A primeira coisa que eu te perguntei depois de dias foi se você estava bem, e você respondeu apenas com um "sim". Ao mesmo tempo, você nunca devolveu a pergunta, como se não se importasse o suficiente com a resposta para sequer cogitar perguntar como eu estava. A verdade é que eu parei de tentar ressuscitar algo que, aparentemente, já estava morto. Ainda assim, existia uma fagulha de esperança em mim, que por um tempo lutou contra uma corrente forte e um mar tempestuoso. Esperança essa que, como uma vela, foi atingida pelas gotas de chuva numa tarde nebulosa. Você me condenou por ter pulado do barco, quando, na primeira inundação, tive que remar sozinha. Como se eu fosse um bobo da corte, tendo que distrair o seu rei, oferecendo doses e doses de euforia momentânea enquanto, aos poucos, ele ia ficando cada vez mais entediado, até se livrar covardemente das minhas piadas e cenas teatrais, sem nunca realmente encerrar o espetáculo. Você me odiou por não ficar? Eu odeio ter me dedicado tanto a uma relação, a ponto de aceitar restos e achar que eram um banquete. Odeio o fato de ter parecido fácil para você ir e voltar quando quisesse. Odeio ter vivenciado um blackout, permanecendo na mesma posição por horas, dias e semanas, sem saber para onde eu deveria ir, enquanto me perguntava onde você estava. Odeio ser mantida como um trunfo, e não escolhida como alguém para dividir a vida inteira. Odeio me sentir solitária onde eu deveria me sentir parte. Odeio tentar imaginar o futuro com alguém de quem nem sei se estará presente. Odeio parecer a pessoa mais especial do mundo em um dia e, no outro, o seu maior pesadelo. Odeio ser empática o tempo todo e tentar te entender, enquanto você não pensava duas vezes antes de dizer que eu era vazia e difícil de lidar. Odeio sentir que, comparada aos fantasmas do passado, eu nunca pareci tão absurdamente relevante quanto eles. Odeio nunca ter sabido, de verdade, em qual quadrado eu podia pisar. Você me odiou por partir? Eu te julguei por nem tentar.










