“Piratas são reais...” Começou, os dedos roçando levemente pela lombada de uma seção qualquer de livros da grande biblioteca do palácio. “Sabia?” Os olhos se semicerraram, tentando ler um título com letras pequenas demais. “Talvez não como nas histórias das amas,” Soltou um risinho, se lembrando da sua ama de leite, que contava inúmeras histórias, e fazia questão de as encher de detalhes surreais. “mas, reais os suficiente para receberem esse nome.” Finalmente se virou para a companhia, dando um leve aceno com a cabeça, se desculpando por não ter a cumprimentando propriamente. “Papa costumava lidar com eles o tempo todo. São Petersburgo e suas embarcações, ao que parece, são grandes alvos de suas ações. E, a melhor parte, é que carregam de tudo em seus barcos. Sem a apreensão de um deles, eu, provavelmente, nunca teria tido algo feito por um ourives suíço.” Dessa vez riu mais abertamente, mas ainda de forma educada - sem nunca chegar perto de quebrar qualquer que fosse a regra de etiqueta. “Mas, o que o trás até a biblioteca? Ainda mais nesse horário.”
A barra de seu vestido não chegava a encostar no chão, mas, ainda assim, Irina fazia questão de segurar o tecido e o levantar alguns centímetros para descer o pequeno lance de escada, enquanto continuava uma conversa trivial com as duas damas, cedidas pelo palácio, que a partir de agora a acompanhariam. O nome de Grão-duque não chegou a ser citado uma única vez, ainda envergonhada e, talvez, um pouco magoada. Sua mãe diria, certamente, que estava sendo uma grande idiota, mas ter o ego e orgulho feridos era difícil para qualquer um, principalmente para ela, que julgava que eram as únicas coisas ainda restantes e que não podiam lhe ameaçar tomar. Mas o dramalhão shakespeariano acabou assim que avistou @vnvdvici vindo em sua direção, e suas expressões e gestos se tornaram, imediatamente, mais polidos. “Alteza, boa tarde.” Sorriu, fazendo uma leve reverência com a cabeça e lançando um olhar para que as meninas se afastassem. “Espero que tudo esteja ocorrendo bem no seu dia, ao menos tão bom quanto no meu.” Um risinho, educado, escapou seus lábios e a loira olhou ao redor, admirando as paredes ornamentadas do palácio. “Sabe, ainda não me familiarizei com todos esses corredores. Pode-se dizer que sou péssima com direções.” Suspirou, como se fosse um grande problema - ainda que não passasse de uma jogada para lhe dar tempo. O príncipe era muito educado, e, com certeza, ao menos tiraria o tempo de lhe a explicar as áreas do palácio ou, na melhor das hipóteses tiraria o tempo para os mostrar ele mesmo. Pensando nisso, decidiu que podia ser um pouco mais ousada, e se aproximou mais um pouco dele, um sorriso dócil tomando seu rosto. “Eu estava indo até a Galeria do Palácio, mas talvez possa estar perdida. Se, vossa alteza, não estiver ocupado, claro, se importaria de me acompanhar até lá?” Não era uma completa mentira, afinal, realmente estava indo até a Galeria de Arte e não viu mal nenhum em sua pequena falácia.
Não era como se Natasha e Irina fossem grandes amigas. A duquesa não se lembrava, por exemplo, de nenhum episódio em sua infância em que haviam fofocado durante festas do pijama, muito embora acabassem sempre se encontrando, fosse pela posição das famílias ou os gostos parecidos. Mas também não podia dizer nutrir algum tipo de antipatia. E mesmo se nutrisse, não era ingênua ao ponto de crer que poderia fingir que a outra não existia durante toda a sua estadia no Palácio. Os olhos estreitaram-se levemente na direção da loira diante recepção, e ela segurou-se para não rolar os olhos, repuxando os lábios discretamente para um lado, em sutil sorriso. ❝—— Acredito que um pequeno riso é o suficiente, mas agradeço sua oferta. ❞ O tom era neutro, apesar de estar sendo irônica, e o sorriso desenhado em seus lábios indicava que a interação não passada de uma conversa entre duas conhecidas — e não era exatamente aquilo que elas eram? ❝—— Não se preocupe, eu pago minhas dívidas, Irina. ❞ A afirmação veio quando já se encontravam afastadas o suficiente do público, após permitir que a outra a guiasse pelo salão. Desvincilhou o braço ao dela com delicadeza, justificando o afastar ao ajeitar o vestido. Era tudo sempre bem pensado para que os movimentos não fossem mal interpretados pelas câmeras — fossem elas reais, ou apenas olhos curiosos. ❝—— Você acaba de me livrar de um grande incômodo. Parabéns, sladkaya¹, me tem em dívida com você ❞
“Não há de quer.” Sorriu, falsamente, captando a ironia no tom dela mas mantendo a face numa expressão neutra. As câmeras pareciam estar em todos os lugares, e não podia se dar ao luxo de parecer nada menos que perfeita. “Tenho certeza que o faz, o que me preocupa, talvez, é como vai pagar.” O comentário foi ambíguo, deixando em aberto para ela decidir se levava a, quase, ofensa para o lado pessoal ou tomava simplesmente como o início da competição. Não tardou em ocupar os braços também e em nenhum momento demonstrar desconforto, pegando uma taça de champanhe da bandeja de um dos criados e bebericando despreocupadamente. Realmente, a interação entre as duas não passava das de duas antigas colegas - certamente muito felizes em se reencontrarem ali, de todos os lugares. “Não me diga que foi mais um lord que esqueceu o que bons modos são. A bebida por aqui é tão mais forte assim?” A brincadeira foi acompanhada de um riso leve, enquanto se virava para a encarar. “E a usarei sabiamente, acredite. Mas agora, me conte, feliz por ter sido a escolhida?”
Os olhos castanhos da duquesa percorriam as paredes repletas de quadros da antiga era, todos a encarando como se soubessem da verdade. Estava a procura do banheiro, olhando ao redor como se o cômodo fosse surgir com luzes neon e uma placa. Não estavam em um posto de gasolina, pelos santos. Sentiu o corpo chocar-se com uma loirona, as duas tinham quase a mesma altura, apenas que a postura era mais ereta e imponente do que a da Zeklos. — — Epa! — — Murmurou, passando os dedos no braço atingido de baixo para cima e então repetindo o movimento. — — Foi mal- eu não tinha te visto. — — Por detrás da grossa camada de maquiagem que haviam insistido em passar no rosto da condessa, ela estava corando. — — Você por acaso sabe onde fica o banheiro? To apertadona!
A face da Frolova se contorceu numa careta, ainda que tivesse tentado o evitar, e deu seu sorriso mais educado para a garota. “Tudo bem, no entanto, deveria tomar mais cuidado por onde anda.” Como sempre, ainda que soltasse palavras ácidas, Irina conseguia as falar num tom extremamente polido. No entanto as palavras seguintes da morena em sua frente a deixaram horrorizada com a falta de decoro “Por Deus, onde estão seus modos? Isso é completamente impróprio, olhe ao redor e veja onde está.” Repreendeu, ainda levemente escandalizada pelas escolhas de palavras alheia.
🟉 ¦ 「 Sempre poderia culpar seus sapatos, uma vez que a favorita possuía uma rotina bem diferente da vida na corte. claro que sabia se portar como uma lady e conhecia a forma como as engrenagem rolavam ali, mas de certo não podiam aponta-la como a mais a vontade em suas vestes. A poiou a representação do Aesculapius para que não encontrasse seu destino direto no chão quando um dos lordes tropeçou e tentou segurasse nela, como peças de dominó o resultado fora que quase derrubara a dona dos fios claros. Virou-se para o homem com a expressão mais suave que sua face fora capaz. —— Não se preocupe, posso assegurar-lhe que continuo inteira. Então voltou-se para a mulher, os orbes de ônix fitavam o teto em um sinal explicito que não estava sendo realmente sincera com o homem em questão, este que se desculpou mais uma vez antes de se retirar das vistas. —— Como pode ser um lord de Moscóvia e já estar tropeçando nos próprios pés a essa hora? Não deu tempo de alguém estar completamente bêbado, deu?
Irina meneou com a cabeça, entendendo a posição dela e sorrindo educadamente para o homem, até este desaparecer. Por Deus, aquilo quase tinha se tornado um desastre. “Não é mesmo? Era de se esperar que um convidado teria melhores bons modos, em meio a corte, pelo menos.” Se fosse próprio para uma dama, a loira teria bufado e revirado os olhos (que era o que, realmente, desejava fazer), mas se contentou em dar um leve balançar negativo com a cabeça, recobrando sua compostura. “Eu tenho certeza que não, mas homens e bebida são uma... péssima combinação, na maioria das vezes.” Falou, a voz abaixando alguns tons para não ser ouvido por ninguém além da mulher em sua frente. “Me perdoe, mas acredito que não a conheço. Sou a Duquesa de São Petersburgo, Irina Frolova, prazer.”
A exclamação da servente, seguida do tilintar da bandeja de prata contra o mármore, foi suficiente para atrair a atenção de Vasilisa para o ocorrido. A jovem de não mais do que quinze anos e longas madeixas castanhas tinha um olhar aterrorizado ao dar-se conta de que violara a principal regra de seu ofício: tornara-se visível. Pedindo licença a algumas de suas colegas, dirigiu-se à garota petrificada. Sem hesitação, recolheu a peça de metal, que por sorte estava vazia no momento da colisão, e entregou-lhe. Uma atitude que teria sido altamente repreendida por sua mãe — afinal, não era nada apropriado que uma dama se abaixasse para ajudar um empregado — mas para alguém tão inteligente, a Badica podia ser bastante impulsiva em certos contextos. “Foi um incidente infortuno, mas posso assegurar que continua belíssima em seu vestido, Irina. É evidente que Sankta Sofiya não pouparia sua misericórdia ante uma dama como você.” O sorriso amável acompanhava as palavras doces. Se havia algo que Lisa havia aprendido ao longo dos anos era que a melhor maneira de poupar conflitos entre nobres e funcionários era apelar para seus egos. O apreço ante elogios era tamanho que a raiva era dissipada em uma fração de segundos — ao menos usualmente. “Agora se a senhorita der licença a Agnes, ela estava em seu rumo à cozinha. Nesse meio tempo, por que não me conta o que inspirou o magnífico design de seus trajes?”
Os olhos da duquesa fitaram toda a interação com desaprovação, e certa curiosidade. Poderia listar, de cabeça, ao menos cinco regras sociais e de etiqueta que a outra cometia enquanto ajudava uma serviçal - mas só entendeu quem ela era, quando se virou em sua direção e desatou a falar. Vasilisa, a parente da czarina. De todas as pessoas que podiam cometer sequer algum erro ali, e não serem afetadas, ela estava no topo da lista. “Eu esperaria por isso, depois de ser sua devota a tantos anos.” Brincou, um sorriso educado nos lábios enquanto arrumava a postura. Os olhos não demoraram nem uma fração de segundo na garota, simplesmente concordando com a cabeça e desviando o olhar. Irina não era malvada ou qualquer coisa do tipo, apenas aceitava, sem muitos rodeios, a posição das pessoas na pirâmide social (e agradecia por ter nascido no topo). “Ah, Vasilisa, você é muito gentil. Foi feito especialmente para esta noite, na minha cor preferida, a propósito.” A Frolova soltou um risinho, olhando para a cor chamativa e que ficava muito bem com seu tom de loiro. “Mas me diga, como está? Feliz em estar na corte?”
Tinha, também, suas formas de se mostrar elitista — alguém nascido em meio a tantos mimos, certamente não sairia ileso. Era por isso que entendia o motivo para que a favorita tivesse mudado de postura tão drasticamente. Se antes se utilizava de tom autoritário, agora não apresentava nada além de doçura e boa educação. ‘ Estranho. Por um momento pensei que estivéssemos diante de problema grave ’ rebateu, franzindo o cenho como se não compreendesse o significado de dramática. No entanto, o próprio Grisha estava sendo dramático, não tendo engolido totalmente o tom empregado pela favorita. ‘ Espero que sim. Ninguém quer estragar o seu primeiro dia aqui, milady ’ bem, talvez ela merecesse, se a reação seria tão pavorosa, mas quem podia culpar aquelas garotas por terem sido “educadas” daquela maneira? Foi o comentário seguinte, entretanto, que fez com que o czarevich elevasse as sobrancelhas, surpreso, vez que não se recordava de tê-la visto em qualquer ocasião. Que sua memória péssima levasse a culpa – além disso, já tinha sido exposto a tantas pessoas que lembrar de todas seria impossível. ‘ Uh, queria poder dizer o mesmo, mas não me recordo de ter visto a senhorita antes. Deve estar me confundindo com outra pessoa ’ exceto que isso também era impossível, porque só havia um príncipe Grigori. ‘ Aliás, acho que uma apresentação formal seria o mais… correto, nesse caso ’
Ela, sem dúvidas, tinha desagradado o homem e ainda se repreendia mentalmente, tentando ver como contornaria aquela situação. “Exato, alteza, apenas por um momento.” Tentou, novamente, dar o assunto por encerrado, agora de volta a toda a sua pose costumeira e torcendo, com todas suas forças, para que o infeliz acidente não influenciasse completamente a sua imagem perante a ele. “Meu primeiro dia está sendo muito agradável, o palácio, e todos aqui, são maravilhosos.” Irina certamente tinha seu jeito em concertar as coisas, e, agora, esperava que as coisas andassem favoráveis a si. Isso, até a cara de confusão e as palavras seguintes de Grigori a atingirem em cheio. Ela morreria. Bem ali, no meio do Salão de Bales da Família Imperial, na frente do herdeiro com quem tentava se casar. E seria de tanta vergonha. Se Sankta Sofiya realmente a aceitasse como devota, arranjaria um jeito de a excluir da situação em que se encontrava. As bochechas da loira começaram a se avermelhar, não que fosse uma pessoa dada a se sentir envergonhada, mas conseguiu as controlar e piscou os olhos algumas vezes antes de sorrir amavelmente e concordar com a cabeça. “Me perdoe, alteza, usei o termo por ter o visto mais cedo, durante sua entrevista.” Não é como se esperasse que ele tivesse uma grande reação ao vê-la, ou algo do tipo, mas, nossa, era tão inesquecível assim? Seu estômago afundou, sabendo que estava exagerando em sua reação, mas não conseguindo evitar. Se pudesse, teria saído dali o mais rápido possível - mas isso não era uma opção. “Sem dúvidas, alteza.” Concordou, com um singelo balançar da cabeça. “Irina Frolova, a Duquesa de São Petersburgo.” Talvez ele se não se lembrasse da garotinha loira a qual tinha ajudado anos atrás (no fundo, sabia que não era certo o culpar por isso), mas ela não tinha se esquecido de seus modos, e deu um passo a frente, estendendo a mão cordialmente.
De modos bruscos depois de tanto tempo passado fora da corte, não era de se espantar que tivesse dificuldades em respeitar o distanciamento mínimo. Era só que as pessoas ficavam tão aglomeradas naqueles salões que se tornava simplesmente impossível se mexer. ‘ Perdão. Não te vi ’ justificou, depois de ter esbarrado na Frolova, as mãos sendo levadas para ajeitar o uniforme. Agora, não sabia como não tinha sido capaz de notar, considerando que a loira era alta o bastante para que esse tipo de incômodo não se abatesse sobre ela. Grigori não pode deixar de notar, contudo, que a outra se utilizava de um típico tom autoritário enquanto o repreendia. ‘ Se estiver machucada, podemos ir até a enfermaria agora mesmo ’ garantiu, passando os olhos por ela, esquadrinhando em busca de ferimentos, sem compreender por que o vestido tinha mais importância que a saúde. ‘ E se o vestido foi arruinado, outro também pode ser facilmente providenciado ’
A Frolova engoliu um lamento quando ergueu os olhos e se viu frente a frente com ninguém menos que o príncipe. Claro, sua sorte era tão boa que sua primeira interação com o homem era assim, num péssimo tom. “Eu que peço perdão pelos meus modos.” Falou, a voz mais polida e educada que antes, enquanto o oferecia um sorriso mínimo, tentando concertar a situação e não deixar uma má impressão. “Está tudo bem, alteza. Por favor, não se preocupe. Estava apenas sendo... dramática.” Engoliu outro suspiro, voltando a postura ereta e juntando as mãos num gesto elegante. “Tenho certeza disso, mas assunto encerrado. Foi apenas um acidente.” Irina era especialista em fazer quase tudo o que falava soar blasé, e torceu para que isso funcionasse e ele deixasse o assunto de lado. Só então se permitiu o encarar propriamente, os olhos azuis passando pelas inúmeras medalhas com curiosidade, antes de voltar ao seu rosto. Indeed, o príncipe era muito bonito. “Mas, devo dizer, alteza, é muito bom finalmente o rever.” A fala saiu sem pensar muito antes, numa tola esperança e ilusão infantil que ainda cultivava (fruto dos contos de fadas lhe contados quando menina) achava que Grigori se lembraria dela, ainda que não passasse de uma mera criança na última vez em que ele tinha a visto.
Sendo sincera, Agnia não era das mais desastradas ou desatentas, porém ela estava tão empenhada em achar alguma de suas amigas que acabou esbarrando em alguém sem querer. ❝Perdão.❞ Pediu de imediato, pois reconhecia que a culpa do acidente havia sido dela, quando os olhos subiram ela logo percebeu que havia esbarrado justamente em Irina, a frase seguinte já fora esperada, a preocupação era sempre mais para consigo do que para com os outros. ❝Não era minha intenção lhe machucar ou aborrecer, sinto muito.❞ Se desculpou outra vez, se esforçando para dar um sorriso constrangido, tendo de conter um revirar de olhos com a última fala da Frolova, pois soava como algo típico de uma dama da corte. . ❝Fico contente em ver que este não foi o caso, afinal, seu vestido é magnífico, mas tenho certeza de que já deve ter escutado isso diversas vezes desde que entrou no salão.❞
Irina parou os comentários, talvez, muito ácidos assim que viu Agnia em sua frente. Tinha a visto antes, e a tinha achado tão novinha que se sentiu levemente mal pela reação tão dura. “Tudo bem.” Deu um meio sorriso, tentando a assegurar que não estava tão raivosa assim. Admitindo em voz alta, ou não, sabia que o ambiente da corte não era amigável e talvez a morena em sua frente não tivesse tido tanta instrução, ou prática, nesse meio. Era melhor que ela fosse traumatizada (assim como todas as meninas ali, certamente, também eram) mais tarde. “Você é muito gentil... Agnia, certo?” Se recompondo, a Frolova se aproximou mais dela e a fitou por alguns instantes. “De Magadan.” Soltou um risinho ao pronunciar o nome da província inimiga de São Petersburgo - não era como se levasse essas coisas tão a sério assim, salvo algumas raras exceções, então não viu porque ser nada além de cordial. “Irina Frolova, de São Petersburgo.” Se apresentou.
˙ ˖ ✶ Depois de muito esforço, havia conseguido se afastar de parte da multidão. Sentia como se finalmente pudesse respirar e deixar sua guarda abaixar por alguns segundos. Os olhos peecorriam os quadros que decoração o salão, lembrando das vezes que havia visto com seu pai e de como inventava histórias para o que estava acontecendo no momento retratado na tela. Ao lembrar de seu pai, limitou-se a encarar a taça em sua mão, depois de um longo gole no champanhe, em meio a um suspiro. Ou pelo menos por um breve momento antes de ouvir a voz de Irina próxima de si. Decidiu então se aproximar dela e inspecionar o que havia acontecido. “Está tudo bem aqui?” Após perguntar, tomou mais um gole e sua bebida enquanto esperava uma resposta e analisava se não haviam sido feitos estragos no acidente.
A loira soltou um suspiro fraco, conforme via o lord atrapalhado se retirar e se virou para a outro lado, a voz da outra menina a chamando atenção. “Kzac!” Um sorriso brincou entre os lábios, agradecida por alguém se aproximar e não a deixar no centro da atenção, depois de um incidente tão vergonhoso. “Esbarraram em mim, com tanta força que por um segundo pensei que iria ser atirada no chão.” Irina explicou, dando um passo para frente. “Bebidas e homens não são uma combinação tão boa assim.” Essa afirmação não tinha sido concluída agora, com a situação, mas sim depois de anos convivendo com o irmão e primos mais velhos - no momento, era apenas mais uma prova de que era verdade. “Porém, obrigada pela preocupação. Se importaria de ir comigo pegar mais uma taça de champanhe?”
Distraída, Irina aproveitava alguns minutos sem ter que ter mais uma conversa polida com alguém observando um dos enormes quadros que decoravam o grande salão de bailes. O palácio dos Frolov, de volta em São Petersburgo, tentava imitar esse, mas não chegava nem perto da imponência e riqueza dos da Família Imperial, e se viu completamente tomada, alheia ao seus arredores, até sentir um baque em seu ombro e quase ser lançada para frente. “Por Deus! Deveria tomar mais cuidado por onde anda.” Murmurou, arrumando a postura em cima dos saltos finos demais, sem se dar ao trabalho de conferir com quem falava. “Você quase me machucou.” A voz da Frolova chegava perto de um tom manhoso, então indo se virar para ver quem era a pessoa extremamente desastrada. “Teria sido péssimo se arruinasse suas roupas, ou pior, meu vestido.”
A verdade é que, embora gostasse de receber atenção, o dito príncipe de um lugar que ela sequer conhecia já estava a importunando. Tentava sorrir, ser educada e tudo o mais que havia sido aprendida à ser, mas era inevitável o sutil rolar de olhos, pendendo a cabeça para o lado quando filmava os olhos estreitos de sua companhia quase a pegando no flagra. Sorria e assentia ao conceder sua atenção, no entanto, na primeira oportunidade, quando um dos funcionários acidentalmente tropeçou às costas do homem, derrubando algumas taças, ela esquivou-se, marchando em direção ao primeiro rosto que viu à sua frente. ❝—— Se fingir que não me conhece eu enveneno sua bebida. ❞ Ameaçou, e só lhe ocorreu que poderia ser mal interpretada quando as palavras já haviam escapado de seus lábios. Com um histórico familiar como o seu, era melhor que não brincasse com o assunto. Mas deixou de lado, era tarde para engolir as palavras de volta. ❝—— Agora ria de algo que eu disse. ❞
“Simplesmente pedir por minha companhia seria bem mais fácil, tenho certeza, Natasha.” Os olhos azuis de Irina brilharam com a possível ameaça, conhecendo a reputação da garota - e sua família - a sua frente, mas mordeu a língua para não soltar um comentário pouco decoroso, e sorriu, fingindo que estava num grande deleite em a ver. “O que mais Vossa Graça deseja? Ser uma marionete é pedir um pouco demais.” As palavras carregavam uma ironia e desdém gigantesco, mas que desapareceram levemente na fala polida, conforme levava os dedos até os lábios e ria discretamente. “Isso vai lhe custar caro.” Murmurou, indo até seu lado e entrelaçando seus braços, como se fossem velhas amigas, a puxando para um lado mais deserto do salão. “Se importa em explicar o que acaba de acontecer?”
𝐓𝐇𝐄 𝐅𝐈𝐑𝐒𝐓 𝐈𝐍𝐓𝐄𝐑𝐕𝐈𝐄𝐖
˚ . ♡ ◞ Irina Frolova’s 1st task & point of view.
Entrevistas e flashes constantes não era algo com que Irina estava acostumada, ao menos não nessa intensidade. Ainda que vinda de uma família extremamente influente, a eloquência era deixada aos homens da família, enquanto ela, e as outras mulheres, aderiam ao recato e a uma, quase, vida nas sombras. Mas se existia alguém que podia lidar com qualquer situação com tato e elegância, esse alguém era ela - então, num menear suave, encarou o entrevistador e sorriu, transparecendo uma calma inabalável.
“Está uma loucura aqui nos arredores do Palácio de Inverno, mas gentilmente a favorita Irina Frolova aceitou falar com a gente um pouquinho! Primeiramente, muito obrigado por falar conosco.” Um risinho curto e educado escapou de seus lábios, os olhos azuis batendo adoravelmente, como se estivesse muito lisonjeada - e até estava, um pouco. “O prazer é inteiramente meu, acredite.”
“Mas conte-nos: Qual era a sua rotina antes de ter sido sorteada para o Favorado?” A duquesa demorou alguns segundos para formular uma resposta que parecesse completamente adequada. “Era costumeiro que eu acordasse cedo e me aprontasse, junto de minhas damas de companhia, para ir ter o desjejum com o resto de minha família. Após o café, acompanhava minha mãe, primas e tias nas orações feitas na capela dos Frolov e terminava minha manhã junto dos meus tutores, fossem eles de alguma língua ou matéria importante.” O coração da loira se apertou, já sentindo saudades da rotina da qual era tão acostumada, mas disfarçou a súbita onda de melancolia com outro sorriso. “Minhas tardes eram mais livres, e eu costumava as usar para meus passatempos preferidos: nadar e montar, durante o verão, e bordar, no inverno. Mas, óbvio, costumava sempre arranjar algum tempo para me juntar com minhas queridas colegas.” Riu, balançando a cabeça negativamente enquanto se lembrava dos problemas que chegavam perto de se meter. “E, bem, as noites são de se imaginar. Em São Petersburgo sempre há um evento importantíssimo para se comparecer.” E isso era uma verdade. Talvez a cidade fosse o mais próximo que Moscóvia chegaria da tão falada loucura de Versailles. Praticamente todos os dias alguma família promovia um baile ou algo parecido (jantares, saraus, recitais e o que mais pudessem inventar), a sua inclusa, e ela, obviamente, jamais colocava seu dever social, como filha e irmã do duque, de comparecer a todos. O entrevistador pareceu satisfeito com a resposta, e com um pequeno aceno o deu permissão para continuar.
“Qual foi sua reação e sensação ao ver seu rosto na televisão e saber que foi sorteada para ser uma das favoritas?” Já começava a se sentir mais à vontade com as câmeras e luz forte, e dessa vez não hesitou tanto em responder. “No momento fiquei muito feliz, temo dizer que cheguei perto de perder minha compostura, mas felizmente mama estava por perto para me salvar de qualquer deslize. Acho que gratificação é a única palavra na qual chega perto de descrever o que senti no momento. Tive a honra de nascer com o propósito de servir a São Petersburgo e nossos aliados, fui criada e educada para o fazer da melhor maneira possível e então ter a oportunidade de conseguir servir a toda Moscóvia, é uma sensação sem igual. Me senti muito orgulhosa e agradecida, sem nenhuma dúvida.” As palavras deslizaram da melhor forma possível, e carregavam certa verdade - a parte em que se sentia agradecida por ter uma chance de salvar sua família foi omitida perfeitamente. Ninguém sabia da crise que corria entre as paredes do palácio Frolov.
“Você e o príncipe já se conheciam antes?” A entrevista continuou, e a pergunta fez Irina soltar um risinho e a impedir de conseguir conter a singela vermelhidão que tomava suas maçãs do rosto. Oras, como conseguiria evitar se sentir assim? Estava ali, primeiramente, para salvar sua pele, mas isso não impedia que seu lado romântico aparecesse e sonhasse - e era difícil não o fazer quando o príncipe era daquela maneira. “Tenho a sorte de dizer que sim. O Palácio de veraneio da Família Imperial é em São Petersburgo, e em inúmeras ocasiões fomos gentilmente convidados para se juntar às Vossas Majestades. Mas, devo dizer que faz alguns anos desde a última vez em que o vi.” Agora tudo o que se passava na cabeça da garota era o incidente ocorrido muito tempo atrás, quando era apenas uma garotinha e Grigori tinha se mostrado um cavalheiro saído de um conto de fadas. Na época tinha quase adquirido uma febre de tão apaixonada, mas com o passar dos anos começou a negar veemente que a paixãozinha pré-adolescente tivesse ocorrido (não seria adequado que isso chegasse aos ouvidos de algum pretendente), mas agora, talvez, tivesse que repensar isso. Os dias a vir seriam mais fáceis se realmente gostasse dele.
“Você está no Favorado por amor?” Os olhos do entrevistador pareceram brilhar com a pergunta, ansioso para um resposta que certamente era importante e definia bem o status da Favorita, para toda Moscóvia. Irina não se abalou, e a postura elegante continuou conforme ajeitava sutilmente o penteado, não tirando em momento algum o sorriso educado do rosto. “Seria errado dizer que já nutro amor pelo príncipe. Errado e desconcertante, sem dúvidas.” Os lábios tremeram, numa espécie de riso silencioso e contido, conforme escolhia as próximas palavras com cuidado. “Porém, seria tolo dizer que não. Na minha rasa percepção, amor se constrói com confiança. E, eu espero ser digna de ter sua confiança, não só para o ajudar guiar a nação, mas também para receber seu carinho.” Arrematou, dessa vez dando um sorriso mais doce para as câmeras.
“Você já conhece alguma das outras favoritas? Qual sua relação com elas?” Ok, agora essa era uma pergunta complicada. Não era como se Irina fosse dona de um ego gigantesco e inabalável - talvez só um pouquinho - mas ainda assim, não gostava de dividir qualquer atenção que recebia, então, amizades com outras meninas, especialmente as que também eram duquesas, era algo, no mínimo, complicado. “Conheço várias, mas minha relação não passa da cordial, menos com Agnes, quero dizer, você deve a conhecer por Agnessa Vasikon. Somos muito amigas, e eu estou contente em estar aqui com ela. E, claro, Natalya Lytkin e eu somos boas conhecidas.” Com o sorriso de um milhão de coroas que adornou a face da loira era de se esperar que ela fosse entrar no palácio e fazer braceletes de amizade para todas as favoritas. Ao seu favor, ela e Agnes realmente eram amigas, amigas mesmo, mas já ela e Natalya? Bem, as duas se conheciam.
“Você tem alguma estratégia em mente que pode te ajudar a ganhar essa edição do Favorado?” O que queria agora era que essa entrevista acabasse logo, mas os lábios continuaram no mesmo sorriso polido, sem mudar a expressão em nenhum instante. “Não seria uma péssima estratégia contar a minha estratégia?” Brincou, umedecendo os lábios e se sentindo satisfeita em arrancar um risinho do entrevistador. Não era nenhuma Miss Simpatia, teria que admitir, mas isso certamente lhe daria alguns pontos com as pessoas que assistiam de longe. “O que posso, e acho que devo, dizer é que eu serei fiel à mim mesma. Fiel à minha educação e criação, fiel às minhas origens petersburguesas.” Deveria ganhar um prêmio, só pelo teatrinho que estava fazendo nos últimos minutos. Talvez as pessoas entendessem que ela era uma mulher íntegra e agarrada aos costumes que todos tanto prezavam (de certa forma, até era mesmo), mas quem a conhecia plenamente sabia que a Frolova era disposta a fazer de tudo, se isso lhe assegurasse o que desejava.
“Ouvimos dizer maravilhas das favoritas desse ano, que são muito prendadas e cheias de talentos. O que você preparou para impressionar a corte e o príncipe?” Respirou fundo, da forma mais discreta possível, enumerando seus pontos fortes mentalmente. “Talvez, meu talento com Beethoven, no violino, os impressione. Ou minhas ótimas habilidades para dança e nado. Mas também, meu talento nato para ser uma ótima anfitriã.”
“Quais qualidades você acha que uma Czarina deve ter? Você as possui?” Não tinha pensado nisso, e duvidava que as outras garotas tinham. Se não pelo poder e posição, ou por necessidade, igual a si, teriam realmente ido para o Favorado pela simples intenção de governar bem? “Uma pergunta importante. Hum, eu acho que a Czarina deve entender seu papel e posição na corte, ser uma mulher que dê o exemplo para o resto de nossa nação. As mesmas qualidades que a Vossa Majestade, nossa atual Czarina possui. Acho inspirador suas causas, e admiro, principalmente, sua devoção a fé, que é algo que acho muito importante.” E era verdade. Irina tinha certo comprometimento com a religião, principalmente depois da morte do pai. “Mas sim, acredito que as possuo. E, se eu não estiver à margem da perfeição, os meses por vir certamente me ensinarão tudo o que é necessário.”
“Quais são suas expectativas para esses meses que estão por vir?” Ganhar. Virar a herdeira, obviamente. E, infelizmente para si, não tinha nem a ver com o status e sim impedir que fosse condenada ao ostracismo junto da mãe e irmão. Mas ninguém jamais descobriria isso. “Estou ansiosa, confiante e muito animada. Tenho certeza de que conseguirei provar meu valor e me destacar, nos próximos meses.” Meneou com a cabeça, num gesto elegante e superior. “Muito obrigado, Vossa Graça, e boa sorte.” Irina sorriu mais abertamente dessa vez, dando um aceno educado. “Eu que lhe agradeço.” E saiu, continuando a andar em direção ao Palácio, pensando em como aquilo definiria o resto de seus dias.