Describe a scenario in which your character feels most uncomfortable.
Se desacostumara a se referir à casa em que crescera como lar. Desde que partira para o Instituto, encontrara ali algo que a confortava vezes mais do que a decrépita mansão dos Nolle. Decerto deveria-lhes obediência em qualquer lugar, mas cumprir as exigências de seu pai se provava uma tarefa infinitamente mais fácil longe de seus olhos atentos e sua constante pressão; apesar de tudo, do esforço que a exauria em ser perfeita e agir de modo impecável diante de outros, sentia-se mais livre longe de casa do que jamais se sentira encerrada dentro dela.
Estivera sentada na beirada da cama, fitando os lençóis de cor branca quase intocados. As batidas na porta, no entanto, a fizeram despertar de seu transe. Inspirou profundamente, procurando manter a calma e a expressão impassível que deveria sempre ter em seu rosto na presença de seu pai; com graciosidade e leveza, porém rapidez, levantou-se, alisando suas vestes e dizendo, em tom de voz alto o suficiente apenas para que ele pudesse ouvi-la. “Entre.”
Osran não fez cerimônias, adentrando o espaço assim que houve a permissão. Parecia satisfeito, de modo incomum, até, e o brilho em seus olhos escuros sobressaltou Arwen que, entretanto, manteve-se no mesmo lugar, estática. A não ser por seus pelos arrepiados, seu corpo não deu quaisquer sinais visíveis de nervosismo. Nem pai, nem filha ousaram se manifestar, as palavras perdidas entre eles. Se analisavam apenas, e de alguma distância.
“Tudo corre bem,” ele afirmou, por fim. Arwen umedeceu os lábios, assentindo uma vez em concordância. Os olhos de Osran se estreitaram, tornando-se pequenas fendas e, quando falou outra vez, o fez com seriedade inabalável, em tom que muito se parecia ao de uma ameaça. “E deve continuar assim. Não se esqueça, Arwen. Pelo bem de nossa família, e pelo seu próprio… Não pode cometer erros.”
Então deu as costas, deixando-a para trás, mais uma vez sozinha e imersa em seus próprios pensamentos. Arwen expirou longamente, não tendo notado até então estar retendo o ar. Sequer me cumprimentou, uma voz amargurada soou no fundo de sua mente. Sequer me perguntou como me sinto. Ergueu os olhos; o reflexo no enorme espelho à sua frente fez o mesmo, encarando-a com a mesma frieza de Osran. A luz pareceu tremeluzir no vestido roxo e branco, as cores de sua família.
“Não se preocupe, pai,” sussurrou para si mesma, os lábios do reflexo se movimentando com os dela. “Não cometerei,” prosseguiu. Então desviou os olhos para a porta, deixada entreaberta. Quando voltou a falar, havia ferocidade em sua voz. “Mas não será por você. Será por mim.”