Enquanto puder, quero me perder e me encontrar ao máximo. Errar, aprender, me fixar e mudar quantas vezes forem necessárias, até encontrar um tempo e um lugar em que eu me sinta preparada para estar.
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Enquanto puder, quero me perder e me encontrar ao máximo. Errar, aprender, me fixar e mudar quantas vezes forem necessárias, até encontrar um tempo e um lugar em que eu me sinta preparada para estar.
A complexidade e fragilidade da vida me assustam.
Eu falei que sempre acabo no chão de um quarto de hotel sozinha. Sempre a mesma coisa. Sempre a mesma máscara. Sempre o mesmo limiar.
É como se eu não pudesse fazer mais nada sobre nada. Como se magia existisse e tivessem retirado minha voz com ela. Não haviam mais olhares a trocar. Não existiam mais palaavras que eu pudesse alcançar. Não existiam mais histórias para compartilhar. Naquela noite, tudo sumiu como se eu nunca tivesse conseguido me agarrar a nada.
Às vezes, o curativo na sua pele que você decide arrancar de uma vez só também precisa ser tirado à força.
"Já pensou em escrever algo feliz?"
Olhei, incrédula.
"Já percebeu como as obras mais famosas são aquelas que remetem à angustia, ao que todos têm medo ou vergonha de mostrar?"
É claro que, naquele momento, eu escondi o fato de até eu estar cansada da minha própria melancolia.
Deus, não me aguento mais.
Mas não podia deixá-lo passar com essa.
"Se você pudesse fazer algo agora, neste momento, com os pés no chão, o que escolheria fazer?"
Ela me olhou sem expressar emoção alguma. Estava séria e mantinha a postura mais firme e honesta que já sustentara diante de mim.
Era ela, eu mesma, me encarando dentro do meu próprio desespero de conseguir sair daquela inércia que me puxaria pra um lugar que eu já conhecia. Era eu, nos meus lapsos de segundos que me levavam num lugar onde nada podia interferir nos meus pensamentos, tentando me mostrar, de maneira indireta, uma forma de sair daquilo mais uma vez.
Não estou muita certa do que nos mantém aqui, e isso me aterroriza. Se não é o outro, se não é o convívio com a minha própria espécie, que não sabe respeitar a existência do próximo, então o que é? O que deve ser para além do viver sozinho as experiências incríveis que a vida pode oferecer?
É como um parque de diversões: não tem muita graça entrar nele sozinho, exceto por essa montanha-russa em que vivo, na qual não parece sensato permitir a entrada de mais ninguém.
Geralmente, eu fico por perto de quem insiste em me manter por perto de maneira saudável. Nunca soube cuidar das minhas relações sem que antes elas me mostrassem o que são e sem que me ajudassem a lembrar que estou inserida em um meio social, que eu existo de verdade para elas.
Por outro lado, também nunca fiz muita questão, já que as pessoas são, na esmagadora maioria das vezes, desonestas e manipuladoras em um nível que não vale a pena tentar (mais do que eu já tentava). Acho que isso é o que me mantém em uma rotina solitária e desconexa da realidade.
As relações humanas são estranhas, vão contra qualquer instinto de sobrevivência coletiva e me assustam. Àqueles de quem ainda fico por perto, fico grata: vocês me fazem permanecer na superfície por mais tempo do que eu conseguiria se estivesse física e virtualmente sozinha.
Às vezes, faço coisas inexplicáveis para não desistir. Torço para que surjam cada vez mais momentos que me digam: ainda bem que você ficou.
Tendo a me agarrar e ir atrás daquilo que faz a vida ser mais bonita.
Não tenho conserto. Sempre caio no escapismo. Sempre caio em qualquer coisa que me tire do tédio que o mundo consegue ser. Eles se perdem, e a gente cai. Eles sabem, e nos derrubam de propósito. O mundo não tem conserto. Não julgo ninguém que encontre seus próprios meios de fugir dessa coisa patética.
Eu sinto em excesso. Eu sou em excesso. Me quebro em excesso e, para consertar o extraordinário, é sempre necessária uma solução extraordinária.
O nível de vida aqui dentro nunca foi um fator principal.
Fugir sempre me anima. Mas é um fugir de onde eu não me sinto bem, depois de muitas tentativas de mudança e melhoria. Se o lugar não me cabe e não me quer, mesmo eu fazendo a minha parte de adaptação, então eu não preciso estar nele.