Quando termina mesmo sem terminar
Desde aquele primeiro dia, aquele apresentação sem jeito e meio fora do esquadro, tudo começou sem aviso. Eu não sabia ainda o tamanho do espaço que você ia ocupar em mim — um olhar rápido, um gesto qualquer, e algo em mim entendeu que você seria diferente. Depois veio o bar perto da sua casa, a conversa que fluiu sem esforço, o riso leve. E logo o segundo encontro, que nem parecia segundo, porque já havia uma intimidade inexplicável. Você me deixou entrar num pedaço do seu mundo — no medo, na doença, na vulnerabilidade. Eu ocupei o papel de esposa, de acompanhante hospitalar, de enfermeira, e ali, quando percebi o quanto queria te proteger, entendi que estava perdida em você.
Aquela noite em que acabamos juntos não foi só corpo, foi entrega. Foi como se a vida tivesse dado uma trégua pra dois seres cansados que, por um instante, se encontraram no meio do caos.
Desde então, tudo mudou, e eu também. Vi você lutar, se fechar, carregar o peso do mundo nos ombros. E agora te ver preso, limitado, é como assistir um pássaro ferido tentando voar — e eu sem poder tocar, sem poder soltar. Essa é a parte que mais dói: saber que eu daria tudo pra te libertar, mas que há batalhas que não me pertencem.
Eu quis ser colo, calmaria, refúgio. Às vezes consegui, às vezes só piorei o teu silêncio. Mas cada gesto meu veio de um lugar puro, ainda que confuso.
Você sempre foi enigma e abrigo ao mesmo tempo. E mesmo agora, com tudo que pesa, ainda há uma parte de mim que sente o cheiro da tua pele no ar, que lembra do teu abraço desajeitado e do jeito como, por alguns segundos, o mundo parecia calar.
Talvez a gente não se encaixe mais. Talvez nunca tenha sido pra durar. Mas não posso fingir que não aconteceu. Porque aconteceu — de um jeito que marcou, mesmo sem promessas, mesmo sem planos.
Eu só queria que você soubesse, ainda que nunca leia isso, que cada momento foi real. Que eu te amei, e ainda amo, de um jeito que ultrapassa as palavras. E que, apesar da dor, eu sigo torcendo pra que a vida te devolva a liberdade, o riso e o descanso que você tanto merece.
E se um dia o vento soprar teu nome de volta pro meu caminho, talvez eu ainda esteja aqui — não esperando, mas inteira o bastante pra te olhar de novo sem me perder.
Com tudo que sobrou de mim!








