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@edwardangelv
Impossível. Aquela era a palavra que dominava parte de seus pensamentos involuntariamente, fazendo-o piscar os olhos algumas vezes, procurando mais uma vez — e que jurou ser a última — o controle inexistente em uma situação como tal. Seria impossível se afastar, impossível não desejá-lo por completo, impossível não ceder à proximidade — não apenas física — entre ambos, assim como também era impossível não sentir-se confortável e repleto de um êxtase íntimo e nunca antes sentido ao lado dele. Os braços tremiam fracamente enquanto ele procurava um modo de manter-se apenas com aquele abraço, com o perfume inebriante que desprendia da pele trêmula dele sob si e os lábios alheios tão próximos aos seus que faziam com que sua boca movesse sozinha, em busca do desconhecido, proibido e excitante. Suspirava enquanto continha-se, os olhos azuis brilhando mais escuros enquanto estudavam várias e várias vezes aqueles traços belos do rosto alheio, respirando baixo e ainda falhamente. Porém a cada segundo que passava como uma eternidade era difícil conter a vontade quase animalesca de tomar o anjo em seus braços, de marcá-lo por completo e fazê-lo seu. Completamente e apenas seu. Já não se importava mais com as dúvidas que antes perfuravam seus pensamentos como lâminas e faziam-no querer explodir com a culpa por ter deixado aquela situação estender-se até aquele ponto. As consequências daqueles atos não poderiam ser maiores que o desejo que lhe revirava, fazia-o suar apesar do frio, respirar com dificuldades apesar de já sentir-se momentaneamente normalizado e a boca salivar com a expectativa de poder experimentar toda a alheia.
Era incapaz de sequer pensar em um modo de resistência àquele homem. Quando seu braço o envolveu ainda mais naquele contato, deixando-os ainda mais próximos, Christopher apertou a mão que estava presa à dele como se dependesse daquele toque para sobreviver e subiu a mão livre através do peitoral alheio, parando apenas ao chegar por entre os fios escuros do anjo. Ouviu perfeitamente bem todas as tonalidades presentes na voz que chamou seu nome, fazendo-o quase sonhar apesar de tudo e fechou os olhos procurando loucamente por palavras que não vieram a sua mente em um primeiro momento, fazendo-o apenas mover os lábios em uma leve curvatura que não era exatamente um sorriso. Compreendia, sim, toda a magnificência daqueles atos e, principalmente, de suas consequências, mas estaria ele pronto para simplesmente esquecer-se de todos aqueles momentos vividos ali? De seguir com sua rotina ridícula sem sentir-se culpado, também, por desistir daquela sensação única de paraíso que sentia ali, naquele abraço? De perder o único que conseguira fazer com que ele se sentisse corajoso o suficiente para enfrentar tudo? Não, não queria mais torturar-se com todas aquelas possibilidades, sentia-se dependente de Edward e admitiria quantas vezes fossem necessárias. Será que ele conseguia perceber o quanto o arrebatava através de seus olhos?
Engoliu em seco ao ouvir aquelas palavras. Procurou os olhos dele pela que sentiu ser a última vez, completamente vidrado e inconsequente, não era forte o suficiente para ter de assisti-lo deixando-lhe. Não naquele momento. Queria gritar tais palavras, mas apenas permaneceu observando-o, suavizando a expressão no silêncio que era cortado apenas por seus batimentos cardíacos que conseguiam ser mais altos que seus pensamentos. Encolheu completamente o corpo quando ele se moveu e depois com aquele som vindo dele… Respirou fundo, obrigando-se a manter a calma. Não se moveu quando sentiu a pele de Edward encostando-se a sua, sentindo novamente o conhecido e incessante calor atingindo-lhe de forma ainda mais forte, única. Parou completamente quando a voz voltou a chegar a seus ouvidos. Experimentar? Uma curiosidade quase inocente ficou clara em seu rosto e quando iniciou a primeira palavra de sua pergunta, veio o beijo. Permaneceu com a surpresa clara em sua expressão — olhos levemente arregalados, a boca ainda torta apesar do encontro entre ambas e a respiração alta novamente. Edward era capaz de saber exatamente o que fazer para tê-lo como seu até o último de seus dias sem nem ao menos precisar ler seus pensamentos? Ainda não entendia a magnitude dos sentimentos quais estava completamente exposto, porém procurou não se importar. Quando finalmente entregou-se a premência do mesmo, buscou uma maneira de aproximar-se mais, tentar acabar momentaneamente com a tentação de querê-lo de um modo que não podia e acalmar-se para não se adiantar demais. Logo que o beijo fora interrompido, sentiu o corpo inteiro vibrar com o gosto inexplicável que permaneceu presente em sua boca por incontáveis segundos adiante. E depois a fricção entre os corpos o despertou por completo, fazendo-o apenas querê-lo mais, com toda força que ainda residia em seu corpo. Não havia como esconder o ardor que voltou a dominá-lo com tais movimentos alheios, os arrepios voltaram a atingi-lo constantemente, acabando por fazê-lo sentir-se apertado entre suas vestes. — Você realmente acha que não deveríamos ter feito isso? — Perguntou sem desviar o olhar do dele, desunindo as mãos para contornar os lábios de Edward com as pontas dos dedos, diversas vezes. Os olhos azuis eram penetrantes, um tanto ásperos e exigentes de respostas imediatas, porém apenas recostou a cabeça contra o ombro dele, deixando um demorado beijo no pescoço antes e aproximando os lábios do ouvido alheio mais uma vez. — Edward… Não vê que fugir disso é inevitável? Não vê que preciso desesperadamente de você aqui e agora? — Indagou com a voz aveludada, voltando a aproximar-se lentamente.
Edward tinha séculos de idade e a vida nos lábios. A vida em forma de beijo, em forma de Christopher, em mil e uma formas invertidas de tudo o que não se pode colocar no lugar. Nem sabia se tal pensamento fazia sentido. Mas o que fazia sentido, àquela altura? Nem mesmo o contato desajeitado de seus corpos parecia certo — apesar de todas as incertezas óbvias — e mesmo que os lábios e a língua e os murmúrios inevitáveis que se chocavam contra a sua boca lhe fizessem sentir tão vivo como jamais antes. Edward não sabia o que fazer. Não sabia nada além do que Christopher o instigava. Ficar ali, sobre ele, absorvendo o calor que exalava do mesmo e queimava suas entranhas, ao mesmo tempo em que enregelava seu baixo ventre, era como pôr-se contra o paraíso, mesmo que o inferno não lhe fosse jamais uma opção. Edward conhecia todos os seus limites, conhecia todas as barreiras e erros dos quais anjo algum devia se aproximar. Porém, antes e acima de qualquer coisa, agora conhecia Christopher e o calor de seus beijos. A umidade macia e a textura cálida que confundia seus sentidos. Sentia a voz, saboreava o perfume, observava o calor, inalava sua imagem. Confundia-se. E ao se confundir percebia que se encontrava. Junto dele não havia certo ou errado, havia apenas deleite. Não havia culpa, crime, castigo ou perdão. Era tudo vontade, vida, intensidade. E Christopher.
A cama de Christopher era espaçosa o suficiente para que conseguisse girar seu corpo até posicionar-se sobre o dele na cama. Edward encontrou a barra da camisa do mais novo, perdendo o contato dos dígitos dele quando seus braços se ergueram para permitir que aquela peça de roupa fosse arrancada. Subiu ambas as mãos, pelo abdômen nu de Christopher, interrompendo o impudico ato de tocá-lo pela mera percepção de que, com toda a certeza do mundo, não tinha talento algum para ser ousado. Mesmo quando se sentia tão à vontade e mesmo que metáfora alguma o separasse do objeto de seus desejos. Objeto, porém não objetivado. Homem. Alma. Lobisomem. O queria pelo que era, por tudo o que ele era. Não por mero contato carnal. O queria em sua ousadia, e nos movimentos que seus quadris faziam contra ele, entre suas pernas. O contato inevitável da óbvia ereção do homem contra a que já se mostrava óbvia em Edward teve um efeito imediato, liberando endorfina por suas veias, acelerando seus batimentos cardíacos. Buscou os lábios de Christopher e, neles, deixou escapar um gemido. E outro. E talvez outro. Gemidos incontidos, causados pelo movimento e pela fricção de sua pélvis contra a dele. Choramingou baixinho aumentando a força com que o choque entre ambos os corpos acontecia.
— Christopher… — Gemeu contra seu lábio inferior, parando as mãos no peito do outro, abrindo os olhos numa tentativa inusitada de afogar Christopher nas vontades que somente Edward seria capaz de explicar das formas mais absurdas do mundo. Sem desviar o olhar, moveu os quadris para frente, sentindo entre as pernas a rigidez escondida pelo tecido da calça do homem. Quão errado era para ele, um anjo, a mais alta hierarquia do céu, mover os quadris contra a ereção de um meio humano daquela forma? Quão errado era gostar daquilo? Querer mais, querer sempre, querer o tempo todo? E querer de novo. — Se eu… fizer isso… — E com isso, ele queria dizer o girar de quadris que executou novamente, diretamente contra o volume acentuado de Christopher. — Com força… — E mais forte. — Vou machucar você? — A pergunta não era retórica. Os olhos abertos ligados aos dele deixavam claro que a dúvida e a preocupação era verdadeira. Anjos eram fisicamente muito poderosos, espiritualmente intensos demais. Não queria se empolgar a ponto de causar dor em Christopher. Não era nenhum louco. Não sabia nem o que estava fazendo. Não sabia qual era a pressão segura, o contato permitido, a vontade aceitável, os limites pré-estabelecidos. Perguntar era a única forma objetiva de obter respostas. E aquele contato visual que ele costumava dedicar exclusivamente a Christopher parecia tão íntimo quanto o contato de seus corpos.
Visualmente já estava conectado, espiritualmente envolvido, enlaçado a ele por completo. Era loucura, entregar-se assim. Tinha certeza. Mas era a loucura racional, emocional, espiritual, passageira. Uma loucura que só se manifestava quando a presença do homem sob ele estava perto demais para ser ignorado. E ao novamente mover seus quadris num ritmo mais intenso, pra cima e pra baixo, encaixou seu nariz no lado dele, fechando finalmente os olhos e mordiscando involuntariamente o lábio inferior de Christopher, antes de gemer uma última vez, dessa vez sentindo um calafrio subir por sua coluna. Com uma das mãos encorajou Christopher a livrar-se da blusa que vestia o anjo, na tentativa óbvia de expor sua vontade. — Você gosta? — Indagou curioso, movendo-se o suficiente para sentir os dedos de Christopher contra as entradas que se encaminhavam para sua virilha. Um choque elétrico pequeno atacou-lhe os músculos da coxa até os pés. Arfou, arqueando a coluna antes de procurar o pescoço do homem com os lábios, mordendo a pele, provando-lhe o sabor da pele. Queria não precisar se afastar dele nunca mais. Ficar assim, aproveitando as sutilezas que a coragem recém-adquirida lhe garantia. Queria parar de tremer. Mas notou que tremer sobre ele era quase o mesmo que tremer sob ele. Pensou em reativar a leitura da mente de Christopher, depois não pensou em mais nada. Não queria interromper o som de seus gemidos com pensamentos. Queria interromper com mais beijos.
Sabia o quão errado fora dizer o que desejava com aquelas palavras tão claras quanto o dia, Edward era um anjo, puro e inocente. Provavelmente não entenderia boa parte do que havia sido dito instantes atrás, o que aumentava sua vontade de forma quase inimaginável. A boca salivava, os arrepios torturavam-no sem cessar e em seus olhos, um cinema pessoal com cenas daquela noite até ali. Apesar da diferença na idade, na experiência, nos corpos, nas personalidades e tudo que se era possível, sentia-se como um professor ansioso demais para ensiná-lo sobre o que havia dito e para aprender. Aprender como é se entregar totalmente à alguém, esquecer seus problemas sobre aquele corpo ao qual se prendia como se precisasse mais Edward do que ar para viver. Precisava tocá-lo, sentir seus dedos deslizarem contra a pele macia e deslumbrante alheia diversas vezes, até se livrar daquela libido que lhe atormentava e instigava a todo segundo. Também precisava dos abraços, da sensação delirante que cortou seu corpo como um choque elétrico quando estava dentro dos braços dele, de repetir quantas vezes fossem necessárias de que o queria e lutaria por ele. Fechou os olhos com força absurda, repreendendo-se por imaginá-lo de tal forma. Mas também não seria errado guardar seus sentimentos mais íntimos quando ele queria ouvi-los? Sentia o corpo trêmulo sobre o seu, porém havia a conexão que nunca antes experimentara, como se cada parte dele fosse feita para se encaixar com uma sua, como se os pensamentos se completassem… Eram fogo e gelo, dia e noite e até mesmo Romeu e Julieta. Tinha certeza. Manteve aquela proximidade, deliciando-se com seu perfume e a pele trêmula contra a sua. Respirava delicadamente apesar de tudo, deixando seu hálito quente e um tanto alto ir diretamente contra o ouvido do anjo. Por um segundo, pensou em soltar-se daquele abraço e correr. Correr como nunca antes e como nunca faria depois, mas como livrar-se da sensação de dependência? Uma vez que se prova do paraíso não é fácil simplesmente desistir, fugir da melhor sensação que um mero meio-humano como ele poderia sentir em sua vida simples, passageira… Se permanecesse ali, seria capaz de atitudes que viriam a feri-lo mais que mil balas de prata em um futuro próximo e doloroso demais, porém também era fraco demais para fugir. Moveu-se delicadamente e parou, buscando pelo restante de sanidade que poderia existir no mais profundo de sua mente. E como um ímã, voltou a prender-se nele desesperadamente, procurando uma maneira possível de aproximar-se mais, senti-lo sob sua pele, em sua alma.
As palavras deixaram-no atônito. Fizeram seu coração bater tão forte e rápido que poderia ser capaz de morrer ali, no êxtase quase divino que lhe percorreu naqueles preciosos segundos, fazendo-o arquear o pescoço e entregar-se ao prazer pecaminoso, revirando os olhos lentamente, umedecendo os lábios, buscando uma alternativa para aquele calor que revirava, queimava todas as suas veias e ainda assim era reconfortante. Não sabia como, mas voltou a observá-lo, os olhos azuis brilhavam perigosamente, como um aviso de tudo que acontecia dentro de si. Edward era capaz de fazê-lo explodir de luxúria e parecia não perceber… Torturante demais. Sedutor demais. Emitiu um som nasal e baixo ao ouvi-lo, permitindo-se em rir antes de procurar um tom decente para voltar a dizer algo. — Sem julgamentos, Edward. A verdade pode ser suja em algumas ocasiões. — Pressionou os pés contra o chão ou não seria capaz de manter-se ali por muito tempo. Eles não podiam, Christopher sabia e sentia por aquele fato, porém já não era mais capaz de manter o mínimo controle sobre seus atos. Se desejá-lo de forma tão intensa e verdadeira fosse um pecado, pagaria por ele. Pensou em uma resposta razoável, mas ela não vinha… E decidiu-se por fechar os olhos, aproximando-se mais ao sentir aquele contato absurdamente forte e quente. Pressionou os lábios para não entregar-se demais e deixar todos os ruídos baixos que vinham até sua garganta escaparem. Quando os dedos foram unidos novamente, um sorriso fez com que um gemido baixo e rouco se fosse ouvido e já não tinha mais o que pensar. — Eu lhe mostrarei, Edward. Estou cansado demais para me prender as dúvidas. — E afastou-se brutamente, apesar de não desunir os dedos por momento algum. Teve um momento de pura força, deixou de tremer e o empurrou pelo quarto, os olhos presos aos dele e o rosto repleto por sua determinação. Parou próximo a sua cama, puxando ar para os pulmões desesperadamente antes de deixar-se levar totalmente e deitá-lo sobre o móvel e fazer o mesmo, aproximando-se novamente, mantendo aquele contato puro entre as mãos a todo instante. Ficou sobre ele e ousou em morder o lábio superior de Edward, pressionando mais seu corpo contra o dele. — Você me prometeu os melhores sonhos nessa noite, Edward. E eu quero sonhar bem acordado…
Era mesmo estúpido negar o que era tão ridiculamente claro. Mas era uma estupidez à qual Edward estava habituado. Há quantos séculos, afinal, ele não vinha resistindo àquela tentação? Resistindo à tentação de perder-se nos braços de alguém. E resistir era uma das provações mais difíceis. Resistir exigia força de vontade, sendo de responsabilidade, autoconfiança, uma capacidade sobre-humana de suportar as acusações de ser fraco, de ser incapaz de aceitar o que era óbvio, de ser visto como incapaz de aceitar o que lhe era colocado nas mãos. Mas era um preço a se pagar por ser quem era. Devia ser resistente, devia ser forte mesmo em silêncio, mesmo sem jamais dizer que agora vinha resistindo aos encantos da única alma existente no universo capaz de fazê-lo questionar sua própria posição como anjo. Mas toda a sua resistência acabava por ser subjugado pela presença de um homem. Daquele homem. Ele era o único que ignorava sua exigência por espaço pessoal, o único que invadia seus pensamentos mesmo sem que pudesse lê-los, o único que fazia seu corpo estremecer mesmo sem dizer palavra alguma, mesmo sem sinceramente ter a intenção de fazê-lo tremer. Como Deus podia criar alguém tão perfeito para Edward e exigir que Edward resistisse a ele? E como, em nome do mesmo Deus, podia Edward passar séculos de abstinência e então num mísero segundo perceber que jogaria toda sua força de vontade no lixo para poder se deixar levar pela voz, pela vontade e, não podia mais negar, pelo desejo.
Deixou que ele o guiasse para a sua cama. Iria para onde ele quisesse, bastaria o pedido ser feito — no caso um pedido silencioso. Se aproximou dele, um de seus braços delicadamente rodeando sua cintura, sem saber exatamente o que fazer. — Christopher… — Sussurrou, numa mescla entre advertência, culpa e medo. O poderia ter quando quisesse, mas e quanto às consequências? Até que ponto ele poderia ir sem perder tudo pelo que tanto presava, tudo pelo que lutava? Diabos, já não tinha cruzado essa linha no momento em que deixara os braços do outro encontrarem os seus minutos atrás? Já fazia horas? Já havia séculos? Já resistira o suficiente? Já podia ceder? Deus o condenaria? Iria fazer companhia a Lúcifer no inferno caso se deixasse de fato cair em tentação, em amor, em pecado ? Odiava todas aquelas perguntas. Odiava pelo simples fato de não ter resposta para nenhuma delas ao mesmo tempo em que conhecia as respostas exatas para todas. Porém a voz dele continuava a torturá-lo, fazendo-o esquecer uma a uma cada uma das dúvidas, cada regra, cada uma das inúmeras e incontáveis coisas que lhe proibiam de se aproximar. Não queria mais dúvidas. Queria Christopher. Queria vê-lo cumprir cada promessa sórdida ali confessada. Sentir vulnerável, submisso, perdido nos braços do único que o fazia esquecer a própria identidade. Sua pele arrepiava não de frio, mas de ansiedade, sua respiração falhava não por medo, mas por vontade. Seu coração disparava não por desespero, mas por necessidade.
— Eu não posso... — Afirmou, arqueando a sobrancelha e sentindo a pulsação óbvia do seu membro, sentindo o calor que lhe subia pelas entranhas como se explodisse por dentro de tal forma nunca antes vista. Temeu perder o controle total da própria forma. Uma vez adormecendo o hospedeiro, era difícil controlar as próprias asas em situações de adrenalina como aquela. Moveu quase que sem querer os quadris, procurando uma posição confortável e imediatamente percebendo que, de maneira ridícula, todas as posições pareciam agradáveis quando estava sobre ele. O arrepio sobrenatural que lhe subiu pelo baixo ventre foi o suficiente para arrancar-lhe um suspiro, quase um gemido, mas contido. Seus dedos entrelaçaram-se aos dele e seu olhar vagou pelo lábio do homem, unindo seu nariz ao dele num gesto puramente carinhoso.— Quero experimentar uma coisa.— disse, com indiferença. Não tinha noção de como ou do porquê agir com tal astúcia. Mas sabia que o calor que seguia por sua coluna, abraçando sua pele como fogo, não pararia até que ele compreendesse até onde a urgência de seus pensamentos podia alcançar. E antes mesmo de tentar explicar que coisa era aquela que seus lábios ambicionavam, aproximou-se com a calma de um anjo, porém com a astúcia humana, e no segundo seguinte, sua boca estava colada a do outro, pressionando-a com casual inexperiência, que ia caminhando para uma urgência intensa que o implorava para que não interrompesse o contato. Os lábios de Christopher tinham gosto de pecado, fruto proibido, menta e paraíso. Estranho que fossem eles o caminho mais seguro para chegar ao inferno. E quando o fôlego tornou-se escasso, Ed buscou por seu pescoço, sentindo seu perfume, a textura da pele, o calor que exalava dele e chegava aos lábios ainda formigantes pelo contato anterior aos de Christopher e o insuperável prazer de roçar suas pernas às dele, misturando-as e fazendo deles confusos num corpo só, elevando seus batimentos cardíacos e — é claro — o volume em suas calças. Mas assim que sua mente voltou a linha de pensamento normal, seu sorriso se desmanchou, devagar. — Não devíamos ter feito isso. — murmurou, ainda sem desgrudar seus olhos dos de Christopher.
Até que essa cidade não está tão perdida assim…
Isso é bom, certo ?
…
Te recomendaria ir á um médico psiquiatra?
Eu posso provar.
… Eu ESTARIA. Estaria rodeada de… De sobrenatural se… As bombas mataram eles. Mataram todos eles e é só isso. Só isso. Acreditar em anjos e em demônios é acreditar em… Em Deus e no Diabo. E eu nunca poderia. Sinto muito, mas eu nunca poderia.
Hm, você acha que é uma simples humana, Mikaela ?
Se eu disser que você não é um simples humana, o que faria a respeito ?
Eu estou falando que nenhum de nós dois é um anjo ou conhece um anjo! Nós escutamos falar sobre eles e decidimos acreditar ou desacreditar. Disseram que, há muitos e muitos anos atrás, eles existiram e até entraram em conflito com todo o… Com todo o restante de.. De lobisomens e… Uh, toda aquela historinha de sobrenatural se misturando… Mas, realmente! Anjos? Eu acho que todos estavam delirando quando pensaram que tinham mesmo conhecido anjos e… E é tudo muito… Eu só desacredito. Desacredito de tudo isso.
Acho que seu problema é só falta de fé, mas hn, acredite no que quiser. Mas você está rodeada de seres supernaturais, por que anjos também não podem existir ?
Fala como se soubesse muito mais do que eu quando sabe só o que te disseram também. A menos que tenha conhecido um, e eu duvido muito que tenha.
Eu tô confuso, do que exatamente você tá falando ?
Teriam suas palavras sido capazes de fazê-lo desistir e deixá-lo em sua solidão? Não tinha qualquer afeto pelas companhias que rondaram-no durante anos, mas Edward era capaz de fazê-lo duvidar de si mesmo e seus princípios, mesmo naquele silencio torturante e instigante. Uma parte dele gritava por essa angustiante solidão, que não precisava de companhia ou palavras reconfortantes e outra gritava ainda mais alto que deveria correr e impedi-lo de ir embora se ele decidisse em ir. Não queria perdê-lo e sentia que exatamente isso que lhe aconteceria e jamais teria coragem de trocar um olhar sequer com ele novamente. Sentia frio, muito frio envolvendo seu corpo por pensar naquela ideia. Seria melhor daquela forma… Ah, se pudesse fazer o que realmente desejava…
Enfiou as mãos dentro dos bolsos de sua calça e encolheu os ombros, procurando um modo de se proteger do que poderia acontecer. Era demais para sua mente perturbada suportar e ele sabia que deveria ser forte e não conseguia. Simplesmente não conseguia. Havia a escuridão íntima de seus pensamentos bloqueando-o para dar o melhor de si e lutar pelo que almejava. Afinal de contas, quem iria querer um bêbado depressivo como companhia por muito tempo? Moveu os dedos inquietos dentro de seus bolsos, martelando seus pensamentos sem cessar. Os pensamentos divididos eram a pior parte.
E então vieram aquelas palavras. Poucas, porém carregavam um significado tão majestoso e impactante que sentiu-as no mais profundo e oculto de seu ser. Obrigou-se a manter de pé e imóvel ou estaria simplesmente caído naquele instante. Os olhos azuis arregalaram-se em surpresa e um suspiro alto demais escapou por sua boca após aquela nova aproximação. A expressão de surpresa manteve-se exposta em seu rosto, fazendo-o ter de se agarrar a parede e inspirar com toda força restante em seu corpo. E atingindo-o novamente, sem qualquer aviso ou alerta, aquela pergunta… Como responderia ao anjo sem se deixar levar pelo impulso que fervia mais que magma em suas veias, fazendo o coração ter de trabalhar dez vezes mais rápido que o normal? Não tinha ideia de como, mas precisava respondê-lo ou acabaria enlouquecendo.
— Eu… — Piscou devagar logo inclinando-se sobre o outro, apertando os dedos contra os ombros dele, deslizando-os pelos braços alheios em total nervosismo. Queria apenas se certificar de que não era apenas outra de suas ilusões graças ao álcool e tendo sua certeza, aproximou-se mais, meio hesitante, meio obstinado. Observou com total atenção todos os traços que podia de Edward. Desde o contorno de seus lábios, a cor impactante de seus olhos, o tom de pele, os cabelos, até o formato de suas mãos que pareciam ter sido feitas para as dele. E depois voltou caminho até seus olhos observando-o novamente, desejando-o mais do que antes, mais do que nunca. Já não era capaz de esconder o que sentia e nem queria, não era tão forte para aquilo. Assumiu um tom de voz mais determinado, porém ainda baixo e um tanto influenciado pela avidez que crescia em si. — Faria tudo, Edward. Por acaso já sentiu um desejo desmedido por outra pessoa? Pois se sim, sabe o que estou passando nesse instante. — E inclinou-se sobre ele novamente, aproximando-se demais, levando os lábios até próximo do ouvido dele, sussurrando suas palavras. — Eu o quero para mim. Quero cada pedaço de seu corpo, quero seus braços envolvendo os meus, suas mãos encontrando as minhas e um beijo capaz de me arrancar suspiros. Mais, muito mais que isso. E não mediria esforços para conseguir. Agora sabe o que faria com você caso pudesse… — E não se afastou, respirando fundo.
Ouviu a voz dele, compreendeu suas palavras, tentou se concentrar numa resposta. Falhou em todas as tentativas. Seu corpo estava tremendo. Literalmente tremendo. Por mais que sua mente procurasse um apoio superior que o mantivesse na linha, notava-se cada vez mais envolvido pela presença avassaladora do homem à sua frente. Aquele nervosismo que umedecia suas mãos e resfriava seu baixo ventre na mesma proporção em que esquentava seu dorso era uma premissa do que ainda aconteceria. Edward nunca deixara alguém tocá-lo. Não da forma como Christopher descrevia. E nem deixaria. Não outra pessoa. Não outra que não fosse Christopher. Foi o que o fez perceber que queria, também, que o homem o tocasse exatamente da forma como ele descrevia. Talvez descobrisse os limites da própria existência nos braços dele, talvez se confundissem numa essência só, se misturassem, se encontrassem, se deixassem levar um pelo outro. As vontades explicitadas por aquela voz eram mais ousadas do que Edward jamais imaginaria sozinho. Nem com seus séculos de existência fora capaz de descrever suas vontades com tamanha precisão. Perdera-se uma ou duas vezes entre as palavras dele, mesmo que em essência as tivesse compreendido por completo. Notava-se povoado por imagens mentais que realizavam com clareza as palavras emitidas pelas cordas vocais de Christopher. Edward seria dele com a mesma facilidade com que se respira. O moreno queria tremer sob o corpo dele. Queria sentir tudo o que ele parecia tão capaz de proporcionar-lhe. Uma curiosidade inocente, porém forte o suficiente para alimentar seus desejos e ignorar as suas limitações. Edward deixou que seu olhar fosse o único meio de comunicação presente entre eles por um tempo. Abriu um sorriso, indagando-se mentalmente como raios deixara aquilo chegar a esse ponto. Estava tão exposto, tão imerso em sentimentos que vagavam entre perigosos e hostis que cogitava a hipótese de se afogar em um lago de água corrente. Sentia seus sentimentos serem expostos em cada veia saltava, sentia-se num emaranhado de certezas sobre o quão perfeito seria ficar nos braços dele por aquela noite e por todas as seguintes. Christopher ia deixá-lo louco, se não enlouquecesse antes.
Sentiu-se ser calado pelas mãos de Christopher que tocaram seus braços, numa intimidade que notara ser impossível obrigá-lo a evitar desde a primeira vez que permitira. No momento em que aquele sincero “Eu quero você” foi lançado aos seus ouvidos, Edward percebeu-se derretendo nos braços dele como se fosse manteiga ao fogo. — E-eu também quero você, Christopher. — Sua voz ainda tremia, bem como suas mãos e sua vergonha na cara. O olhava com o mesmo aspecto curioso e ligeiramente tímido. Não sabia falar sobre aquelas coisas. Encontrara sua última barreira e essa somente ele próprio podia derrubar. Calou por um momento, respirando fundo, sem saber se estava ultrapassando limites que sequer lhe pertenciam mais. — Isso é algo muito sujo para se dizer para um anjo, sabia? — Sussurrou num sorriso, soltando uma risada baixa, e sentindo seu rosto queimar. Anjos não possuíam sexo, no plano espiritual. Mas se fosse trazer para o plano terreno, homem ou mulher, não fazia muita diferença. Não quando o que o atraía era uma alma e não um corpo. Poderia facilmente ver-se a desejar que Edward fizesse tudo o que desejava fazer, percebendo o quanto estava fora de controle. — Não tenho muita certeza se sei como isso funcionaria em nosso caso. Se pudéssemos nos tocar… se você pudesse me tocar. Como seria, Christopher? Como conseguiria, ao mesmo tempo, fazer meu corpo tremer, e meu coração explodir? — Seus dedos pressionaram os músculos do antebraço dele, apertando tão forte quanto sua necessidade o obrigou. Fechou os olhos por instinto, mordendo o lábio inferior com tamanha força para evitar novos barulhos estranhos escaparem dela que sua respiração faltou. Podia sentir o tremor atingindo suas pernas, subindo por elas num arrepio e desestruturando suas idéias. O frio na barriga que se espalhou por todos os espaços conhecidos de seu corpo foi se tornando intenso, crescendo a ponto de provocar-lhe certo desespero que podia jurar que não imaginava existir no mundo. Fez um contato desesperado entre sua bochecha e a dele, sentindo seus lábios contra o lóbulo e novamente enviando ondas quentes de um prazer proibido que se espalhou quase que imediatamente por todos os seus sentidos. Esticou o braço um pouco para tocar em seus dedos pálidos, extremamente frios. Os entrelaçou em sua mão, quase que sem pensar.
Christopher escondeu as mãos atrás das costas, querendo ser capaz de mostrar-se natural perante daquela situação, porém estava apenas pedindo o impossível a si mesmo. Não tinha como se manter natural diante de tudo que já havia acontecido até ali e muito menos diante daquele homem a sua frente e repreendia-se por aquela falha, afinal de contas ele poderia revirar seus pensamentos quando quisesse e lhe deixar apenas mais envergonhado — se é que isso poderia ser possível. Então abaixou o olhar outra vez, sequer conseguia fitá-lo diretamente sem querer dizer tudo que tinha vontade e mandá-lo embora para reorganizar-se. Reorganizar-se pela décima vez desde quando o viu. Não conseguiria e nem iria tentar… Infelizmente, não há como lutar contra algo mais forte que si próprio e ele sabia muitíssimo bem.
Seus lábios curvaram-se em um meio sorriso e esqueceu-se de toda a confusão por alguns segundos depois de ouvi-lo, porém logo voltou a ajeitar a postura, mover as mãos ainda bem escondidas e a respirar baixo. Queria sentir o abraço dele outra vez e poder guardar um pouco dele em suas roupas, em sua pele, em tudo que fosse possível e tal ideia apenas fez com que um arrepio mais intenso corresse por seu corpo, obrigando-o a fechar os olhos repentinamente e com força. Devia simplesmente esquecer dos devaneios e desistir de seus desejos quase ridículos. Quase, se não fossem tão fortes como eram naquele momento.
Piscou os olhos algumas vezes quando a voz alheia acordou-lhe abruptamente de seus pensamentos, mas não acreditou no que ouviu. Como poderia livrar-se de seus desejos com um homem como aquele à sua frente? E dizendo aquelas palavras sem nem ao menos perceber o desarranjo que lhe causava… Pela primeira vez em muito, muito tempo sentiu-se realmente envergonhado por ser capaz de imaginar como aquela noite poderia terminar. Mordeu o lábio inferior ao aproximar-se um tanto receoso e mirar os olhos azuis nos dele por vários segundos após ouvi-lo completar sua frase. Engoliu em seco e mostrou as mãos trêmulas para Edward, voltando a perder o controle de sua respiração. Deveria ser rápido no que diria ou não teria mais forças contra ele. — Você tem noção do que está fazendo comigo? Milhares de pensamentos relacionados a você estão correndo por minha mente, não apenas minhas mãos mas todo meu corpo permanece trêmulo desde aquele abraço e… E sua presença aqui está quase me obrigando a agir por impulso, Edward. Creio que não será proveitoso para nenhum de nós se você terminar a noite aqui. Pode ir se quiser, não se sinta preso a mim pelo que disse no bar. Eu estou bem… — E sorriu fraco, virando-se rapidamente.
O nervosismo que antecedeu a chegada da resposta de Christopher lhe veio como um vendaval interno. Cada sentido seu se perdia nas desesperadas tentativas de se manter alheio aos mais diferentes calafrios que lhe percorriam a espinha dorsal. Sua visão parecia ter escurecido tudo o que havia ao redor, focando-se exclusivamente em Christopher, no olhar dele, nos lábios,o contorno de sua clavícula, os músculos trabalhados, uma estranha sensação de paraíso ao imaginar-se repousando em seu abraço, milhares de fagulhas e fractais se misturando à visão perfeita de do homem. No paladar um estranho salivar, água na boca, desejo, talvez, inquietude, impaciência, vontade, necessidade, fome. Estava faminto do contato dele. Inebriava-se de seu perfume, o olfato aguçado capturando todas as nuances que o separavam da pele que exalava um perfume delicioso, deixando-o sentir no sangue os mínimos feromônios liberados.
Mãos trêmulas, a nuca arrepiada, um tremor estranho nos músculos da perna, vergonha. Seu rosto estava vermelho de vergonha. Timidez, talvez. Embaraçamento. E então o último dos sentidos que foi atingido com o poder de uma bomba atômica. A audição finalmente foi bombardeada pela voz rouca e baixa, carregada de palavras perigosas que certamente destruiriam sem pudor algum todas as suas defesas. Sentiu os pulmões trabalhando mais rápido, o coração pulsando mais sangue do que o habitual por seu sistema e as mais absurdas vontades iam se revirando num furacão de sentimentos. Queria poder tocá-lo. Não só naquele instante. Queria tocá-lo o tempo inteiro.
— Não confio em mim mesmo perto de você. — Confessou num sussurro, dando um passo para trás, empurrando-o com determinação e procurando o apoio do sofá onde se segurar. Christopher teria notado que suas pernas não tinham mais a capacidade de ampará-lo? Respirou fundo, o oxigênio sendo suficiente para garantir-lhe equilíbrio. Depois de recuperado, porém sentindo que começaria a rir diante das mãos trêmulas que apertavam o acolchoado do sofá, Edward ergueu o olhar para vislumbrar o rosto do homem. O coração acelerou como um motor, dando-o uma rápida falta de ar ao colocar-se firme sobre os próprios pés. Aproximou o rosto do dele, tirando um tempo para examiná-lo. — Se pudéssemos nos tocar… — Fez uma pausa, buscando o ar que parecia ter subitamente fugindo de seus pulmões. — Se você pudesse me tocar Christopher. O que você faria comigo? — A voz grave adquiriu um timbre perigoso, quase um sussurro, como se suas cordas vocais estivessem sem forças para se manterem firmes. —Me proibi de ler seus pensamentos, então seja direto, objetivo e claro. Sem filtros, sem julgamentos. Tudo o que você faria. — Deu ênfase no tudo como se o tudo não abrangesse tanta coisa assim e esperou. Queria ouvir. Queria ouvir mais do que qualquer coisa. Que Deus o perdoasse.
Náh. Talvez eu tenha inventado.
Coisinhas… Coisinhas celestiais inventadas pelos que acreditam em coisinhas celestiais, com asinhas e uma aureola. Uh.
Hn, está quase certa, coisinha humana.
Agradeceu em silêncio por ele ter se afastado. Não por querê-lo realmente longe, mas por não saber como reagir diante daquele abraço. Ainda sentia o poder dos braços do anjo sobre seu corpo, fazendo-o respirar baixo e lentamente enquanto movia os dedos em busca de um meio capaz de tirá-lo do estado de paralisia qual se encontrava. A situação fugiu completamente de seu controle, não deveria jamais ter perdido a calma e muito menos ter aceitado aquele consolo. Também não deveria pensar em Edward no modo como fazia naquele instante. Nunca existiu um porto seguro para sua mente conturbada ou seus medos em excesso. Além do mais, deveria querê-lo longe e não o contrário.
Suspirou falhadamente e virou o olhar azul para o outro quando os dedos foram entrelaçados. Com receio e muito cuidado, apertou aquele toque querendo vencer a vontade de correr dali e se esconder em um lugar qualquer. Não iria sucumbir aos desejos de sua mente fraca, não naquela noite. Ele sabia não estar tudo bem, mas procurou acreditar nas palavras vindas dele e abaixou um pouco o rosto. No final sentia-se um tanto envergonhado e confuso demais para emitir qualquer som. Apenas o acompanhou em completo silêncio, observando cada traço dele que podia, buscando uma maneira de ser forte diante da situação em que se colocou.
Não mostrou reação alguma naqueles segundos que se passaram entre a saída do bar e a chegada em seu apartamento. Ele vasculhava sua mente — Christopher tinha certeza — e ficaria surpreso com a quantidade de pensamentos que invadiam-na, absolutamente, porém Edward também deveria saber que oitenta por cento daquela bagunça era voltada à ele. Vasculhou os bolsos com a mão livre em procura das chaves e depois de algumas tentativas falhas graças a maldita tremedeira que ainda o acompanhava, abriu a porta delicadamente. Era completamente contrário ao que desejava, mas desuniu as mãos sutilmente, querendo que o outro voltasse a segurá-la quando toda aquela situação se resolvesse.
Seu apartamento tinha aroma de cigarros e bebida, porém era escuro demais para que fosse encontrado qualquer vestígio. Christopher preferiu não acender as luzes até conseguir acabar com as lágrimas de seu rosto e voltar a observá-lo. Quando o fez, procurou um modo para sorrir e falhou, porém apenas mostrou uma expressão amigável. — Você me deixou sem palavras…
Estava dolorosamente ciente da proximidade dele. Mesmo assim, evitava o olhar dele, tentando normalizar a sua respiração, pelo que parecia ser a quinquagésima vez desde que entrara na sua casa. O quarto tinha cheiro de nicotina. Mas Edward não se importou, se perdendo no perfume de Christopher pairava pelo ar. Tudo ao seu redor lembrava ele, naturalmente. E sentia-se frustrado por sentir suas mãos suarem de nervosismo pela ideia de estar ali. Sentia-se um tanto desconfortável, como se cada nervo seu implorasse para que ele saísse dali o mais rápido possível, que fosse a uma igreja, que orasse e pedisse a intervenção de qualquer entidade superior que pudesse remover de sua mente aqueles pensamentos que não lhe pertenciam.
Cruzou os braços para rearranjar seus pensamentos. Agora que somente seus próprios eram audíveis ficava mais fácil de ver com clareza a situação e sentir-se ainda mais envergonhado por minutos atrás. Engoliu em seco, percebendo que suas mãos ainda tremiam, que seu corpo ainda sentia o impulso incontrolável de procurar os braços dele e envolvê-lo entre os seus. Diabos, o que esta acontecendo comigo ? perguntava-se em pensamento, mas logo que a voz de Christopher chegou ao seus ouvidos, e Edward liberou uma risadinha nervosa, umedecendo os lábios e ligeiramente dando de ombros. — Eu sou um anjo, esse era o meu dever ?! — sussurrou, rouco, Edward não sabia bem como oferecer-lhe paz de espírito, mas sabia mostrar-se protetor. Encarou o os olhos de homem com cautela, mostrando-se calmo, apesar de acontecer uma guerra dentro de si mesmo no momento.
— Você já experimentou dormir ao lado de um anjo ? Nenhum pesadelo sequer. Sou como um apanhador de sonhos ambulante, garanto que sua primeira vez na cama com um anjo é que vai ser inesquecível. Melhores sonhos do mundo. — Fez uma pausa, procurando o tom certo para adentrar naquele assunto mais delicado. E não percebeu a ambiguidade da sua frase.Que se percebe-se o faria se odiar ainda mais. — Essa noite vou assistir seus sonhos. Garantirei que sejam bons. — Sua voz não era mais que um sussurro, como uma melodia que adentrava o quarto e se perdia num piscar de olhos. Demorou-se na apreciação de seu rosto, decorando cara traço em sua memória como se fossem parte dele mesmo que se desprendiam e se fixavam nele. Ou partes dele a se desprenderem e se fixarem nele. Um jogo de cores que se misturavam, se tornavam uma, se condensavam, uma química natural quando se trata de corpo, de contato, de desejo.
M-Meus pensamentos? PFF! Meus pensamentos foram influenciados pelo duplo sentido que a sua frase tinha. Porque tinha muito duplo sentido aí. Uh.
Mas o que é um anjo? Uma outra doutrina do catolicismo ou coisa parecida?
Hn, você que inventou um duplo sentido, na verdade.
Hm, o que você acha que é um anjo ?
Queria poder sumir entre a escuridão de seu pensamentos naquele instante e nunca ter de voltar a vê-lo. Já não era mais pela raiva, mas pela sensação que lhe atingia a cada instante que ainda o tinha próximo, quase como se pudesse sentir qualquer movimento ou se pudesse ler a mente alheia, além da dor infantil e do orgulho que feriam mais do que todas as outras armas usadas contra seu corpo antes. Deveria ter superado… Edward disse que seus pais estavam bem, que não o culpavam então qual a razão para ainda se sentir tão preso a culpa por aquela noite que estava tão longe e ao mesmo tempo próxima?
Encheu os pulmões novamente, sentindo o ar cortar-lhe por dentro e os olhos arderem de forma mais torturante a medida em que não era capaz de conter nem mesmo seu choro, queimando sua pele pouco a pouco e obrigando-o a levar as mãos até o rosto em uma tentativa falha de acabar momentaneamente com o sofrimento que guardava em suas lágrimas. Ele permanecia ali, próximo demais… Seus pensamentos estavam confusos demais para buscar por mais palavras ou uma reação como a inicial para afastá-lo, então acabou por encolher o corpo, buscando uma solidão que não tinha ali.
Até sentir aqueles braços envolvendo-lhe. Um toque celestial capaz de arrancar de seus lábios um ruído rouco de surpresa e fazer com que seu corpo muito inquieto como seus pensamentos parassem por um momento. As mãos caíram de seu rosto e não soube o que fazer para se afastar ou mesmo se queria realmente se afastar, permanecendo em um silêncio total.
Ao ouvir a voz dele chamando seu nome de tal forma poderia jurar ter esquecido até mesmo como respirar e de todas as preocupações que afligiam sua mente todas as horas de sua vida. Permaneceu sem reação alguma ao restante da frase, não mostrando qualquer resistência à Edward, seu abraço e palavras reconfortantes. As lágrimas cessaram e ele moveu os lábios silenciosamente, procurando palavras que não lhe viam de forma alguma. — Eu… Eu sinto… Muito. — Foi tudo que disse, buscando o restante de coragem que poderia haver em si para, de alguma forma, retribuir aquele abraço antes que ele terminasse.
Edward não podia sequer explicar o quão perigoso aquilo era. A proximidade, a ousadia com que ele fitava seu olhar, o timbre de sua voz. Demais. Era demais para o anjo suportar. Era por isso que precisava de uma distância segura, precisava evitar despertar coisas em seu corpo que não poderia ser capaz de controlar. Coisas que iam além da compreensão dos anjos, por mais experientes que o fossem. Aquilo era mais do que ele poderia aguentar sem reagir — reagir sabe lá Deus como. Não conseguia encontrar uma forma segurança de fazer qualquer coisa diante daquilo. Olhou ao redor, buscou um sinal, uma ideia, uma salvação, mas já estava perdido.
— Tá tudo bem. — Murmurou, sem ter certeza se realmente estava. Poderia estar mentindo. Deus, estava. Era mais do que óbvio como nada estava bem para ele, e ficou irritado consigo por não poder fazer nada a respeito. — Vem. Eu vou te levar pra casa, okay? — sugeriu, afastando-se do abraço lentamente, relutante em soltá-lo. Segurou sua mão, entrelaçando os dedos, puxando-o em direção da saída. De repente percebeu estar num caminho sem volta, surpreendendo a si mesmo também ao perceber que não pretendia recuar. Não agora.
Edward sequer se importou em usar alguns minutos para vasculhar a mente de Christopher. Sabia do quanto isso era mal educado de sua parte, mas precisava do endereço da sua casa. Arrependeu-se, no entanto, em menos de trinta segundos, ao perceber quanto bagunçada era a mente do jovem. Mentalizou a casa de Christopher, e fecho os olhos, e em menos de um fração de segundo já estavam na casa do moreno. — Chegamos, Christopher. —
… Isso soou muito pervertido para um anjo.
Seus pensamentos que são pervertidos, na verdade.
Saquei a ambiguidade, d-desculpe, acho que você interpretou mal.
— Eu não sou frágil. Não ouse dizer isso novamente. — resmungou, encarando-o com uma expressão de puro ódio, que logo foi quebrada alguns segundos depois. — Eu só… estou bêbada, okay?
— Hn, okay. — revirou os olhos, e engoliu em seco — É, eu estou vendo. — a soltou por completo, se certificando que a mesma não cairia de novo — Você pode ir dormir, sim ? —