O vazio constante de um querido anjo que pode ser tudo nessa vida, menos exemplo.
Stay and see what happens.

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@floresevazios
O vazio constante de um querido anjo que pode ser tudo nessa vida, menos exemplo.
Stay and see what happens.
A vida não é poética. Os seres humanos são poéticos. Assim como Michelangelo questionava a vontade do mármore, em busca de libertar sua forma, nós questionamos a dor sobre como ela quer ser mostrada. Damos a ela a voz de um eu lírico, uma aquarela delicada, um traço de carvão violento, o abstrato e a geometria, a forma real de algo misturado ao subliminar, movimentos sincronizados, a imparcialidade dos rascunhos e rabiscos. Não importa como, quando, onde e por quê: poetizar o impoetizável é a grande invenção humana. Fazer arte com as artes da vida é algo que nos ajuda a sobreviver em tempos de infortúnios.
Dê lírios aos delírios da alma — a loucura de ser deve ser agraciada. Entre licores, dores, cores e amores, há neste tema monocromático sazonal as lições sagradas dos pecados ocasionais. Dê espaço de fala ao vazio — mesmo que o silêncio preencha todo o conteúdo. Os ruídos, os guizos, os apitos e assobios, a chuva fina que dedilha o telhado é o universo lhe confiando algumas lágrimas. Dê a intuição o poder de te salvar — eu creio que seja ela a segunda amiga mais próxima de Deus. A pulga na orelha, a cisma, a paranóia e o sexto sentido: nem tudo que se deduz é de fato algo criado pela insegurança. Algumas feras e feridas podem ser evitadas — basta ouvir um pouco mais, confiar um pouco mais em si.
Eu tenho estado mais pensativa que o normal, observando o mundo do alto de uma catedral, isolada das brevidades contemporâneas, dos desejos corriqueiros, das coisas juvenis, das novidades sociais. Imersa na ideia de que fui feita para viver como uma viajante solitária. Escrever sobre amor sem ter amado, pintar a felicidade sem ser feliz, esculpir motivação sendo que constantemente quero desistir. Recitar versos de uma amazona destemida quando eu não passo de mais uma covarde. Conhecer pessoas sem esquecer do adeus. Mentiras povoam minhas poesias e, ainda assim, contam uma certa verdade: a verdade de querer um dia viver aquela mentira. Do alto vejo a arte de errar e a beleza de reconhecer, a magia de acreditar e o poder de recomeçar, o enigma das almas caladas e a espontaneidade dos espíritos eloquentes. Temo olhar nos olhos da minha criança e enxergar decepção. Eu não sou nada do que ela pretendia ser. Tenho estado longe das minhas paixões por medo da profundidade, sendo que, no âmago do meu ser, não existe coisa rasa.
Você ainda tem esperança no fundo da sua descrença. Ela é uma fogueira fraca, mas perceptível. O calor dela ainda te aquece, e isso te assusta. O calor dela ainda te atravessa, e isso te amedronta. O vento frio de uma noite sem lua sentencia os teus pensamentos ao pessimismo sugestivo, mas o teu coração reflete na penumbra uma fé renitente no espelho estilhaçado. É tão mais fácil abraçar a possibilidade do fim. Entretanto, parece exageradamente cedo demais deixar o fim engolir as demais possibilidades. Ontem você disse que o sol não voltava mais, e hoje ele veio novamente se despedir de você. Enfim, no fim, ainda não é o fim.
Na minha tenra juventude, brotos da minha ingenuidade, pensei que te teria para sempre, comigo. Mas o condutor da vida, vulgo o tempo, me disse, no relance dos anos, que te ter para sempre, sempre fora algo impossível. Entretanto, ele estava erroneamente equivocado. Você permanece viva em meus pensamentos. Você é a tristeza de veraneio que, por teimosia e com amor, carrego nas memórias. E sempre a carregarei. O beijo do pôr do sol carrega o calor do teu abraço, e nele eu permaneço, de olhos fechados, te trazendo de volta a cada despedida.
Começarei de novo quantas vezes for preciso. O linho branco do casulo que enrola minha alma, amordaçando-a no infinito vazio, desfazendo o senso de mim é uma dor atemporal. O turvo reflexo, a rua sem saída, a sensação de ser inóspita, o pensamento desfalecido, a emoção incongruente, tudo isso é a metamorfose. Serei eu contra mim, por mim, e antes do definitivo fim, barganharei com Tânatos, conversarei com Hades, e do submundo escaparei. Minhas asas me fazem sangrar, a cera derretida me faz chorar, a frustração permeia o meu olhar, mas a arte humana é se transformar.