Cadeias Curtas de Abastecimento de Alimentos: uma contrarrevolução
Entre os vários privilégios de ter nascido e me criado no meio rural, e mesmo permanecendo com um pé outro cá e o outro por aí, pude em muitos momentos mesmo quando lá, alimentar meu corpo e alma com comidas que remetiam a minha história, ao meu povo e ao saber desses.
Na infância, o beiju de massa de Altair, a broa de Edvaldo, a coalhada escorrida de Antônia, o avoador de Maria José, entre outros sabores que nutriam minha alegria de saber de onde vinha aquele alimento, uma vez que esses alimentos ao terem determinadas origem, resgatavam na minha memória, afeto, acolhimento, história passada de pais para filhos/as e a certeza de que eu estava comendo a melhor receita de todos os tempos para aquela comida.
Esse maravilhoso histórico rural, de proximidade, de amizade, de familiaridade me fizeram uma eterna exploradora da origem dos alimentos que eu fui consumindo ao longo da vida entre Sertões e Veredas. Sempre que chego a uma cidade, a primeira pergunta é: qual o dia da feira? onde fica a feira? E na feira ou em algum restaurante o questionamento continua: quem fez esse produto? de onde ele vem? quem começou a fazer? tem alguma história sobre esse produto? E assim tenho me nutrindo de sabores, valores, causos, contos e encantos alimentares.
Essa realidade descrita, infelizmente, não faz parte da realidade de muitas pessoas, sejam elas urbanas ou até mesmo rurais. Pois, essa proximidade entre o produzir – quem produziu – e o consumir, ou seja, quem compra – foi distanciada pelos complexos sistemas agroalimentares, que com menos de uma dúzia de empresas ditam as regras do que comemos em todo o mundo. E nesse novo sistema, que nada me agrada, as histórias a serem contadas são de produtos padronizados, sem identidade, ricos em açúcar e sal, sabores sintéticos, componentes que desconhecemos o mais trivial dos significados, além dos que não sabemos se num futuro não tão distante não afetará nossa saúde física e mental.
A indústria de alimentos alcançam das grandes cidades aos sítios onde só vai quem tem negócios – dada a distância e a dificuldade de acesso. Ademais aos efeitos maléficos que causam a saúde, comprovados pelas altíssimas taxas de obesidade, diabetes e desnutrição. Pois, somente no Brasil a previsão é que em 2025 tenhamos mais de 11 milhões de crianças obesas, 1 milhão hipertensas, 400 mil pré diabéticos e aproximadamente 1,5 milhão com acúmulo de gordura no fígado, de acordo com a Organização Mundial da Saúde - OMS. Esses sistemas de produção exercem também uma pressão fortíssima sobre as/os agricultoras/es familiares e camponeses de modo geral.
Para atender as exigências desses conglomerados, esses atores rurais necessitam de insumos externos muito além das suas capacidades produtivas e reprodutivas. O que torna inviável a produção, ou essa tem custos elevados, que por conseguinte exclui grande parte da população consumidora de terem acesso a alimentos diversos e saudáveis. Pois, segundo dados apresentados pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura - FAO através do relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutricional do Mundo - SOFI 2020, a fome atingiu 690 milhões de pessoas em 2019 e outras 104 milhões não puderam pagar por uma dieta saudável.
Os sistemas agroalimentares impossibilitam ainda, que esses/as agricultores/as comercializem diretamente sua produção ou se assim fazem é com uma fatia de lucro minúscula, que mal sustenta a família. Basta olharmos para os produtores/as de aves e suínos através do sistema chamado integração, no sul do país. Esse sistema que não permite quase nenhuma mobilidade dos/as agricultores/as oferece uma margem de lucro mínima para os/as trabalhadores/as do campo, deixando-os em uma situação de fragilidade que a qualquer tempo estarão endividados, correndo o risco de falência e consequentemente abandono das suas terras.
A pressão dos conglomerados alimentares vão para além dos preços pagos aos/as agricultores/as, mas, também com a rigidez na legislação, em especial a legislação sanitária, que de modo geral atende única e exclusivamente essas empresas. Já que quase nada se tem no Brasil, nesse âmbito, que atenda as pequenas produções, como por exemplo: plantas baixas agroindustriais adequadas a processamentos que não estejam dentro da perspectiva de larga escala comercial ou exportação.
Umas das consequências da pressão dos conglomerados alimentares sobre as agroindústrias familiares, que como ressaltado não atende em muitos casos a legislação sanitária vigente no país, é a venda dessas pequenas unidades de beneficiamento de origem familiar para as corporações alimentares. O Guaraná Jesus com origem maranhense, de sabor, cor e história única, sucumbiu ao poder da indústria de refrigerante que tem Papai Noel como garoto propaganda, pertencendo hoje a Coca Cola.
Muitos se fala sobre o peso das grandes produções – agronegócio, conglomerados agroindustriais – para a balança comercial. Sim, há razão em alguns aspectos, mas, e se todo o investimento que sempre houve e continua havendo nos conglomerados fosse investido nos/as pequenos/as produtores/as? Qual seria o resultado? Vale a pena a discussão. Que não será nesse texto.
Contudo, é importante que não fiquemos somente na discussão sobre a real necessidade de maiores acessos para os/a pequenos/as médios/as agricultores/as, mas que tenhamos enquanto consumidores ação positiva para com esses atores que alimentam nosso corpo e nossa alma todos os dias. E uma forma de atuar indo na contramão dos conglomerados alimentares que pressionam o congresso para que os rótulos de alimentos não tenham a informação básica se naquele produto contém transgênicos ou não, é buscar e fortalecer as cadeias curtas de abastecimento de alimentos - CCAAs.
O que são essas cadeias? Como elas se organizam, e, como podem contribuir para um contraponto frente aos excludentes conglomerados agroalimentares?
De acordo com inúmeros estudiosos sobre o tema, as CCAAs são aquelas em que um alimento é identificado e a sua produção ou processamento passar a ser atribuído a um/a produtor/a. Havendo portanto informações sobre a origem, o modo de preparo, e em muitos casos as histórias por trás da forma de fazer e produzir esse alimento. Possuindo ainda outra característica fundamental, que é a redução a zero – ideal – ou a um mínimo de atravessador. As cadeias curtas possibilitam que os alimentos sejam ressocializados, onde os consumidores poderão formar um juízo de valor sobre os mesmos a partir do seu conhecimento e experiência. Permitido desse modo um relacionamento entre produtores e consumidores.
As cadeias curtas podem ocorrer de três formas: face a face, onde o consumidor compra diretamente do produtor, aqui podemos exemplificar as feiras da agricultura familiar, Comunidades que Sustentam a Agricultura – CSA, cestas prontas, vendas de beira de estrada e a compra na propriedade. Temos também o modelo de proximidade espacial, onde os produtos são produzidos e comercializados em uma região especifica. Como por exemplo marcas regionais, mercearias e restaurantes locais, cooperativas de consumidores, roteiros temáticos, lojas especializadas e agricultura de base comunitária.
E por fim a cadeia espacialmente estendida, onde o produto é comercializado em áreas distantes do seu espaço de produção, mas, este produto leva consigo informações sobre o modo de produção e processamento. Para essa última forma de cadeia curta, podemos usar como exemplo os produtos com Identificação Geográfica, Denominação de Origem, orgânicos e Fair Trade.
O grande feito das CCAAs é a autonomia promovida aos agricultores/as familiares e campesinos, uma vez que há uma redução na dependência de insumos externos e maior controle dos processos produtivos. Esses/as agricultores/as têm a liberdade de produzir de acordo com seus conhecimentos, valores e respeito a sazonalidade da natureza, e não de acordo com as exigências do mercado para atender as demandas de padronização e frequência de produtos. Essa autonomia permite aos/as agricultores/as utilizarem seus conhecimentos relacionado ao agir, ao saber fazer, ao ter o conhecimento socializado e ao erro para construir o novo.
Com as cadeias curtas, é possível criar entre quem produz e quem consome uma relação de confiança interpessoal, os produtos passam a ter identidade, valores sociais, culturais, ambientais e éticos. Nessas cadeias a natureza das transações comerciais são vistas a partir dos vínculos sociais.
A reconstrução dos elos e as ligações pessoa a pessoa nos processos de compra e venda através das CCAAs, busca responder a problemas gerados pelo capitalismo, que é a perda de confiança por parte dos/as consumidores/as no que diz os rótulos e os certificados sanitários que as embalagens trazem. Essas cadeias originam mais que transações econômicas, promovem amizade, interconhecimento sobre o modo de produção, o passado rural, criam uma sociabilidade.
Quando eu, ou outro consumidor elege as cadeias curtas para buscar alimentos que nos rememore lugares, pessoas, modos de fabrico, entre outros pontos já citados, estamos fortalecendo as pequenas e médias produções, o/a agricultor/a local e o comércio regional. Nesse ponto, ressalto que na atualidade os/as agricultores/as têm se organizado em associações, cooperativas, CSAs, produzido cestas de alimentos, organizado feiras de produtos oriundos da agricultura familiar, além das lojas com produtos exclusivos da produção familiar, agroecológica, campesina e indígena. Facilitando o acesso a esses produtos para nós consumidores.
Destaco que não é fácil para agricultoras e agricultores familiares se lançarem contra as grandes corporação de alimentos que tem braços/tentáculos em todas as partes. É uma competição desleal e injusta. De certo é uma luta de Davi contra Golias. Pois, não é preciso relatar aqui a discrepância das condições em que esses/as agricultores/as se encontram no acesso as políticas públicas de crédito, assistência técnica, espaços de comercialização e demais subsídios, se comparados com as grandes empresas de alimentos no Brasil e no mundo.
Analisando o que foi discutido até então, chego à conclusão e espero que você também tenha o mesmo olhar, que, cada um de nós que almeja um país justo e igualitário tem em suas mãos a possibilidade de dar poder a tantos Davi’s – aqui incluindo Davi’s femininos. E essa oportunidade vem através das CCAAs, onde diretamente fortalece os/as agricultores/as familiares, possibilitando o desenvolvimento de um mundo rural sustentável, através da construção de novas redes, infraestruturas, apoio local e regional.
As cadeias curtas possibilitam ainda a inclusão socioeconômica de grupos de agricultores/as e consumidores/as marginalizados e excluídos pelo sistema agroalimentar dominante e coorporativo. Através da consolidação das CCAAs, teremos a oferta de uma maior variedade de produtos saudáveis, com conhecimento da origem, além de uma redução no custo de produção e por conseguinte no preço de venda ao consumidor.
Além do mais, as cadeias curtas promovem para nós consumidores um espaço onde podemos manifestar nossa preferência por determinados alimentos, tipos de produção e modos de fazer. É possível ir contra a dita Revolução Verde que desde os anos 50 do século XX promete acabar a fome no mundo, mas em verdade tem acentuado essas nos últimos anos, e por certo acentuará muito mais no pós pandemia. É factível ir contra a proposta de vida fast food, onde na urgência para enriquecer os outros corremos e comemos, sem aproveitar as delícias que uma vida slow food pode nos proporcionar.
Assim sendo. Valorize a produção da sua comunidade. Compre direto de quem produz. Busque alternativas de alimentos sadios que estão no seu entorno. Fortaleça as iniciativas da agricultura familiar, campesina e indígena. Revolucione-se!!! Coma comida de verdade.
Imagens: Disponível no Google
Fonte: Cadeias curtas e redes agroalimentares alternativas: negócios e mercados da agricultura familiar / organizadores Marcio Gazolla [e] Sergio Schneider. – Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2017.
Brasileiros atingem maior índice de obesidade nos últimos treze anos. https://saude.gov.br/noticias/agencia-saude/45612-brasileiros-atingem-maior-indice-de-obesidade-nos-ultimos-treze-anos Acesso em 02 e abril de 2020.
Brasil está entre países que enfrentam epidemia que combina obesidade e subnutrição https://www.bbc.com/portuguese/brasil-42231526 Acesso em 02 e abril de 2020.















