ÊXODO 04: 14 - 17
A terra de areia de praia soterrada pela piçarra que passou aqui há anos quando me mudei para uma das casas na rua, ainda na minha infância, me remete muito ao todo que tenho hoje, que por ora é inerente ao sentimento de desligamento para só depois vir o de pertencimento. Quando eu tinha quatro anos vim para cá, com catorze eu saí, por um breve momento, e aos dezessete voltei a sair, para quem sabe um dia retornar. E nessa, a minha vida até hoje foi uma grande e permanente situação de êxodo, apenas com rumo geográfico, buscando se localizar nos objetivos, nas conquistas que tanto a gente almeja ao sair daqui, e encarar um mundo completamente diferente, e, portanto, ver que também faz parte dele, mas notar, que na verdade, ele não faz parte de você. Sem essa de abraçar os mundos com as pernas. Abraçar a minha rua com os braços já não é uma tarefa fácil. É como se cada vez mais a camada de piçarra fosse ficando mais grossa, e mais grossa, e o que tá embaixo fosse completamente esquecido. As vezes sinto isso, como se o que eu tivesse buscando de verdade, estivesse sendo soterrado, se afundando, e um sentimento de desorientação já não fosse coisa de momento. Aonde que me perdi? As vezes queria ter a ideia de como é se sentir em casa, sem precisar sair dela. Sem precisar buscar tão distante de mim as ferramentas pra tirar esses metros de terra de cima do meu corpo. Num fim de tarde, eu saio, dou uma volta frente a casa, e retorno. Os pensamentos se voltam para momentos dos quais a vida era ligeiramente menos conturbada, justamente quando não precisava estar no controle dela, ou de quando o controle dela estava no sofá da sala. De quando vivia no limite do inquestionável. De quando a ignorância me bastava. E aí me afundo nisso, bebo um copo d’água, olho pro teto e a noite durmo para superar essa realidade constante, cíclica e praticamente imutável, ou talvez não-mutável enquanto eu estiver por aqui. Descansando todas as noites entre a sobrevivência e o inevitável. É como se meus sonhos, e eu falo agora não da ânsia por conquistas materiais, pessoais ou coletivas, sejam elas de qual caráter for, mas dos sonhos, esses que me consolam entre o crepúsculo e o nascer do sol, parece ser meus únicos momentos de humanidade oferecida, sem cobrança, sem pressão e inteiramente ao meu favor.













