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@eternooceano
Lúcido Delírio
Um dia desses senti muita vontade de gritar, então o fiz. O carcereiro perguntou se eu estava ficando louco. Essa é uma pergunta curiosa. Louco!? Como assim? Por que eu me impediria de gritar?
Hoje o dia amanheceu frio, com um ar de saudade, daqueles que dá vontade de morrer. O carcereiro estava próximo da porta com um caderno em mãos. Ele estava tão entretido que resolvi não incomodá-lo.
Na última semana, uma melodia constante tem me perseguido, como uma mensagem de outro plano. É uma coceira na cabeça que persiste. O curioso é que quando eu a balbucio, a intensidade aumenta.
A cela ao lado parece quieta. O que aconteceu com ele? Será que ele também ouve essa melodia?
Agora são 12:25. Não ouvi nada na cela ao lado. Espero que esteja tudo bem.
Já começo a questionar minha própria essência, como naquele dia que me perguntaram se eu "acredito em magia". Hoje tenho essa resposta com mais clareza. Eu sou magia. Daquelas feitas com pressa, sem cuidado, sem respeito. Daquelas cujo resultado são vários vícios e paranoias, atormentado e obcecado.
São 14:00. O guarda me disse que o rapaz da cela ao lado veio a óbito. Perguntei o que houve e ele não quis me responder. Mas realmente, ele soava como se estivesse enfermo.
O caderno do guarda tem sido um objeto constante nesses últimos dias. Ontem eu tive a impressão de que ele estava escrevendo um poema de amor, pois consegui ouvir alguns curtos versos.
Sinto saudade de quando eu escrevia sobre o amor e sobre como me sentia. Hoje, com todo o tempo do mundo, o amor não me vem na tela da mente com frequência. Na verdade, é até um tabu falar sobre esse tema entre os presos daqui.
Você me disse que me queria "pra sempre". Me pergunto se vais cuidar das etapas posteriores, quando eu não mais puder responder por mim. Espero que possa ser apenas uma lembrança gentil, agridoce, como aquele filme que a gente sempre reassistia.
O grande dia é amanhã e a melodia tem ficado mais intensa. São notas incoerentes e até ...engraçadas..."?" Algo como "don't worry, be happy".
O guarda está me incomodando com a sua felicidade. Ele já disse tantos absurdos, já confessou tantas atrocidades no calor do momento. Estou aqui por muito menos. Por que ele pode voltar pro calor do seu lar, para a segurança e afago de sua companheira?
Acordei com um gosto de sangue na boca. Hoje é o dia. O carceireiro estava com uma atitude mais positiva em relação a mim. Talvez seja o choque de realidade, como aquela sensação de "enfim está acontecendo".
Conheci o meu executor. Me parece um homem bem gentil, ele disse pra eu não me preocupar, tudo correria bem.
Enquanto caminhava pelo corredor, escutei um som familiar. O executor estava cantando a melodia da minha cabeça. Por que?!? Por que ele? Por que agora? Não faz sentido! Como ele conhece esse som?
O questionei sobre a melodia e ele disse apenas que nas últimas semanas esse som começou a ser tema constante na sua paisagem mental.
Enfim, não tem porque me preocupar com isso, ele disse que tudo correria bem. Parecia até que ele sabia como me confortar, pra que eu não sofresse tanto.
Sinto como se estivéssemos fadados a tocar essa canção. Uma canção que nunca foi de nenhum de nós. Por que eu? Por que ele? Por que agora? Enfim.
Conto por Oceano, Arte de Andy Warhol.
Notas no Vento
Pelas frestas onde o vento rosna, Ouvi ecos de um canto esquecido, Que o mar leva para além do horizonte, Onde os nomes dançam nas ondas, E o que era pleno agora é partido.
O aço rasga o céu que um dia falou, Com pássaros que levavam preces, Mas hoje os motores são as vozes do ar, E as árvores sussurram ao longe, Tentando lembrar do que não deveria ser esquecido.
Quantos ouvidos se fecharam ao canto, Quantos corações preferem ruídos? Melodias flutuam vazias, Trocando promessas por acordes bobos, Enquanto lá longe se ouvem grunhidos.
Há quem chame pelo nome nas águas, E os uivos que rompem a noite fria, Mas quantos ainda sentem a melodia, Ou só buscam o eco volátil, Em abraços cheios de euforia?
Felinos, trancados em seus apartamentos, Murmuram desejos às varandas teladas, Clamando um par no escuro da noite, Mas o concreto não responde ao chamado, E a lua apenas observa, calada.
O mundo gira fora do compasso, Seus firmamentos estão por um fio. Cantarei até que a última baleia Cesse o seu coro nas águas, E então, o vazio será nosso único abrigo.
Não só concreto nos aprisiona, São as sombras nos vãos entre nós, Onde o toque e o carinho se perdem. Nos prendemos em sonhos irreais, E o vento, por si só, leva as notas, Que já não se ouvem mais.
Texto por Oceano, Imagem do Getty Images.
Crumble
Things fall apart not with thunder, but with dust. I touch the edges, and in my hunger for the core, everything fractures.
Inside the splinters, a deeper silence calls, but time is a locked door and there are no shortcuts through its rusted hinges.
So many faces drift by, a river without pulse. The bodies stay, but the hearts are already gone.
And now my mind itches, a wound I keep reopening, scratching for answers like gold beneath stone. I leave behind what clings, chasing what dissolves.
Things fall apart. And I ask the ruin: were you ever whole? Are real things meant to last?
Text by Oceano, Art by Cornelis Anthonisz.
Uivos
Aquelas palavras ainda ressoam na minha cabeça Como estalos de um chicote Sentimento ancestral num corpo jovem E uma enchente corre por baixo da ponte A caminho de lamber toda a cidade Como fez ao coração.
E quando me perguntas como estou, É ensurdecedor! O monocromático preenche a garganta, E minha voz se levanta apenas para dizer: Bem, e você?
Tenho me sufocado com a poeira Que varri pra debaixo do tapete Todo o limo que nasceu de minha negligência. Talvez eu não tenha nada a dizer, Então te presenteio com a dádiva do silêncio Enquanto o vento uiva pela fresta da porta aberta.
E hoje já nem me perguntas como estou, É enlouquecedor! Olhares pelos corredores, Como vai você?
Sonhos ancestrais num mundo moderno. Orbitando-se mutuamente no astral, Apenas pra ver a dureza do material. E enquanto as águas correm por baixo da ponte, Te deixo com o uivo que entra pelas frestas Pois a porta continua aberta.
Texto por Oceano, Arte de Dragan Bibin.
Desertor
Num momento eu estava lá Instatisfeito, Com a falta de motivo. Sem conseguir justificar Aquilo que sinto. Por que minto?
E se do amor sou soldado Certamente sou desertor Fugindo da missão Com os traumas da guerra, Medicado e sem honra.
Num momento eu estava lá E depois não estava mais. E o tempo me faz entender Dor que não quero pra mim, Aquela de meus pais.
Sou apenas um ruído isolado no oceano, Ninguém ouve. Então vago e divago, E o silêncio das estrelas me consola.
Texto por Oceano, Arte de Vasily Vereshchagin.
Ejetar
Mesmo não me sentindo Poético, lírico, estético Verso sobre o acaso Que, pela sua natureza É volúvel e, na maior parte, raso.
Vem sem avisar, Bagunça toda a homeostase Se porta sem compromisso, Com receio de tocar a base Ir mais pro fundo e ver Quem sou pra além dessa fase.
E, do mesmo jeito que vem, vai Some sem avisar, Sem a ninguém se reportar Há quem chame liberdade O desespero motivado pelo medo.
Que artifício esse tal botão ejetar Volátil indecisão, como uma porta de escape Conveniência de planar sobre a superfície E, antes de ao destino chegar, Desistir de pousar na planície.
Texto por Oceano, Artista desconhecido, mas a imagem foi encontrada aqui.
Dragão Branco de Olhos Vazios
Há dias vejo no espelho O mesmo monstro que via em ti Não pensava ter tantas escamas Até me dar conta do quanto sofri.
Dragão branco de olhos vazios O bafo quente me causa arrepio No espelho da alma enxergo o monge Em asana, à margem do rio.
Quando de monge me vestia, De rasante tu pairava meu templo Te admirava, bela criatura Um monstro que ainda contemplo.
Toques não atravessavam sua armadura No máximo te deixavam alerta E nessas horas sentia o vento Que entrava da porta aberta Me convidando a partir Ser retirado de sua caverna E nos teus olhos eu via Sensação de dor eterna.
De monstro me vestia Nos momentos que eras freira Te desafiava na fronteira A me encontrar ao menos na beira Por vezes me repreendias, Por vezes fizemos besteira E hoje me pergunto o porquê De não estarmos ao redor da fogueira. Meu monge abraça tua freira Na mata, dentro da clareira Teu monstro me lembra de mim Não percebi isso antes do fim Em nossa caverna, hoje imagino Juntamos tesouros de gosto fino Guardando as armas, ato divino Entrelaçados, como felinos.
Na porta aberta eu me atirei, Pois te ver infeliz me fez partir Tristeza refletida, mas Sabes o que sinto por ti.
Monstros e sacerdotes somos, Tanto quanto espíritos Eternos como o grande oceano Contatos pra além desse plano E com isso quero que percebas O quanto ainda te a*o.
Texto por Oceano, Arte de Tonnae Kwong.
Agora
Quão difícil é estar presente, Quando a vontade de partir Se coloca sempre na frente. Ansiosa impaciência, Confusão no que se sente.
Deitado contigo, Imagino as saídas As pernas se irrigam Propícias à partida Como em perigo iminente Antecipando a dor E a desolação inevitável De quando me for.
Tem ficar no meu ir Mas, desproporcionalmente Um ir no meu estar Aqui e agora, Meramente dentro, me vejo lá fora Desordem no tempo e espaço Projetando a precoce aurora.
Concluo que sempre fui assim Um futurista impaciente Focado no após, Mas ambíguo no presente Dividido entre os três planos Pra só perceber o estrago Na saudade daqueles anos Que nunca mais serão.
Medo me faz querer partir De ti, de mim, daqui, do agora. Há de ser subjugada, portanto Sensação que causa tanto pranto E no futuro espero meu espanto Por entender que o presente também é encanto.
Texto por Oceano, Arte de Salvador Dalí.
Terror Cósmico
Narrativas abissais aprisionam Ouvidos inocentes, que se tensionam Para captar ruídos viscosos Que cheiram a morte e confusão
Terror cósmico, criaturas maiores que prédios E um corpo frágil, afundando nessa fossa Monstros famintos e atentos Aguardam meu fim, escorrendo em depressão.
De longe consigo ouvir O ranger do machado arrastado Me procurando está O executor do destino, Extremamente irado Me fareja como um lobo E eu astuto, invisível Transmuto tal medo Em fogo combustível.
Sobem luas, como grandes olhos Fingem não me ver ali, encolhido Aguardando o carrasco passar Pois seu serviço foi interrompido
Em silêncio clamo em Tiphareth Tal visão que me consome Como mestre manuseio Ferramentas de renome. Eis que vem a mim o anjo E me puxa para longe Do alto avisto os monstros Agora com meus olhos de monge.
De cima não parecem tão grandes, Para trás ficam os medos Sem que eu precise golpeá-los Meditando além do abismo, Resisto a tais abalos.
Transformado de maneira profunda Respiro em pequenos intervalos Minha aura escura e esverdeada Agora se fez halo.
“Juro interpretar todo fenômeno Como um trato particular entre Deus E a minha alma”.
Texto por Oceano, Arte de Bruce Rolff
Título Provisório
Mergulho na noite, saindo da casca Set refinado escondendo minhas asas Aura sombria em tons de verde Copão cristalino, matando minha sede Desdém me afeta por isso eu sofro E gasto na noite a minha saúde Suicídio lento, comigo sou rude Hoje sou vício, amanhã sou virtude.
Poesia urbana, mechas poluentes Amargo na boca ao lembrar da semente Mistura de barro estanca a vertente Carência sofrida, cabeça doente E é claro que eu sinto sua falta E o coração que do peito salta O corpo cansado, quebrado veículo Saudade gigante pra um mero cubículo.
Sozinho caminho, planetas eu alinho Cabeças vão rolando, pois o mundo é um moinho Um monstro mesquinho, ejetado do ninho Derrubo as estruturas sem matar meu vizinho.
Morro pra mim e morro pro mundo Quanto mais corro, mais me afundo Cabeça baixa, suspiro profundo O Sol bem distante, odor moribundo E quando nasce me ponho de pé Fresco e calmo, preparo um café Em Nuit me edito, vou como a maré Demônios caíram ao testarem minha fé.
Os deuses me abordam, querem atenção Mas hoje eu tô grosso, tal assombração Carne eterna não é opção Buscando em vida cumprir a missão Vidas passadas na mente vão vindo Erodem a pedra como água caindo Sereno e firme ergo o bastão Samsara quebrado, em Cristo a visão.
Texto por Oceano, Arte de COZART.
Unthethered
Long waves break on the shore Erode the asphalt that was here before Time goes by so fast, on a hurry And I’m still here, watching this flurry.
I didn’t want to be like this Frozen in time with you in my mind It’s been so long, former bae But I still idealize things not being that way.
Why do I keep doing this to myself? People say that moving on is essential But I still remember us organizing your shelf Tired of mourning our great potential.
Mnemosine really plays tricks on me She might think I deserve this Cause I feel like being punished For being forced to release.
I wish I could tell you this How my heart still ignites With the remembrance of those days One of the ways in which our love stays.
All I can do is pour my written tears Let it flow over this text And wish destiny knows what to do With this feeling of extreme blue.
I really wanted to make plans I really wanted to take you somewhere Our family would be such a bliss Oh gosh, I wish you knew this.
Not a day has passed With your voice out of my head Blurry memory of what has been Seeing your face everywhere.
I’m planning on going far away Somewhere I can get rid of this obsession Or a place where I can be unfortunate But incisive in not feeding this depression.
Goddamn Eros, Did you have to use your most painful arrow? Soaked with longing and fiery passion You really shot me without compassion.
Texto por Oceano, Arte por Thomas Couture.
Ensaio sobre a carne
Quão grave é a casca Que de terra é feita Carrasca solidez Que no chão se deita.
Tato no têxtil, Tua pele sensível Olhos no texto Minha dor inconcebível.
Qual a vantagem de ser carne? Sentir prazeres e pesares A mercê de vícios e virtudes, Degustar a lama que viemos Sabendo que a ela retornaremos.
Um coração tão pesado Quanto esse núcleo metálico Que nos mantém presos ao solo Reforçando o vazio do peito Nas contradições me consolo. Amores e obsessões nos distraem Passando o tempo aqui no reino Na saúde e na doença, meu amor Nos banhando de enfermo fervor.
Fantasmas nos transpassam De carne não mais são Vultos deslizam pelas ruas Que inveja dessa abstração!
Minhas palavras parecem mortas Como meus dias, sem emoção Mas essa é a graça de estar aqui Alguns dias vivo, noutros dias, não.
Texto por Oceano, Arte de Caravaggio.
Fyuck
Caught myself daydreaming Schematics of stuff I’ve been yearning That kind of plan that never took shape Like the words I wrote in a napkin some evening
Oh God, only you As testimony of my feelings Can attest how unfortunate I feel For not being able to move on and heal How naive I am to believe That present, future and past Are as confused as we were Thinking our love wasn’t meant to last (how presumptuous of us)
Stupid as I feel right now Is the state where I lay Unconcerned of phonetics And words sounding like they’re meant to each other (?)
But it is what it is Strangers as we are Doing nothing to surpass this sadness Wishing to be consumed by this cozy darkness
Warm water, Soothing music Us entangled Wine? You pick Kids in the pool A dog named Ghoul Rhymes just to deceive Me, the big fool
Fuck these words And fuck this world Fyuck myself And fuck those chords But I’ll pay respect To what we were And what we are Somewhere in this timeline Where we got old like a fine wine Together as kindred souls Two parts of a whole.
It is what it is, But I wish it wasn’t This loneliness doesn’t comfort me like it used to.
Text by Oceano, Art by some random person I can’t care right now.
Scarlet Sea
We were there Sailing over the scarlet sea Due to the mist, we couldn’t see Oriented by the stars And this rusty compass We found near a tree. So we were there Adrift in passion Going where the wind blows Testing the safety of this ship Against nature and the creatures I mean, this is the trip we chose.
You wanted to feel safe But headed to nowhere It’s hard not to feel like a waif.
And all of a sudden, The ship was too small To hold the two of us With no land nearby To testify our sad fuss.
God, I wish we had a goal And some tar to fill the holes That we made from inside But now our ship is just coal.
How could sailors do that? So imature of us To believe the sea would be enough For us to spend some hours Together, in this bed of flowers Till we realise how time can be sour.
Texto por Oceano, Arte de Ou Li Da Art (?)
Eremita
A luz do eremita Me ensina, distraído Vagando pelas sombras A afiar meus ouvidos.
Ouço vozes de todos os cantos Clamando meu nome nos flancos Me querem em suas narrativas, Instrumentalizando meu encanto.
O aroma enevoado ensurdece Meus olhos que no escuro tateiam “Cuidado para não cair no abismo!” Dizem meus pés, que nas pedras bambeiam...
Me coloco a refletir sobre as vozes Debruço-me sobre mapas E percebo a ilusão que me assola, Meu caminho que ainda tapas!
De costas para o mundo Sustentado pelo cajado Questionando o abismo Sobre o que é ser amado.
O período nas cavernas Exercita os sentidos, Dessa calejada sabedoria, Pois não perseguirei ruídos!
Texto por Oceano, Arte de Carl Spitzweg.
Flashes
O mundo nos tinha Naquele cômodo escuro Quando seus faróis me notavam E famintos, me fitavam
Eu faria muito Pra poder ter mais uma vez Aquele seu olhar pra mim Penetrando minha tez
E a celeridade de Mercúrio Fez caminhos se cruzarem Até sentirmos o cheiro do temporal Desde então, afastados de forma brutal
Flashes na memória Me recordam da história Daqueles dias perfeitos Sucintos momentos de glória
Escrevo essas linhas Tentando me livrar desse fel Exorcizando espessa saudade, Maldito véu que me oculta o céu!
E hoje vejo que não faz sentido Como esses momentos se mantém vivos Estás atravessada em minha garganta E quem dera fosse lascivo o sentido
Uma flechada de Eros Foi suficiente pra desperdiçar Dias de trabalho árduo Que vão escorrer até chegar no mar.
Texto por Oceano, Artista desconhecido.