eu sou a sua Sofia? sou o sonho ou o pesadelo? sou a garota-traça que se transformou em borboleta, só pra você? você me vê ou está sonhando? se a gente seguir o coração você vai se reconhecer no reflexo do espelho depois? agora estou sendo um sonho e o depois quando tudo virar um pesadelo, quando a verdade despencar da ponte, você vai sobreviver? — Julie não sobrevive. a garota de vermelho e sandálias de alcinhas mais triste segurando um Martini na mão. — o amor quando é real, te faz voar mesmo num céu rachado de baunilha. eu sou o sonho que chega como um perfume doce de manhã, dá pra sentir o gosto na ponta da língua, porque depois fica com gosto de metal, eu viro o pesadelo que ensina onde e por quê dói. eu me reconheço nas minhas asas, eu me reconheço no teu sonho, porque querido, eu sou boa pra caralho. me pergunto: — será que quando você acordar vai continuar me procurando? talvez eu vire a história que conta a história, o capítulo que você relê quando tem medo de dormir. posso ser um reflexo tardio, uma lembrança com linhas borradas por lágrimas e verniz de culpa. — igual teu rosto desconfigurado, eu também sou feita de retalhos, dos sonhos que eu invadi sem pedir, onde me quebrei, onde me costurei de novo... não quero que me salve ou me condene, quero apenas que me observe com a atenção de quem vê um novo rosto no espelho e reconheça um pouco de si mesmo e ainda se ame ou me ame ainda mais. preciso ser a presença que ensina a diferença entre amor e fantasia: — amor é o convite para permanecer inteiro; — fantasia é a sede de possuir. o que você quer de mim? se me chamar de Sofia, aceito o nome como um cenário temporário, porque não sei e não quero existir só no teu sonho e se me chamar de sonho, danço no teu sono com os pés descalços, mas se eu me tornar o pesadelo, posso seguir ensinando onde a coragem mora. e se me chamar de borboleta, então me deixe sair do casulo, porque o casulo também cansa, querido. cansa fingir abrigo quando por dentro já florescem um par de asas inquietas. você entende? onde o amor se torna espelho e o espelho se torna tempo. onde a beleza e o medo se tocam, e a gente não sabe mais se está vivendo ou apenas recordando um sonho que nunca acabou. você precisa escolher entre existir ou permanecer dentro de uma ilusão. talvez o que reste de nós sejam fragmentos flutuando naquele céu rachado de baunilha. um beijo suspenso entre o salto e o despertar. eu te vejo ali — meio vivo, meio sonhando — perguntando se vale a pena acordar. e eu respondo em silêncio: sim, mas só se for pra viver a realidade, não o que se projeta. porque amar, no fundo, é aceitar o descompasso: é saber que o doce é tão bom porque conhece o amargo. — e se um dia você acordar e ainda quiser me procurar, que seja inteiro — sem medo do que vai encontrar e sem pisar em ovos com medo do que vai ou não acontecer. que me veja não como fantasia, mas como lembrança viva de tudo o que posso ser quando me escolher de verdade. eu sou a Sofia, talvez. mas também sou todas as Julies que caíram antes de aprender a voar. sou o que resta depois do grito, depois da música, depois do salto. sou o instante em que o mundo se parte ao meio e, ainda assim, você decide viver. o céu de baunilha continua lindo, sabia? é ele que prova que a beleza sobrevive às quedas. e se há rachaduras, é porque houve luz demais tentando entrar. talvez seja isso o amor: uma rachadura no tempo por onde o divino espia… e quando o divino espia, ele não julga — apenas contempla o caos bonito que criamos tentando entender o amor. o divino observa e sorri, porque sabe: amar é o único milagre que ainda acontece sem explicação. e ainda assim, querido, o céu permanece sobre nós. rachado, imperfeito, real. a prova de que a luz só entra onde a vida se quebra.