thejammybastard:
- Por Santa Margaret! Custa realmente tornar meu sonho realidade e me chamar de Pipi? - ele disse assim que entrou na casa de Elissa. Não avançou pelo espaço, esperando-a nortear o caminho. - Olha só, mas que mulher inteligente! Nunca pensei que você descobriria meu plano de tentar sabotar duas vigilâncias de uma vez só. No entanto, acho que melei o lance de Lorenzo, pois reconheci um dos garotos à paisana e me pergunto se seu parente tem noção de que a juventude tem que estudar antes de ser soldadinho quebra-nozes. - o tom dele mudou repentinamente. Mais endurecido em reflexo da sua insatisfação, fosse com a vigilância que ele e Elissa recebiam, fosse pelo garoto que deveria ter menos de 25 anos e parecia apavorado ao ter explodido um dito disfarce. Suspirou, consternado, seguindo Thorne pela sala. Não se acomodou, pois, apesar da típica atitude brincalhona, que não se perdeu em meio ao breve azedume, havia uma inquietude particular palpitando na sua mente e que o movera para aquela visita inesperada. Distraiu-se pelo tempo que Elissa mexia no celular e um sorriso fraco pontuou o canto de seus lábios ao vê-la de braços cruzados. Tinha seu Q de entretenimento sim. Um fio que se dissipou assim que findada a aproximação, revelando que ela parecia na defensiva. Só calculava aquilo porque conhecia-a bem demais em níveis de aborrecimento por sua causa, ao ponto de antever algum pico de briga iminente. Não que brigassem, mas, considerando as incertezas que pairavam constantemente sobre ambos, um disparo poderia ser o suficiente. Ainda mais pelas motivações de estar ali, com vários pensamentos sobre Theodore e analisando a cara amarrada, cheia de censura, da ex-corvina. O alívio veio a seguir, pois ser cobrado pelo sumiço não o poupou de rir, divertindo-se. - Boireannach beag, eu tenho lá cara de quem tira tempo pra si mesmo? - Malcolm indagou em um tom debochado. - Ainda bem que você já sabe disso e discordo sobre a parte de dar satisfações. Você pode me perguntar o que quiser, até onde estou. Pode ser estranho, porque acho que a gente nunca entrou em uma espécie de acordo sobre isso. E é preciso? Taí uma burocracia que não entendo muito. Porém, sei que tem a praxe de localização, pois qualquer um pode aparecer mortinho da Silva na atual conjuntura do mundo bruxo. Mas, se acalme, não tem nada de errado. Veja, estou com a cara inteira! Infelizmente, a bolsada ficará pra próxima. - ele guardou as mãos no bolso da jaqueta e olhou-a atentamente, acompanhando a pulsação da inquietude em seu cérebro. Mensurando quais partes poderia anunciar sem perder a própria cabeça no processo ou ser expulso por Elissa. Ao menos, tinha completa consciência da ausência de interesse em abrir uma discussão, mas não significava que, assim que abrisse a verdade, a catapulta não se revelasse. - Você tem menos de 30, é? Achei que era bem uns 45! - ele comentou, mais na tentativa de aliviar a ínfima chateação que ela tentou esconder inutilmente. - Hei! Vem cá! E não se faça de durona agora, mesmo que seja a coisinha mais adorável do meu dia! Vamos, me dá um abraço, porque aí ganho um carinho, dou um carinho, e posso enfiar o caos em seguida, com elegância. - ele abriu os braços e a chamou com movimentos repetidos da mão. - Adianto que não tem nada a ver com a possibilidade de eu ser o novo guarda-caças de Hogwarts, embora a ideia me pareça atraente. Estou meio cansado de trabalhar no Ministério e não sabia que precisava de férias até ouvir que precisava tirar as atrasadas. Acredite, muitas horas acumuladas para quem termina o expediente desgostoso parece uma indireta. Um aviso de saída emergencial. Estado de calamidade. - ele explicou, para tirar da frente os assuntos que florearam a mente de Elissa no período em que estivera absorto na Escócia. Mais precisamente, nas entranhas do clã Fraser. Literalmente, ele não tinha medo de morrer. - Acho que você pode se sentar agora, pois o que tenho a dizer vem diretamente de um acúmulo de informações. Não direi o nome das fontes, pra evitar que essas pessoas ganhem uma bolsada sua, mas também porque não me disseram nada aprofundado. Mas meu sumiço nada surpreendente envolve um assunto que a gente nunca falou abertamente e acho que a gente precisa falar disso. Infelizmente, envolve Theodore. - o silêncio ao dizer aquele nome pesou em cada nervo de Malcolm. Era raro pensar no irmão mais velho, falar sobre ele, pois não vinha uma lembrança boa. Apenas feridas abertas e foi inevitável não sentir o incômodo segredado perturbá-lo sobre a rasidade do que sabia. - Como disse, tenho detalhes de nada, embora muitas suposições tenham povoado a minha mente desde que, bom, começamos com esse rolinho. - ele sorriu fracamente ao rolinho. Uma de suas sobrancelhas se arquearam, sinalizando que esperava algum tipo de reação dela sobre aquele termo. - Além de dúvidas que considero sérias, especialmente porque sei dos marcos traumáticos que Theodore provocou ao longo da vida. Como o simples mistério de como você caiu na dele e como ele te tratou. E não vou julgar. Sei bem o quanto ele conseguia ser sedutor e amigável. E aí começo a ficar irritado, porque deixei esse lance passar. Mas é uma irritação comigo mesmo, já que longe de mim ser origem de memórias ruins pra você. Por osmose, claro, pois não tem como eu apagar meu sobrenome e nem meu parentesco. Nem ouso dizer que sou melhor que ele também, pra subir meu ranking e não terminar com um chute na bunda, porque definitivamente não sou. E digo isso mais exclusivamente porque… - foi a vez dele cruzar os braços, antes de procurar a parede para se escorar e manter Elissa inteiramente em seu campo de visão. - Não chore de emoção, mas, Elissa, você é excepcional demais para um cara como Theodore. Até pra mim. O que aumenta essa angústia que estou sentindo no momento, porque, considerando que tomo responsabilidade até pelo que não tem minha assinatura, Theodore toca na linha tênue de péssimos comportamentos fora das tentativas de pagar de adorável. Quando eu era mais novo, às vezes, achei que ele tinha melhorado, mas ele só queria tirar mais do que eu e Scott sequer tínhamos mais. E como ele é uma pessoa que sempre tirou, só consigo imaginar o que ele tirou de você e por isso eu acabei sendo engolido por alguns dias na Escócia pra tentar entender. Claro que não recebi nada também, pois, como sabemos, a megera da minha mãe não fala bem de ninguém, a não ser que receba um pouco de benefício. Theodore, sempre foi perfeito aos olhos dela. Sem discussão. E, antes que pergunte, claro que ouvi demais sobre você ter sido a errada, o que não me surpreendeu. Uma bizarrice sem tamanho! - ele murmurou a última parte da frase e pigarreou para afastar a raiva de acessar aquelas memórias que eram péssimas para ele, mas não do mesmo tanto que poderiam ser para Elissa. - Saiba que não quero que me dê detalhes, ok? Não quero te colocar nessa situação retraumatizante. Porém, estou definitivamente encucado com isso, pois, automaticamente, reflete na nossa relação. Além de Theodore, eu sou irmão dele, e não sei se isso pega bem pra você. Pra mim, acho que é meio claro que não ligo. Só que você tem mais passado, imagino que todo papo de terapia seja por isso também, e comecei a entrar na paranoia disso aqui ser errado. Pela linhagem que compartilho com meu irmão. Pelo que meu irmão fez. E se estou aqui é porque percebi que não posso racionalizar sobre isso sozinho. Parte desse feito tem assinatura do Scott, porque ele sabe que sou resoluto tem horas. Não que eu fosse sumir para sempre da sua vida, acho que também está meio claro que me acomodei demais à sua presença, que é viciante e me faz muito bem, mas acho que você importa mais agora. Não o que eu sinto ou as minhas dúvidas sobre o que aconteceu ou qualquer outro tipo de coisa que eu queira adicionar. - ele se deu por encerrado enquanto mais informações ferviam na mente, avermelhando um pouco seu rosto e as pontas das orelhas. - Desculpe, parece invasão de privacidade, mas, te juro, eu não sei de absolutamente nada. Apenas uni o que eu sei e convivi com Theodore ao que ouvi por cima. - ele pensou em se despregar da parede, mas se manteve firme, em respeito ao espaço entre ambos que parecia adequado manter depois de lançar os motivos de ter sumido. - Eu não tinha noção de que ele era uma sombra na minha vida. Não em questão de comparação, mas porque ele foi o primogênito e ele definiu todo o resto. E acho que isso cai na regra de assunto insatisfatório, desculpe por isso também! Mas parece que, depois que fui até a cova dele, soltar alguns xingamentos bem gentis, parece que o cidadão tá conjurado bem aqui, entre nós. - um sorriso inseguro escapou a Malcolm, inspirando-o a pigarrear de novo para camuflar seus ânimos. - Eu gostaria que ele saísse, visto que eu não estava brincando sobre dobrar a meta e mudar meu status pra namorando sério. Meu sonho é deixar Scorpius Malfoy satisfeita!
Com um ligeiro revirar de olhos, apenas para reforçar sua falsa pose de durona, Elissa caminhou em direção a Malcolm para que pudesse abraçá-lo. De fato sentira a falta do conforto que o cheiro, o contato, e a presença dele traziam a si. Por mais que pelos últimos meses estivesse tentando refrear como se sentia era bastante óbvio que já havia perdido as rédeas. Nas pontas dos pés a ex-corvina esticou-se para beijar suavemente o pescoço dele, como fazia todas as vezes em que estavam daquela maneira. - Eu deveria te expulsar pela audácia de insinuar que pareço ter 45. - resmungou, com um ligeiro bico, assim que afastou-se o suficiente para que pudesse fitá-lo. - Quanto as burocracias, bien, eu não tenho certeza em que fase de um relacionamento nos encontramos. Se é um rolinho… - revirou os olhos, mais uma vez exasperada, mesmo ciente que ele dizia certas coisas apenas para tirar aquele tipo de reação sua. - … então você realmente não tem qualquer obrigação de me fornecer informações. Pero, se é mais que um rolinho, e pelo tanto de tempo que estou te aturando… - disse com as sobrancelhas arqueadas e olhos ligeiramente semicerrados. - … então, bien, você não pode simplesmente sumir sem me causar dor de cabeça. Que bom que está sem nenhum roxo ou faria questão de reforçar cada um deles. Uh, Malcolm, sério, na atual conjuntura ou em qualquer cenário, é óbvio que vou me preocupar com você. Inflando seu ego já gigantesco; você é importante para mim, até demais, então, por favor, mande ao menos uma mensagem dizendo “estou vivo, mas ocupado” porque ao menos posso tentar seguir o restante do meu dia sem esperar a notícia da sua morte. - embora a ouvidos leigos pudesse soar exagerado de sua parte, Elissa tinha motivos de sobra para preocupações desmedidas. E tais preocupações voltaram a fortalecerem-se conforme o Fraser movia-se pela sala, como se buscasse por inspiração para dizer o que tinha em mente. Seu receio do que viria a seguir a fez sentar no braço do sofá, com as palmas das mãos sobre as pernas e o olhar fixo em Malcolm. Pela linguagem corporal podia perceber que o assunto seria incômodo, tanto para ele quanto provavelmente para si, o que a fez prender a respiração por um instante. Em seguida respirou fundo enquanto atentamente o ouvia destrinchar o que tinha levado-o a se ausentar. Os músculos nos ombros da ex-corvina estavam ligeiramente tensionados e a expressão em seu rosto certamente refletia certa inquietação. Engoliu em seco. - Bien… - murmurou projetando os lábios para frente antes de mordiscar o canto do lábio inferior. Novamente, involuntariamente, se viu cruzando os braços rente aos seios. - … sempre imaginei que em algum momento precisaríamos ter essa conversa. Pero, preferia que tivesse vindo diretamente a mim ao invés de ir atrás de informações em outros lugares. Apenas duas pessoas podem relatar o que houve: eu e Theodore, e ele certamente teria uma versão bem diferente da minha. - uma ligeira careta pontuou sua expressão ao citar o nome do ex. Elissa não costumava dizê-lo em voz alta, não que o tratasse como um tabu, mas porque não queria que ele se mantivesse presente na sua vida mais do que sempre estaria. Os consternados olhos castanhos procuraram pelos claros de Malcolm. A tonalidade indefinida era algo que sempre prendia sua atenção quando o fitava, naquele instante, por exemplo, pareciam mais azuis que de costume, numa intensidade similar a de chamas azuladas. - Hum, muy bien, creo que preciso contar algumas coisas sobre a minha vida pra dar contexto ao que aconteceu com Theodore. Prometo que tentarei ser sucinta e não entediá-lo. - disse tentando soar minimamente divertida quando sentia-se ligeiramente aflita - não por tirar aquele elefanta da sala, mas por receio do que viria após. - Eu faço terapia desde os três anos. Minha tia, que considero como mãe, achou que era importante para que eu pudesse lidar com o luto da morte dos meus pais biológicos e que também não sentisse que de certa maneira havia sido rejeitada por eles uma vez que priorizaram a profissão a cuidar de mim. Ponto número: receio de abandono. - pressionou os lábios brevemente antes de continuar o que já começava a acreditar que seria um imenso monologo. - Como pode ver, sou uma mulher latina, de baixa estatura, pele marrom, em um país de pessoas brancas de olho claro. Não sou vista como as outras mulheres. Sempre fui a solteira no grupo de amigas, especialmente na adolescência. Isso machuca, cria fragilidade. Ponto número dois: baixa autoestima. - uma ligeira careta voltou a pontuar sua expressão. Naquele momento era bem resolvida com a própria imagem, o que também era obra da famigerada terapia. - Dito isso, bien, foi através de Lorenzo que conheci Theodore. Eles eram amigos. Ou parceiros de negócios. Não sei ao certo. Mas um dia sai com Lorenzo e Theodore estava por lá, ele nos apresentou. Eu tinha 22 e ele 30, se me lembro corretamente. Minha experiência com relacionamentos era parca, com homens mais velhos era nula. Ele era bonito, inegavelmente, acho que fiquei deslumbrada, como uma tola. Vez ou outra ainda me pego tentando entender o que ele realmente queria comigo e presumo que talvez fosse um acesso facilitado a Lorenzo, não sei, enfim. Creo que é por isso também que Lorenzo pega tanto no seu pé. - encolheu os ombros como quem se desculpava, mas sua musculatura estava tão tensa que sentiu uma dor fina espalhar-se pela região. Voltou a respirar fundo antes de se pronunciar. - Não darei riqueza de detalhes, mas contarei o principal, para tirar suas dúvidas imediatas. Bien, você precisa entender que uma vez em um relacionamento abusivo demora até que se reconheça os sinais, as vezes sequer se reconhece. Eu não percebia, por exemplo, que no ano e meio que estivemos juntos fui me afastando de todas as minhas amizades. Ele tinha ciúmes dos homens. As mulheres solteiras não eram boas companhias. E ainda houve o afastamento do leito familiar. Faz parte do pacote o isolamento, para que não houvesse mais ninguém por mim além dele. - uma ruguinha formou-se no centro de sua testa enquanto algumas lembranças vinham à tona. - Perdi todos os meus amigos da época, só mantive o Patrick porque ele morava em outro continente e nos comunicávamos por e-mail, além do que, ele vivia o próprio relacionamento tóxico, sem fazer ideia, com aquela loira cretina. - resmungou sentindo o ranço por Laila aflorar. Naquele instante sentia coisas diversas, mas nada que a fizesse sentir-se em seu limite. Como alguém que trabalhava em saúde mental Elissa estava ciente até onde poderia ir. - Então eu comecei a estagiar no Mungus e meu tempo para relacionamento diminuiu drasticamente. Foi ai que os problemas se agravaram. Ele queria casar. Eu não queria. Eu tinha 24 anos, ainda na faculdade, de forma alguma queria parar minha vida para virar dona de casa. Ele não gostou. As brigas se tornaram mais comuns. Mais intensas. Eu tentei terminar algumas vezes. Cheguei a terminar. Mas ele não me deixava em paz. Aparecia no meu trabalho, na faculdade, em qualquer lugar que eu estivesse e arrumava confusão com quem estivesse comigo. Eu me sentia confusa, sozinha, amedrontada. E ele soube como usar a manipulação, a intimidação, o isolamento, explorar minhas fragilidades. Foi essencialmente psicológico e emocional. Não chegou ao físico. - embora tenha passado perto, completou mentalmente, recordando-se das vezes em que fora puxada pelo braço e como por algum tempo detestara que a tocassem na região sem prévia autorização. - Em meio a tudo isso, e não consigo explicar nem para mim mesma como aconteceu, eu engravidei, entrei em pânico porque tomei todas as precauções, afinal a última coisa que queria era um vínculo permanente com alguém que buscava maneiras de me desvincular. Quando decidi que levaria a gravidez adiante sequer precisei avisá-lo porque ele já sabia. E aparentemente estar gerando uma criança deu a ele a sensação de que eu o pertencia. Novamente ele insistiu no casamento e eu me recusei. O mesmo ciclo de perseguições se repetiu, mas dessa vez foi um pouco pior já que comecei a ter picos de pressão que afetavam o bebê. Tive que trancar a faculdade e me afastar do estágio mais cedo que gostaria porque por orientação obstétrica precisava ficar em repouso. Foi só aí que recorri a minha família. Eu não queria envolvê-los até então, eles me orientaram a pedir uma medida restritiva, eu procurei por Aiden, e ele me auxiliou nesse processo. Mas nem cheguei a usá-la porque quis o universo que Theodore morresse nesse meio tempo. - a ex-corvina piscou vezes repetidas para afastar as poucas lágrimas que sequer havia percebido que se acumulavam em seus olhos. Recordar o que foram os piores anos da sua vida não lhe inspirava mais crises de ansiedade, mas deixava um rastro de tristeza, especialmente por Owen ser filho daquele indivíduo. - Theodore inspirou o que há de pior em mim. Eu senti alívio na morte do pai do meu filho. Por muito tempo me senti péssima por essa sensação, mas hoje entendo que se ele ainda estivesse vivo eu não teria paz e meu filho sofreria ainda mais alienação parental na Escócia. - murmurou, voltando a encará-lo, enquanto levantava-se para aproximar-se dele. - Como pode perceber eu não sou assim tão melhor que ele e muito menos melhor que você. - pontuou, tentando recobrar algum humor a um clima que estava definitivamente pesado. - Malcolm… - chamou baixinho no instante em que ficou exatamente a frente dele, pouca distância, mas ainda respeitando seu espaço pessoal. - … eu agradeço o seu cuidado comigo, o seu tato de querer tocar no assunto sem que isso desperte traumas. Acontece que, como profissional de saúde mental, e alguém que faz terapia há anos, eu vivo com a ideia de que preciso encarar meus traumas, entender onde machuca, me conhecer o máximo possível. Logo nada disso chega a ser retraumatizante porque suprimir nunca foi uma opção. Recordar me deixa introspectiva, entristecida, e me faz questionar o porquê não percebi os sinais antes. É óbvio que há marcas, e você conhece parte delas. Por que acha que fui para outro continente depois que nos beijamos? Em níveis emocionais, românticos, não me relacionei com ninguém desde Theodore, primeiro porque eu tinha um bebê pra cuidar, segundo porque mães solteiras são vistas como passatempo, terceiro porque sim eu tenho gatilhos e ainda não tenho certeza de como vão se manifestar numa relação. Então nós nos conhecemos e de todos os indivíduos nesse planeta eu me vi enamorada por você antes mesmo de algo entre nós acontecer. - ela curvou brevemente a cabeça para a direita, um biquinho trêmulo pronunciou-se nos lábios cheios. - Por fim, você não deve se sentir responsável por coisas que não fez. Vocês são pessoas distintas. Muito distintas. E você adorava bater nessa tecla quando nos conhecemos. Não é possível que agora eu tenha que convencê-lo disso. - disse de maneira muito honesta. Como quem havia convivido com os dois, não podiam existir pessoas mais opostas. - Theodore é meu passado. Seu passado. Eu sempre vou precisar lidar com alguns traumas que ele me trouxe, mas não posso me privar de viver por conta dele. Não posso permitir que ele tire mais isso de mim, que tome mais esse controle sobre a minha vida. Além do mais, não quero me privar da sua companhia porque você teve a infelicidade de também sair do útero daquela megera. Excusa, eu sei que ela é sua mãe mas, uh.- as últimas palavras carregavam o peso do seu desgosto pela ex-sogra. Detestava a ideia de que as mães eram culpadas pelo comportamento dos filhos, mas era óbvio que entre outras coisas Theodore era reflexo da criação que recebera. - Además, certamente minha família vai achar estranho que esteja envolvida com alguém de sobrenome Fraser, e isso me preocupa. No caso me preocupa que eles sejam grosseiros com você por algo que não te compete, especialmente quando as chances de Loreno estar panfletando um dossiê com todas as suas transgressões é enorme. - embora intentasse jocosa sabia que Lorenzo era realmente capaz de tal ato. - Sou uma mulher adulta que pode tomar as próprias decisões. Se você e eu quisermos ninguém mais tem nada a ver com isso. Mas confesso que estou achando uma graça que uma vez na vida não sou eu surtando nessa amizade amistosa com benefícios. - disse com um sorrisinho mínimo tomando o canto de seus lábios. Elissa colocou as mãos sobre os braços dele para que pudesse descruzá-los e em seguida entrelaçou os dedos de suas mãos aos dele. - Você já me pediu desculpas hoje mais que na soma do último ano. Está tudo bem. Eu tinha em mente que precisaríamos ter essa conversa se você fosse tomar coragem de pegar na minha mão e assumir… - embora a última frase soasse como uma provocação, Thorne estava sendo honesta sobre o restante. - … e sim eu entendo as implicações desde o instante em que quis muito beijar sua boca e surtei bastante a respeito. No momento conformada que seu carisma é envolvente demais e que não posso passar muitos dias sem querer te enfiar uma bolsada. - o tom leve e ligeiramente divertido logo fora substituído por um semblante mais sério, comprometido. - Malcolm, eu quero estar com você. Eu gosto de estar com você. Mais que isso. Você me faz bem. Não pense nem por um segundo que projeto em você uma imagem que não te pertence. Eu só peço que tenha paciência para lidar comigo porque, bien, eu posso me retrair sem mais nem menos, e nada disso tem a ver com você, mas com meus traumas se manifestando. Então se você realmente quer dobrar a meta precisa estar ciente disso. - gentilmente apertou as mãos dele, como quem procurava por acolhimento. - E ser mais romântico pois estou realmente me sentindo desaplaudida. Mas longe de mim trazer infelicidade para minha filha mais velha destruindo o sonhos dela de me ver como a namorada séria do aclamado Pipi.

















