Primetime Seduction é realmente uma sedução, contudo, a dúvida é se ele realmente pertence ao horário nobre. O mini-album é realmente uma experiência que faz o ouvinte se sentir seduzido, mas nem sempre o convence de que é isso o que ele realmente quer, por vezes sendo confuso e por vezes desconfortável. Quando à composição melódica e à produção, não há nenhuma crítica que possa ser feita. Primetime Seduction possui cadência, coesão sonora e timing impecável, incrivelmente amarrado e bem pensado a ponto de viciar, e esse realmente teria sido o efeito da obra, não fosse por alguns aspectos líricos que quebram esse aspecto de momento quente, sensual e aconchegante. A faixa de introdução sugere uma sensualidade reverente, não necessariamente contida mas enigmática, levando o ouvinte a um estado de espírito bem específico, que já é quebrado por Witches com seu conteúdo lírico desnecessariamente literal por vezes e analogias confusas por outras. Tanto essa faixa quanto Leviathan parecem desconexas não só de sua própria sonoridade sensual mas também da proposta do álbum, a sedução. Ambas falam abertamente sobre depressão e tendências suicidas, o que é uma discussão muito bem vinda, importante e extremamente necessária, mas será possível que o lugar dessa discussão é sobre produções pop sensuais? Há coisas que não dão certo juntas e duas dessas coisas são o objetivo de seduzir e o ato de discutir sobre vulnerabilidades intensas, e é indispensável que se saiba que essa combinação não é coerente em nenhuma hipótese. Veja bem, todo artista, especialmente da música, é uma figura pública e para isso, é necessário lidar com o público. Falar sobre questões de saúde mental requer o espaço e preparo corretos, especialmente na arte, já que ela tem um público que a aprecia, a absorve e a usa em questões da própria vida, e combinar a discussão sobre depressão com um cenário de sensualidade faz a questão parecer banal, o que não é nada pertinente. Sendo assim, Witches e Leviathan, por mais que boas do ponto de vista técnico, se tornam os maiores erros do álbum. Explosive Combination é uma faixa decente, boa o suficiente para conquistar seu lugar, apesar dos adjetivos desnecessariamente grandes e rebuscados, especialmente para um gênero como o K-Pop, que busca ser acessível para todos. Two Swans, Lake Serene compartilha de um mínimo problema semelhante ao de Explosive Combination, porém, quanto a suas metáforas, mas ainda sim, o erro é mais sutil e, portanto, é possível relevar os ínfimos momentos desconcertantes. Sendo assim, resta o ponto alto de Primetime Seduction, a faixa Miniskirt, que se mostra a única faixa verdadeiramente digna do interessante e chamativo título do álbum. Nessa canção, é possível encontrar tudo o que se espera do álbum e ela se torna a salvadora de todo o projeto. A maneira como os versos são usados para aguçar os sentidos, descrevendo sons, texturas e relevos, perfumes e cores são exatamente o que é de se esperar de uma musica que se define como sensual. O vermelho citado dá ao ouvinte a vontade de ver vermelho, as pérolas citadas dão vontade ao ouvinte de tocá-la e é exatamente sobre essa sensação que a sensualidade transita: a vontade, ou, melhor dizendo, o desejo. Desejo esse que a musica descreve como irracional, até indesejável, o que cria o melhor paradoxo que a sensualidade pode criar em uma pessoa: querer algo em seu coração, ainda que seu intelecto tenha plena consciência de que aquilo pode ser um transtorno ou um aborrecimento. Sedução é desejo irracional, e todo esse imaginário acaba ficando somente para a última faixa. O álbum desperta uma espécie de carinho especial no ouvinte e este redator gostaria muito que isso fosse o suficiente para avaliar Primetime Seduction como algo a mais, mas a parcialidade, ainda que difícil, deve ser mantida, e não há aspecto técnico que justifique mais do que a conclusão final.