kyledoscopio:
✗。º◂—— A água escorria livremente da torneira direto para o ralo, fazendo um barulho quase inaudível. Os nós dos dedos tornavam-se esbranquiçados à medida que mais força era posta nas mãos, que agarravam os lados da pia de mármore branco. Quando subiu o olhar baixo para o espelho, viu uma criatura pálida devolver o gesto, sem qualquer expressão. Molhou as mãos naquela água que continuava a correr e passou pelo rosto, sentindo o choque entre quente e gelado despertá-lo finalmente. Puxou a pequena toalha pendurada em seu ombro e secou quaisquer vestígios molhados da pele. Os dedos foram ligeiros até o bolso das vestes, tateando até encontrar o enrolado de tabaco. Pegou um cigarro. Acendeu na lamparina. Uma tragada e estava vivo. A fumaça escapou por seus lábios em espirais. Típico início de dia. Tragou o cigarro mais duas vezes antes de o apagar, mesmo estando inteiro, a pastilha de menta sendo colocada na boca antes de abandonar o seu aposento. Já na área comum, tivera seu caminho até o refeitório interrompido por uma distração. Olhava para frente, e bastou que desviasse os olhos por um segundo para que sentisse o impacto do seu corpo contra o alheio. Dá onde ela surgiu? O pensamento cruzou sua mente antes que erguesse o olhar, identificando um fantasma do passado diante de si. Piscou algumas vezes, segundos parecendo horas enquanto encarava a morena à sua frente, até que esta cortasse o silêncio que pairava entre eles. Voltou à si, notando finalmente a aparente falta de equilíbrio da outra e aproximando-se o suficiente para que pudesse a segurar. Talvez só tivesse o feito para se certificar de que, desta vez, era ela mesmo. Jamais confessaria, mas verdade seja dita, sonhara acordado com Elizabeth durante os primeiros meses após o sumiço repentino da morena. — Você está bem? Precisa de uma água? Posso te levar a enfermaria se sentir que seja necessário…
Quando ele a tocou, a confirmação de que era real e não um delírio caiu-lhe como um choque. Junto, parecia ter sido atropelada por uma carruagem de sentimentos avassaladores que estavam há muito adormecidos, e misturados, a impediam de pensar direito. Apesar do rosto maturado, dos centímetros que ganhara e da voz levemente mais masculina, Elizabeth jamais confundiria aquele par de olhos a encarando. Não tinha mais dúvidas de que era Kyle, porém, ao mesmo tempo, era como se recusasse a acreditar. Já não tinha mais cabeça para pensar sobre como era rude deixar alguém falando sozinho, à espera de sua resposta, vez que sequer sabia o que falar, com sua mente congelada. Finalmente, recuperara a capacidade de falar, ainda que a voz estivesse trêmula e baixa “E-eu... Estou bem, eu só...” embaralhava-se nas palavras, e então viu-se falando “Apenas tive um momento de ausência, ando estressada e... Por um momento, devo ter me perdido em pensamentos, pois imaginei ter reencontrado um... Conhecido.” um pequeno sorriso surgiu em seus lábios em desculpa, e por mais que a intenção fosse esconder, este só fazia transparecer mais o turbilhão da confusão em sua cabeça. “Aceito um pouco de água, talvez a razão de minha ausência tenha sido desidratação.” comentou ao que assentia, e por mais que não conseguisse manter os olhos naqueles inconfundíveis sem sentir o mundo girar, não queria tirá-los dele, temendo que se o fizesse, este sumiria novamente de sua vida. A cozinha, por fim, não ficava tão distante dali, fazendo com que duas dezenas de passos os guiassem à porta do local, onde logo foram recebidos pela fala alta, postura materna e rosto rosado da cozinheira chefe, exclamando pelo nome da costureira “Senhorita Elizabeth! O que aconteceu?!” as mãos desta então foram examinando-a, do antebraço enfaixado até o rosto empalidecido, que não escapou à percepção alheia, resultando-lhe em um sermão “A senhorita anda cabulando as refeições de novo, huh? Nem tente mentir para mim, esse rostinho te dedura! Tão pálida, tão magrinha... Vamos, sente-se, só deixarei você sair daqui novamente depois de ter se alimentado!” e, antes que a jovem pudesse sequer começar a explicar-se, já era arrastada até um dos banquinhos diante da mesa de madeira da cozinha, e ouvia a voz da cozinheira chamando também o rapaz “Por favor, senhor, fique à vontade! Os pães logo sairão do forno, quentinhos!” E, uma vez sentada e forçada a dirigir a palavra mais uma vez a ele, Elizabeth soltou um tanto sem jeito “Muito obrigada por acompanhar-me, até aqui, senhor... Creio que tenha algum compromisso que acabei interrompendo, então, por favor, sinta-se à vontade para retomar seus planos... Estarei bem cuidada nas mãos da Sra. Pearson...” encolheu novamente os ombros, tentando novamente um sorriso convincente.












