De passagem
Tem essa música do Cícero que eu sempre gostei de ouvir porque ela me lembrava de nós. Ela fala sobre a simplicidade de encontrar um amor em um dia comum, um desses amores que muda a gente de algumas formas. Eu percebi essa música e essa letra bonita naquele show que a gente viu juntos. E então eu chorei ouvindo essa música (e ouvindo as outras também) porque ela fazia sentido pra mim e pra nós. Eu podia usar ela pra contar a história de como a gente se conheceu e de como você me mudou. Era só trocar os pronomes femininos pelos pronomes masculinos. A música se encaixava na nossa história porque você apareceu num dia que eu não tava esperando nada. Não foi um grande evento. Não foi em uma data importante. Não teve nada de mais. Você só chegou e ficou. E se transformou num desses amores tranquilos que as pessoas falam que tivemos sorte de ter.
Eu sabia que o nome da música era “De Passagem” e eu nunca tinha entendido o porquê. Eu tinha minhas hipóteses, é claro. Achava que podia ser relacionado ao trem e a estação que ele cita do meio da letra. Faria sentido. Podia ser porque ela apareceu pra ele em um momento de passagem, num desses momentos em que a gente passa por alguém no dia a dia, só que na música foi o momento em que eles se perceberam e foram mudando o mundo um do outro. Mas essas duas palavrinhas que dão nome a música na verdade se referiam a um amor passageiro, que vem de passagem – como todos os amores e outras coisas que temos na vida. Ele vem, fica sua estadia e vai embora. Um ciclo começa, cumpre seu curso, e termina.
A música também tinha um verso final que eu nunca tinha reparado, porque pra mim ele não parecia fazer sentido e se encaixar com o resto dela, mas que comprova o significado do título da música. Esse verso entra do nada no fim da música. Ele fala sobre ter encontrado o “meu bem”, uma melodia começa a tocar e de repente a gente ouve o Cícero cantar repetidas vezes: “E tudo foi desbotando até desaparecer”. A música falava de um amor tão bonito, por que iria desbotar até desaparecer? E eu nunca tinha entendido por que – até agora.
Eu achava que os amores bonitos e tranquilos não desbotariam nunca. Eu achava que eles seriam pra sempre imutáveis. E na verdade, eu até acho que eles são. O problema é que nós não somos. Nós mudamos. De todos os jeitos possíveis. A gente muda os nossos quereres, as nossas prioridades, os nossos gostos, as nossas conversas, as nossas paixões, o que a gente tolera ou não. A nossa visão muda e quando a gente vê, aquelas cores já não estão mais tão vivas. Quando a gente chega pra ver mais de perto, elas já desbotaram. E não tem nada de errado nisso. Aquele amor foi bem bonito. Bem nutrido. Bem vivido. Bem vívido. E o que aconteceu é que ele se perdeu no meio do caminho junto com a gente. Porque a gente se perde no meio dos caminhos e tudo bem. A gente tá de passagem mesmo. A melhor coisa a fazer quando nos perdemos é parar tudo o que estamos fazendo e olhar com mais carinho e atenção para quem se é. E para se reencontrar é preciso seguir sozinho. É preciso conversar consigo mesmo. É preciso se preocupar com você mesmo. E seguir sozinho não é solitário, é necessário. Não dá pra viajar acompanhado sem saber pra onde ir, sem saber se o outro partilha do mesmo caminho desconhecido que nós.
Esse amor que a gente teve foi um amor de passagem, como o da música. Que chegou, fez sua viagem, mas viu que era sua hora de desembarcar e procurar novos rumos. Vai haver outro trem, outra estação, outros acasos e dias ordinários. Mas esse, meu amor, foi um belo ciclo de passagem que se fechou. Mas logo outros vão se abrir, afinal, toda a vida da gente é feita de ciclos e de passagens. E temos duas formas de reagir a isso: lamentar pelo que se foi ou agradecer pelo que foi. Eu espero que você também escolha a segunda opção.
Camila Docena












