Diário 16 - Vergonha
Se a criança que foste te visse agora, o que sentiria?
Esta é uma questão engraçada, não é? Encaraste com os olhos e a perspectiva daquela época, daqueles tempos fáceis. Sim, “fáceis”. Pois de outra óptica todos os problemas passados tornam-se ínfimos.
Mas agora um pouco de egoísmo, falemos de mim, não fossem estes diários, estes textos para aqui perdidos, estes desabafos, em mim focados.
A criança que eu fora odiar-me-ia, isso garanto. Aquela criança, aquele ser esperançoso e alegre, por vezes surge em mim. Fica por um tempo, banha-me com os seus sonhos e desejos e depois… Depois parte porque este não é o seu lugar. Retorna para a memória, para o sítio onde tudo é belo e correto. Onde é “fácil”.
Mas convínhamos, é fácil o nosso “Eu” passado ter vergonha de nós. Ele não passou pelo que passamos, ainda não. Que sabe ele sobre os dissabores que experienciamos? Que entende ele desta dor que carregamos, dos nossos arrependimentos?
Conseguem vê-lo? O vosso passado a julgar-vos, ali, inatingível.
Eu sou de remoer o passado, especialmente quando me perco no presente. Temo por mim, tempo que a minha sanidade se tenha perdido, ou melhor, que tenha sanidade a mais. Já alguma vez ficaram tristes porque achavam que era assim que deviam estar? Já pararam para pensar se agem assim porque é o que querem ou porque acham que as atitudes que praticam encaixam no papel que desempenham? Já ficaram apáticos num piscar de olhos?
Eu não sei… Só sei que estou na merda. Este texto, este desabafo merdoso que para aqui fiz é mais uma das minhas tentativas parvas de atingir algo.
Tenho vinte e um anos, os “e dois” estão a chegar e o que tenha a mostrar? Um conjunto de dores e desilusões. Um desemprego iminente, uma ruinosa vida amorosa, um milhar de sonhos inalcançáveis, e vergonha… Vergonha de quem sou, vergonha do que fiz, vergonha do que serei.
Já ponderei o meu fim, e isto não é de agora, não se enganem. Vem de trás, muito atrás, dos quinze, talvez mais. Seria uma opção, pois para muitos o é. Mas não para mim. Não porque “Ah, eu sou tão forte” ou “Não seria capaz de lidar com o o sofrimento que ia causar nos outros.”. Não quero saber disso. O que me matem é o desconhecido, não saber que as coisas vão melhorar caso eu parta, não saber como tudo se concluíra. Existem tantas histórias, tanto para conhecer, porque haveria eu de me privar tão prematuramente disso?
Pois se eu detesto assuntos inacabados, porque haveria de me tornar um?















