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Cap 09 - A porta
Yasuna e eu voltamos para o motel, deixamos Takeshi no quarto e fomos atrás Harris, o velho da venda, amigo de Lecter. Ela conseguiu fazer o Lecter entregar a localização.
- Ele tá num apartamento em um prédio a uns 300 metros da loja, na quarta com a principal.
A gente chegou lá devia ser umas três horas. Era um prédio velho, com as paredes cinzas. A gente subiu pela escada, até o quarto andar. O prédio exalava um cheiro de mofo bem forte, com quando um lugar fica úmido por muito tempo. O chão era de azulejos quadrados, pretos e branco, parecendo um grande tabuleiro de xadrez.
- É aqui, apartamento, 390
Ela tentou abrir, estava trancada. Encostou o ouvido na porta. Eu a afastei pelo ombro, olhei para os dois lados, não havia ninguém no corredor. Enfiei o pé bem na altura da maçaneta a porta abriu deixando pedaço de madeira presa na tranca. Entramos ... Era um apartamento pequeno, devia ter uns 60 metros, a sala contava com um tapete sujo, um sofá, mesa de centro.
- Onde será que ele tá? - Perguntei entrando com tudo, arma em punho - A gente vasculhou tudo, não tinha ninguém alí.
- Olha isso! - Ela mostrou o guarda roupa, vazio ...
A gente começou a vasculhar o apartamento, nada na sala, nada no banheiro, nada na cozinha. No escritório uma mesa cheia de papeis, alguns jogados no chão,
- O filho da puta mentiu pra você, senhorita Carrasco ...
- Impossível!
Aquilo irritou ela, bastante pelo jeito. A gente começou a vasculhar os papéis, a gente precisava dar o fora dalí, começamos a olhar o papel por papel. A maioria eram copias anotações sobre plantas, algumas fichas de clientes da loja, nada de interessante, eu enchi o bolso com o máximo que eu pude.
- A gente precisa sair daqui, não da pra ficar mais!
Ela e eu saímos, eu estava puto, aquilo não tinha servido de nada! Na saída já haviam algumas pessoas no corredor, a gente em direção a pra escada, quase demos de cara com o Harris subindo, o filho da puta devia ter visto a gente chegando porque tava com a arma em punho, eu derrapei e com custo parando do lado da parede, um disparo fez explodir um pedaço da quina da parede bem na minha frente.
- Filho dá puta, isso é pra você aprender a não ameaçar mais ninguém!
- Do que ele tá falando? - Yasuna me olhou desconfiada, eu só dei o ombro e espiei pelo canto da parede, "BANG", outro disparo, esse fez a poeira entrar nos meus olhos, eu esfreguei com a mão esquerda, tirando a arma com a direta. O cano da arma era brilhante o bastante pra ver o reflexo dele, era só uma sombra, mas dava uma ideia geral de onde ele tava. Eu não podia matar o filho da puta, nem deixar ele fugir, mas ele não parecia muito a fim de fugir..
- Vamos conversar Harris!
- Vocês mataram o Lecter!
Eu olhei espantado pra Yasuna, "Como ele sabe?", eu cochichei pra ela, ".. eu não seeei.." ela respondeu pra mim.
- A gente não matou o Lecter, ele tá vivo! A gente quer trocar ele pelo Satoru,
- MENTIRA!!! - e outra bala explodiu na parede. Eu olhei rapidinho pelo cano da arma de novo, ele tava subindo, bem devagar, resolvi deixar ele vir. Quando faltava um degrau eu me lancei em cima dele segurando a arma, a gente rolou escada abaixo eu segurando a arma dele mantendo ela em outra direção. Yasuna desceu correndo em seguida, eu arranquei a arma da mão dele e dei pra ela. Peguei ele pro ombro e levamos pro próprio apartamento. Os vizinhos ficaram apreensivos, mas ninguém quis se intrometer. A gente entrou e bateu a porta. Eu usei um pedaço de madeira como calço já que aquela porta não poderia ser trancada por causa do chutão que ela tinha levado a pouco.
A gente levou ele pro escritório, tiramos a camisa dele e usamos pra amarrar ele na cadeira.
- Agora você vai falar! Onde ta o Satoru!? - Eu soquei a cara dele
- Eu não vou falar, pode me matar, vocês matar o Lecter,
- A gente não matou ele, - Yasuna colocou a mão no ombro dele fazendo uma cara de dócil - ele tá preso no alçapão, se você disser pra gente onde tá o Satoru a gente te da a chave, você vai lá e resgata o seu amigo
- ... vocês acham que eu sou idiota?
De alguma forma ele sabia que a gente tinha passado o médico, não era um palpite, dava pra ver no olho dele. Eu enfiei a mão no bolso por hábito e lembrei dos papeis ... como o velho tava ali achei aquilo inútil e comecei a esvaziar o bolso ...
- O que você tá fazendo com isso?
Eu percebi que de alguma forma aquilo incomodava ele, eu continuei olhando os papeis, dessa vez com mais cuidado... só coisas sem sentido, mas de repente eu vi algo que me fez sentido. "Querido Harris, deixei uma surpresa pra você na sua mesa, ...", depois outro, "Querido Harris ...", "... espero que possamos nos ver ...". Deu pra ver que aquilo era bem pessoal, eu joguei um no colo dele, o velho Harris encarou o bilhete com lágrimas nos olhos, ...
- Vocês mataram ele ...
- Vocês eram parceiros?
- Casado, ...
- E como você pode ter tanta certeza de que a gente matou ele ...
- A gente foi ligado espiritualmente ... eu pude sentir quando, quando vocês ... quem foi? Você? Ou a vadia ali ... ?
Eu fiquei com um pouco de pena do Harris.
- Você sabe o que ele fazia com a gente, não sabe?
- ...
- Você disse ligados espiritualmente, o que você quer dizer com isso?
- ...
A Yasuno foi pra cima dele, eu parei ela.
- ... olha pra ele, ... ele perdeu tudo, bater nele não vai mudar muita coisa. Ei Harris, ... - eu mostrei o bilhete no colo dele - você quer ver o Lecter de novo?
- ...
- A gente pode te levar até ele, vocês podem descansar juntos...
Ele continuou mudo, mas olhou na minha direção.
- ... ele tá lá ainda, onde a gente deixou ele, a gente pode te deixar lá, junto com ele, vocês pode descansar juntos, pra sempre, você não quer isso?
- ...
- ... você só precisa falar pra gente,
- ...
- ... é só dizer, uma rua, um número, você pode apontar se quiser,
- ... eu não sei onde ele tá ...
- PORRA, não fode HARRIS! ... eu to tentando te ajudar aqui cara, você quer ver seu amado não quer?
- .. eu disse que não sei ONDE ele tá, mas eu sei com quem
- O que você quer dizer?
- A gente arrumava corpos pra ela, corpos ainda vivos ...
- Harris? ...
- ... foi ela que selou a gente,
- ?
- Lecter e eu, a gente foi ligado por ela, somos um casal eterno, mesmo em outras gerações,
- Ela casou ... vocês?
- Quase isso ...
- E porque você pode dizer onde ela fica, ela não te disse?
- ... ela não mora num lugar, a casa dela ... vai e vem, não pode ser encontrada
- entendo, mas e o nome Lecter, qual o nome, o nome dela? Pode me dizer isso Lecter?
- I-Inana
- Obrigado!
"BANG!", eu explodi os miolos dele e saímos pela porta da frente.
o q eu faço agora?
Eu sonhei com isso a muitos dias e não escrevi sobre. No sonho um demônio me seguia, com um grande rosto negro e grandes olhos vermelhos. Ele me perseguia sem nunca dar um passo na minha direção
A primeira vez foi no onibus a caminho do trabalho. Eu morava em São Paulo ainda, era só uma presença, de roupas negras, capuz cobrindo o rosto e o breu no lugar da cabeça. Eu me sentia bem, esse dia. Só um incomodo, uma pulga atrás da orelha, nada com o que se preocupar. Na segunda vez foi em casa. Eu ja havia me semparado. O vazio é convidativo pra eles. O breu me espreitava do lado de fora de casa. Eu o via pela janela quando ia pegar um copo de café, ou levantava pra dar comida pro gato. Era só uma silhueta negra de capuz, atras do muro olhando diretamente pra dentro de mim. Na terceira e quarta vez ele permaneceu fora de casa. Mas eu definhava a cada dia. Essas coisas sugam tudo o que você tem sem mover um dedo. A propria presença da morte. Na quinta vez eu o via nos meus pensamentos. Se antes eu podia evitar ou desviar o olhar agora não havia pra onde correr, ele estava dentro de casa. Ele abre a minha geladeira, pega algo, se alimenta da minha alma. Dorme na minha cama. Na sexta ou sétima vez eu não me reconhecia mais. Eu era uma porta infestada de cupins. Essa foi a ultima vez que eu o vi. Acordei com um peso, era ele de cocoras no meu peito, olhando dentro da minha alma. O capuz cobria a cabeça dele e a minha, nada além de breu havia depois dalí, seu hálito era podre, seus olhos haviam sumido em mim, sua saliva escorria sobre meu rosto, eu estava sendo devorado,
Tears - VFSix
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