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para o dia
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os galhos racham ao amanhecer
para o dia
agonizar até o sol
se pôr.
Amar é sofrer?
Não.
Não sou eu quem vai dizer o que já foi dito. É disso que venho me queixar. As pessoas acreditam sempre nas mesmas coisas.
Amor é dar e amar. Amar não é sofrer.
Já me machucaram muito. E eu me acostumei a fazer essa ligação. Mas amar não é sofrer. Amar é amor.
Eu já machuquei também. Mas amar não é sofrer. Desculpa.
Eu não gosto de sofrer. Eu gosto de amar.
Sinto forte as coisas quando elas me tocam. E eu amo elas. Sinto o relevo das cavidades que estão inscritas em seus dedos tocarem-me. Sinto seus olhos passarem por mim como se queimassem. Sinto o calor sob seus braços quando os seguro pra beijar seu corpo e sinto sua pele eriçar enquanto meus lábios te contornam. E enquanto sinto existo.
Sinto também a sua ausência, as noites em que aguardei uma resposta que não veio. Te disse coisas que não bastavam-se em si mesmas e me perdi nas incontáveis vezes que fantasiei você vindo a mim, querendo-me enquanto o sempre fosse agora.
Eu gosto de amar, pois enquanto te sinto te amo, e posso assim viver naquele instante que desafia a gravidade e se suspende em nosso lugar. Deixamos pra outra hora nossa subjetividade: assim acolho com os nervos da pele as verdades mais difÃceis de contar.
E enquanto eu amo eu vivo.
E também aprendi a me amar.
Me dizem, tolo, você nem é tanto assim. Sua pele não é tanto assim. Seu toque nem é tanto assim. Você mentiu pro mundo inteiro e sequer sabe que não é tão bom assim.
Sei que estou perdido em uma outra verdade, de fato. E essas mentiras devem se tornar ainda maiores na medida em que você se distancia da cama e o colchão fica gelado, até que outro deite em meu lugar — assim você ri, agora, do que antes tivemos.
Me faz pensar que minto mesmo.
Estou jogado fora. Num lugar onde as pessoas sentem medo de dizer a verdade, pois a verdade nos faz ter medo de amar.
Mas amar não é sofrer.
Sofrer é acreditar, ainda que por um instante, que sofro por amar.
E o sofrimento ainda me ama; luta pra me habitar, esse infeliz sentimento. E eu, resistindo, confabulo agora se não é por isso que tanto ele me quer.
Afinal, não devemos dizer não?
O amor é amar.
Quando voltei da sua casa aquele dia, eu vim pulando na rua, como um vazio cheio de rosas. Eu era um perdão aos que torturam. Uma gentileza em meio ao fim das cores.
Eu era um tolo.
Enquanto todos os nossos direitos eram retirados, enquanto fechavam-se os teatros, as escolas eram militarizadas, as pessoas mutiladas, confissões eram forçadas, praias e manguezais estavam sendo pintados de piche, e crianças ainda morrem de sede e fome (!), eu corria pela rua pulando.
Era como se eu fosse uma criança. Havia decerto feito o gol do tÃtulo da sala no campeonato de recreio. Havia sido levantado e honrado. Haviam gritado meu nome.
Não. Eu era um tolo.
Mas não era por amar.
E eu amo o suficiente pra tentar não gritar toda a dor que, em verdade, é quem grita muito mais alto do que sei disfarçar.
O amor fala em sussurros. Como eu quero lhe dizer.
Quero que você saiba que não tem porque sofrer. Amar não é sofrer.
Vá em paz se precisar.
Quantas vezes quis me resgatar. Busquei olhar pra dentro de mim e me inserir novos parâmetros, novas condições, novas verdades. Muitas delas floresceram.
Mas algo que não posso mudar é justamente esse motor que me faz mudar.
E esse Ãmpeto de viver que é meu carrega em si um simples traço, que é sentir tudo e em tudo estar. Tudo me toca; e, se sinto, mudo.
Portanto, isso que me faz mudar a cada dia não posso alcançar.
E se sei que te carrego, como carrego também outros dias que já se foram, sei que eventualmente serei novo, e sei que existirá somente em mim aquele amor que não posso mudar.
Até que esse movimento tome de novo os mesmos caminhos?Â
Amo pra que isso não me impeça de amar.
E eu sei que você sabe, pareço frágil.
Mas é porque posso aparentar não ser mais que gestos ou palavras abstratas; uma questão lançada irresponsavelmente que faz o meio se contorcer como se fosse, eu, nada além de sons que se espalham no ar.
As pessoas me negam para não enxergarem a si próprias. Sou um incômodo invisÃvel.
Há fragilidade neste existir pois tudo está prestes a se alterar. Posso ser denso e sem forma. Sou o ar que respiro; sou aqueles que me acompanham.
E essa iminência aflige os estômagos.
Ademais, meus pensamentos são pesados. E, de tanto carregá-los, hoje sei que posso correr e voar com eles todos bem dobrados no fundo de meu corpo. Meu corpo, aliás, não somente os tomou pra si, como os recria — agora despidos de suas primeiras impressões — a cada segundo, em meus olhos, minha boca e meu amor. Por isso, preciso amar.
E amo.
E nem por isso sofro.
Sofro, sim. Mas é pois vivo em um lugar onde venta demais, e as pessoas estão muito agasalhadas. Estou longe de seus núcleos.
E desaprendi a pedir. Só sei sentir.
Meu corpo grita, mas meu amor silencia.
Sofro, sim, pois esbarro em normativas vulgares; meus tormentos devem ser invisÃveis, meu Ãmpeto deve se conter um pouco mais.
Falta-me sensatez, dizem.
Dizem, jogue o jogo do amor, se amas.
Assim, como fazes, hão sempre de fugirem-te, dizem. Não ame tanto, querem dizer, ou vais sofrer.
Mas amar não é sofrer, lhes digo.
E não posso alterar o fato de que amar me faz mudar, e mudo pra poder amar. Mais e mais.
Sofrimento há de esperar.
Eu
Despedaço-me em palavras.
Esfriam-me, elas, de vibrações insuportáveis que me afetam de hora em hora.
Teimo comigo mesmo em despejar em letras toda essa sujeira que acumula-se nos cantos de meu corpo, como restos de uma sensação humana e baixa que me faz recordar de tempos de infidelidade ao meu próprio corpo.
Essas palavras, que revelam o meu eu mais insano, simultaneamente, talvez, são elas mesmas as responsáveis pela minha sanidade. Garanto aos meus fluxos de consciência e escolha — dos quais me orgulho fortemente — que a visão é o primeiro passo para a ação; se não vejo, não posso saber para onde ir. DaÃ, quando reconheço minha fraqueza, posso novamente me tornar forte — só assim.
E nesse jogo de um passo adiante, e de volta dois, continuo irresponsavelmente à frente; contra qualquer matemática.
É assim que me vêm essas letras continuamente, para expurgar de minha alma aquilo de apodrecido que nela há; busco ver dentro de mim. E normalmente encontro coisas demais.
Todas,
todas as batalhas que são ou serão travadas
iniciam-se silenciosas
gritando em nosso cortex coisas obcenas
protopalavras semi-cerradas mescladas uma por cima da outra
num complexo emaranhado de motivos mentirosos
onde descansamos as noites mais impuras da nossa existência
enquanto apodrecemos cada um dos dentes até que tenhamos
o bom senso de mandar alguém tomar no cu.
(...),
Cá estamos, nos alimentando do que há de resto do desejo que nos aproximou. Resto esse que não confunde-se com tal desejo; trata-se de um antidesejo, talvez — contido nos pormenores de nossas interações. Eu, sentindo-me de mãos atadas, me engancho inabilmente a você, com toda a força de meu corpo, equilibrando-me num jogo insustentável; e sei que em algum momento hei de perder o sustento que me mantém aqui. De pouco em pouco sinto a fadiga de um membro e a transfiro a outro; sinto um lado de meu corpo deslizar sobre você e faço força para o outro — enquanto você é toda malabares. Você graceja pra mim de olhos fechados e joga com os nossos dias de uma mão para a outra; aliviando e tensionando. Um movimento incessante, porém simples.
Apesar de aparentar indiferente ao brincar com a mais séria das leis universais — o tempo —, no canto de seus olhos jaz um leve desconforto, que se intensifica na medida em que me sacudo para permanecer agarrado a ti.
Quanto tempo hei de permanecer caindo nesse emaranhado feito de nós, por medo do que há ao final da linha, questiono-me. Bem em verdade, já Ãamos caindo quando nos encontrávamos no ar, desacordados. Tocamo-nos e percebemos novamente a possibilidade de existir, até que o toque se tornou a existência em si, e nos fez lembrar que há mais a ser considerado.
Agora, desperto, permaneço em queda; mas sei o que nos espera.
Ah,
meu tempo ri de mim
faço as coisas que não faço
as coisas
riem de mim
pois deixei o cabelo crescer e disse
que quero fazer outras coisas
quando
levanto a cabeça e vejo onde estou eu noto que estou vivendo as mesmas histórias
repeti a mim mesmo em voz alta, na mente, que aquele roteiro era a base negativa da minha existência
um mapa ao inverso justamente o que não jamais deveria compor-me
de novo
enfim foi essa a história de quando levantei a cabeça pra ver que estou vivendo as mesmas histórias
sinto muito
sinto que te conheço há mil anos
não sei seu nome do meio, é certo
nem o da sua mãe, seu pai...
sequer dos seus irmãos
não sei a data do seu aniversário
sinto que quando tu fala é pra mim
mas quando eu respondo
tu nem ouves
ou disfarça
sinto que um dia seremos
mas fomos
paramos
morremos
sinto que você ainda busca algo aqui
mas quando te olho
você desvia
foge
não arrisca-se
sinto que sua feição é de alegria
porque estou lá
mas sinto quando em você habita um pesar
mas,
bobeira minha
essa alegria é de ter vencido o dia;
esse pesar é de ter passado o dia...
e só.
talvez, faltou-me o mar
estive muito quente
sinto que lhe faço cócegas com os olhos
da risada de nervoso que eu dei
quem sabe tenha sido engraçada
falei besteira quando sorriu
pensei...
sou eu!
mas que tarde é agora
sei que não me escutas de longe
sei que acho as coisas
e me perco em achar
busco sinaizinhos Ãnfimos
pra confirmar
aquilo que sei que
não é verdade
pergunto aos sóbrios
se é normal sentir
sob o pescoço
acima do diafragma
ausência de espaço
onde você caiba
e caio em pueris fantasias
adoeço ao fim do dia
de sentir tal sentido
é o desconhecido
verbalismo impossÃvel
sinto muito que nós tenhamos sido algo
já antes
de eu ter sentido tudo agora
mas como é que uma chuva
cai
se antes, afluente, não evapora.
uml em br et e
passeio entre náufragos, cinicos,
rótulos;
e temo ser eu, eu mesmo,
qualquer um deles.
adentro caminhos,
busco aos meus olhos, quase
luz entre mares, vejo
encontramos mais três vezes...
me estendo em olhares, sinto
e aguardo os novos começos,
se iniciarem.
aos cantos me jogo,
inédito;
passeio ao meu tédio.
suando o intenso, crendo
já desistir de achar
nexo...
estresso-me:
versos...
lentos rabiscados,
vagos,
saltos mas
vou por saltos
passos
altos..queda.
outro.
rotina
de cada três, entrego quase calmo
recebo mais calado
e grito, incontente
sensei da gente
queda, asfalto
derrota, choro
traição, mentira
ademais somos menos
intensos
ao pôr do sol
choramingo após,
cansado da luz,
retendo-a
mais um pouco
decanto raios em
solo arenoso;
aguaceiro lá em casa
espero minha vez,
paraplégico
e descrente.
o incrÃvel está em outro lugar
mais.
exaspero a vida que há em meu crânio;
sinto a pele limitar meu sentir,
o toque é bom, cria memórias para o agir
me habito?
cogito ser e só, um todo único não-analisável
ingerência dos poderes outorgados pela própria existência:
quais poderes?
gritei por eles a vida inteira!
dê-me, forneça-me essa ferramenta,
seu uso é imprescindÃvel
tudo que fui até aqui foi perda
não esqueça
sejamos sábios, criemos
precedentes
entendamos nossas mentes
viajemos por caminhos infindos
ilimitado.
mas?
mais querer, reger-se
inviável pretensão
fruto da nossa separação
ser e coisa, mundo, outro
sou todos os dias eu mesmo
mas como posso querer ser algo
a mais, a menos?
sou. não há regência.
há existência; caos e aderência
normativas invisÃveis que nos tornam
menos gente
e cremos também em gente
e gente crê em divinos motivos
oriundos da morte de outra
comunhão de gente
e, aparentemente,
temos menos de gente,
mas mais de toda ela
união de outra gente
sobre a gente.
prescrevo-me
compondo sentidos distintos
de diferentes fontes
em um desaguar comum
como se posto em vindouros
augúrios
em distintos meios de acreditar
dos futuros, nenhum
passados são cediços
em detrimento de nosso observar
e são nada sem nosso olhar
tendente a se modificar
crendo em telas, vivo em metades
terços, quartos
fecham-se as portas.
olhos murcham à visão do
banalizado
conteúdo replicado
aceito e durmo.
palavras soltas #1
me perco em ponderações; meus valores conflitam e emergem vazios esquemáticos que gritam duas respostas (conflitantes).
parte 1
sussurros oriundos de minha pele comunicam-se: exigem repetições impadronizáveis. meu olfato, recuperando-se ainda do tempo em que fui fumante, cansado, relembra nomes e faz-me rir.
a escassez me permite dois ou três momentos de clareza. minha loucura os julga a regra de minha existência. foi assim que me declarei irresponsável pela necessidade que meu corpo me impunha.
julguei haver um espaço de deliberação, uma dicotomia entre meu corpo e minha alma. julguei ser minha a escolha de ser quem sou.
mas, sou quem sou e devo me encontrar ou, não, sou o nada e me faço algo?
não me basta, por mais difÃcil que isso já seja, criar meu valor.
o valor não descreve sua vida, ele te dá parâmetros para julgá-la. porém, me aflige a própria existência: os valores não me parecem capazes de responder certos questionamentos. não posso imaginar, sequer, se realmente escolhi os valores que pretendo proclamar. não sei se os prego, se os vivo, se ambos, nenhum...
a questão é que as coisas acontecem. valoramos essas coisas de maneira incoerente, irracional, inconsciente, portanto, sem olhar para os valores.
inclusive, o acontecimento sequer é visto como tal. é que ele é imerso em um lÃquido viscoso que contém padrões, expectativas, hábitos, traumas, medos. assim inicia-se a loucura. é a regra resultar do excepcional. dizia-se isto na literatura brasileira, nem me lembro mais quem o fez.
parte 2
adiante, encontro um aperto no peito que me remonta a crenças distantes. emergindo como se viesse de dentro de meus ossos, fugindo aos cantos de minha pele, amontoando-se no centro de minha compleição, cogito outras loucuras (secundárias).
me dá vontade de destruir aquilo que vem me destruindo, mas essa é precisamente a minha esperança. caso eu sucumba, resta-me, novamente, o isolamento.
meu tato exclama! meu olfato se arranha à s traves da minha face. devo confessar que prefiro não adentrar ao âmbito do paladar, da visão ou da audição. não me perderia em digressão assim de bom grado. divirto-me, se possÃvel; não me agrada o vazio em si.
há, sempre, uma linha tênue entre a punição e o salvamento. pretendo utilizar do meu direito, contudo, ao esquecimento.