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@falhei
Georgy Lipskerov Red Army Soldiers Sleeping with Puppy, After the Prague Offensive 1945
josef honzik
‘STRIPED BOXER SHORTS’ 2024 Jack Taylor Lovatt
Frida seated in her garden, 1943. Photo by Florence Arquin.
Watching the person you love love someone else breaks you.
fatima aamer bilal, excerpt from moony moonless sky’s ‘i am tired of making a religion out of my suffering’.
[text id: i am too little, and too much, and never enough.]
Eu queria ser mais
Não pelos outros
Mas por mim.
Clementine Keith Roach: Vase (1984)
Autópsia de um Lar
Nada mais exaustivo do que oferecer o peito inteiro
e descobrir, tarde demais,
que havia somente mãos procurando abrigo para si.
Uma casa construída sobre o vento.
Uma mesa posta para dois
onde apenas um prato voltava vazio.
Tanto esforço para traduzir o indizível.
Tanta anatomia da alma.
Tantas camadas retiradas uma a uma,
como quem acredita que a nudez absoluta obrigará o mundo a compreender.
E o mundo olhando apenas a pele.
O corpo também soube antes.
O corpo fechando-se.
O corpo ardendo.
O corpo infeccionando como um animal acuado.
Toda célula gritando aquilo que a linguagem, tão elegante e tão filosófica, insistia em explicar com delicadeza.
Não havia delicadeza.
Havia pressa.
Havia peso.
Havia um desejo atravessando outro sem jamais perguntar se existia alguém do outro lado.
Que extraordinária ironia.
Buscar um lar.
Encontrar um corredor.
Buscar repouso.
Encontrar impacto.
Buscar encontro.
Encontrar apenas uma sucessão de gestos incapazes de perceber que existe um universo inteiro escondido sob a pele alheia.
E ainda chamar isso de intimidade.
A memória é uma arquiteta cruel.
Levanta catedrais sobre ruínas.
Pinta vitrais onde existiam paredes mofadas.
Transforma migalhas em banquetes.
Faz acreditar que o vazio nasceu com a despedida,
quando o vazio já dormia na cama muito antes do adeus.
O amor não morreu.
Morreu a fantasia de que bastaria amar o suficiente para ensinar alguém a enxergar.
Ninguém aprende a contemplar uma floresta porque outra floresta resolveu florescer diante dos olhos.
Árvores continuam invisíveis para quem atravessa o mundo procurando apenas madeira.
E que alívio terrível.
Que libertação obscena.
Descobrir que a tragédia não foi perder um lar.
Foi insistir em chamar de lar um lugar onde nem o silêncio encontrava repouso.
Agora resta apenas uma sala vazia.
Eco.
Poeira.
A mobília retirada às pressas.
As marcas dos quadros ainda impressas na parede.
E, pela primeira vez, nenhuma vontade de trazer outra pessoa para morar ali imediatamente.
Talvez o vazio não seja um inimigo.
Talvez seja apenas o som de uma casa sendo desocupada das ilusões.
Talvez exista uma dignidade feroz em caminhar pelos próprios cômodos, ainda escuros, ainda frios, ainda desconhecidos.
Porque há portas que só se revelam depois do incêndio.
E há ruínas que finalmente param de fingir que eram palácios.
Franceline Fogaça
Hiroshi Teshigahara, Woman in the Dunes, 1964
Alphaville (1965), dir. Jean-Luc Godard
Brett Charles Seiler - "Kiss", oil on canvas