𝐚𝐧𝐝 𝐚𝐬 𝐭𝐡𝐞 𝐲𝐞𝐚𝐫𝐬 𝐠𝐨 𝐛𝐲 𝐨𝐮𝐫 𝐟𝐫𝐢𝐞𝐧𝐝𝐬𝐡𝐢𝐩 𝐰𝐢𝐥𝐥 𝐧𝐞𝐯𝐞𝐫 𝐝𝐢𝐞. + IVAN STEVANOVIC
Passada uma década, Ivan achou que jamais chegaria o dia em que escutaria seu nome na voz de Moritz. Agora que estava na presença dele novamente, percebia que nenhuma das lembranças que tinha do amigo faziam justiça à sua pessoa. O médico sentia-se ligeiramente tonto; tinham sido longos anos e. embora tivesse se envolvido com uma ou outra pessoa no meio do caminho, não se lembrava de ter sentido algo tão intenso quanto agora, à simples visão do melhor amigo.
Sabia que já faziam alguns segundos que ele apertava os braços ao redor do outro, mas ainda não sentia a mínima vontade de soltá-lo - ora, estavam há dez anos sem se ver, ele podia extravasar um pouco. Tinha a impressão de que Mozzie tremia um pouco; ou talvez ele próprio estivesse tremendo, não sabia dizer. Ivan fechou os olhos, encostando a testa no ombro do outro homem e permitindo-se inspirar profundamente - o perfume do moreno o atingiu e a leve tontura o atingiu novamente. Foi impossível não lembrar, ainda que por breves momentos, de seu período no exército. O Stevanovic era auxiliar de enfermagem na época, não ficava na linha de frente, mas já passara por sua cota de situações perigosas em serviço. Em todas elas, o rosto de Mozzie lhe aparecia na mente, trazendo consigo a dor de nunca ter se despedido apropriadamente do amigo de infância. Poder abraçá-lo novamente, ouvir sua voz, sentir seu cheiro, conversar com ele - mal podia esperar para ouvir como havia sido sua vida nesse tempo em que estiveram longe um do outro - parecia uma segunda chance, uma que Ivan não sabia se merecia.
A menção do diminutivo de seu próprio nome por ele o fez fechar os olhos por alguns segundos. Tudo era familiar - o abraço carinhoso, a forma afetuosa que os dois se olhavam - mas ele não pôde deixar de perceber que havia algo diferente nos toques dele. Moritz sempre foi habituado a comunicar-se com as mãos, seja como quando usava a linguagem de sinais, ou quando cozinhava para os mais queridos. Ivan aprendeu a reconhecer rapidamente os gestos e toques do amigo, e a forma com que as mãos dele esgueiraram-se por baixo de seu jaleco para segurar o tecido de sua camisa não lhe escapou - muito menos o beijo discreto que ele deixara em seu pescoço. “Faz pouco mais de um mês que cheguei! Por Deus, desde quando você está aqui? A gente precisa tanto conversar…” Sua voz saiu abafada, uma vez que ele ainda escondia o rosto no ombro do amigo; ele afastou-se ligeiramente, os olhos claros examinando mais uma vez o rosto do moreno.
Ivan arregalou os olhos em surpresa e admiração quando Mozzie lhe contou que também trabalhava lá. “Como assim? Como cozinheiro? Você conseguiu seguir carreira?” Pelos céus, eles tinham muito a contar um para o outro, e o Stevanovic não queria esperar nem mesmo um dia. A bem da verdade, não queria nem que aquela consulta acabasse, receando que tudo fosse um delírio seu. Tantos anos… Seus devaneios foram interrompidos quando o amigo começou a descrever seus sintomas, e ele inspirou profundamente em uma tentativa de recuperar um pouco da própria postura. Ele estava ali para ser atendido, afinal, e o médico já era bem familiarizado com o problema auditivo do amigo. “Desde o final do ano? E você só está passando no médico agora, sr. Kozel?” Perguntou - o tom de censura estava lá, mas naquele momento não conseguiria ficar bravo de verdade com ele. “Vem cá, deixa eu dar uma olhada.”
Ele o conduziu até a maca do consultório para que se sentasse e dirigiu-se ao seu armário para pegar o otoscópio. “Eu vou precisar tirar seu aparelho para olhar, tudo bem?” Perguntou; as luvas descartáveis já haviam sido colocadas em um gesto rápido. Com cuidado, ele removeu o aparelho da orelha do rapaz antes de usar o otoscópio para examiná-lo. A mão esquerda posicionou-se gentilmente no lado oposto da face que examinava para guiá-lo na direção correta. Talvez a forma como o polegar deslizou sobre o maxilar alheio não fosse exatamente necessária para o exame, mas ele mal percebera o gesto até tê-lo feito. A inflamação era clara, mas nada que trouxesse grande preocupação.
“Seu ouvido inflamou um pouco, Mo. Às vezes isso acontece quando vamos para um ambiente de maior ou menor pressão atmosférica. Os tímpanos sentem, e os seus são mais sensíveis. Mas nada que um anti-inflamatório não resolva.” Ofereceu um sorriso gentil ao amigo antes de tirar as luvas e esticar o braço até o outro armário ao lado da maca, pegando dali uma caixa de anti-inflamatórios e outra de analgésicos. “Este aqui você vai tomar uma vez a cada oito horas por cinco dias. Este aqui também, mas só se estiver com dor, tudo bem?” Entregou as caixas nas mãos de Mozzie e, bem, talvez o roçar das mãos tivesse demorado alguns segundos a mais do que o necessário. “Não acredito que tô atendendo você…” Comentou, os lábios voltando a se curvar em um largo sorriso. “A que horas seu expediente termina?”
Enquanto Ivan não desse sinal de lhe soltar, Moritz ficaria satisfeito de ali permanecer. Não se importava com a dor no ouvido, fazia muito tempo que não via o melhor amigo e estar perto dele dava a impressão de que suas forças tinham eram, pouco a pouco, renovadas. Suas esperanças estúpidas também, já que pelo aperto tão seguro do outro homem, ele deveria ter sentido sua falta também. Os anos haviam se passado, estava mais maduro, já compreendia finalmente o que acontecia consigo; o que se passava em seu interior, não era mais um problema, apenas algo que decidia ignorar com fervor. Mas a presença de Ivan tornava isso quase impossível de ser ignorado. Será que o amigo sentia a forma apressada e tão descompassada que seu coração batia no peito?
Torcia que não. Seria vergonhoso.
Por sorte, conseguiu segurar as lágrimas. Apesar dos olhos marejados da emoção de poder sentir a quentura do corpo dele contra o seu, do aroma delicioso que o mesmo emanava e a segurança que sentia estando ali nos braços do mais velho, Mozzie se orgulhou de nao deixar as lágrimas caírem. Seu coração quase saltou pela quando o ouviu falar novamente. Tantos anos sem ouvir aquela voz? Agora via o quão sentiu falta. Aquele peso constante em seus ombros, em seu interior, desaparecia. Mal percebeu que, ao longo do tempo separado do melhor amigo, seu coração tinha se fechado e algo pesado habitava dentro de si. Só notava isso agora pois a diferença em seu interior era imensa. Sentia-se leve.
' —— Um mês? Caramba, Iv!' comentou surpreso. Poderia tê-lo encontrado há um mês se tivesse seguido os conselhos de todos e ido procurar um médico? Mas estava tão atarefado com o final de ano! Mal teve tempo de respirar em dezembro. E então janeiro entrou, a viagem aconteceu; não havia como separar um espaço e ir ao médico. Se encontraram agora pois era a hora certa, preferia acreditar.
' —— Eu estou aqui há oito anos. Como cozinheiro, sim. Eu segui. Me formei em gastronomia e vim trabalhar aqui, antes mesmo de terminar eu já tava aqui nas férias.' explicou, lamentando então o fim do abraço antes que ocupasse o espaço na maca. Seu rosto exibia uma sombra rosada ao receber a bronca, o olhar caindo para o colo antes de subir sem jeito de novo para encará-lo porque, bem, a verdade é que não conseguia parar de olhar o rosto do amigo. Queria ter a certeza de que ele estava mesmo ali e que isso não era um delírio da dor ou consequência dos inúmeros remédios que tomou nos últimos dias para acalmar aquele incômodo no ouvido.
As mãos de Ivan chegaram em seu rosto novamente e Mozzie precisou conter o suspiro de contentamento. A delicadeza com o qual o homem lhe examinava, a carícia suave em sua mandíbula... foi impossível não fechar um pouquinho os olhos. Não demorou muito, logo os abria e encarava seus próprios dígitos que o mantinham perto. O cozinheiro continuava com as mãos segurando a camisa do médico, não queria soltá-lo de jeito nenhum. Mas precisou fazer, pelo menos uma das mãos, claro, para que os remédios fossem recebidos. ' —— Eu não tive tempo de vir ver o que era isso, tinha muito trabalho.' confessou a displicência consigo mesmo, evitando o olhar do agora mais alto. Como o ouvido no momento realmente doía, Mozzie finalmente o liberou de ambas as suas mãos e tirou um dos comprimidos indicados para a dor. Não se importava de tomar a seco, então assim o fez. O gesto tão automático que já nem sentia, quantas vezes não repetiu isso no último mês por não poder parar de trabalhar para pegar um copo de água? Ingerindo o remédio, guardou as caixinhas no bolso da jaqueta que vestia antes de voltar a olhá-lo, dessa vez diretamente.
' —— Não tenho trabalho por hoje, eu acordei com muita dor e me expulsaram da cozinha, não vou poder voltar até amanhã.' explicou com uma careta antes que risse fraquinho e o abraçasse novamente. Dessa vez, sentado e Ivan em pé, a diferença na altura o fazia ter a cabeça no peito do médico. ' —— Se importa se eu ficar um pouco mais? Ou, droga, você tem outro paciente depois de mim? Tipo, agora?' o Moritz adolescence ficaria desconfiado de soar tão necessitado da presença alheia, mas o adulto ali? Não se importava. Só queria o manter mais consigo.















