Conheço tempestades que fazem silêncio.
One Nice Bug Per Day
Cosmic Funnies

oozey mess
Not today Justin
YOU ARE THE REASON
I'd rather be in outer space 🛸
KIROKAZE
$LAYYYTER
Mike Driver
Game of Thrones Daily

No title available
Show & Tell
Fai_Ryy

roma★
Noah Kahan
cherry valley forever
Lint Roller? I Barely Know Her
🪼

titsay
Aqua Utopia|海の底で記憶を紡ぐ
seen from Bangladesh
seen from United States
seen from Russia
seen from Venezuela
seen from Venezuela
seen from Venezuela
seen from Venezuela
seen from Türkiye
seen from Venezuela
seen from Russia

seen from United States
seen from Singapore
seen from Italy

seen from United States

seen from United States
seen from United States
seen from United States
seen from United States

seen from United States
seen from United States
@balburdiei
Conheço tempestades que fazem silêncio.
as vezes eu vivo um ano em um dia.
as vezes eu perco um ano de vida.
“The Giantess’ Tresses” by Garvens, 1929
Aos trinta.
Ainda faltam algumas horas. Mas, por ansiedade ou costume, já acordo na manhã seguinte.
Bexigas vazias, resto de bolo na louça, mais uma manhã de segunda sozinho, lidando com as demandas do exterior, enquanto concilio com as vozes aqui dentro. Viver à frente do meu tempo é algo que coloco na conta da ansiedade.
Estive fora por alguns anos, não por não ter o que dizer, mas porque o atropelo da vida adulta é uma sina difícil de escapar. A gente acha que é imune na infância, tem certeza na adolescência e na juventude, mas se prova completamente errado quando se torna adulto. Por aqui é preciso estimular a criança, viver na busca da fagulha de intensidade da juventude, enquanto finge-se que ser adulto não é absolutamente normal.
Não digo isso com desprezo ou como demérito. A essa altura, ser normal é bom. Tenho uma gatinha absolutamente comum, curiosa, brincalhona, amorosa. Um marido, parceiro de vida, que é incrível. Não daquele incrível idealizado, raro por definição, mas do tipo que existe de verdade. Não mais com aquele tom superior de que é o mais especial de todos e está comigo. Seria vaidade pensar assim.
Tenho menos amigos que antes, do tipo que não enche mais uma mesa de rodízio, mas é possível montar uma mesa para um jantar intimista e saber sobre a vida deles, que não tenho conseguido acompanhar. Viver não é mais um martírio, mas também não é uma estrada de dopamina. Tem sua temperança.
Raros são os momentos em que me permito observar as coisas desse lugar: de cima, como se minha vida fosse minha série privada.
A culpa?
É sempre do tempo.
De modo que sequer encontro tempo para terminar este texto. Talvez seja essa a forma mais honesta de encerrá-lo.
Exorcizando Sal e Inocência
Um retrato incendiado por baixo do crânio Esse altar de petróleo incendeia um erotismo Baseado em refinar o desconhecido no inconsciente E observa-lo perante a fome de um louva-a-deus
Sua boca confabula o cinema para o estrangeirismo Cada gesto, futurismo! Cada olho, cemitério sintético A morte do que conhecemos em uma encruzilhada Onde convencer é a própria morte declamando seus escombros
Em minhas veias, obtenho o verso do deserto Poupa o espelho, exponha o cemitério de elefantes Outra vez em interlúdio para comprovar meu sangue É um beijo tardio na boca do hedonismo
O convento deformado vem buscar Em minha pele o uniforme de bacantes Cínicas entre a parafina e a saliva O melhor lugar entreaberto
Carrego você como se fosse um arco Hermes perdido sob algum continente Tens seu alvo e álibi, a salvo do encontro Que os cílios possam acusar
Desacelere o ambiente Cruzando os anos em agonia Patrulhe o silêncio presente no osso Enquanto arrasta os pés pela casa
O torso desfaz a sutileza E planeta rola esforço abaixo Revelando pássaros de prata Soltos pela neblina da primeira hora
Ao ego fotogênico: Demasiado altares pulando A abstração para comover Nas lacunas do discurso
“Universe Cascade” at the Garden of Cosmic Speculation
às vezes acho que meu coração parou no tempo. não existe um único dia em que eu não sinta sua falta.
Mas tudo é de ser contemporâneo. Universos, júbilos e etiquetas padronizadas, à vida. O sentimento ferve nas poções de desespero. O corpo ferve no sentimento. Lucidez. Transcendentalidade. Busco com farolete vertigens do globo ocular. O mundo nunca foi tão redondo. Em meio a átomos, sofro. Afonismo e suor.
Anastasius
Air flow at high subsonic speed round a wing section in a wind tunnel - a picture taken at one millionth of second. Space encyclopaedia. 1960.
tu me estragou pro mundo
e me tragou pra si
como quem precisava respirar
e segurar
mas é só fumaça
esqueceu que eu sou ventania
escorrendo pelos poros
não fixa.
talvez eu nunca esqueça o que aconteceu
muito provavelmente é por isso
que não tenha uma noite sequer
sem nenhum pigarro
dançando pelas minhas cordas vocais
e por isso eu tenha parado de gritar
ainda que internamente
todos os meus sussurros
são pra mim mesma
como uma prece
de quem voou rápido demais
e desaprendeu a pousar
david alan harvey, backstage at tropicana nightclub. havana, cuba. 1999
se cão que ladra não morde
por que eu sinto as mordidas
eu sou meu próprio cão
por que eu termino com a pele
parecendo uma carnificina
de mim mesma
e as mãos cheia de sangue
são meus ou dos outros?
não que eu nunca tenha deixado de falar
desculpa (mas não tanto)
se eu cheguei feito um furacão
desgovernado na sua casa
e na sua vida
eu nunca soube muito bem
como chegar de mansinho
sem bagagem
ou destroços
mas são escolhas
né?
cê viu as flores ventando junto
em algum momento?
que eu até posso não ficar por tanto tempo
mas no fim cê vai dizer que só ficou as ervas daninhas
ou as flores que nasceram no asfalto também?
Moon Angel (2019) - Luciana Lupe Vasconcelos
Projeção
Procurou-se em muitas bocas
a forma exata de um nome que nunca existiu.
Cada beijo trazia um pequeno equívoco.
Cada sorriso parecia quase suficiente,
como portas entreabertas para uma casa inexistente.
A imaginação, artesã paciente,
esculpiu um rosto com matéria de ausência.
Depois exigiu do mundo a mesma escultura.
As bocas, pobres bocas,
carregavam sal, cansaço, histórias,
medos escondidos entre dentes.
Nenhuma sabia pronunciar o impossível.
Houve ternura.
Houve desejo.
Houve calor bastante para atravessar algumas noites.
Mas sempre restava um espaço
entre a pele e a expectativa,
entre o gesto recebido
e o gesto sonhado.
Não era falta do mundo.
Era excesso daquilo
que a esperança inventa quando permanece sozinha.
E talvez o desencontro
não habitasse as bocas percorridas,
mas a medida inalcançável
com que a alma decidiu comparar o amor.
Franceline Fogaça
Autópsia de um Lar
Nada mais exaustivo do que oferecer o peito inteiro
e descobrir, tarde demais,
que havia somente mãos procurando abrigo para si.
Uma casa construída sobre o vento.
Uma mesa posta para dois
onde apenas um prato voltava vazio.
Tanto esforço para traduzir o indizível.
Tanta anatomia da alma.
Tantas camadas retiradas uma a uma,
como quem acredita que a nudez absoluta obrigará o mundo a compreender.
E o mundo olhando apenas a pele.
O corpo também soube antes.
O corpo fechando-se.
O corpo ardendo.
O corpo infeccionando como um animal acuado.
Toda célula gritando aquilo que a linguagem, tão elegante e tão filosófica, insistia em explicar com delicadeza.
Não havia delicadeza.
Havia pressa.
Havia peso.
Havia um desejo atravessando outro sem jamais perguntar se existia alguém do outro lado.
Que extraordinária ironia.
Buscar um lar.
Encontrar um corredor.
Buscar repouso.
Encontrar impacto.
Buscar encontro.
Encontrar apenas uma sucessão de gestos incapazes de perceber que existe um universo inteiro escondido sob a pele alheia.
E ainda chamar isso de intimidade.
A memória é uma arquiteta cruel.
Levanta catedrais sobre ruínas.
Pinta vitrais onde existiam paredes mofadas.
Transforma migalhas em banquetes.
Faz acreditar que o vazio nasceu com a despedida,
quando o vazio já dormia na cama muito antes do adeus.
O amor não morreu.
Morreu a fantasia de que bastaria amar o suficiente para ensinar alguém a enxergar.
Ninguém aprende a contemplar uma floresta porque outra floresta resolveu florescer diante dos olhos.
Árvores continuam invisíveis para quem atravessa o mundo procurando apenas madeira.
E que alívio terrível.
Que libertação obscena.
Descobrir que a tragédia não foi perder um lar.
Foi insistir em chamar de lar um lugar onde nem o silêncio encontrava repouso.
Agora resta apenas uma sala vazia.
Eco.
Poeira.
A mobília retirada às pressas.
As marcas dos quadros ainda impressas na parede.
E, pela primeira vez, nenhuma vontade de trazer outra pessoa para morar ali imediatamente.
Talvez o vazio não seja um inimigo.
Talvez seja apenas o som de uma casa sendo desocupada das ilusões.
Talvez exista uma dignidade feroz em caminhar pelos próprios cômodos, ainda escuros, ainda frios, ainda desconhecidos.
Porque há portas que só se revelam depois do incêndio.
E há ruínas que finalmente param de fingir que eram palácios.
Franceline Fogaça