eu coloco don l pra tocar nos auto falantes do seu quarto. uma hora atrás você estava dentro de mim, suas mãos nas minhas costas, o suor, o impacto, o cheiro. seus olhos procuram pelo isqueiro e os meus procuram os seus. ei, olha logo pra mim porque parece que eu não existo se você não o faz. então sua cabeça obedece e eles estão bem na minha frente. suspiro e parece que tu entende. eu sei que entende, mas seu corpo se joga pra fora da cama e seus pés vão pra sala e depois pra cozinha. ouço o click. o resto da casa tá todo escuro, mas quando te ouço voltar, vem a fumaça. o branco do seu sorriso parece iluminar o espaço inteiro, mas tô embriagada, não tô? e sabemos bem pelo quê. minha expressão praticamente implora, mas minhas palavras são orgulhosas demais pra serem postas pra fora, mesmo assim seus ouvidos as captam. é claro, como eu poderia esquecer? você me conhece. todas as partes. as cobertas e as descobertas. e é frustrante que seja só você. então o primeiro verso de depois das três sai atropelado pela minha boca. acho que também estive procurando uma ilusão, foi por isso que acabei aqui, não é? justamente por isso. então sinto seu peso sobre a cama e assisto quase em câmera lenta você encostar na cabeceira. eu queria engatinhar como um gato até você, mas eu não sou sensual assim. eu nunca fui sensual assim. aqui estou. a luz do abajur faz sombra no seu rosto. meu deus, é injusto. é injusto que eu tenha que me apaixonar por outras pessoas quando você existe, quando você também está aqui. indisponível. tudo bem. a gente se conta outras mentiras e meus joelhos estão um de cada lado das suas pernas. não quero clima, não quero prólogo. ele está pronto. ele sempre está e eu sempre estou. nos encaramos. como é possível que eu ouça claramente sua voz dentro da minha cabeça agora? deslizo, aperto seus ombros. deus, a expressão que você faz. ah. fecho os olhos, é tão bom. as suas mãos os seus sons o calor. eu sei que vou chorar quando voltar pra casa, mas isso nem importa agora. não assim. não quando um dos seus braços alcança o cinzeiro e o outro está em mim. admiro sua coragem, o jeito quase que despreocupado que o seu peito sobe e desce. ah. tô tao devagar, não é? quero te torturar, mas não sei como. ou talvez saiba. porque você abriu a porta e você disse que sentiu minha falta e eu sorri e você disse que eu precisava parar, mas não agora. não agora. sua paciência acaba antes da minha covardia e agora te vejo por outro ângulo e meu corpo balança noutro ritmo, não consigo mais ouvir que música tá tocando. ah. tá quente pra caralho. você, esse quarto, a tijuca, o rio de janeiro. então silêncio. eu sei exatamente o que cê está prestes a dizer, não quero ouvir, por favor, não diga. suspiro. seus ouvidos me ouviram de novo. você não disse, mas eu já sabia. e eu também te amo, porra, eu te amo há anos. e quando meus pés ficam dormentes e sua boca tá na minha panturrilha eu meio que esqueço de tudo. esqueço. não existe mais nada. a gente se beija. tu beija minha testa. eu sou capaz de chorar agora, mas não vou. puta que pariu. a gente precisa parar. a gente precisa. sua respiração pesada, quero segurar sua mão. não vou. volto a ouvir tudo. é sexta, a cidade tá viva, tudo está. você não me acompanha quando vou embora, sou eu quem fecha a porta. a gente não se despede porque sabe. ah. eu gostaria que essa fosse a última vez.