O olhar massivo não alcança a profundidade da dor do indivíduo.
Aparentemente estou nesse estado de penúria porque quero.
Não há nenhuma limitação física, nada visível que implique minha incapacidade de me manter, de gerar uma renda que me torne independente e me faça sentir digna o suficiente para existir.
Talvez eu seja apenas preguiçosa, um tanto mimada e mal-agradecida; talvez eu não tenha vontade e não me esforce o bastante.
Toda pessoa, sem exceção, mesmo com barreiras físicas e mentais indiscutíveis, é obrigada a se sustentar de alguma forma. Não há saída. A ajuda é uma ilusão, no máximo algo temporário; afinal, os recursos governamentais são sempre limitados. Por que gastar com quem é incapaz de gerar lucros? Não faz sentido, entendo.
Desde muito cedo, à medida que eu começava a "dar defeitos" e a empacar na vida, as pessoas ao meu redor perguntavam qual era o meu problema. Sem algo que eu pudesse mostrar para comprovar meu defeito, assumiram que era isso: eu só precisava crescer, abandonar a infantilidade e assumir responsabilidades.
Sempre fui responsável, sempre a que compreendia além do que podia ser compreendido na minha idade. Eu sempre fui a adulta, mesmo quando criança, mas isso, em matéria emocional, não vale nada. O que importa é gerar lucros, e nunca fui capaz de tal coisa. Eu e o mundo crescemos apartados.
Hoje, e há muito tempo, sou eu a responsável por contar moedas e ver o que se pode comprar. O que quero não importa, porque nem para o necessário há o suficiente. Ainda assim, com vontade de desistir, faço o que precisa ser feito: decido quais contas podem ser pagas, do que teremos de abrir mão, o que pode esperar e o que simplesmente deixará de existir naquele mês.
Também sou responsável pela limpeza do meu ambiente, das minhas roupas e de qualquer coisa que eu suje. Se eu não fizer, paciência; afinal, eu sou adulta, não é mesmo? Eu sei disso desde os dez anos, no mínimo.
Mas, quando perguntam o que faço o dia todo, eu respondo: nada.
Porque nada disso gera lucros. Nada disso produz um currículo, uma carreira, um salário ou qualquer evidência social de que eu existo de maneira útil.
Entende por que não tenho esperança no atendimento psicossocial público?
A receita que me dão é sempre a mesma: esforce-se mais. Ainda não é o suficiente.
Um dia você chega lá. Afinal, não há nada de errado com você.
O que inicialmente parece uma saída, um recurso milagroso, revela-se uma piada, não muito diferente das raízes da psiquiatria: apenas uma forma de apaziguar os indivíduos que não se encaixam nesse sistema vil, que não geram lucros, mas continuam se acumulando pelos cantos. É incômodo; algo precisa ser feito, com certeza. Mas não deveriam dizer que isso é uma forma de acolhimento humano e justo. É só mais um meio para um fim. Entendam bem os que abandonam os tratamentos e preferem enlouquecer sozinhos: nunca nos foi possível contar com ninguém, de qualquer forma.
Essa dor é somente nossa para carregar em silêncio.