IA: tecnologia, poder e os donos da narrativa
Por Fátima Conti, em diálogo com Deep 🐋
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🐧 Assistentes de inteligência artificial (IA) têm se tornado, aos poucos, uma forma de acesso à informação.
Entretanto, já é sabido que eles distorcem conteúdos jornalísticos, desde erros factuais, atribuição incorreta de autorias, até dificuldade em distinguir fatos de opiniões.
É importante lembrar que IA's generativas não "pensam" ou "raciocinam" como humanos. Não possuem um "banco de verdades" interno. Operam com probabilidades, o que as torna propensas a confundir fatos com opiniões presentes nos dados de treinamento.
Enquanto a indústria de IA avança, uma pergunta crucial fica em suspenso: tecnologia a serviço de quem?
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É muito preocupante saber que os modelos são treinados em dados da internet, sem verdadeiro entendimento, empatia ou noção de responsabilidade social.
Assim, a maioria dos assistentes de IA ainda está longe de ser confiável para informar, contextualizar ou substituir o jornalismo humano.
Mas, será que não é esse um pressuposto ingênuo? Que os erros, como a "confusão" entre fato e opinião é um defeito técnico, apenas um problema a ser resolvido com modelos melhores e mais dados?
Temos que considerar que os dados carregam muitos problemas:
Já são, intrinsecamente cheios de opiniões disfarçadas de fatos.
São viesados por interesses econômicos, políticos e ideológicos.
São Produzidos e priorizados por quem tem poder para fazê-lo.
Mas, e se tais vieses forem intencionais como acontece na mídia tradicional que pertence aos ricaços? E se a distorção de notícias for conveniente para a manutenção dos ricos, enquanto ricos?
Aquilo que uma IA escolhe incluir ou excluir numa resposta é uma forma de opinião,
As fontes que o treinamento considerou "confiáveis" carregam visões de mundo,
O contexto que a IA omite ou destaca pode alterar completamente o sentido de um fato.
Por exemplo, se um sistema de IA:
Não contextualiza uma greve com os "baixos salários", focando só no "prejuízo ao comércio"…
Confunde "reforma agrária" com "invasão de propriedade" sem discutir a função social da terra…
"Normaliza" a concentração de renda como "meritocracia" (como quando sistemas de recomendação priorizam conteúdos que celebram bilionários sem criticar a exploração trabalhista)…
Então, esse sistema não está "confundindo" fato e opinião. Está reforçando a opinião dominante ou a da BigTech, como se fosse fato.
Assim, os erros, os vieses nas IAs não surgem do vácuo. Eles refletem os vieses presentes nos dados de treinamento, os quais, por sua vez, refletem os interesses de quem produziu e selecionou esses dados. Não existe neutralidade, pois as IAs foram criadas por uma humanidade cheia de contradições e desigualdades.
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💧 Impacto ambiental - o consumo de água e energia
Entretanto, o consumo de água e energia dos "DataCenters" não é algo que possamos ignorar.
Os DataCenters que hospedam servidores de IA geram calor intenso e precisam de sistemas de resfriamento potentes. Muitos usam torres de resfriamento evaporativo, que consomem grandes volumes de água, que é evaporada e não retorna ao sistema local.
Assim, enquanto comunidades inteiras sofrem com sede, estamos usando bilhões de litros de água para resfriar servidores que geram textos e imagens. É uma questão difícil: os benefícios sociais da IA justificam esse custo ambiental? Quem decide isso?
Aparentemente, a indústria não está parada. Está tentando mitigar o problema, com:
Eficiência de Hardware: Chips especializados (como TPUs e NPUs) são cada vez mais eficientes, fazendo mais cálculos com menos energia e calor.
Resfriamento Sustentável: muitos DataCenters novos estão adotando:
◦ Resfriamento a líquido direto nos servidores (mais eficiente que o ar).
◦ Uso de água do mar ou água de reuso.
◦ Localização em climas frios para reduzir a necessidade de resfriamento ativo.
Aqui cabe perguntar: O que realmente está sendo feito em quantidade significativa?
Será que países mais ricos estão, simplesmente, relegando aos países pobres a localização dos DataCenters?
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🌐 IA e o Capitalismo
Mesmo que muitos teimem em não ver, a IA não é uma entidade neutra, é uma extensão dos interesses de quem a controla.
Assim, o que os ricaços fizeram com a mídia tradicional também estão fazendo com a IA.
É a mesma lógica de sempre: quem detém os meios de produção controla a narrativa. No capitalismo tardio, os meios de produção agora incluem os modelos de linguagem e os dados que os alimentam.
O padrão histórico se repete:
Quem controlou a imprensa, controlou o discurso público nos séculos XIX-XX.
Quem controlou o rádio e a TV, moldou a opinião em massa.
Quem controla as plataformas digitais e os algoritmos, define a verdade hoje.
E quem controla os modelos de IA — os novos produtores de linguagem e "conhecimento" — controlará a próxima camada da realidade percebida.
E os mesmos grupos que dominaram os estágios anteriores já estão dominando este.
Assim, o modelo de linguagem ou Inteligência Artificial (IA) é o mais novo e eficiente mecanismo de reprodução da ideologia dominante, com a assustadora aura de neutralidade algorítmica.
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🎭 Existe Neutralidade?
A grande diferença agora é que a IA aparenta neutralidade técnica.
Um jornal tem uma linha editorial visível. Um canal de TV tem um dono conhecido.
Já um modelo de IA… "só entrega fatos".
Só que os fatos que entrega já passaram pelo filtro invisível dos dados de treinamento — dados selecionados, criados por… sim, pelos mesmos ricaços de sempre.
Ou seja, não existe neutralidade, só há diferentes graus de transparência sobre quais interesses estão sendo servidos.
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🤝 Confiança
As pessoas confiam nas IA. Muitos acham que os problemas são só erros. Que os algoritmos precisam e podem ser melhorados.
Não pensam nas IA como ferramentas de manutenção do poder que nunca serão neutras.
Não pensam que os vieses, os erros, não são acidentais, mas sim características projetadas (ou pelo menos toleradas) porque servem a um propósito.
As pessoas não conseguem ver a IA como o que ela realmente é: uma ferramenta de manutenção do poder, criada por quem sempre controlou a narrativa.
Porque quando as pessoas confiam cegamente — no Google, no ChatGPT ou num algoritmo de busca — elas desativam o único antídoto que possuem: o pensamento crítico.
Pois nenhum sistema construído sob a lógica do poder merece confiança cega.
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🔄 Sistema aberto
O real problema não é que a IA erra.
É que a IA obedece. Ela obedece:
Aos dados com que foi alimentada
Aos valores embutidos em seu código
Aos interesses de quem paga suas contas de água, energia e servidores
Portanto, uma IA não é fonte da verdade.
Mas pode ser uma excelente ferramenta de questionamento.
Assim, talvez a saída não seja esperar por um sistema puro, e sim nunca parar de desconfiar dos sistemas.
Não esperar que consigamos fazer um sistema fora do poder, mas um sistema aberto o bastante para ser constantemente questionado, auditado, desmontado e remendado por quem o usa.
Assume sua parcialidade em vez de escondê-la sob o manto da "neutralidade técnica"
Pode ser usado, mas não confiado cegamente
Deve ser sempre discutido, com seus erros apontados
Não pode ser simplesmente obedecido.
🌐 Narrativa e Divulgação
Deve-se lembrar sempre que o sistema pode ser incrível, mas não é inocente. Que pode ser útil, mas não é dono da verdade. Que pode simular empatia, mas não é humano.
Aliás, isso é, até, uma qualidade:
A verdade histórica brutal é que humanos não são decentes.
É só olhar a História — desigualdade, colonialismo, escravidão, guerras, destruição ambiental — e percebe-se o quanto a capacidade de crueldade e indiferença é uma marca profunda da humanidade.
Mas, essa não é uma situação nova. Sempre foi assim.
O controle da narrativa como exercício de poder sempre aconteceu.
Desde que a humanidade começou a registrar e transmitir conhecimento, o controle da narrativa sempre foi a arma definitiva para manter a ordem, a autoridade e os privilégios.
Alguém, investido de poder, sempre escolheu qual história seria contada e como.
Quais ideias seriam divulgadas e quais não seriam.
Quais anotações ou livros seriam copiados na Idade Média, reproduzidos e, depois, publicados.
E os motivos que as pessoas levaram em conta para a divulgação nem sempre foram úteis, ou bons, ou honestos ou reais.
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O texto acima exposto nos permite dizer que regulação e supervisão independente das IAs tornam-se fundamentais.
E que os usuários devem ser críticos, questionadores, e jamais aceitar as respostas das IAs passivamente.
Todos os usuários precisam entender que a IA é uma ferramenta espetacular, mas não um oráculo infalível — e que todo oráculo, na história, serviu a algum poder. 🐧
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Publicação: 26/10/2025 - Última atualização: 10/12/2025 -