Blacklash, a onda conservadora nos dramas coreanos e o ódio ás mulheres gordas
[Faz tempo que esse texto está nos rascunhos e inclusive era sobre outro drama e tenho que rir que só precisei editar uma parte para incluir o drama atual. Com a controvérsia recente relacionado a Perfume, resolvi lançar de uma vez. Uma coisa que não acabei não falando a respeito foi sobre a representação visual da personagem, que é algo que quero abordar em outro texto.]
Tem um livro da Susan Faludi que li tem muito tempo, bem quando comecei a ter contato com feminismo, chamado 'Blacklash – O contra-ataque na guerra não declarada contra as mulheres'. No livro, Susan descreve Blacklash como uma reação contrária ao movimento feminista e analisa a onda conservadora que luta contra o direito das mulheres, especialmente nos meios de comunicação, tentando culpar o próprio feminismo pela miséria e dificuldades que as mulheres enfrentam. É um livro fácil de achar na internet, você pode ler ele aqui.
Nessa semana estreou o drama Perfume [KBS2] e é claro, pensei no livro pois eu acho que a Coreia do Sul está passando pelo seu próprio blacklash, com a popularidade do movimento feminista sulcoreano e o aumento da onda conservadora. Tem inclusive uma trédi no twitter que argumenta algo parecido a respeito do drama, inclusive com mais informações, você pode ler aqui.
Mas primeiro, do que se trata esse tal de Perfume? Vamos olhar a sinopse, retirada do site Maisqinerds:
Min Jae-Hee (Ha Jae-Suk) é uma mulher de meia idade. Ela é uma dona de casa que dedicou sua vida a sua família, mas a mesma é destruída, o que a deixa furiosa com o mundo. Através de um perfume misterioso, a aparência de Min Jae-Hee muda repentinamente para o de uma bela jovem. Ela então se torna uma modelo com sua nova aparência, a Min Ye-Rin (Go Won-Hee). Min Jae-Hee conhece Seo Yi-Do (Shin Sung-Rok). Ele é um estilista de sucesso, mas uma pessoa malvada.
Única reação possível para isso:
[Descrição de imagem: print de uma cena de um vídeo do Philosophy Tube em que ele está usando roupa colante com decote profundo expondo o peitoral e texto na tela do lado dele dizendo 'O que posso dizer além de credo']
Sem o tal perfume e o estilista maldoso, Perfume até que poderia ser um drama interessante já que mulheres divorciadas não são tão bem vistas na Coreia, especialmente mulheres mais velhas. Quem é dorameira de longa data ou é pessoa novata de dedo podre já deve ter visto vários dramas da mocinha casada sofrendo nas mãos de familiares, sendo obrigada a prover serviços domésticos para todos sem reclamar enquanto é traída pelo marido. Afinal, é o seu papel como mulher, filha, esposa, mãe: servir e perdoar. É muito raro rolar divórcio e é super comum vermos familiares abusivos serem perdoados, com aquela narrativa no final mostrando que no fundo, bem lá no fundo se importam.
Mas isso é material para outro texto. Vamos voltar ao drama atual. Esse não é o único com plot da protagonista gorda que vira magra com ajuda de um algum tipo de magia, ano passado também teve Coffee, Do Me a Favor (2018) com a maravilhosa Kim Min Young sendo desperdiçada em roteiro ruim e cagado. A própria Ha Jae Suk que está em Perfume já fez um outro drama em que apesar de ser a personagem principal é substituída por sua versão mais magra, Birth of a Beauty [2014]. Agora, vamos discutir porque esse tipo de roteiro promove ódio ás mulheres gordas.
[Coloquei esse poster do drama só porque ele é lindo e amo a atriz]
Para começar, é preciso se perguntar: quantos kdramas com protagonistas gordas existem? E dos raros que existem, em quantos são protagonistas de fato, aparecendo em todos os episódios sem virarem outra pessoa? E desses mais raros ainda, quantos deles temos de fato uma atriz gorda atuando e não alguma atriz magra que foi chamada e precisou fazer dieta para ganhar algum peso ou então simplesmente usa enchimento no drama? [Alias, esses dramas costumam ter uma mensagem mais positiva, como My Lovely Kim Sam Soon (2005), Oh My Venus (2015) e Weightlifting Fairy Kim Bok Joo (2016), para citar alguns exemplos]
Atrizes gordas geralmente são contratadas para papéis secundários, para serem amigas da prota, em algum papel cômico ou vítima de assédio e bullying. Esses papéis questionáveis refletem a forma como acham razoável representarem corpos gordos de forma negativa, especialmente de mulheres. É um corpo que pode ser alvo de piadas, apontado, questionado, abusado. Como é possível vender a narrativa de que “O importante é a beleza interior” dessa forma, já que acaba se tornando falsa e hipócrita? Por que esse mensagem sempre precisa ser entregue em um corpo considerado dentro do padrão?
Esses dramas não existem em um vácuo, existem dentro do contexto de gente associando seu valor e sua auto estima a um determinado peso. Todo dia somos bombardeados por imagens de corpos pequenos e magros, que são considerados atraentes, belos e, portanto, corpos desejáveis. Nossos corpos muitas vezes não chegam perto desse padrão e isso afeta muito nossa saúde mental e nossa relação com com o corpo. Nossa auto estima depende de um número e isso não é saudável.
Existem várias pesquisas sobre como a mídia e falta de representação corporal anda afetando as pessoas cada vez mais jovens, especialmente em um mundo cada vez mais voltado para mídias sociais. Na Coreia do Sul, o padrão do corpo magro e pequeno e sua associação a saúde é tão naturalizado que você vê atrizes e idols contando na TV sobre as dietas extremas que fazem para manter o peso ou emagrecer. Sempre são elogiadas pela determinação e resultado obtido, sem que alguma preocupação seja levantada por comeram tão pouco. Afinal, o importante é estar magra.
Todo papo sobre auto cuidado, beleza, plástica gira em torno de uma imagem considerada desejável ou correta, assim você pode existir em sociedade sem que seu valor seja depreciado. Por isso dramas como Perfume e outros causam tanto dano. Perpetuam a imagem dos corpos gordos como corpos indesejáveis, vistos como objetos de piadas, incapazes de serem funcionais, amados, desejados. E não é coincidência que estamos falando dos corpos de mulheres. Portanto, dramas assim promovem, naturalizam e justificam ódio ás mulheres gordas. A gente não precisa ser cúmplice disso.
No texto Walking in Beauty: On Seeing Fat Women in Asian Dramas and Body Positivity, Angel Cruz argumenta:
Mulheres gordas tem suas próprias histórias e essas histórias não precisam envolver a mudança de gorda para magra. Seu peso não precisa ser definido como uma condição para a representação, e as mulheres gordas são perfeitamente capazes de buscar e ter um final feliz para si mesmas sem a aprovação expressa da sociedade.
Os dramas são um excelente canal para introduzir e reforçar essa ideia, lembrando constantemente e consistentemente aos telespectadores que uma mulher pode ser de qualquer tamanho e ainda ter direito a respeito e consideração.
Talvez um dia a gente chegue lá e veja dramas com corpos diversos simplesmente existindo sem essa suposta critica ao padrão de beleza, sem toda essa narrativa tóxica que está disfarçada de discurso progressista de valorização da auto estima. Eu fico feliz em saber que tem dorameiras brasileiras que estão chamando a atenção para esse problema, anunciando boicotes. É bom saber que temos consumidoras cada vez mais críticas das mídias que assistem.
No mais, fica a indicação de um webdrama com protagonista considerada gorda em que ela é do jeito que é do começo ao fim: 통통한연애 ou When You Love Yourself.















