Imagino que em algum lugar do mundo há alguém que neste momento remexe, por acaso, uma gaveta qualquer, encontra uma velha carta minha, passa os olhos por curiosidade no que escrevi, hesita um instante em rasgar, e depois a devolve à gaveta com um gesto de displicência, pensando, talvez: “é mesmo, esse sujeito onde andará? eu nem me lembrava mais dele…”
E agradeço a esse alguém por não ter rasgado a minha carta; cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa, e não tem esse gesto de deixá-la em algum canto, essa carta que perdeu todo o sentido, mas que foi um instante de ternura, de tristeza, de desejo, de amizade, de vida — essa carta que não diz mais nada e apenas tem força ainda para dar uma pequena e absurda pena de rasgá-la.
Sim, eu sei que estamos em março de 2024. Porém, o esqueleto desse post está pronto desde janeiro e não vou perder a chance de compartilhá-lo. Como vocês estão?
2023 foi um ano estranho para mim. O primeiro mês de 2024 está quase no fim e não consigo apagar essa impressão sobre o ano passado. Até pouco tempo atrás, eu apenas tinha a sensação de que muitas coisas importantes haviam acontecido. Olhando as fotos pude ter certeza disso: eu me formei no ensino médio, consolidei amizades, entrei na universidade...
Em meio ao turbilhão de lembranças que me acometeu em dezembro, não consegui recordar todos os livros que havia lido. Não porque foram muitos, pelo contrário. Minha cabeça estava ocupada com a faculdade nos últimos meses e, quando meu primeiro semestre finalmente acabou, percebi que me sentia exausta e descobri que não lembrava muito bem dos acontecimentos da primeira metade do ano. Foi bizarro.
Quis fazer algo diferente nesse post. Ao invés de falar apenas de livros, decidi elencar “os melhores de 2023” no quesito literatura, séries, filmes e música :)
Livros
Me surpreendi ao ver que li 15 livros em 2023. É um número razoável, na minha opinião. Acho que consegui atingir as principais metas que propus na retrospectiva de 2022: focar em qualidade ao invés de quantidade e abandonar leituras desinteressantes.
O melhor livro que li em 2023 foi Atos Humanos da escritora sul-coreana Han Kang. Eu fiz uma resenha dele (confira aqui). Sinto que esse livro mudou um pouco o modo que eu enxergo o mundo e as pessoas a minha volta. Não é qualquer leitura que faz isso, então acho que ele merece essa posição.
Em segundo lugar e terceiro lugar, estão Persuasão e Mansfield Park, respectivamente, ambos de autoria da inglesa Jane Austen. Eu amei a construção do romance e amadurecimento dos personagens em Persuasão. Anne e Wentworth devem ser meu casal preferido da autora. Já em Mansfield Park, o que mais me chamou atenção foi o conflito familiar da história e a timidez da protagonista.
Gostaria de fazer uma menção honrosa ao livro Tress – A garota do Mar Esmeralda de Brandon Sanderson. É uma fantasia maravilhosa com um universo único, um narrador bem-humorado e uma protagonista muito simpática. Quero ler mais deste autor.
Série de TV
Sem dúvidas, a melhor série que assisti foi Downton Abbey (BBC). Acho que se tornou minha série preferida, em geral.
Um aspecto de que gosto muito em Downton Abbey é a conexão entre os personagens e a formação de conflitos. Temos grupinhos com opiniões ou objetivos semelhantes que podem se apoiar em um momento e, em outro, trocar de lado numa discussão por algum motivo (acordo, sentimentalismo, mudança de opinião a partir de uma nova informação etc.). O fundo histórico também proporciona acontecimentos bastante interessantes, é claro.
Toda ação tem uma consequência. Algumas são bobas e podem ter efeitos mínimos, porém, existem aquelas que são destrutivas a longo prazo. É uma série bem política por esse lado. Acho que o autor soube trabalhar bem com um elenco grande, orquestrando cada personagem como peça de um quebra-cabeça ou trama maior que ele por si só. Tudo volta à reputação e sobrevivência dos Crawley e da propriedade.
Os figurinos, cenários, fotografia e trilha sonora são belíssimos. Aprendi muito sobre a aristocracia inglesa nos anos iniciais do século XX e isso já se provou útil para minhas leituras.
Menções honrosas: Makanai – Cozinhando para a Casa Maiko (Netflix); Orgulho e Preconceito (BBC); Spy × Family (TOHO); Batman TAS (Warner Bros. Animation).
Filmes
O que eu não li em 2023, compensei vendo vários bons filmes. Estes foram meus preferidos*:
Casablanca (1942), dirigido por Michael Curtiz;
The Kingdom of Dreams and Madness (2013), dirigido por Mami Sunada;
O Fantástico Senhor Raposo (2009), dirigido por Wes Anderson;
Julie & Julia (2009), dirigido por Nora Ephron;
Duna (2021), dirigido por Denis Villeneuve.
*Considerando apenas novidades.
Música
Estava muito animada para compartilhar algumas das minhas músicas preferidas de 2023 também.
Screen Time – EPIK HIGH feat. Hoshi of SEVENTEEN;
From The Start – Laufey;
Dreamer – Laufey;
Shooting Star – XG;
Perfect Night – LE SSERAFIM;
Let Me In – EXO;
God of Music – SEVENTEEN;
Cool with U – NewJeans;
Rockstar – HYBS.
Aqui estão algumas curiosidades retiradas das estatísticas do Youtube e Spotify:
Bewitched da Laufey foi o álbum que mais ouvi em 2023. (Realmente me encantei com essa artista ♥︎)
Suspeito que o segundo álbum mais ouvido seja Get Up do NewJeans.
Baekhyun é o meu solista preferido e, ainda que não tenha lançado nenhum álbum ou EP novo, figurou na lista dos mais ouvidos.
SEVENTEEN foi o meu grupo musical mais ouvido (o que não foi uma surpresa para mim).
O dueto tailandês HYBS fez sua estreia no meu Top 5 Artistas do Ano, aparecendo em 3° lugar.
Conclusão
Acho que foi um ano bastante frutífero. Além de ler bons livros, ampliei meu repertório literário com mitologia grega e Shakespeare. Conheci novos artistas e músicas maravilhosas. Finalmente assisti alguns filmes e séries que estavam na minha lista há tempos. Quero dar continuidade a esses hábitos em 2024!
Sinto falta de escrever por aqui. Eu continuo escrevendo, mas é só para mim. Minha escrita está concentrada em desabafos e observações do cotidiano — textos privados que não tenho vontade de compartilhar com o mundo.
Por que não escrevo sobre minhas leituras, então?
É porque não li muito desde agosto. Para ser exata, 31 de agosto foi o dia em que finalizei A Esperança, o terceiro livro da trilogia Jogos Vorazes e último livro que li até o presente. Comecei a prequela da trilogia, cuja adaptação saiu ou vai sair nos cinemas em breve, mas não estava gostando do livro e decidi largá-lo.
Tentei outros livros depois disso. Hm. "Tentar" soa exagero. Eu folheei alguns e não peguei nenhum para ler efetivamente até pouco tempo atrás. O escolhido foi Sally e a Maldição do Rubi. Li bastante dele. Falta menos de 100 páginas para terminá-lo. Porém, não sinto que vale a pena. É um livro de mistério infanto-juvenil ambientado na era vitoriana. Uma ótima proposta, mas o livro é confuso em alguns pontos e gostaria que a protagonista tivesse mais profundidade.
Eu poderia dizer que a minha versão mais nova iria gostar desse livro, porém sinto que esse argumento – a ideia de que um livro infantojuvenil pode ser apreciado apenas se o leitor estiver nessa faixa etária – é como aplicar um curativo numa fratura exposta. O pequeno príncipe, Harry Potter, o desenho animado Avatar... todos são "feitos para crianças" e ninguém usa a desculpa da idade para dizer que não gostou da história.
Fora isso, li o capítulo sobre a Guerra de Troia do livro de mitologia da Edith Hamilton. Gostei muito.
Ainda não sei dizer o que aconteceu comigo. Tentei enunciar o problema várias vezes, encontrei várias desculpas diferentes para interromper o processo e continuo evitando o assunto. Estou quase lá.
Acho que a vontade de aprender mais – conhecer teoria literária, termos técnicos para descrever recursos narrativos, a literatura de vários países... essa sede me paralisou. É difícil acessar esse conhecimento. A maioria dos livros que quero utilizar em meus estudos é antiga e fora de circulação no país. Encontrei cópias online de alguns, outros não. Mesmo assim, não acho que o método de ler pelo celular seja satisfatório nesse caso. Para finalizar, é preciso tempo e esforço para aprender.
Decidi deixar tudo isso de lado. Estou interessada em três livros agora e pretendo lê-los até o fim do ano.
Esse texto é uma bagunça e talvez não devesse existir. Porém, isso pode ser só eu.
Esse post vai ser breve. Só queria dizer um "oi", avisar que não abandonei o Tumblr e continuo por aqui. Planejo postar uma resenha daqui a alguns dias. Também tem uma tag que quero responder em um futuro próximo.
Responsa e, em seguida, copie/cole esta pergunta para seus mútuos favoritos.
Tentei ler O Príncipe Cruel da Holly Black antes do hype, mas abandonei depois de umas 100 páginas.
Sinceramente, o bullying me deixou desconfortável. Não gostei dos personagens nem achei-os intrigantes. Por fim, nada na escrita da autora prendeu meu interesse :/
Eu gosto de tramas políticas e sei que esse seria o foco da história mais pra frente, mas não penso em tentar ler de novo.
Pessoas, estou sem atualizações significativas de leitura.
Depois de terminar o livro da Han Kang, comecei a reler um dos meus favoritos para me recuperar e não terminei porque tive um contratempo (i.e. dengue). Aconteceu no início de junho, e fiquei mais de 1 semana sem ler nada. Ao invés, nesse meio-tempo, preferi maratonar Hospital Playlist, um dos meus k-dramas preferidos.
Hospital Playlist é muito bom. Eu já sabia que os personagens eram meu aspecto preferido da história. Porém, me surpreendi agora porque me dei conta (?) de que eles são mais velhos do que os protagonistas do k-drama comum. Eles estão quase fazendo 40.
Ver pessoas dessa idade na ficção não é tão comum e acompanhar esses personagens meio que me deixa aliviada em relação à minha própria vida. Mesmo que eles sejam médicos bem-sucedidos, o k-drama não cria um ar de perfeição em torno deles. Isso me faz pensar ainda mais que essa coisa de "vida resolvida" é um mito. Nenhum dos personagens é casado, só um deles tem filho, eles trabalham muito, e se divertem quando estão juntos.
Amo o fato de que a amizade entre os personagens é o foco principal da história. Existem drama e romance em uma quantidade considerável, mas a dinâmica do quinteto é o que faz esse dorama brilhar aos meus olhos.
Enfim, até hoje (1° de julho) não prossegui com As Duas Torres ou aquela releitura que mencionei. Comecei um novo livro, li 80% dele até o momento. Talvez eu traga um post conjunto sobre essas três leituras quando conseguir finalizá-las. Ah, todas são fantasias.
Em maio de 1980, na cidade sul-coreana Gwangju, o exército reprimiu um levante estudantil, causando milhares de mortes. Entre os sobreviventes está o menino Dongho, de apenas quinze anos, que busca seu melhor amigo em meio às vítimas num ginásio onde os cadáveres estão à espera de reconhecimento. A história desse trágico episódio se desdobra em uma sequência de capítulos conectados à medida que vítimas e enlutados encontram a supressão e a negação do terrível massacre. O evento de trágicas consequências foi transfigurado nesta ficção extraordinária, poética, violenta e repleta de humanidade.
O que chamou minha atenção nesse romance a primeira vez em que o peguei foi o narrador. A história é narrada em 2ª pessoa. Esse fator me interessou muitíssimo, porque nunca li nenhum livro assim antes. Eu possuía uma leve curiosidade sobre o movimento estudantil sul-coreano, também. Ao aliar o narrador à história que a autora pretendia contar, vi que havia muito potencial.
Atos humanos é um livro emocionalmente sobrecarregado. Não há outra forma de descrevê-lo. Eu imaginava que ia ser difícil, vivenciar a história com o narrador se referindo a mim o tempo todo. É uma ferramenta poderosa, colocar seu leitor no centro dos eventos. Mesmo que o personagem central esteja ali com um nome próprio, uma família, nacionalidade e idade definidos, é impossível para a mente do leitor não mergulhar momentaneamente na narrativa como se ela se referisse a ele mesmo.
O livro trata de assuntos como relação entre corpo e espírito, síndrome do sobrevivente, busca por lógica em meio à crueldade, psicologia das multidões etc. Todos esses subtemas estão englobados em um tema guarda-chuva: "o que define a humanidade?"
A autora expõe o lado feio do ser humano, e levanta várias perguntas acerca de sua natureza. É algo intrínseco à espécie? É possível escapar dele? Como conviver com isso?
Não esqueço que todos que encontro, diariamente, são seres humanos. O senhor, que está ouvindo essa história, também é um ser humano. E eu também sou um ser humano.
Se eu fosse estudante de Letras, definitivamente escolheria fazer um trabalho envolvendo esse livro. Os diferentes pontos de vista que a autora decidiu abordar, os elementos que unem todos os personagens através dos capítulos, o jeito que ela decidiu escrever a história (narrador, diálogos, passagem de tempo)... há muita coisa para analisar e discutir.
Saí da leitura curiosa para saber mais sobre o processo de pesquisa e escrita da autora. Além disso, queria entender melhor o processo de democratização da Coreia do Sul e as revoltas envolvidas nele. O livro foca no massacre de 18 de maio, mas há breves menções à revolta Busan-Musan também.
Não é o propósito da narrativa ensinar o que foram esses eventos. A ideia é assumir o ponto de vista de indivíduos cujas vidas foram inevitavelmente alteradas por eles. Entretanto, devido à minha falta de referências históricas, a leitura foi ocasionalmente confusa. Talvez ela possa ser mais apreciada por alguém inteirado do assunto; eu tive de me virar com a Internet.
Por último, queria destacar a tradução do livro. A editora responsável contratou um tradutor que traduziu direto do coreano para o português. Foi muito sensato da parte deles. Queria que esse fosse o padrão do mercado editorial. Recentemente, fiquei chateada porque uma editora famosa (ao que tudo indica) publicou um best-seller sul-coreano traduzido da edição em inglês. É como se o texto fosse diluído duas vezes.
Decidi não dar estrelas, assim como na minha última resenha. Ao invés disso, vou dizer que recomendo esse livro com ressalvas. Não leia caso esteja com a mente ruim e pesquise possíveis gatilhos antes.
Essa resenha é um pouco diferente das outras que postei. Não avaliei a coletânea de poemas por estrelas ou por algum método similar. É um texto mais pessoal e emotivo, uma vez que poesia se trata mais de sentir do que racionalizar.
Nunca consumi poesia na mesma intensidade que faço com romances. Por outro lado, minha mãe gosta muitíssimo, inclusive teve um caderno dedicado a anotar poemas e citações na adolescência.
De uns tempos para cá, comecei a registrar títulos de poemas que gostei no bloco de notas do celular. Observando minha seleção em busca de algo em comum, percebi que me interesso quando poemas abordam a beleza das pequenas coisas, amizade, memórias, identidade e o caráter agridoce da vida.
Desse livro, gostei muito do poema Sua casa ecoa como um trem ao meio-dia. A narração sucinta e intimista do ambiente me fez lembrar de como eu gostava de ver o amanhecer, as pessoas e a natureza a caminho da escola. Apesar das lembranças negativas, do tempo ocioso e por vezes solitário, sinto falta dos bons momentos que tive lá.
No geral, pode-se dizer que gostei bastante dos poemas de amor escritos por Neruda. “Debruçado na tarde, lanço minhas tristes redes em seus olhos oceânicos”. Esse verso por si só é lindo. Interpretei o poema como se o eu-lírico estivesse tentando desvendar o olhar da pessoa que ama. "Oceânico" me faz pensar em imensidão, no desconhecido.
Os poemas de revolução e denúncia social me surpreenderam. Não me interesso particularmente por essa temática, mas os poemas de Neruda conseguiram despertar minha compaixão. Ele descreveu de forma arrebatadora a transfiguração da cidade pela guerra no poema em que relembra sua casa na Espanha (Explico algumas coisas). Em Que desperte o lenhador, ele me induziu a repensar o orgulho pelas minhas raízes.
As odes dedicadas aos objetos são divertidas. Elas não corresponderam às minhas expectativas, exatamente. Eu suponha que o autor ia focar em sua experiência pessoal, porém, ele me surpreendeu ao explorar o tema em contextos inesperados. Por exemplo, quando fala da tesoura utilizada para cortar a trama de seu próprio poema e da ausência da colher na casa dos pobres.
A grande alegria, A poesia e Ode à tristeza são poemas sensíveis, que falam do ofício de poeta, seu significado para Neruda, como ele se descobriu poeta e encarava essa responsabilidade.
Aqui mora um poeta.
A tristeza não pode entrar por esta porta.
Pelas janelas entra o ar no mundo, as novas rosas vermelhas, as bandeiras bordadas do povo e suas vitórias.
Não pode.
Aqui você não entra.
Perguntas e Ode ao tomate são poemas bem-humorados. Destaquei alguns questionamentos do primeiro que me chamaram atenção.
Amei Sua risada. Gostaria de sabê-lo de cor.
Gostei muito de Também perdemos este crepúsculo — ele possui alguns versos lindos, por exemplo: “Você vai sempre, sempre se afastando à tardinha, seguindo na direção das estátuas que o crepúsculo apaga.”
Foi uma coletânea reflexiva e leve ao mesmo tempo. Ela ajudou a reduzir a ansiedade que eu vinha sentindo nos últimos dias, e foi bom recitar alguns poemas para minha mãe. Definitivamente, irei ler mais de Neruda no futuro.
Oi! Alguns avisos antes de você clicar em "Continuar lendo":
Eu não sei se "tema" é o termo correto para a análise que estou prestes a redigir. Portanto, peço que perdoe meu parco conhecimento se estiver equivocada.
Obviamente, esse post contém spoilers acerca do enredo de Persuasão. Não recomendo que prossiga caso queira ter uma experiência inédita com o livro.
Pelo que eu li, o tema é a mensagem principal que o autor tenta transmitir com sua obra. Existem também subtemas, i.e., mensagens com menor destaque na trama.
Eu só li Persuasão recentemente. Estou ciente de que meu entendimento do livro vai melhorar numa releitura, mas decidi escrever esse texto com o intuito de registrar o que captei no meu primeiro contato.
Guia de texto:
O papel do tempo no amadurecimento;
Firmeza de caráter;
A definição de boa companhia;
Conclusão.
O papel do tempo no amadurecimento
O tempo é uma presença constante neste romance. O período em que os protagonistas do livro estiveram separados é aludido com frequência, tanto para refletir as mudanças internas pelas quais passaram quanto se referir ao distanciamento de sua relação. É dilacerante a sensação de ver alguém que você amou, alguém que esteve tão próximo do seu coração, agir como se fosse um mero conhecido. Este é o lado negativo do tempo, porém, vou focar no primeiro aspecto de que falei antes.
No que diz respeito ao desenvolvimento pessoal de Anne Elliot e do capitão Wentworth, o tempo lhes fez bem. Isto porque eles puderam amadurecer separados um do outro, a ponto de serem mais felizes num casamento “tardio” do que se tivessem se casado jovens. As condições de seu vínculo naquela época poderiam ser uma fonte de infelicidade no relacionamento deles, ainda que se amassem profundamente.
A história deles mostra que não podemos ser guiados pela amargura do passado em nossas decisões do presente. Se Frederick permanecesse cego pelo rancor ou se Anne não agisse por medo de sofrer novamente, os dois não ficariam juntos de novo. Anne não teria tomado a iniciativa de conversar com Frederick que, por sua vez, não escreveria a carta com esperança de ser correspondido em seu afeto.
O tempo e a distância deram espaço para que ambos ponderassem, a fim de que seus sentimentos verdadeiros viessem à tona. Isso é atestado mais uma vez na ocasião em que o capitão se deu conta de que nunca amou Louisa; aconteceu quando ele se afastou de todos, teve tempo de revolver o que sentia e percebeu que continuava apaixonado por Anne.
Em conclusão, o amor dos personagens era mais profundo do que o constrangimento pelo passado. A maturidade lhes permitiu enxergar isso.
Firmeza de caráter
Esse subtema é importantíssimo pois complementa o anterior, no sentido de que nos ajuda a compreender o que o capitão Wentworth sente por Anne no momento de seu retorno (depois de 8 anos) e faz parte do desenvolvimento desse personagem.
Frederick se ressente por Anne ter se deixado persuadir por aqueles a sua volta a não o aceitar. Ele acredita que, se ela tivesse um caráter forte, que não hesita ou se dobra às vontades dos outros, não o teria deixado. Em seu arco de personagem, Austen discute se uma convicção forte é superior à flexibilidade de opinião. Ela expõe o que pensa do assunto por meio do acidente de Louisa Musgrove.
Louisa é uma moça de 19 anos, filha de um rico comerciante, a qual Frederick estava cortejando no início do livro. Ela é uma pessoa animada e expressiva. Por ser tão jovem e ter pouca experiência, não é surpreendente que seja intensa em tudo que faz. Numa ocasião, sua autoconfiança foi realçada por um elogio a respeito de seu caráter irresoluto, vindo do homem que ela mais admirava. A impulsividade de Louisa, misturada à teimosia, resulta em uma situação infeliz.
Um caráter inflexível não é sinônimo de superioridade ou inteligência, pelo contrário. A moral desse acontecimento nos faz refletir que ambos os atributos – a firmeza e a flexibilidade – são requisitos para formar um bom julgamento.
A definição de boa companhia
Eu não sei se isso pode ser considerado um subtema, mas definitivamente é uma reflexão que se pode tirar da história.
Nós (leitores) podemos julgar no que consiste a boa companhia observando e comparando três grupos de personagens: a família aristocrática de Anne Elliot; a família de comerciantes em que sua irmã caçula se casou; e, por último, os amigos e parentes do capitão Wentworth. Anne alterna entre esses grupos ao longo do livro, permitindo que conheçamos o teor de suas conversas. O lugar em que ela se sente confortável para expressar sua opinião e se diverte é onde reside a boa companhia.
Em certo ponto da história, esse assunto é tópico de uma conversa reveladora entre Anne e o sr. Elliot. Achei genial o fato de Austen construir sua tese (usando o famoso show not tell) antes mesmo dos personagens explicitarem suas opiniões. Esse diálogo é particularmente interessante porque é a primeira vez que o verdadeiro sr. Elliot aparece por baixo do disfarce de "primo gentil e agradável", mostrando que é semelhante a sir Walter em sua estima por posição social.
O contraste entre aristocratas e marinheiros é referenciado desde o início do livro, e permeia toda sua extensão.
A aristocracia é composta por indivíduos orgulhosos, que encontram prazer em dinheiro, atenção, propriedades e bens luxuosos. Desejam estar perto de pessoas ricas e bonitas, pertencentes ao seu nível social ou superiores. Não se importam com quem consideram estar abaixo deles. Reclamam frequentemente e nunca estão contentes, pois sua felicidade reside no superficial.
Em comparação, os marinheiros têm origem humilde. Conquistaram o que possuem através do esforço e trabalho de anos. Não se veem como superiores a ninguém, portanto tratam todos respeitosamente independente de status. São personagens sensíveis, enamorados pelo mar e pela aventura, além de guiados por fortes sentimentos de camaradagem e disciplina. Seus espíritos são menos perecíveis porque não estão presos ao que é físico.
No fim, a autora deixa bem claro que um título aristocrático não é sinônimo de boa índole.
Conclusão
Gostei dos temas abordados nessa história. A forma que se deu o desenvolvimento dos personagens é nítida e fácil de compreender, porém, a autora não apresentou esses elementos de maneira óbvia a ponto de agredir a inteligência do leitor. Durante a leitura me senti como se estivesse seguindo um fio condutor, o qual me guiaria em direção a uma conclusão inescapável e justa.
Amei especialmente a sensibilidade do protagonista masculino nesse romance. É divertido imaginar de que jeito alguém expansivo como Frederick se apaixonou pela tímida e delicada Anne. Acho que ele se tornou um dos meus personagens austenianos preferidos. Ainda me falta conhecer alguns deles, entretanto.
Espero reler Emma este ano. Quiçá produzirei um texto sobre esse romance também.
Oi! É redundante o número de vezes que observei isso no blog antes, mas quanto tempo se passou desde a última vez que postei... não tenho uma resenha nova ou uma tag para trazer, por isso vim com uma atualização breve a respeito da minha vida literária nesse mês que passei longe.
Mencionei na atualização anterior que estava lendo um guia de leitura, não é? Então, eu travei numa parte dele. Não é por falta de compreensão ou tempo, só fiquei entediada. O autor estava explicando uma regra da leitura expositiva (não-ficção), e mesmo que eu saiba que isso pode vir a ser útil para mim, não consegui convencer meu cérebro a prosseguir na leitura.
Ao invés de começar As duas torres do Tolkien, peguei um livro de mitologia grega que estava insistindo para ser lido. Não sei como pensei antes que seria capaz de seguir uma TBR. Independente do que eu queira, sou guiada por impulsos e sentimentos quando se trata de livros. Queria ser um pouquinho mais racional.
Eu estava me saindo muito bem na leitura. Mitologia é um assunto com material de sobra para aflorar a imaginação. Acho que a parte mais interessante dessas histórias é que se tratam de uma tentativa de os gregos explicarem o universo ao seu redor. Árvores e flores, rios e mares, constelações e tradições... vários elementos têm suas origens desenhadas em mitos mirabolantes.
Não perdi meu interesse, porém, me cansei um pouco de tantas histórias de deuses enraivecidos, ninfas perseguidas e tolices humanas. Passei da metade do livro, e começo a ter problemas com o estilo de narração do autor. Pretendo terminar este livro, mas decidi (recentemente) seguir meu ritmo ao invés de me forçar a engolir tudo de uma vez. Acho que posso ter melhor proveito assim.
Eu descansei um pouco. De repente, fiquei ansiosa porque faz um tempo que não termino um livro. O último tinha sido Persuasão, no início de março. Fiquei ponderando o que fazer. Não estou com vontade pegar As duas torres, pelo menos ainda não. Não sinto que conseguiria focar e manter um bom ritmo.
O que eu fiz? Peguei outro livro para reconquistar minha autoconfiança. Para ser sincera, não tinha certeza se ia funcionar. Felizmente, consegui ler 100 páginas em 1 dia. Não estou enferrujada como pensava.
O livro em questão é Enraizados, de Naomi Novik. Terminei de ler hoje. Pude extrair bastante diversão da história. O que mais gostei foi a dinâmica dos personagens; acho que a autora soube construir as personalidades deles e enlaça-los habilmente em poucos capítulos. A ação também é muito legal. Estava preocupada de não conseguir absorver os acontecimentos tão bem quanto fiz com Persuasão, mas isso se provou um medo injustificado.
Não sei se vou escrever uma resenha ainda. De qualquer forma, comecei um texto sobre Persuasão e não terminei. Acho que vou retomar ele.
Isso é o que acontecido desse lado da tela. Até a próxima :)
Eu estou lendo dois livros atualmente. O primeiro é A sociedade do anel, o qual pretendo terminar esse mês ou no início de março, e o segundo é Como ler livros, um guia de estratégias de leitura escrito pelo filósofo americano Mortimer Adler.
Desde o ano passado, vim passando por um processo de amadurecimento e delineando um novo caminho para minhas leituras. Como disse no meu post sobre a TBR, acredito que meu período de intensa experimentação de lançamentos e famosinhos do mercado editorial passou. Eu quero priorizar qualidade ao invés de quantidade e ler com mais profundidade, por isso peguei esse guia clássico: para aprimorar a arte de ler.
Paralelamente à leitura, estou anotando as dicas do autor e alguns de seus conceitos num documento do Google Docs. Eu já li um pouco desse livro no ano passado; comecei da parte que mais me interessava - quando o autor dá dicas referentes a gêneros literários específicos - e estou lendo do início agora. A organização do livro permite que eu faça isso tranquilamente.
Não pretendo aplicar tudo o que Adler diz, pelo menos não com livros de ficção. É difícil visualizar o uso de algumas perguntas-chave que ele sugere em qualquer leitura, porque elas parecem se encaixar como uma luva na literatura de não-ficção. Quero começar a ler isto também, tenho até uma lista com alguns títulos. Vou tentar seguir o que ele diz mais à risca num desses livros e testar.
Quero começar a ler livros de História e Filosofia. Estou mais animada a respeito do primeiro assunto, porque sempre gostei de estudar História. Acho Filosofia interessante, mas não diria que minha experiência escolar foi o que me fez querer estudar isso por conta própria — é mais curiosidade, me pergunto se irei encontrar as reflexões que procuro na mente de pessoas que viveram muito antes de mim.
De qualquer modo, é provável que eu comece por História. Aí terei de consultar o que estou escrevendo no momento.
Adler diz que existem 4 níveis de leitura: elementar, inspecional, analítico e sintópico. O quarto nível abrange os outros três, o terceiro abrange o segundo e o primeiro níveis, e por aí vai. Estou estudando o terceiro nível agora, a leitura analítica.
Dois aspectos importantes da leitura analítica de Adler consistem em:
Estar relendo o livro que se quer analisar;
Redigir anotações (no livro e num espaço separado, se quiser).
A releitura é a chave da leitura analítica, uma vez que você terá um conhecimento prévio do livro e poderá focar na busca por seus pontos principais; e as anotações são uma forma de tomar posse do livro, conversar com o autor, propor e responder perguntas. Através da leitura ativa, você será capaz de destrinçar o livro.
Embora eu esteja animada para aplicar essas técnicas na releitura de meus livros favoritos, acredito que eventualmente irei adaptá-las e utilizar o que funciona melhor para mim. Por exemplo, posso pular a 3ª regra do primeiro estágio da leitura analítica se não quiser fazer o fichamento de um livro etc.
Tenho apreciado essa experiência de aprendizado e sonhado com novos horizontes. E vocês? O que andam fazendo?
P.S.: Avancei um pouco mais no livro e vi que o segundo estágio da leitura analítica não pode ser aplicado em livros de ficção. Espero que o autor volte a abordá-los depois.
Toda quinta, em um retiro para aposentados no sudeste da Inglaterra, quatro idosos se reúnem para ― segundo consta na agenda da sala de reunião ― discutir ópera japonesa. Mas não é bem isso que acontece ali dentro. Elizabeth, Ibrahim, Joyce e Ron usam o horário para debater casos policiais antigos sem solução, confiantes de que podem trazer justiça às vítimas e encontrar os responsáveis por algumas daquelas atrocidades do passado.
Com todos os integrantes acima dos setenta anos, o Clube do Crime das Quintas-Feiras não é a equipe de detetives mais convencional em que se conseguiria pensar, mas com certeza está mais do que acostumada a fortes emoções. Afinal, Joyce foi enfermeira por décadas, Ibrahim ajudou pacientes psiquiátricos em situações dificílimas, Ron era um reconhecido líder sindical e Elizabeth… bom, digamos que assassinatos e redes de contatos sigilosas não eram nenhuma novidade para ela.
Quando um empreiteiro local com projetos bastante questionáveis na cidade aparece morto, o grupo tem a oportunidade de seguir as pistas de um caso atual. Apostando em seus semblantes inocentes e habilidades investigativas estranhamente eficazes ― além de trocas de favores clandestinas com a polícia, que, apesar de todos os esforços, parece estar sempre um passo atrás de seus colegas amadores ―, os quatro amigos embarcam em uma aventura na qual as mortes do presente se entrelaçam com antigos segredos, e em que saber demais pode trazer consequências perigosas.
Primeiro de tudo, devo dizer que O Clube do Crime das Quintas-feiras é um mistério bem charmoso. Ele possui o que senti falta em A Camareira, o penúltimo cozy mystery (mistério aconchegante) que li.
A Camareira foi uma boa leitura para passar o tempo, contudo, a excentricidade dos personagens, o mistério e a ambientação não são de longe tão bem trabalhados como neste romance.
Em O Clube do Crime das Quintas-feiras, os protagonistas são idosos aventureiros e curiosos na casa dos 70 anos. O envolvimento deles com o mistério demora um pouco a acontecer, mas a espera compensa porque sua dinâmica com a polícia é hilária.
O livro alterna entre o ponto de vista de um narrador em 3ª pessoa e os registros em 1ª pessoa de Joyce, a integrante mais nova do clube, que anota tudo em seu diário pessoal. A alternância dos POVs não é nada confusa durante a leitura, apesar de talvez soar assim quando explico.
Acho que escolher Joyce para escrever certos detalhes foi interessante, porque ela não conhece por inteiro o universo onde a história se passa, assim como o leitor. A adição de seu ponto de vista nos permite descobrir o que alguns personagens escondem dos outros, além de nos familiarizar aos cenários e personagens do clube de um jeito que apenas um narrador em 1ª pessoa poderia.
O narrador onisciente é extremamente útil para conhecermos os personagens além do grupinho principal. Vislumbrar a consciência dos suspeitos, vítimas e policiais se provou enriquecedor para o desenvolvimento do mistério. Foi um artifício inteligente que serviu para atribuir naturalidade aos personagens e mudar o tom da história em alguns momentos.
Outro aspecto que gostei, mais relacionado à escrita, é como o autor escreve diálogos. Eles fluem bem e soam plausíveis, até mesmo quando alguém está repassando uma conversa em sua mente. Parece que se está de fato ouvindo o relato de um amigo sobre uma conversa que teve com outra pessoa.
Falo "amigo" porque ficamos muito íntimos do elenco principal. Sabemos de suas dificuldades, conhecemos seus pensamentos, medos, temperamento e senso de humor. Fiquei muito habituada às reações e falas desses personagens.
O livro propõe e revela muitos mistérios. Em seu cerne, ele traz uma reflexão filosófica interessante: o que fazemos de nossas vidas com o tempo que possuímos?
Ao invés de focar apenas no enredo, somos convidados a acompanhar o desenrolar da vida de Joyce em Cooper's Chase, seu relacionamento com o clube e observar como os integrantes lidam com a velhice em contraste aos personagens mais jovens e seus desafios.
Admito que o livro é bem extenso. Chegou um momento em que eu já estava cansada, mas amei a resolução do caso Tony Curran e a prosa do autor me agradou muito. Por isso, acredito que 4 estrelas é justo.
Bônus: posso ir mais adiante e comparar o estilo do autor com os livros da Agatha Christie. Certamente há semelhanças, porém, acredito que os detetives amadores de Richard Osman recebem mais profundidade do que aqueles encontrados nos romances de Agatha.
Estou lendo bem devagar esse mês. Acho que vou terminar O Clube do Crime das Quintas-feiras antes de A Sociedade do Anel. Se isso acontecer, já sei o livro que vou pegar em seguida.
Não sei o que me aconteceu. Fiquei muito concentrada em editar um vídeo e tenho mais dois (pelo menos) para trabalhar. Estou perdendo tempo num loop de Instagram-Tumblr-Pinterest-Twitter. Devia estar aproveitando meu tempo com outra coisa, e ainda assim...
Amanhã vou ver um filme com minhas amigas pelo Meet e talvez as coisas voltem ao ritmo normal. Se a situação persistir, vou desinstalar o Instagram por um tempo. Acho que vou fazer isso de qualquer jeito.
Queria consertar meu horário de sono. Muito.
gina @folhetimextraordinario - Tumblr Blog | Tumgag