O TETRAPHARMACON EPICURISTA
Tetraphármakos ou tetrapharmakon (em grego clássico τετραφάρμακος/τετραϕάρμακον, literalmente: as quatro drogas) era um composto conhecido na Grécia Antiga. O termo é utilizado metaforicamente pelos epicuristas para se referirem aos “quatro remédios para suprimir os temores da alma”.
Dos textos de Epicuro que nos chegaram, o filósofo trata desse tema principalmente na sua Carta a Meneceu, também conhecida como Carta sobre a felicidade. Nessa carta, Epicuro apresenta os principais fundamentos para sua ética.
O primeiro dos remédios para a alma é não temer aos deuses: Epicuro diz que os deuses de fato existem, mas a imagem que as pessoas comuns fazem deles, esta, não existe. O ímpio não é aquele que não crê nos deuses, mas aquele que atribui aos deuses falsos juízos baseados em falsas opiniões. São essas falsas opiniões que dão origem as crenças de que os deuses recompensam ou punem as pessoas de acordo com aquilo que elas fazem. No entanto, os deuses são seres incorruptíveis, indestrutíveis e bem-aventurados, qualquer preocupação ou perturbação é contra a sua natureza. Os deuses só convivem com seus semelhantes e são alheios a qualquer coisa diferente deles. Não devemos temer os deuses, pois eles não se ocupam de nós.
O segundo remédio é “não temer à morte”: Para Epicuro, o mais terrível dos males, a morte, não significa nada. Todo o bem e todo mal estão nas sensações, uma vez que a morte é justamente a privação dessas sensações, para nós ela não pode significar nada, pois não a sentiremos. Enquanto vivemos, a morte não está presente, e quando, enfim, a morte chegar, nós é que não estaremos para senti-la. Ter consciência disso nos faz aproveitar a vida passageira sem nos preocuparmos com a possibilidade da chegada da morte, pois, se a morte não nos perturbará quando chegar, antes, na espera, também não deve nos perturbar. O homem sábio, por tanto, não deve temer a morte.
O terceiro remédio é “o bom é fácil”: A filosofia de Epicuro, sendo hedonista, tem o prazer como o princípio e o fim de uma vida feliz. É com base na distinção entre prazer e dor que toda escolha e recusa é feita. No entanto, Epicuro reconhece que não é qualquer prazer que deve ser escolhido, ás vezes, muitos prazeres devem ser até evitados, caso esse prazer possa causar efeitos desagradáveis. Da mesma forma, nem toda dor deve ser evitada e muitos sofrimentos devém ser preferíveis, caso possam causar prazeres maiores futuramente.
Epicuro considera a autossuficiência um grande bem, habituar-se às coisas simples, e um modo de vida não luxuoso, proporciona ao homem meios para enfrentar as dificuldades da vida. Para Epicuro, deve-se contentar com pouco, pois, quem não depende da abundância a aproveita melhor quando ela é possível, e não sofre por sua falta quando ela não é possível. Assim, o bom é fácil para aqueles que possuem a autossuficiência, o bem supremo está nas coisas simples de obter.
O quarto remédio é “o mal não dura”: O mal supremo dura pouco, ou causa apenas sofrimentos leves. Uma dor pequena é suportável, uma grande dor leva rapidamente a morte, que por sua vez também não deve ser temida, já que é o fim de todas as sensações. As coisas podem acontecer de três formas distintas: por necessidade, que são inevitáveis, por acaso, que é instável, ou por nossa vontade. A sorte, por si só, não proporciona ao homem nenhum grande bem e nenhum grande mal, mas dela pode surgir grandes bens e grandes males, por isso é preferível não ter sorte e ser sábio, que ter sorte e não ser sábio
Para Epicuro, aquele que seguir esses quatro passos poderá alcançar a felicidade. Não temer os deuses, não temer a morte, confiar que nenhum mal é duradouro e que o que é bom é simples e fácil de alcançar são os quatro remédios para a alma segundo a filosofia epicurista.
EPICURO. Carta a Felicidade: (a Meneceu), São Paulo: Editora UNESP, 2002