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@escorpioesefervor
Adormeci, sentada no trono negro, anunciado pelas cartas de tarô. Enquanto dormia, sonhei, confundi realidades, chorei e, logo depois, sorri. Recusei-me a voltar para o páreo... Às vezes, acho que emburreci. Sono é igual vontade: é coisa que dá e passa. E, tal qual adormeci, o efeito do sono passou. Para suportar os espinhos do lugar que antes era confortável, Afogo-me em águas — águas cinzas de um céu enevoado. O baralho cigano me diz, as âncoras confirmam, E o navio aqui afirma que terei que bolar outros planos... Capítulos importantes também acabam. E eu, que não sei fingir, ouço a voz mentir, Enquanto insiste em distorcer palavras de afago. Perdida nas encruzilhadas da vida, Observo uma coruja negra a me encarar. A Senhora da Calunga se une à Mulher da Estrada para me falar: "Não há mal algum que dure pra sempre, Nem felicidade que dure a vida inteira." Estive acostumada com a moça do cabaré, Mas, hoje, quem veio me dizer foi a Dona das Figueiras. E, com medo do que vem depois, Abri meu coração enquanto observava a vela que queima em dois. Dois chifres, dois lados e duas bandas... Enquanto varre meu caminho, a Dona do Destino quebra as demandas. Para onde vou? Não sei. Estou socrática, apática e me cobro a cada segundo. Só sei que a certeza de que vou rir muito em breve das ironias da vida Me mantém firme neste mundo!
Recado da Encruza
Presença de Anita (2001)
Lucas Santtana - Mensagem de Amor
Quando você chora do nada, sentindo o peso do mundo nas costas e, ao mesmo tempo, se sentindo ingrata por não valorizar o que tem; quando sente que chegou onde queria, mas esse lugar já não faz mais sentido, como se uma âncora estivesse presa aos seus pés e você só conseguisse visitar a superfície de vez em quando para respirar; quando nada nem ninguém consegue entender suas dores, e palavras como "Ponha os pés no chão" e "Não fique assim" aparecem acompanhadas de um tapinha nas costas; quando sua fome some e dá lugar à falta de apetite pela vida, e tudo parece um buraco se abrindo diante dos seus pés… então você chora, mas ainda não sabe o motivo.
A exaustão emocional é bem pior do que o cansaço físico, porque dormir não adianta quando é a alma que está cansada.
Não entendo, e talvez nunca vá entender, mesmo que jogue cartas por mim anos a fio. Depois de dez anos, você reaparece como se tudo ainda girasse ao seu redor?
As escolhas foram suas, e as falhas também. Entre ela e eu, você sempre agiu com desdém, impondo condições e tentando fazer parecer que o jogo era sobre eu insistir. Mas eu não insisti.
Quem sabe agora, com ela lá fora, você aprenda a parar de descansar e finalmente começar a construir algo de verdade.
Deve doer, não é? Ver minhas fotos no Instagram, numa manhã de sol, segurando uma criança com meus traços, mas com o olhar de outro alguém. Talvez, só talvez, você tenha se arrependido de ter jogado fora uma família que nunca foi sua.
A vida é um grande mercado, e ninguém sabe ao certo como pagar a conta. Quem sabe agora, sem mim e sem aquela louca possessiva, você finalmente entenda o significado de "foras".
Falando em "fora", fique onde está. É o seu lugar. Eu renovo meus votos no final do mês, e você não foi convidado para ficar. Por hoje é só: sem dó, sem mágoa e sem mais nada.
O mal-entendido ficou no passado, as memórias esquecidas e a roupa suja deixada para trás, espalhada pela estrada. Agora não adianta tentar recuperar o que foi perdido. O caminho já é outro, e eu sigo!
- Gritos de adeus lidos numa carta de baralho
Já não sei mais se a vida é tempo bom ou tempo ruim. Nesse vendaval que é Iansã dentro de mim, me vejo na encruzilhada da existência: sem linha de chegada e com inúmeros pontos de partida. Lembro bem dos infernos que toquei para alcançar os céus. Mas e agora? O que fazer se esse céu tem sabor de fel?
As máscaras caíram, e o conto de fadas desordenou-se. Sem saber para onde correr ou o que fazer, recorro ao Senhor que caminha ao meu lado: com sua camisa azul-marinho que brilha como a noite, chapéu cobrindo o rosto, bengala em mãos e um andar malandreado. Ele sorri e ordena:
“Caminha. Pois estarei sempre ao seu lado. Seja o que for, haverá de melhorar. Solte-se de suas amarras. Você sempre soube qual é o seu lugar.”
No meio da conversa, a moça de vermelho me encara e questiona:
“Por que tanto medo? Por que insiste em se fazer infeliz? Chegou a hora de pedir ajuda, garota. Rasgue esse céu de fel, dance na chuva, deixe-se levar pelas tempestades de Iansã. Esse passo de hoje é só o começo do que virá amanhã.”
Ainda com medo, cerro os punhos e guardo os conselhos. Sinto-me perdida, estagnada, até um pouco destruída. Mas tento seguir em frente. Lembro-me do que o Senhor do Fogo me disse ontem:
“O segredo está na mente.”
Então, resguardo-me, internalizo e entro em um estado de hibernação. Como uma cobra que habita em mim, espero o momento de trocar de pele e renascer melhor.
- conto ao orum, Janaína Santana
Fica aqui a reflexão.