Faltou muito pouco para Jaebum sentir-se tonto com tamanha a doçura que brilhava nos olhos da garota. Sim, aquilo era um ponto ruim, no entanto, a beleza dela ainda continuava prendendo a si cada vez que se atrevia a passear o olhar por ela. De repente, por piedade, Jaebum desejou que ela notasse logo agora que ele não era o cavalheiro que ela devia estar esperando, desejou que ela fugisse, porque dificilmente a deixaria em paz agora que havia provado o verdadeiro sabor da beleza caótica. Enquanto andava, ele também a imaginou sob o escuro absoluto, sendo iluminada por suas fogueiras. Parecia ainda mais bonita. Quis pintá-la, desenhar a garota. Quis muito fazer dela eterna, bem como Mona Lisa. Suspirou, aproveitando para guardar um livro de sua pilha que ficava na mesma fileira que o livro alheio. — Im Jaebum. ― Respondeu em um tom até desinteressado. Os mesmos sobrenomes continuavam a lhe prender, era muita coincidência, o destino deveria estar brincando consigo, mas sempre gostou de desafios. ― Romances sempre parecem prender as pessoas, não é? ― Talvez, sim, aquilo fosse verdade. Mas as pessoas eram sonhadoras, aquelas que tinham esperanças eram as que gostavam de ler romances. Jaebum não os suportava. Romance adolescente então. O enojava de tal forma. Mas nada era pior que livros infanto-juvenis com as suas séries ridículas e enjoativas. J. K. Rowling quem o diga. Era difícil confiar na autora depois que ele descobrira ser ela a escritora de Harry Potter. Cada vez que um adolescente imbecil aparecia em sua mesa, devolvendo algum livro dela e dizendo que ele deveria MUITO ler, Jaebum sentia desgosto do tipo de leitor as pessoas pensavam que era.
― Confesso que li poucos romances e gostei de um número ainda menor. Romeu e Julieta é um deles. ― Continuou o assunto, desviando para a próxima prateleira. ― A verdade é que eu me foco muito em livros de cunho filosófico e político. ― Ler O Príncipe, de Maquiavel, era um belíssimo exemplo de sua estranhava obsessão por livros do tipo. Também adorava reler A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo e outros parecidos. Mas ela não tinha cara de quem lia esses livros por puro prazer de ler. Mordeu o lábio ao passar por uma fileira inteira de livros de Sociologia. ― O último livro que li que não fosse algo do tipo foi Madame Bovary. ― Verdade, em partes. O livro não era um dos melhores, mas parecia ser um clássico. Era bom a medida de contexto histórico e como colocava a igreja e toda a moral da época para queimar. Sorriu de canto, os lábios se repuxando em um sorriso discreto ao lembrar do hype com apenas aquele livro. ― Se pudesse me recomendar alguns livros. Seu favorito talvez? ― Então voltou a fixar o olhar nela, fazer-se de interessado no que ela dizia quando na maior parte do tempo estava interessado por sua beleza. Era até mesmo difícil se concentrar. A sua posição ganhou a visão alheia na lateral e ele suspirou. ― Você realmente faria bem mais sucesso que a Mona Lisa como um quadro meu. ― Suspirou meio bêbado, sonhando acordado. No entanto, continuava a guardar o próximo livro.
Quando ouviu seu nome, Chohee quase riu, apesar de o sorriso nunca ter saído de seus lábios. Era uma coincidência interessante, mas não tão rara, já que seu sobrenome era quase um dos mais comuns na cidade. Mas assentiu, para demonstrar que estava prestando atenção ao que ele dizia, apesar de imaginar que a conversa o havia desinteressado em certa parte. ❝ Isso é verdade, Jaebum-sshi, mas acredito que isso se deva à natureza das pessoas, ou até mesmo em resultado dos acontecimentos da vida. Todo mundo precisa de coisas que os façam bem, não é mesmo? ❞ Sua divagação pode ter sido pessoal demais, mas Chohee achava que não havia saído muito do contexto da pergunta dele. Céus, nem sabia se a pergunta havia sido retórica. Porém, suas palavras seguintes a chamaram atenção e Chohee distraiu-se a fitar Jaebum e em como o canto de seus lábios sempre parecia estarem em conflito. Quando por fim tomou entendimento do que ele dizia, ela finalmente deu uma curta risada ao passo que erguia o indicador, engrossando a voz para quotar uma frase de um dos livros que lera uma vez. ❝ Tornamo-nos odiados tanto fazendo o bem como fazendo o mal. ❞ Citou, terminando por se desfazer numa careta ao comprovar o quão aquilo era verdadeiro. ❝ Meu pai é um grande amante de pensadores filósofos, quando era criança, costumava ouvi-lo ler em seu quarto. Talvez seja por isso que a ideia não me parece tão impensada, já que li dois ou três livros sob o tópico. O Príncipe foi o último que cheguei a ler. ❞ Ao confessar aquilo, Chohee virou-se para a estante, devolvendo livros que sabia onde ficavam pela quantidade de vezes que tinha ido pegá-los. Sua própria pilha de livros encontrava-se com apenas um par restante e Chohee mordeu o lábio pensando qual tinha sido a última vez que lera tal livro. Ela havia se interessado pelo livro não por causa da história do mesmo, mas pelas repercussões de seu lançamento e de como aquilo tinha afetado a reputação do autor. ❝ Interessante sua escolha, confesso que me interessei por ele depois de ficar sabendo do escândalo que o rodeava, mas me vi imersa na leitura assim que descobri as características realistas da escrita. Flaubert foi muito corajoso ao expor a burguesia de tal forma, talvez seja por isso que o livro tenha feito tanto sucesso. ❞ Não chegou a rir, mas toda a fala saída de forma divertida, como se aquele fato a divertisse de maneira profunda. Até que se lembrou que estavam numa biblioteca e ela precisava fazer o máximo de silêncio em respeito às pessoas que iam ali para estudar.
Aquilo a fez olhar em volta e perder praticamente tudo que Jaebum falava, apenas pegando a parte final. O lábio novamente foi mordido enquanto ela se punha a pensar. Como poderia escolher um livro favorito de tantos que havia lido? Era algo tão cruel pedir aquilo. Mas Chohee terminou por suspirar e colocar seu último livro na estante, logo ao lado de onde ele se encontrava. ❝ Não posso dizer que é um romance, nem mesmo meu favorito, mas foi o primeiro livro que li que me causou tremendo impacto por isso sempre lembrarei dele. O Jardim Secreto, de Frances Burnett. ❞ Sabia que Jaebum a estava encarando mesmo que ela tivesse decidido se concentrar na capa do último livro que guardara, pois o peso daquele conto infantil a tinha aberto os olhos para o mundo e sempre teria muito significado para si. Deu um sorriso singelo, quase triste ao apoiar-se na estante e baixar a voz a quase um sussurro quando começou a citar sua passagem favorita. ❝ Uma das coisas mais estranhas de se viver no mundo é que só de vez em quando a gente tem certeza de que vai viver para sempre. ❞ Aquela fora uma das frases que mais afetou a menina Chohee de dez anos na época e devido a ser o primeiro livro que tinha ganhado dos pais, decidiu que, a partir dali, ela leria quantos pudesse. ❝ Me relaciono de forma quase física com essa frase, mas sei que todas as pessoas já tiveram essa fase, não é mesmo? ❞ Quando ergueu o olhar para finalmente encarar Jaebum, Chohee não esperou a frase que a recebeu assim que o fez e sentiu o rosto esquentar positivamente, enquanto ela engasgava no sorriso que havia preparado para mostrar. Aquele elogio era demasiadamente profundo e talvez equivocado porque Mona Lisa era uma das pinturas mais belas já existentes. Como ele podia compará-la a tal? Sem ter mais o que fazer para se distrair da vergonha que sentia, Chohee mordeu o lábio fortemente e ficou quieta, encarando o chão como se contivesse todas as respostas do mundo. Ela não sabia como reagir àquilo que ele disse e uma risada nervosa lhe escapou, fazendo a florista erguer o olhar para encarar o rapaz. ❝ Ora não diga bobagens, Mona Lisa é mundialmente famosa por sua beleza. Você pinta, aliás? ❞ Distrair-se da conversa era muito melhor do que continuar focada nas palavras dele e sentir-se envergonhada não era o mais confortável dos sentimentos, ainda mais quando ela não sabia se ele estava sendo sincero ou não.