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Xuebing Du
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@ecoe-i
Sinto que tenho chorado a vida inteira,
desde meu primeiro suspiro nesta terra — talvez até antes, como se eu já viesse quebrada do ventre,
como se a alma tivesse rachado antes mesmo de aprender a respirar nesse corpo.
As enchentes não me levam a lugar nenhum.
A água insiste em repetir o mesmo caminho,
como se zombasse de mim,
como se dissesse que o mundo segue, mas eu não.
Nada é lavado, nada é abençoado com a graça que a água deveria trazer.
De que são feitas, então, minhas lágrimas?
Seriam lama — espessa, turva, pesada —
matéria escura que se acumula nos cantos do meu peito ?
Afundo.
Sufoco nessa dor que se condensa ao meu redor,
uma densidade que a luz não atravessa,
um breu úmido que me abraça pelos tornozelos
e me puxa mais fundo.
Pequenas coisas parecem gigantes.
Penas se transformam em pedras antigas,
pesadas como culpas que não cometi,
mas que carrego mesmo assim.
Permaneço imóvel enquanto afundo.
As mãos não se movem,
a voz não alcança ninguém.
Não grito mais — o grito secou dentro de mim,
enclausurado em cansaço.
Agora meu choro é apenas um ruído distante,
um eco abafado percorrendo uma casca vazia,
como se eu falasse de dentro de uma caverna
que eu mesma construí
com todas as dores que não soube soltar.
Já não grito mais.
Meu choro é silenciado, apenas um murmúrio exausto dentro de um coração vazio e abandonado.
Viver é como morrer todos os dias. Infindáveis vezes.
-Érica
A vida é um compilado de coisas que doem.
-Érica Barroso
Estou desgastada como um giz velho.
-Érica Barroso
Sou uma ferida aberta desde o dia em que nasci. Minhas lágrimas não cessaram desde que chorei no mundo pela primeira vez.
-Érica Barroso
O labirinto do eu
Acordei com a chuva tamborilando na janela, uma luz tímida e pálida atravessava os vitrôs, o dia estava começando, acompanhado do frio da chuva que durara a noite inteira. Sentei-me na cama, a camisola branca à altura dos joelhos, pisei os pés nus no chão de madeira e constatei que estava frio e úmido. Não conseguia me lembrar da noite passada, nem dos dias anteriores, minha memória era como um livro novo, de lombadas perfeitas e capa lisa, sem marcas de uso. O coração batia rápido, fazendo parecer que minha pele era como uma folha fina e fácil de rasgar.
Caminhei pela casa vazia e silenciosa, parando diante da porta grande e pesada, a madeira carregada de entalhes em formato de rosas, puxei a maçaneta e ela se abriu sem esforço, revelando o bosque que cercava a casa. Tudo me parecia igual, menos o portão, lembrava-me, não sei como, de que era branco, mas a visão a minha frente era de um portão imenso e negro, cheio de aspirais cortantes. Agitei-me ao olhar através do portão, um emaranhado de galhos e folhas formavam um corredor longo e estreito, caminhei devagar, sem tirar os olhos do fim do corredor, não me lembrei de que estava descalça até pisar em uma pedra pontiaguda e me encolher sentindo a dor se espalhar pelo calcanhar. Agarrei as grades do portão o puxei, ele não se moveu, sacudi-o novamente, tomei distância e olhei para a fechadura enorme, estava trancado.
– A chave está com você. – Disse uma voz suave e feminina.
Assustada, olhei para trás, mas não vi ninguém. Olhei novamente para as minhas mãos e lá estava, uma chave antiga, com detalhes em aspirais, exatamente como o portão, senti o peso e o frio do metal contra a minha pele, também fria pelo vento da manhã. Encaixei a pesada chave e girei, um sonoro click fez a tranca se soltar.
Do outro lado do portão o corredor de galhos e folhas parecia me chamar, uma leve atração me inquietava, caminhei desconfiada até me dar conta, não era apenas um corredor, era um labirinto. Um arrepio me subiu a espinha eriçando os pelos da minha nuca, virei, pronta para voltar para a casa, mas ela não estava mais lá, tudo era um emaranhado de galhos e folhas.
Uma sensação de medo e curiosidade me tomou e comecei a caminhar.
Avistei um vulto branco pelo canto dos olhos ao atravessar para o outro lado, meu coração gelou, um arrepio gelado percorreu meu corpo como uma corrente elétrica e dei um salto. Voltei, encolhendo-me atrás de uma parede, olhei atentamente para onde havia avistado o vulto, mas o que vi foi um rosto, recolhi-me novamente atrás da imensa parede de arbusto. Pigarreei:
— Tem alguém aí?— A voz saiu trêmula e fina, e não houve resposta.
Perguntei novamente, e novamente obtive o silêncio como resposta. Saí lentamente de onde estava, do outro lado alguém acompanhava meus movimentos desconfiados. Não era um estranho, era eu mesma, de camisola e cabelos negros e desgrenhados, era um espelho, um tanto quanto embaçado. Caminhei devagar sentindo a terra úmida sob meus pés descalços e calejados, o passo apressado, talvez estivesse próxima a uma saída, já havia tanto tempo desde a saída de casa que eu havia perdido a noção do tempo, não sabia mais que dia ou que horas eram.
Me aproximando do espelho percebi certa translucidez, e me dei conta de que não era apenas um espelho, era um vidro, eu podia olhar através dele. Segurei na grossa moldura de metal frio, pensava comigo mesma que alí tudo era gelado, quando percebi um enorme reflexo do outro lado, e era eu mesma, abaixada em frente a um lago espelhado, olhando meu próprio reflexo, mas não fora isso que me espantara, o que me assustou foi me ver minúscula, de camisola branca e cabelo desgrenhando, dentro da minha própria pupila. Eu estava presa dentro de mim mesma, o labirinto era eu.
-Érica Barroso
Sinto a angústia crepitar em minha pele como fogo.
-Érica Barroso
Sempre que penso na vida parece que um universo inteiro dança em meu estômago.
-Érica Barroso
Me perdi em quem eu sou
Mas nunca me encontrei em quem eu fui
Não sei ser outra senão a mim mesma
Mas sempre achei saber o outro ser melhor que a mim
Mas eu nunca o fui
Pertenci apenas a mim mesma
A este corpo
A esta mente
A esta alma
E nada mais fui ou sei ser
Além do que fui
Do que sou
Do que eu sempre soube ser.
– Érica Barroso
Ser adulto é um porre.
-Érica Barroso
eu me sinto
e isso me tortura.