Eu tinha essa bota que era a minha favorita. Encontrei ela despretensiosamente em uma promoção por menos da metade do preço original. Era uma bota que eu nem sabia que queria tanto e que, quando comprei, nem tinha certeza se usaria. Mas acabou que ela combinava com todas as minhas roupas. Com as calças, com os vestidos, com as saias, com os blusões e com os casacos. Ela simplesmente se encaixava. Ela tinha um salto médio, que fazia toda a diferença pra mim. Toda a vez que subia nela me sentia incrível. Passei a usá-la quase todos os dias, afinal, ela era sempre ótima. Era perfeita para os dias de chuva porque tinha o tal saltinho e, também, porque era de um material impermeável. Era perfeita para os dias de sol, porque, bem, ela era sempre perfeita. Com ela descobri que eu tinha um novo estilo e que o estilo dela combinava comigo.
Eu usei essa bota por três invernos seguidos. Mas no fim do terceiro inverno ela já não era mais a mesma. Eu já havia percebido isso no início desse último inverno, mas não dei muita atenção. Sabia que ela não tinha mais o brilho do couro preto e o salto já estava meio riscado. Eu via que, aos poucos, ela começava a descascar, a ter uns fios soltos... A bota já estava se despedindo de mim, mesmo sem saber, mas eu me recusava a notar. Ela era tão confortável. Sabe quando você usa uma coisa por anos e ela fica do formato do seu corpo? Era assim com a minha bota. Eu fui ignorando os sinais de que ela talvez não fosse mais boa pra mim. E continuei usando-a. Eu a calçava, olhava de longe no espelho e saia de casa. Tentava não olhar muito para os meus pés quando estava com ela pra não ficar reparando em todos os defeitos. Mas ela estava cada dia pior. Eu sabia disso e tentava esconder as botas quando sentava perto de alguém, pra que a pessoa não ficasse reparando muito nas imperfeições que eu insistia em usar.
Eu fui vestindo e convivendo com a bota até o dia em que eu percebi que não dava mais. Porém, eu só cheguei ao limite quando olhei para baixo e vi que podia enxergar a minha meia rosa através de um rasgo. Eu sabia que a bota não aguentaria mais por muito tempo, mas não conseguia simplesmente me livrar dela. Foi preciso uma situação extrema – andar na rua com uma bota rasgada (depois de um dia de trabalho, no qual provavelmente alguém também tenha percebido minha meia rosa através da bota) para perceber que não tinha mais jeito. Eu amei aquela bota como nunca amei nenhuma outra na minha vida, porque eu nunca consigo achar botas muito boas pra mim: primeiro porque não gosto dos bicos finos e dos saltos altos; e segundo porque a maioria dos modelos de botas não combina com as minhas panturrilhas grossas. Então, quanto eu percebi que aquela bota se encaixava tão bem em mim eu a amei muito – e a aproveitei muito. Porém tive que me despedir.
Eu cheguei em casa e tive que tirar minhas botas do pé. Peguei elas nas mãos e olhei o rasgo de perto. Não era nada bom para uma bota. Olhei os dois pares bem de perto e percebi que estavam muito piores do que eu imaginava. Nem que eu quisesse muito conseguiria continuar usando-os. E foi então que eu me dei conta que não tinha mais o que fazer, a não ser colocá-las em uma sacola e levá-las no lixo. Antes disso, peguei o par nas minhas mãos e agradeci a bota pela companhia (eu sei, quem fala com sapatos?!). Agradeci, por mais sem sentido que possa parecer falar com algo que não seja uma pessoa.
Coloquei as botas no lixo e saí à procura de outra bota com o coração apertado, porque sabia que não encontraria outra bota como aquela. Olhei em lojas e mais lojas. Não eram do mesmo modelo, não eram da mesma cor, não tinham o mesmo salto... Nenhum modelo me agradava. Eu tentava encontrar a minha bota em outras, mesmo sabendo o quanto isso era impossível, pois eu nunca acharia outra igual. Fui a muitas lojas, olhei muitos modelos, cheguei a ficar desanimada. Cheguei a pensar em voltar ao lixo que eu havia largado a minha sacola para ver se as minhas botas ainda estavam lá, talvez eu pudesse encontrar um sapateiro que as consertasse! Mas o último pensamento se desfez tão rápido quanto se fez (por sorte).
Tentei dar mais uma chance para mim mesma e procurar mais um pouco. Fui a uma loja onde sempre encontrava coisas que gostava e comecei a olhar as botas. De cara nenhuma me chamou atenção. Olhei mais um pouco e peguei dois pares para provar. O primeiro foi descartado logo de cara. Então provei o segundo e, não é que ficou bom? Não era nada parecido com a minha antiga bota. Não tinha salto e provavelmente não se encaixaria a todas as minhas roupas. Mas eu gostei. Gostei de como me senti com ela. Pensei que ela seria melhor para ir trabalhar todo o dia. Olhei um pouco mais e vi uma bota que lembrava a minha, porém tinha o salto mais alto. Era demais pra mim, eu pensei. Eu não queria uma bota com um salto mais alto, porém resolvi provar. Quando as coloquei no meu pé, me senti bem. Olhei no espelho e a bota havia ficado maravilhosa. Caminhei pela loja e ela era confortável, boa para caminhar.
As duas botas estavam com preços ótimos e resolvi levar as duas de uma vez. Elas têm estilos completamente diferentes, mas eu também tenho, dia sim, dia não. Fiquei feliz por encontrar as botas, porque eu achava que nunca mais me sentiria bem de novo com outra bota. E eu me senti. Muito bem, aliás.
Toda essa história sobre uma bota me fez perceber algumas coisas. Às vezes, por mais que a gente ame algo (ou alguém) incondicionalmente, chega uma hora em que é preciso deixar ir. E não porque não sirva mais, mas porque se desgastou com o tempo. Acontece. Não é mais o que era. Ficamos tão acomodados com o conforto que nos esquecemos de olhar de perto e ver que a situação não está boa. Tem horas que precisamos de uma mudança, pro nosso próprio bem. A mudança dá medo, assusta, parece que não vai dar certo, mas sempre pode ser bem-vinda. Afinal, junto dela vêm novas combinações, novas experiências e novas visões que dificilmente teríamos sobre nós mesmos se mantivéssemos as coisas como estavam.
A mudança não precisa ser ruim. A gente só precisa entender que a vida é feita de ciclos, que começam e uma hora terminam. Isso é tudo o que a vida é e tudo o que deveríamos entender sobre ela. Pode ser que alguém ainda precise te ensinar sobre isso na prática. Ou pode ser que uma bota (ou insira aqui um objeto/roupa/acessório pelo qual você é apaixonado) tenha que te ensinar. Poder ser que você aprenda sozinho e tá tudo bem. É só abraçar um novo ciclo e recomeçar.