casa, sua bebida e atĂ© a prĂłpria cama. Talvez era a hora dele e Kalfr retribuĂrem o favor, aproveitando que estavam ali, o encurralando como fazem os canĂdeos. Ele pĂ´s uma mĂŁo no meio do torso de Raven — nem muito baixo, nem muito alto, mas ainda um toque intencional —, pĂ´de sentir as batidas de seu coração. Lançou um olhar para o ruivo, na expectativa de que encontrasse algo que denunciasse no rosto dele o mesmo pensamento, uma fome semelhante.
"O que foi, Steve?" Kalfr disse.
"...Nada." A mĂŁo permaneceu ali, sobre a maciez do tecido da camisa. "Esqueci."
Ele segurou um botão entre o polegar e o indicador, com vontade de desabotoá-lo e sem poder. De repente toda a atenção do cômodo voltou-se para isso, esperando o que faria em seguida ou qual seu propósito.
Foi Raven quem disse agora, "O que foi, Steve?"
"É diferente dos outros. Dos outros da camisa."
Os demais tinham um aspecto perolado, enquanto o diferente parecia ser de metal, frio ao toque. Steve tocou nos outros botões, experimentando a sensação deles, mão resvalando até mais perto do peito—
levou um peteleco de Kalfr na mão. Dessa vez, o olhar que Steve lhe mostrou era indignado. Antes que pudesse reclamar, já foi interrompido:
"Raven, vocĂŞ nĂŁo ia procurar um vĂdeo tutorial de trago francĂŞs pra ver se alguĂ©m consegue explicar essa merda?"
"Ah, sim."
Ele e Kalfr Arisen nĂŁo conseguem jogar no mesmo time.
vii. sol
O tempo é a respiração de Kalfr dormindo em seu peito. A forma como Steve o ajudou a tirar uma mecha do rosto quando o cabelo se bagunçou. Os múrmurios sonolentos de boa noite praticamente contra sua pele. Uma luz do dia que se acizentava de tão acanhada.
Seus calcanhares estavam enroscados já não sabia mais com quem. O cheiro de cigarro parecia impregnado em tudo e fazia sua cabeça pesar. Não sabia como continuava acordado, sequer lutava contra o sono.
Mas não se importou muito. A manhã chegou gentil. Viveu o prolongamento das coisas, o mundo secreto que só existe quando o cedo é cedo demais. Como ninguém estava vendo, ele guardou em si essas demoras; assim, quando todos acordassem e seguissem com a normalidade, elas não se dissipariam. E segurou esse tempo na memória.












