O SORRISO DA BORBOLETA
É triste dizer, mas nunca amei realmente alguém, tive atrações, romance, ternura, mas amor verdadeiro jamais. Sou imune a essa atração diabólica entre dois seres que se amam. As coisas são assim e pronto. Talvez se tivesse um filho, gerado nas minhas entranhas, alguém que eu sentisse crescer e que respirasse ao meu ritmo, aí sim, acho que seria capaz de amar. Amar alguém que cruza acidentalmente o meu caminho acho improvável. Ainda não encontrei este sentimento que una meu corpo e a minha alma ao corpo e a alma de outra pessoa.
Minha vida sempre foi pacata e sem milagres. Nunca tive pretensões de escalar o Evereste ou salvar o mundo. Consolo-me com migalhas, pequenas parcelas de alegria, rotinas agradáveis e consigo viver assim. Tudo muito simples, sem alaridos e sobressaltos de felicidade. Na verdade busco apenas um equilíbrio, sem vendavais, algo ao ritmo de uma música em surdina.
Vivo como um pássaro, sem preocupações maiores do que a minha exígua existência, preenchendo os meus requisitos básicos: voar, comer, dormir, procriar e depois desaparecer por completo. Viver apenas por viver, sem grandes triunfos e sem pensar na imortalidade da alma.
Não corro atrás do milagre e ignoro os laços eternos do amor. Claro que desejo ser feliz, como todo mundo, mas sozinha, no meu cantinho, sem essa obrigação de compartilhar. Será possível? Não sei! Viver tornou-se bastante corriqueiro. Talvez não suporte essa prisão a dois em nome do amor. Desejo apenas usufruir o meu cotidiano em pequenos goles. Um pequeno sonho burguês: um lar, um amigo, um animal de estimação, algumas flores, pedaços de lembranças e deixar o tempo escorrer sobre o meu corpo.
A interação perfeita entre dois seres exige uma transparência total –corpo e alma- isto eu não posso oferecer a nenhum homem. Eu posso ser sincera, mas existe algo no mais profundo de mim que eu não consigo compartilhar. Um segredo nunca revelado. Uma ambiguidade que avança e recua e deixa-me a um passo do suicídio. Algo enterrado que destrói minhas forças e coloca-me numa esfera de realidade diferente. Talvez eu procure a felicidade lá aonde ela não existe e precipito-me num mar de sofrimentos.
Desde cedo percebi que não tinha as mesmas aspirações que os outros. As conversas ridículas sobre namoros, beijos roubados, promessas de amor e por aí afora eram-me tediosas. Rapidamente dei-me conta que era insensível às sutilezas do amor. Protegendo-me dessas armadilhas fui criando meu próprio universo dentro da minha fortaleza medieval.
Tudo tem seu preço, algumas vezes, sinto-me como um artista que é incapaz de concretizar sua obra, um cineasta que nunca terminará seu filme, um pintor que não sabe findar o seu autorretrato. Existe uma espécie de emoção negativa que eu não consigo explicar. Algo que não me deixa progredir. Armazeno um monte de emoções abafadas, perdas e feridas, ausências, como se todos os desastres do mundo viessem se acumular na minha calçada. É como se estivesse anestesiada para as vicissitudes do amor. Nada me fere e nada me alegra.
Algumas noites, como numa metamorfose da borboleta, algo desconhecido penetra no meu cotidiano e em surdina começa a roubar a essência da minha vida. Sem que ninguém perceba, essa coisa estranha se incrusta na minha alma e apoderasse lentamente de mim.
Este algo estrangeiro a mim que age como se fosse eu, vai trabalhar no meu lugar, ler os meus livros, frequenta os meus amigos, beija com avidez a boca de homens desconhecidos, deitasse na minha cama, faz coisas que nunca tive coragem de realizar e vai se infiltrando à minha revelia na minha vida. Ninguém suspeita desta metamorfose e tudo que eu tinha estar desmoronando.
Eu vejo-me agir desta forma estranha e tento alertar os outros, mas, ninguém me escuta. Ninguém presta atenção. Ajo de uma forma diferente. É como se eu existisse num mundo paralelo, num universo onírico, presa dentro de um espelho, aonde eu pudesse ver, ouvir e sentir, mas, sem forças para interferir nessa realidade que se concretiza contra a minha vontade.
Essa estrangeira que vive dentro de mim e que roubou minha vida age de um modo estranho e cruel. Tudo o que construí durante anos desmorona, as minhas verdades e virtudes são irrisórias e isto me deixa confusa. Ela destrói em poucos dias o que levei anos para construir. Os meus amigos mais íntimos partem, eles não compreendem minhas novas atitudes: caprichos e procedimentos egoístas e uma forma nova de viver a vida. Perdeu-se o elo de amor e simpatia que nos unia. Sinto a queda próxima, mas ai surge uma nova vaga de amigos e encontros que celebram essa nova mulher.
Essa nova mulher desconhecida e barulhenta: grita e gesticula como uma esquizofrênica e ao mesmo tempo tem acesso de ternura e amor pelos outros. Eu fico pensando: quando essa intrusa for embora, se um dia for como vou fazer para explicar todas essas insanidades. Essa estrangeira é o meu avesso, um ser abjeto que se infiltra na minha vida e dirigi o meu destino na contramão.
Eu que sempre pratiquei a arte da solidão, saboreando o tempo estagnado, fossilizado, sou obrigada a suportar essa estranha que frequenta um mundo caótico e frenético. Existe nela um alvoroço que me deixa a um passo da loucura. Noite após noite, este personagem maléfico vai contaminando-me, espalhando-se como um vírus, crescendo dentro de mim. Sinto que cria, aos poucos, outra dimensão interior. Algo que não sou, mas que de agora em diante serei obrigada a assimilar e quem sabe amar.














