Desde as calamidades, eventos que reestruturaram a visão de mundo e sociedade de todo o globo, a religião ganhou cada vez mais espaço no seio dos reinos que se formaram. Era ela uma fonte de alento, um refúgio, uma última esperança de uma vida melhor... Se não aqui, em outro plano.
Porém, ecos do passado ainda continuam reverberando na nova era e os mais supersticiosos dizem que é possível ver e sentir coisas estranhas no dia 31 de Outubro. Vultos que parecem fantasmas, sonhos estranhos, vozes de lugar nenhum, e até, alguns dizem, o estabelecimento de uma conexão entre os vivos e os mortos. Claro, não passam de lendas e crendices populares, e a corte se divide em quem adora as histórias de terror e quem não acredita em nada que escuta.
Após o toque de recolher, conforme todos iam para cama, prontos para mais uma noite de descanso, os habitantes da corte foram seduzidos para um sono profundo que logo se transformaria em um filme de terror, com cada pesadelo se tornando palco do maior, do mais secreto e do mais obscuro medo que já atravessou a mente de cada um.
Há quem tenha acordado suando, gritando ou aos prantos e, ao olhar para o televisor instalado no dormitório particular, pode ver a data estampada na tela: 31 de Outubro, por acaso, dia do aniversário do nosso czarevich! À noite, os medos seriam deixados de lado para dar espaço a um baile à fantasia, oferecido pelo Czar e sua Czarina em homenagem ao filho, evento que prometia ser assustadoramente animado!
VAMOS DE TASK, MEU POVO? Task super inspirada em Divergente, quem leu sabe! Que hora melhor para trabalhar o maior medo do personagem do que o Halloween? A idéia é simples: elaborar um drabble ou PoV contando o pesadelo, de modo a explorar os maiores pavores e fobias dos nossos personagens. Aproveitem para colocar todos os elementos de terror que conseguirem, se puderem e for condizente, afinal, a task é um esquenta para o nosso próximo evento, o aniversário do príncipe, que vai acontecer na SEXTA-FEIRA (30/10).
Já adiantamos que a comemoração vai exigir fantasia e máscaras, para quem quiser arrumar um look para o dia com antecedência, e quando soltarmos, poderem interagir sem ter que se preocupar em montar o look.
Claro, não entregamos tudo… Detalhes do evento vocês terão que esperar pra ver!
É isso, sejam assustadores e horripilantes e aproveitem a task para desenvolver uma camada mais profunda do char de vocês.
Essa tarefa valerá 50 pontos de popularidade e, para contabilizar seus pontinhos, não esqueça de postar ela na tag #favtasks e reblogar no blog de likes.
TRIGGER WARNING: Não recomendo a leitura se você tiver triggers relacionados com Sangue, Morte, Pensamentos suicidas ou Zumbies.
Inspo: (movie) operação overlord e (serie) tempos de guerra, meus próprios pesadelos, bjs!
Caso algo não esteja devidamente tagueado, por favor, me deixe saber!
🟉 ¦ 「 O manto inebriante de inconsciência arrastou Helenka pelo que pareceu ser quilômetros adentro, um emaranhado de acontecimentos, bombas explodiam, pessoas gritavam, e os malditos tiros não paravam. Uma voz carregada de desespero soou sobre os demais. —— Um médico! A mulher erguera a cabeça antes protegida entre os próprios braços, buscou a origem do som, mas haviam tantas outras vozes, os orbes procuraram pelos arredores compartilhando o mesmo desespero. —— Preciso de um médico!!! Atenta dessa vez suas pernas responderam ao chamado antes da sua mente racional. A visão diante dos céus olhos era aterradora, sentiu seu como se o almoço galopasse esôfago a fora, o estomago a fundou em suas entranhas gélidas.
—— nãonãonãonão… Gusha, não, não… não! Era ele? Não podia ser ele, mas aqueles fios claros e o maldito sorriso presunçoso ao constatar quem viera salva-lo, era ele sim, mas como viera parar ali? Achara que era sua responsabilidade trazer honra para sua casa e província, ainda que desejasse acabar com aquele conflito com um simples estralar de dedos, sem depositar preocupação em quem sairia ganhador. Porque seu pai enviaria o herdeiro do título e senhor perfeito para a guerra, imaginava que somente ela era descartável.
O céu noturno era cortado por rajadas de tiros antiaéreos e o laranja das bombas pintavam o horizonte, seria bonito se o seu alarme de sobrevivência não soasse ensurdecedor em seus ouvidos, ou seria o palpitar de seus próprio coração temendo ser a última vez que bombearia sangue naquele corpo? Não havia notado que estava chorando até que suas mãos - instintivamente - foram levadas a ferida de @d-octor, era mortal, já tinha experiência o suficiente na guerra para saber que ninguém sai daquela. Os gritos por socorro se tornavam mais frequentes e quase não conseguia mais ver soldados com o uniforme de Moscóvia, lágrimas eram as únicas coisas quente ali. Os movimentos desconexos do irmão cessaram, uma pontada de desalento fincou suas garras no coração da médica, precisou sacudi-lo para confirmar que não havia qualquer resposta.
Ele perdera a vida em algo sem sentido, apertou-o em seus braços e a Silayev nunca imaginou que poderia gritar tão alto, ainda que não tivesse ninguém mais para ouvi-la, o que saíra de sua boca vira do fundo de seu ser, fora o mais puro e verdadeiro grito contra toda aquela atrocidade. Quantos irmãos, pais, noivos ou pior, quantas mulheres perderam suas vidas por NADA?! Erguera-se, sem que pudesse ver direito, suas vistas estavam nubladas com as lágrimas, mas teve a sensação de que era a única viva naquele cemitério. Nada mais brilhava no céu, todos estavam mortos.
Silencio. Só o lamento baixo de uma jovem mulher soava desolador combinando com toda a paisagem, caminhava por aos tropeços por entre corpos. Depois de tudo ao que sobrevivera era sua vez de encontrar aquela que tornava todos iguais, ela chegou a desejar que a morte como uma companheira, as mãos estavam tingidas de vermelho, o sangue não pertencia a si, ainda que compartilhassem aquele laço. Fora só então que seu estomago afundou mais uma vez, parecia que uma tropa inteira marchava em sua direção.
Esperou que os projeteis perfurassem seu corpo e não ofereceu qualquer resistência, mas nada acontecera, eles apenas continuavam a vir em sua direção, atraídos por seus lamentos, fora só então que notara que eles também possuíam ferimentos mortais, não precisava de seu treinamento médico para constatar aquilo, mesmo a distancia. Eram aquelas criaturas que uma das cozinheira contava em suas histórias de terror, os que não podem ser mortos porque já estão mortos. Sentira um arrepio percorrer sua coluna ao mesmo tempo que adrenalina percorria suas veias, em uma reação automática para fuga, para onde iria? Para casa. Para o mais longe que pudesse, as passadas eram gigantescas, poderia ganhar uma olimpíada, mas ainda assim a paisagem não mudava, seus pés estavam a toda e mesmo assim não se movia, enquanto os mortos, esses sim moviam-se em velocidade extraordinária.
Os dedos do ser estavam corroídos, como se esse tivesse levantado do tumulo, mas ainda assim possuíam uma força sobre-humana, se enlaçaram no tecido delicado de seu vestido branco. Quando trocara de roupa? O que estava acontecendo? Outra criatura puxara a tiara de brilhantes de sua cabeça, Helena lutava como podia e então vira @vnvdvici com feições mortuária, ainda em seu uniforme de gala, a mão do rapaz estendida na sua direção, como um pedido fúnebre. Só então entendera que estava vestida de noiva.
Fora catapultada para fora do sonho literalmente, uma vez que quando dera por si, estava caída ao chão, as cobertas pesadas jaziam ao seu lado como se as próprias criaturas as tivessem puxado. Os braços envolveram o proprio corpo, não ser capaz de salvar quem ela amava, essa era sua ideia de inferno. O pavor daquela ideia fora tão poderoso que Helenka Silayev retornou para sua cama murmurando rezas a muitos anos trocadas pela ciência. —— O que diabos está acontecendo comigo?
a closer look at countess ɴᴀᴛᴀʟʏᴀ ʟʏᴛᴋɪɴ | 𝐓𝐀𝐒𝐊 𝐎𝐎𝟏
Se dissesse estar acostumada com todo o enfoque --- ou pelo menos um dezessete-avos dele --- sobre si, estaria mentindo. O pai tinha a enviado para Nova Zembla justamente para que sua presença não incomodasse àqueles ao seu redor que se sentiriam ofendidos pelos traços asiáticos proeminentes. Duvidava, contudo, que as outras nobres estivessem tão à vontade como demonstravam, deslizando pelo carpete vermelho e cumprimentando Olesya com as mesuras calculadas antes de responderem às perguntas mais pessoais com um corar de bochechas muito bem calculado. Soltou uma risada anasalada ao imitar os movimentos donzelescos de uma das candidatas, exagerando-os ao limite da caricatura antes de receber um olhar reprovador de um dos produtores e um puxão de orelha do maquiador responsável pela sua preparação. “Você podia facilitar meu trabalho, huh?” Bufou, assentindo uma vez antes de terminar os retoques da maquiagem no carro. Veja, ela não estava nervosa... Oh, não, nem um pouco. Ela só não deveria estar suando daquele jeito. Não era como se toda a primeira impressão da nação sobre ela tivesse um peso grande o suficiente para definir sua estadia dentro do Palácio. Nantis nem era tão bonita assim, raciocinou consigo mesma. Quando Mika falava sobre a Capital, ele fazia parecer como se a cidade fosse um sonho, e não... Aquilo. Olesya era mais magro do que a televisão levava a acreditar, e as rugas que começava a apresentar também não eram iguais às transmissões oficiais. Yekaterina estava certa, afinal: ele tinha feito um preenchimento com botox. Muito claramente.
Não demorou muito para que fosse a sua vez, e ela já tinha uma certa ideia do que a esperava --- vantagens de não ter um nome ou sobrenome iniciando com a letra A ---, acenando para os repórteres que se amontoavam do outro lado da corda de veludo em busca de um furo para os jornais de fofoca. Aceitou a mão do funcionário, respirando fundo antes de oferecer um olhar furtivo para os fotógrafos. Antes que percebesse, Mirokhin já estava ao seu lado e Natalya quase podia sentir o calor acumular na pele exposta. Aquilo era uma peruca? No way! Liev não ia acreditar naquilo, mas agora ela tinha a prova cabal de que ele com certeza tinha calvície precoce: ela, ao contrário do conde, tinha visto o apresentador de perto. Precisou piscar algumas vezes, os lábios entreabertos em uma expressão boba antes de seus ouvidos voltarem a funcionar e permitirem que ela escutasse algo mais do que o white noise em sua cabeça. “---mente, muito obrigado por falar conosco!” Acenou assim que sentiu o aperto de Mirokhin em sua mão, puxando-a de volta para a realidade com um suspiro nervoso.
“Você fala como se não fosse uma honra ser entrevistada por você.” Gesticulou levemente, mantendo a linha de pensamento coesa. Ok, só faça questão de respirar pausadamente pra não se atropel--- “Quer dizer, que menina não sonha em ser entrevistada pelo Olesya Mirokhin? A Lenda Viva que documentou todos os melhores momentos do século?” Permitiu-se revirar os olhos, soltando uma pequena risada ao cerrar os olhos. Seriously? O ato da menina do interior que nunca veio à Capital? Bem, podia funcionar, por mais que quisesse bater a cabeça na parede mais próxima. “Ora, é claro que eu tinha que falar com vossa graça! Sempre falam da reclusa condessa Natalya, mas não lhe fizeram jus.” You bet your ass they didn’t. “All good things, I hope.” Arqueou uma das sobrancelhas em um tom falsamente brincalhão, muito ciente de que grande parte das nobres que visitavam Nova Zembla partiam com uma visão... Forte sobre a neta de Yekaterina e Liev. “Quem diria que precisaríamos de um Favorado para termos a oportunidade de conhecê-la!”
“Aww, Olesya, you’re making me blush!” Brincou, aceitando o convite do apresentador para que caminhassem juntos, acompanhados pelas câmeras e pelos flashes. Não era adaptável o suficiente para dizer que já se sentia em casa, mas... Ora, não era tão ruim quanto as outras fizeram parecer. “Todos são muito bem-vindos na pequena Corte de Nova Zembla. Tenho certeza de que vovó e vovô adorariam entretê-lo pelo tempo que achar necessário.” Assentiu ao estender o convite, cantarolando em tom de confidência com o outro, como se Yekaterina não estivesse em polvorosa para receber a figurinha lendária em sua casa para se gabar com suas comadres.
Natalya sempre gostou de atenção: positiva ou negativa.
Olesya meramente sorriu, apertando seu braço imperceptivelmente antes de levantar a mão disponível em sinal de rendição. “I’ll hold you to that promise, Your Grace!” Piscou. “Oh, falando em Nova Zembla!” O homem começou, e Natalya assentiu, mordiscando o interior da bochecha ao pender a cabeça para o lado. “Todos estão loucos para saber: como era a sua rotina? Dizem que há tanto a fazer por lá!”
Revirou os olhos ligeiramente. Esperava uma mudança de assunto mais suave, e não algo que perceberia, mas se viu sorrindo de qualquer forma. “Todos sabem que Yekaterina e Liev são avessos a qualquer tipo de marasmo, niet?” Testou, arqueando uma das sobrancelhas antes de suspirar teatralmente assim que Olesya assentiu. A reputação do conde o precedia, afinal. “Não posso dizer que fujo muito disso: os dias sempre eram uma caixinha de surpresas e nós nunca sabíamos como iríamos terminar, além de um outline básico. Às vezes íamos ao lago; às vezes, visitávamos alguns amigos, mas geralmente recebíamos grandes nomes, então os dias eram bem... Divertidos.” Buscou a palavra certa ao dedilhar o queixo, semicerrando os olhos com algum humor. “Nada em Nova Zembla poderia ser descrito como monótono.” Ao contrário daqui.
“Não esperava nada menos do que uma província governada por Liev. O Conde é, de fato, um dos homens mais interessantes que já pude conhecer e escutar você falando sobre ele me dá muita nostalgia... Não o vejo há décadas, mas tenho certeza de que seus genes foram passados para seus filhos e netos. Oh, isso me lembra: qual foi sua reação e sensação ao ver seu rosto na televisão e saber que foi sorteada para ser uma das favoritas?” Oh, lá estava... A pergunta que fazia com que todas se tornassem românticas incuráveis frente às televisões. A partir dali, o shitshow estaria garantido, se não jogasse suas cartas direito. Natalya certamente não poderia responder de uma forma diferente, mas...
“... Eu acho que eu caí da cadeira e bati com a cabeça.” Deixou uma risada envergonhada escapar, levando a mão livre ao rosto como se tivesse sentindo vergonha por admitir aquilo. Tinha realmente caído da cadeira, mas não por causa do anúncio. “Lá estava eu, com minha gata no colo, tomando o café-da-manhã para começar mais um daqueles dias e...” Pausou propositalmente, mantendo o suspense por alguns segundos antes de continuar: “BAM! Vovó se esqueceu de todo o decoro ao arrombar a porta da sala de jantar com gritos de felicitações. Next thing I knew, I was there, barbecue sauce on my tiddies Alisa tinha pulado do meu colo e todo aquele susto fez com que me desequilibrasse e batesse com a cabeça no chão.” Gargalhou, muito ciente de que damas não agiam daquela forma. O olhar preocupado de Olesya só tornava tudo mais cômico. “It was quite exciting, actually.” Assentiu assim que conseguiu se acalmar o suficiente. “Eu nunca vou poder esquecer aquele dia, pelo menos: Alisa me arranhou umas sete vezes porque eu e vovó a assustamos.”
“Por Sankt Yuri! Never a boring day in your life, huh? Espero que esteja se sentindo melhor?” Olesya deixou escapar, sem ar, e Natalya se viu dando de ombros. “Told ya. E não se preocupe, não foi nada demais... Só precisei dormir mais um pouco: um belo sacrifício, se for me perguntar!”
“Algumas favoritas tem uma relação anterior com nosso querido czarevich, so it got me wondering: vocês dois já se conheciam antes? ”
“Infelizmente, não.” Viu-se respondendo, os olhos semicerrados ainda que o sorriso fosse matreiro. “Grigori não parece ser e não é do tipo de pessoa que aprecia muito long walks on the beach, se me entende.” Arqueou uma das sobrancelhas, uma piada particular que logo seria partilhada em rede nacional. “E eu nunca visitei a Corte, então... É natural que nunca tenha visto o príncipe." Assentiu, esperando pela próxima pergunta de Olesya: “Não acha que é mais difícil estabelecer uma relação com ele, sendo que tantas outras já o conhecem?” Para o que ela fez uma careta pensativa, dedilhando o queixo antes de negar: “Oh, c’mon, Olesya!” Sorriu, apertando o braço do apresentador. “É aí mesmo que está a diversão!” Que graça teria se já começasse a jogar um jogo logo no nível máximo? Os alvos e chefões a entediariam antes de chegar à segunda fase. Nah, Kei gostava do fato de não ter uma vantagem clara naquele jogo: seu interesse seria mantido por mais tempo se tivesse mais resistência.
“Diversão?” Olsya piscou, estupefato, e Lytkin meramente assentiu, umedecendo os lábios antes de abrir um sorriso entusiasmado. “Você não está no Favorado por amor?” O apresentador testou, arqueando uma das sobrancelhas em sua direção. Oh, fuck it all, ela não diria que amava Grigori nem que sua vida dependesse disso. Grisha estava longe de ser o seu tipo, mas... “I’m open to the idea of it.” Tentou responder, mas a careta parecia incerta, e a morena se viu mordiscando o interior da bochecha antes de continuar. Não era como se não pudesse sentir paixão ou amor por outra pessoa, só que... Parecia errado falar disso quando Mika estava a sete palmos abaixo da terra. “Se dissesse que vim aqui por amor, sendo que eu nunca troquei três palavras com o czarevich, eu tenho certeza de que Vossa Alteza Imperial iria arquivar um pedido de avaliação psiquiátrica.” Riu, optando pelo humor ao invés da verdade: costumava funcionar. “Oh, querida, mas não estamos todos um pouco apaixonados pelo czarevich?” Olesya confidenciou, e Kei revirou os olhos teatralmente, ciente de que todos esperavam por uma resposta melosa de sua parte. “Yes, yes, guess we can say that.”
“Mas se você não conhece Grigori, com certeza conhece as favoritas?” O apresentador continuou e Kei assentiu, mordiscando o interior da bochecha ao se recordar das peças com quem teria que lidar pelas próximas semanas, mentalmente separando cada uma pra sua caixinha respectiva: Natasha? Problemática, mas interessante; Nikola? To be kept at an arm’s length; Irina? Oh... Piscou algumas vezes, voltando a atenção para o apresentador: “Oh, e como conheço!” Arregalou os olhos de leve, esboçando um fiapo de sorriso ao se lembrar de como ela poderia pressionar os botões de cada uma das coleguinhas. “Pode-se dizer que somos amigas de infância.” Doía dizer aquilo? Talvez, mas todas estavam representando um papel na frente das câmeras. O verdadeiro jogo começaria assim que as portas do palácio se fechassem para a imprensa e todas as favoritas estivessem no mesmo recinto. Kei quase podia sentir as extremidades dos dedos comicharem de antecipação: she really looked forward to that. Crescer na propriedade dos avós e ter apenas Mika e Ziva como convidados recorrentes era divertido, mas não se equiparavam à adrenalina que uma girl talk e as backstabbings de uma ou duas amizades femininas a permitiam. “Tenho certeza de que todas estão ansiosas para revivermos esses dias de felicidade.” Finalizou, dando um tapinha no antebraço de Mikorhin para que continuassem caminhando na direção dos portões do palácio. “I know I am.” Kill me.
“Só posso imaginar como vai ser rever todas essas amigas depois de tanto tempo, Vossa Graça! Todos somos estrategistas natos, então... Você confidenciaria a um amigo as suas estratégias que podem te ajudar a ganhar essa edição do Favorado?” O sorriso carismático quebrava as defesas de qualquer um --- Mirokhin não era uma lenda viva à toa: ele conseguia tirar os melhores furos com entrevistas daquele tipo. “Estratégia? Geez, you sound like we’re entering some sort of Hunger Games.” Caçoou, gesticulando a mão livre como se não estivessem prestes a entrar numa zona de guerra fria. Só de pensar nas tramoias e armadilhas que cada uma ia por na frente da outra... Ah, Natalya quase podia irradiar excitação. “Guess you’ll just have to watch it closely. Prometo manter todos muito bem entretidos.” Assentiu, mordiscando a língua ao esboçar um sorriso divertido, sticking her tongue out ever so slightly ao se dirigir às câmeras, uma piada particular entre ela e o público. Para aqueles que não a conheciam, Lytkin tinha um plano A, B, C, seguido de todas as outras letras do alfabeto, mas a cerca de mil quilômetros da capital, em um bar esquecido, a figura desconhecida até então sentiu os pelos da nuca se arrepiarem em antecipação. Ele sabia o que aquela expressão idiota significava: Natalya ia improvisar.
Sankt Yuri que os protegesse, those poor summer children.
“I’ll hold you to that promise, milady! Ouvimos dizer maravilhas das favoritas desse ano, que são muito prendadas e cheias de talentos. O que você preparou para impressionar a corte e o príncipe?” Oh, thank God! Finalmente estavam chegando ao fim! Não a entendam mal: Natalya adorava ver as entrevistas e fofocadas de Olesya, e estava começando a gostar demais do barulho dos flashes e do calor e excitação que a exposição causavam no seu corpo. Ela só não queria falar sobre o príncipe, apesar de ele ser o motivo para ter despencado de Nova Zembla para a capital mesmo depois de dezoito anos vivendo no arquipélago paradisíaco. Além de tudo, aquelas perguntas também evidenciavam o quanto Natalya estava despreparada para o momento: se fosse sincera, ia dar de ombros e falar que a presença dela já impressionava o suficiente, mas... Umedeceu os lábios, fingindo pensar por alguns segundos antes de pender a cabeça para o lado, os olhos semicerrados levemente. “Além da minha personalidade e senso de humor radiantes?” Brincou, dando um tapinha no antebraço de Olesya antes de gesticular em desinteresse. O ego de Lytkin era bem desenvolvido, e sua autoestima não deixava a desejar: Liev e Yekaterina criaram uma mulher forte --- e perdida --- o suficiente para ignorar os próprios defeitos e just vibe with them. “Hmm, vejamos...” Fez um beicinho, dedilhando o queixo antes de dar de ombros. “Eu sei como dar uma boa festa.” Enumerou, divagando levemente. Anos de convivência com os avós serviram para alguma coisa, afinal. "E consigo fazer Beethoven não soar monótono. É verdade, ele mesmo me disse.” Troçou, em tom de confidência, ainda que o sorrisinho besta estivesse presente nos lábios: Kei se lembrava da quantidade de noites que teve que dormir sobre uma partitura de piano para decorar as sonatas do compositor porque todas eram chatas, mas, assim que escutou um pianista de Ecaterimburgo em um dos soirées de vovó e vovô... Ela gostou daquela energia. Não sabia que podia dar personalidade a uma partitura chata como aquelas, mas ficou agradavelmente surpresa ao descobrir que podia.
Olesya seguiu a sua deixa e riu, “certamente o seu bom humor é uma breath of fresh air, milady, mas... Quais qualidades você acha que uma Czarina deve ter? Você as possui?” Ops. Soltou o ar pela boca em um silvo, fazendo questão de respirar ao piscar algumas vezes. Fuck, she didn’t have a clue about it. Ok, ok, calma, Kei. You can wing it, só... Lembre-se das coisas que você aprendeu por osmose nesses dezoito anos and you should be fine... Right? Mas ninguém queria escutar que uma czarina não fazia porra nenhuma, então... Qual tinha sido o filósofo citado por aquele professor pretensioso que tinha estado no palácio ano passado? Hmm, Hobbes? Maquiavel? Kant? Arqueou uma das sobrancelhas após se acalmar: no bar esquecido, o desconhecido se retesou inconscientemente: ele não queria escutar a resposta. “Honestamente? Ela não precisa ser perfeita, nem mesmo um modelo de santidade, como muitos imaginam. She’s human, after all. Todos erramos: o que diferencia o joio do trigo é como você age depois de errar.” Levantou o indicador, ciente de que o discurso improvisado poderia não fazer sentido para muitos. “Mas às vezes ela só precisa dar um tapinha no ombro do Czar e falar: ‘Sweetie, it’s time to stop’.” Revirou os olhos, mordiscando o lábio inferior antes de rir. “Kiddin’! The way I see it, ela deve ver toda a nação como sua própria família e fazer de tudo para que ninguém seja deixado para trás.” Assentiu, embora não fizesse ideia do que estava falando. “Moscóvia não seria o que é hoje se não fossem por todos que a compõem, afinal.” Pronto, cerejinha no topo do bolo. Yay! Droga, ela tinha que começar a... Ugh, estudar, pra fazer esses discursos dali em diante. Só então percebeu que precisava responder a outra pergunta de Olesya e estalou a língua, soltando uma risada fraca. “Oh, yeah, sorry.” Sorriu apologeticamente, revirando os olhos. “Isn’t that the billion dollar question? Eu não acho que ninguém aqui está preparada para ser uma Czarina, pelo menos não agora.” Arqueou uma das sobrancelhas, testando as palavras à medida em que falava: “Eu mesma inclusa. I know, shocking, huh?” Deu de ombros, concedendo, por fim. “But it all boils down to that one thing I’ve told ya about...” Oh, lá estava o sotaque carregado de Nova Zembla. “É um jogo de tentativa e erro. Eventualmente alguém vai chegar nesse nível: 'course it’s gonna be me.” Ajeitou o cabelo para trás, o sorriso confiante emoldurando as expressões da condessa. Se ela queria ser uma czarina? Hell, no. A quantidade de estresse que a pobre coitada deveria passar todos os dias... Mas ela gostava daquela imagem que estava passando: tornava o jogo muito mais divertido.
‘t was all about the game.
“Gosto dessa confiança! Dessa vez é a última pergunta, eu juro!” Para o que Kei soltou um suspiro triste: “Oh, mas já? Logo quando o papo estava ficando bom...”
“Não se preocupe! Teremos muitas oportunidades de conversar, milady! Sei que deve estar cansada e precisa descansar para o baile de amanhã, mas... Quais são suas expectativas para esses meses que estão por vir?” Mordeu a língua ante a pergunta, formando um sorriso apertado para não gargalhar com o que sua mente a tinha providenciado: dedo no cu e gritaria. Ok, ok, calma. Respira. 3, 2, 1, AÇÃO! “Eu escutei falarem que nós vamos viajar pelo país inteiro para conhecermos as províncias, so that’s a thing to look forward to. Nada como uma experiência em primeira mão, não?” Pendeu a cabeça para o lado. o sorriso animado pintalgando os lábios à medida em que os olhos se cerravam com a expressão jovial. “Eu tenho certeza de que ninguém vai conseguir se esquecer desse Favorado.” Cantarolou, chegando às escadas do palácio, finalmente.
Thank our lord and saviour, amen.
Antes que Mirokhin pudesse finalizar a entrevista, entretanto, shit eating grin on her face, Natalya se afastou do apresentador ao dar duas batidinhas na saia esvoaçante do vestido antes de levantá-la para terminar de caminhar, sozinha. “And thaaat’s my cue, Olesya.” Fez uma mesura, movendo-se antes de se virar, como se tivesse se esquecido de algo: “A gente se vê amanhã, nesse mesmo bat-canal... Provavelmente no mesmo bat-horário. ” Ah, ali estava. A merda do peace sign e da língua exposta que se tornaram a marca registrada dos primos quando sabiam que não podiam ser contrariados.
Fuckin hell, Natalya ainda ia matá-lo.
“Wasn’t that a real treat, huh?” Olesya deixou escapar, sem ar, voltando o olhar para as câmeras. “Esperamos ver Condessa Natalya muitas vezes, daqui pra fren---”
O desconhecido desligou a televisão do bar, irritado. Por que todos os Lytkins que conhecia significavam problema?
𝐓𝐇𝐄 𝐅𝐈𝐑𝐒𝐓 𝐈𝐍𝐓𝐄𝐑𝐕𝐈𝐄𝐖
˚ . ♡ ◞ Irina Frolova’s 1st task & point of view.
Entrevistas e flashes constantes não era algo com que Irina estava acostumada, ao menos não nessa intensidade. Ainda que vinda de uma família extremamente influente, a eloquência era deixada aos homens da família, enquanto ela, e as outras mulheres, aderiam ao recato e a uma, quase, vida nas sombras. Mas se existia alguém que podia lidar com qualquer situação com tato e elegância, esse alguém era ela - então, num menear suave, encarou o entrevistador e sorriu, transparecendo uma calma inabalável.
“Está uma loucura aqui nos arredores do Palácio de Inverno, mas gentilmente a favorita Irina Frolova aceitou falar com a gente um pouquinho! Primeiramente, muito obrigado por falar conosco.” Um risinho curto e educado escapou de seus lábios, os olhos azuis batendo adoravelmente, como se estivesse muito lisonjeada - e até estava, um pouco. “O prazer é inteiramente meu, acredite.”
“Mas conte-nos: Qual era a sua rotina antes de ter sido sorteada para o Favorado?” A duquesa demorou alguns segundos para formular uma resposta que parecesse completamente adequada. “Era costumeiro que eu acordasse cedo e me aprontasse, junto de minhas damas de companhia, para ir ter o desjejum com o resto de minha família. Após o café, acompanhava minha mãe, primas e tias nas orações feitas na capela dos Frolov e terminava minha manhã junto dos meus tutores, fossem eles de alguma língua ou matéria importante.” O coração da loira se apertou, já sentindo saudades da rotina da qual era tão acostumada, mas disfarçou a súbita onda de melancolia com outro sorriso. “Minhas tardes eram mais livres, e eu costumava as usar para meus passatempos preferidos: nadar e montar, durante o verão, e bordar, no inverno. Mas, óbvio, costumava sempre arranjar algum tempo para me juntar com minhas queridas colegas.” Riu, balançando a cabeça negativamente enquanto se lembrava dos problemas que chegavam perto de se meter. “E, bem, as noites são de se imaginar. Em São Petersburgo sempre há um evento importantíssimo para se comparecer.” E isso era uma verdade. Talvez a cidade fosse o mais próximo que Moscóvia chegaria da tão falada loucura de Versailles. Praticamente todos os dias alguma família promovia um baile ou algo parecido (jantares, saraus, recitais e o que mais pudessem inventar), a sua inclusa, e ela, obviamente, jamais colocava seu dever social, como filha e irmã do duque, de comparecer a todos. O entrevistador pareceu satisfeito com a resposta, e com um pequeno aceno o deu permissão para continuar.
“Qual foi sua reação e sensação ao ver seu rosto na televisão e saber que foi sorteada para ser uma das favoritas?” Já começava a se sentir mais à vontade com as câmeras e luz forte, e dessa vez não hesitou tanto em responder. “No momento fiquei muito feliz, temo dizer que cheguei perto de perder minha compostura, mas felizmente mama estava por perto para me salvar de qualquer deslize. Acho que gratificação é a única palavra na qual chega perto de descrever o que senti no momento. Tive a honra de nascer com o propósito de servir a São Petersburgo e nossos aliados, fui criada e educada para o fazer da melhor maneira possível e então ter a oportunidade de conseguir servir a toda Moscóvia, é uma sensação sem igual. Me senti muito orgulhosa e agradecida, sem nenhuma dúvida.” As palavras deslizaram da melhor forma possível, e carregavam certa verdade - a parte em que se sentia agradecida por ter uma chance de salvar sua família foi omitida perfeitamente. Ninguém sabia da crise que corria entre as paredes do palácio Frolov.
“Você e o príncipe já se conheciam antes?” A entrevista continuou, e a pergunta fez Irina soltar um risinho e a impedir de conseguir conter a singela vermelhidão que tomava suas maçãs do rosto. Oras, como conseguiria evitar se sentir assim? Estava ali, primeiramente, para salvar sua pele, mas isso não impedia que seu lado romântico aparecesse e sonhasse - e era difícil não o fazer quando o príncipe era daquela maneira. “Tenho a sorte de dizer que sim. O Palácio de veraneio da Família Imperial é em São Petersburgo, e em inúmeras ocasiões fomos gentilmente convidados para se juntar às Vossas Majestades. Mas, devo dizer que faz alguns anos desde a última vez em que o vi.” Agora tudo o que se passava na cabeça da garota era o incidente ocorrido muito tempo atrás, quando era apenas uma garotinha e Grigori tinha se mostrado um cavalheiro saído de um conto de fadas. Na época tinha quase adquirido uma febre de tão apaixonada, mas com o passar dos anos começou a negar veemente que a paixãozinha pré-adolescente tivesse ocorrido (não seria adequado que isso chegasse aos ouvidos de algum pretendente), mas agora, talvez, tivesse que repensar isso. Os dias a vir seriam mais fáceis se realmente gostasse dele.
“Você está no Favorado por amor?” Os olhos do entrevistador pareceram brilhar com a pergunta, ansioso para um resposta que certamente era importante e definia bem o status da Favorita, para toda Moscóvia. Irina não se abalou, e a postura elegante continuou conforme ajeitava sutilmente o penteado, não tirando em momento algum o sorriso educado do rosto. “Seria errado dizer que já nutro amor pelo príncipe. Errado e desconcertante, sem dúvidas.” Os lábios tremeram, numa espécie de riso silencioso e contido, conforme escolhia as próximas palavras com cuidado. “Porém, seria tolo dizer que não. Na minha rasa percepção, amor se constrói com confiança. E, eu espero ser digna de ter sua confiança, não só para o ajudar guiar a nação, mas também para receber seu carinho.” Arrematou, dessa vez dando um sorriso mais doce para as câmeras.
“Você já conhece alguma das outras favoritas? Qual sua relação com elas?” Ok, agora essa era uma pergunta complicada. Não era como se Irina fosse dona de um ego gigantesco e inabalável - talvez só um pouquinho - mas ainda assim, não gostava de dividir qualquer atenção que recebia, então, amizades com outras meninas, especialmente as que também eram duquesas, era algo, no mínimo, complicado. “Conheço várias, mas minha relação não passa da cordial, menos com Agnes, quero dizer, você deve a conhecer por Agnessa Vasikon. Somos muito amigas, e eu estou contente em estar aqui com ela. E, claro, Natalya Lytkin e eu somos boas conhecidas.” Com o sorriso de um milhão de coroas que adornou a face da loira era de se esperar que ela fosse entrar no palácio e fazer braceletes de amizade para todas as favoritas. Ao seu favor, ela e Agnes realmente eram amigas, amigas mesmo, mas já ela e Natalya? Bem, as duas se conheciam.
“Você tem alguma estratégia em mente que pode te ajudar a ganhar essa edição do Favorado?” O que queria agora era que essa entrevista acabasse logo, mas os lábios continuaram no mesmo sorriso polido, sem mudar a expressão em nenhum instante. “Não seria uma péssima estratégia contar a minha estratégia?” Brincou, umedecendo os lábios e se sentindo satisfeita em arrancar um risinho do entrevistador. Não era nenhuma Miss Simpatia, teria que admitir, mas isso certamente lhe daria alguns pontos com as pessoas que assistiam de longe. “O que posso, e acho que devo, dizer é que eu serei fiel à mim mesma. Fiel à minha educação e criação, fiel às minhas origens petersburguesas.” Deveria ganhar um prêmio, só pelo teatrinho que estava fazendo nos últimos minutos. Talvez as pessoas entendessem que ela era uma mulher íntegra e agarrada aos costumes que todos tanto prezavam (de certa forma, até era mesmo), mas quem a conhecia plenamente sabia que a Frolova era disposta a fazer de tudo, se isso lhe assegurasse o que desejava.
“Ouvimos dizer maravilhas das favoritas desse ano, que são muito prendadas e cheias de talentos. O que você preparou para impressionar a corte e o príncipe?” Respirou fundo, da forma mais discreta possível, enumerando seus pontos fortes mentalmente. “Talvez, meu talento com Beethoven, no violino, os impressione. Ou minhas ótimas habilidades para dança e nado. Mas também, meu talento nato para ser uma ótima anfitriã.”
“Quais qualidades você acha que uma Czarina deve ter? Você as possui?” Não tinha pensado nisso, e duvidava que as outras garotas tinham. Se não pelo poder e posição, ou por necessidade, igual a si, teriam realmente ido para o Favorado pela simples intenção de governar bem? “Uma pergunta importante. Hum, eu acho que a Czarina deve entender seu papel e posição na corte, ser uma mulher que dê o exemplo para o resto de nossa nação. As mesmas qualidades que a Vossa Majestade, nossa atual Czarina possui. Acho inspirador suas causas, e admiro, principalmente, sua devoção a fé, que é algo que acho muito importante.” E era verdade. Irina tinha certo comprometimento com a religião, principalmente depois da morte do pai. “Mas sim, acredito que as possuo. E, se eu não estiver à margem da perfeição, os meses por vir certamente me ensinarão tudo o que é necessário.”
“Quais são suas expectativas para esses meses que estão por vir?” Ganhar. Virar a herdeira, obviamente. E, infelizmente para si, não tinha nem a ver com o status e sim impedir que fosse condenada ao ostracismo junto da mãe e irmão. Mas ninguém jamais descobriria isso. “Estou ansiosa, confiante e muito animada. Tenho certeza de que conseguirei provar meu valor e me destacar, nos próximos meses.” Meneou com a cabeça, num gesto elegante e superior. “Muito obrigado, Vossa Graça, e boa sorte.” Irina sorriu mais abertamente dessa vez, dando um aceno educado. “Eu que lhe agradeço.” E saiu, continuando a andar em direção ao Palácio, pensando em como aquilo definiria o resto de seus dias.
De personalidade cética, Vasilisa sempre fez o tipo contestadora. Os diversos porquês costumavam, ao final, levá-la a conclusão da falta de veracidade nos relatos de seus irmãos — que, após um tempo, simplesmente deixaram de tentar assustar a caçula com histórias de terror. Uma verdadeira decepção, eles costumavam dizer, especialmente caso comparado à histérica Alya que com a mera menção de fantasmas tinha a cor esvaída de suas feições. A duquesa argumentaria que existe um limite pequeno a sua capacidade de crer naquilo que não pode ser comprovado, este sendo reservado à religião — não que isso a impedisse de, vez ou outra, ver-se questionando alguns dos pensamentos defendidos por Vasili Tavricheski. E essa era razão de a aproximação do último dia de outubro não ter qualquer efeito na Badica. Mal sabia ela que aquela seria apenas mais uma das mudanças em relação ao ano anterior.
O cansaço após o longo dia guiou a jovem diretamente à cama, sequer dando-se ao trabalho de trançar os cabelos como fazia antes de se deitar. Precisava de toda energia que uma boa noite de sono lhe proporcionaria — pena que esse estava longe de ser o futuro que lhe aguardava.
Era difícil sentir-se em casa em um local que frequentava por cerca de cinco dias, a cada um ou dois anos — uma frequência baixa mesmo para a nobreza residente na corte. No entanto, qualquer mudança de cenário lhe era bem-vinda, dadas as últimas semanas. Uma surpresa que mostrou-se ainda mais agradável ao deparar-se com todos seus irmãos, com exceção de Demyan evidentemente, reunidos na sala de jantar. Quem imaginaria que sentiria falta de algo tão corriqueiro quanto uma refeição em família?
“Não se atreva a sentar-se à mesa. Você não é bem vinda nessa casa.” Os lábios rosados entreabriram-se e o cenho franzido em surpresa teria arrancado queixas de sua progenitora — menções a como aquele tipo de reação era desnecessária e apenas colaboraria à formação de rugas —, caso ela não estivesse demasiado irritada para sequer dar-se ao trabalho. O mais desconcertante, porém, era a gelidez em seu olhar compenetrado, sem qualquer misericórdia por aquela a quem havia dado a luz.
“Alto mar… Patético.” Lisa sentiu o sangue gelar, seu corpo petrificado ante a mera menção de seus planos. Como ela poderia saber? Não era possível, não quando a bailarina escondia os anseios mesmo de si própria. “Eu avisei, Vasilisa. Jamais, eu disse jamais externar quaisquer pensamentos desse tipo. É muita audácia sua nos desafiar dessa maneira, sem qualquer gratidão pela criação que lhe foi dada. Era muito a se pedir? Ante tudo o que lhe foi entregue… Bastava não ser uma completa desgraça ao nosso brasão.”
A jovem encolheu-se, o ar deixando seus pulmões como se ela fosse indigna de retê-lo. O nó formado em sua garganta a impossibilitava de falar, não que fizesse muita diferença quando as palavras haviam abandonado sua mente. “Eu havia sido avisada de que você seria um fracasso. Uma mulher como você apenas traria desonra a essa família. Mas eu quis acreditar.” O arrependimento profundo em sua voz trazia uma ofensa implícita. Uma que estava presente no olhar que lhe era dirigido, sem que a progenitora precisasse externá-lo. Oksana desejava jamais tê-la concebido. “Ó Sankta Sofiya, não bastava a vergonha causada por um de meus filhos, tinha que me conceder tamanho infortúnio?”
As íris âmbar varreram o salão a procura do suporte de seus irmãos — eles teriam que entender, não seriam capazes de permitir uma humilhação como aquela —, mas estes sequer ousavam encontrar seu olhar. Estava sozinha. E era tudo culpa sua. Se houvesse apenas contido a irracionalidade de suas aspirações, se contentado com a vida na corte… Ela não seria assim tão ruim, certo? Não que agora tivesse a oportunidade de descobrir por si própria.
“Não retorne a essa residência.” Foram as últimas palavras de sua mãe, essas ecoando a medida em que sua figura distanciava-se da filha. As emoções antes contidas pela perplexidade irromperam, inundando-a em ondas violentas de angústia. Seu choro tornou-se mais alto ao chamar por seus irmãos, sem qualquer sucesso em sua tentativa de alcançá-los. Até que nada mais restou além da duquesa em um amplo salão em mármore. E um vazio, um vazio tão arrebatador como um buraco negro, ameaçando sugar-lhe a vida que lhe restava. A essa altura, será que fazia alguma diferença?
As lágrimas em seus olhos deixaram rastros sobre as feições delicadas, essas molhadas com seu desespero. Seria uma longa noite.
Um poeta russo certa vez escreveu: “Viver do presente eu não posso, amo o turbamento dos meus sonhos.” E, sentindo-se muito reflexiva nesse momento de reviravoltas, Nix se perguntava para onde se vão os sonhos nunca realizados. Talvez todos eles estejam presos em alguma caixinha do nosso subconsciente esperando o momento certo para serem realizados. No mesmo poema também se diz que a natureza é um templo de insólitos enredos, e o homem o cruza em meio a um bosque de segredos. “Faças as perguntas certas e terá tudo.” Podia até ouvir sua tia falando. De repente, não saber é justamente o caminho certo. O homem do poema cruza o caminho, mesmo não entendo tudo sobre ele. Um amor às incertezas, afinal.
Não tinha como odiar o percurso se ao menos o conhecia. Tudo o que tinha era o presente e, nesse momento, isso bastou para que encontrasse algum conforto. Agarrou-se a esse pensamento e sorriu para a câmera como se o seu barquinho de sentimentos não estivesse velejando num mar em tempestade. Tudo passa.
Está uma loucura aqui nos arredores do Palácio de Inverno, mas gentilmente a favorita Nix Lazar aceitou falar com a gente um pouquinho! Primeiramente, muito obrigado por falar conosco, mas conte-nos: Qual era a sua rotina antes de ter sido sorteada para o Favorado?
— Minha família é dedicada exclusivamente aos ofícios militares. E era exatamente isso o que fazia. Sempre busquei dar o melhor de mim para o meu país, então estava dedicando-me a aperfeiçoar minhas habilidades. Com muito equilíbrio, claro.
Qual foi sua reação e sensação ao ver seu rosto na televisão e saber que foi sorteada para ser uma das favoritas?
— Bom, inicialmente foi um grande choque. Fiquei bastante surpresa. Mas depois percebi a grande oportunidade que tive.
Você e o príncipe já se conheciam antes?
— Infelizmente nunca tínhamos nos vistos antes. Mas tenho certeza que teremos tempo para nos conhecermos melhor. — a mentira dessa resposta, em especial, pareceu arder na boca de Nix. Mas, óbvio, ela nunca contaria sobre o acontecido.
Você está no Favorado por amor?
— De certa forma, sim. Amor ao meu país e amor à minha família e província por poder representa-los. Vejo no czarevich muitas qualidades, mas ainda não o conheço suficientemente para um sentimento tão profundo. — e, sinceramente, ficaria surpresa se alguma das meninas respondesse que sim. Mal o conheciam!
Você já conhece alguma das outras favoritas? Qual sua relação com elas?
— Gosto de conhecer as pessoas da sociedade que convivo, então, sim, já conhecia algumas. Todas são mulheres muito gentis e especiais à sua maneira.
Você tem alguma estratégia em mente que pode te ajudar a ganhar essa edição do Favorado?
— Não gosto de revelar os meus segredos antes do tempo. — brincou. — Mas, pretendo ser o mais autêntica possível.
Ouvimos dizer maravilhas das favoritas desse ano, que são muito prendadas e cheias de talentos. O que você preparou para impressionar a corte e o príncipe?
— Sou muito boa dançarina e toco alguns instrumentos. Gostaria de ter a oportunidade de mostrar isso no favorado. — e em continuar trabalhando em suas habilidades de luta, mas não contou essa parte.
Quais qualidades você acha que uma Czarina deve ter? Você as possui?
— Acredito que o conhecimento sobre o seu povo, entender a fundo o que todos precisam e os motivos pelos quais certo problemas existem. Somado a isso, também precisa ser firme e criativa em suas decisões. Resumindo, lealdade. E sim, me considero muito leal. — em nenhum momento Nix teve dúvidas sobre essa resposta, justamente porque sempre foi muito assertiva sobre seus ideais e boa em organizar seus pensamentos e falas. Realmente, não estava tendo dificuldade na entrevista.
Quais são suas expectativas para esses meses que estão por vir?
— Espero conseguir mostrar a todos a minha essência e o que eu realmente sou. E espero que todos nós possamos ter uma boa jornada nesses próximos meses. Muito obrigada por me ouvirem, foi um prazer participar dessa entrevista.
Sempre foi de seu desejo participar do favorado, ainda que tenha se iniciado mais como uma brincadeira do que qualquer outra coisa, era uma oportunidade única e poderia ser maravilhosa, ainda assim lhe trazia uma pressão extrema. No entanto, isso não pareceu abalar a jovem Agnia que andava com leveza, suas passadas calmas e serenas sem expor o que realmente sentia em seu interior, com anos havia se tornado boa naquilo que deveria. Em sorrir de forma doce e angelical, mesmo quando os sentimentos em seu coração estivessem longe daquilo, demonstrar sinais de nervosismo poderia ser interpretado como uma fraqueza e essa não era a visão que queria passar. E ainda assim ela estava terrivelmente nervosa, pois não era acostumada a ter tanta atenção sobre si, por que havia se acostumado a não chamar tanto a atenção conforme crescia, por preferir ser invisível a ser vista pelos motivos errados como havia sido o caso em sua infância.
E mesmo assim, ali estava ela mal conseguindo piscar direito em meio ao mar de câmeras e jornalistas, porém, se esforçava para sorrir e temia que pelo final do dia o rosto ficaria para sempre travado em um belo sorriso. Era de se esperar que não demoraria para que algum dos jornalistas lhe atacasse e a enchesse de perguntas, agora ela notava que não importava o quanto ela pensasse estar preparada para aquele tipo de situação, quantas vezes tivesse repassado em sua mente o que tinha de dizer, ela sentia o estômago revirar e o rosto corar levemente ao ter a atenção voltada para si no momento que a câmera focou na direção da Szelsky.
—Está uma loucura aqui nos arredores do Palácio de Inverno, mas gentilmente a favorita Agnia Alekseevna Szelsky aceitou falar com a gente um pouquinho! Primeiramente, muito obrigado por falar conosco, mas conte-nos, qual era a sua rotina antes de ter sido sorteada para o Favorado? — Ainda que o jornalista soasse alegre, não passou despercebido pela garota a ausência de seu segundo nome, qualquer outra pessoa pensaria que era pelo fato da maioria ali não possuir um segundo nome, mas ela já estava acostumada ao fato de que sempre preferiam se lembrar dela apenas pelo lado paterno, jamais pela mãe e naquele momento, ela não poderia fazer nada a respeito disso.
—Devo admitir que minha rotina andava deverás maçante para a visão do público, apenas focando em meus estudos e na aprimoração de meus talentos, dos quais espero ser capaz de mostrar a todos aqui. — A fala saiu delicada e calma, ainda que aqueles que fossem mais próximos delas seriam capaz de notar o nervosismo pela forma da qual ela sutilmente levou uma das mãos ao cabelo, disfarçando como se estivesse apenas o colocando de volta em seu devido lugar, mas se controlava para não dar mais indícios de seu nervosismo, não enfrente as câmeras ao menos.
—Qual foi sua reação e sensação ao ver seu rosto na televisão e saber que foi sorteada para ser uma das favoritas? — Aquela era uma pergunta mais fácil de responder, onde poderia expor um pouco mais ao público, não necessário qualquer tipo de mentira e isso tudo ainda mais fácil para a Szelsky.
—Eu sequer sei como responder essa pergunta direito, acredito que tenha sido um misto de emoções na verdade, eu sequer acreditei em um primeiro momento que eu tinha sido escolhida. — Admitiu sem problema algum, pois sabia muito bem que soar pretensiosa não era bom e estava sendo sincera, não esperava ser escolhida até o momento que foi. —Na verdade, no momento em que foi feito o anúncio eu sequer estava em casa, eu tinha ido até a casa de Minah, outra favorita da qual tenho grande apreço e carinho, para lhe dar suporte já que ela estava entristecida pelo fato do pai ter partido outra vez para a guerra. Foi uma surpresa para nós duas, ainda mais quando vimos ambos os nossos rostos na tela! Foi um choque muito grande, mas ficamos muito honradas e agradecidas pela oportunidade.
—Então você já conhece outras favoritas? Qual a sua relação com elas? — Ele já aproveitou a deixa para perguntar, ela poderia facilmente desconversar por que em tese a maioria ali se conhecia, ainda que a memória de Agnia para com a maioria fosse de quando era bem mais jovem e não tão boas assim, mas isso era algo do qual não deveria falar em uma entrevista.
—Bem, creio que já tenha visto a maioria eventualmente, ainda que não sejam muitas das quais sou realmente próxima. Mas era de se esperar por exemplo que eu, Minah e Agniya fossemos mais próximas visto a proximidade de nossas províncias, elas são pessoas incríveis e é uma honra estar aqui junto delas. — Optou por não se estender muito sobre o assunto, pois temia que fosse soar demasiadamente tagarela e essa não era sua intenção de forma alguma. E também não queria dar alguma brecha para que o jornalista levantasse o ponto de que ela e Agniya possuíam nomes basicamente iguais, pois sabia que eram assim que se começavam as comparações e isto não era bom em uma competição, muito menos em uma amizade. Então, não demorou a prosseguir sua fala com um leve sorriso na face delicada. —Também me considero próxima de algumas outras, mas espero que possa me aproximar daquelas da qual não tenho tanto contato, afinal, essa é uma oportunidade única para todas nós e considero que precisamos nos manter unidas.
—Certo, mas me conte, você e o príncipe já se conheciam antes? Você está no Favorado por amor? — Ela precisou de um tempo a mais para colocar os pensamentos em ordem após ser bombardeada com duas perguntas de uma vez só, isso não passou despercebido pelo jornalista que parecia levemente incomodado com a demora dela pelo olhar lançado sobre si, o que fez com que ela não demorasse muito mais para tornar a falar.
—Sim, lembro-me de ter o conhecido ele quando visitou a província de Magadan, me pareceu ser uma pessoa muito séria e focada, o que acho que seja essencial a alguém da posição dele. — Tratou-se de assegurar para que não parecesse algum tipo de crítica, por que não era, considerava muito melhor que ele fosse mais reservado e sério do que um baderneiro em busca de fazer barulho e confusão. No entanto, não tinha muitas colocações a serem feitas quanto a ele visto que pouco o conhecia, também não cabia a ela o julgar de qualquer forma quando era ela que estava ali para ser julgada por tudo e todos. —Bem, ainda que tenha o conhecido, não diria que somos próximos, logo acho que seria um pouco estranho dizer que estou aqui por amor, mas acredito que durante esse tempo tudo pode acontecer, nunca se pode dizer com certeza o dia de amanhã.
—E você tem alguma estratégia em mente que pode te ajudar a ganhar essa edição do Favorado? — Aquela era uma pergunta da qual duvidava que alguém com estratégias fosse as revelar em rede nacional, as mulheres da corte eram muito mais espertas e ardilosas para que deixassem expostas seus planos para com a competição. Então, Agnia apenas sorriu e negou com a cabeça.
—Não, não possuo qualquer estratégia, tão pouco acho que alguma iria funcionar tendo em vista que quem escolherá a vencedora é o príncipe. — A própria Szelsky costumava ser uma pessoa que fazia planos, no entanto, achou inviável fazer alguma estratégia envolvendo o favorado quando não se possuía tantas informações sobre as outras favoritas e o príncipe, sem contar que existiam variáveis demais para que se chegasse a uma conta conclusa do resultado.
—Ouvimos dizer maravilhas das favoritas desse ano, que são muito prendadas e cheias de talentos. O que você preparou para impressionar a corte e o príncipe? — E com aquela pergunta, pela primeira vez durante toda a entrevista, ela se viu respirando de forma mais suave e relaxada, ainda que mantivesse a postura perfeita que lhe era esperada. Tinha certeza de que as outras favoritas tinham muito mais a oferecer do que ela, era certo que haveriam as mais belas e delicadas bailarinas, da qual Agnia nem sonhava em chegar perto considerando seus dotes quase inexistentes para ballet e a falta de disciplina para tal arte. Haveriam aquelas com um talento inimaginável para a alta costura, desenhos e pinturas, coisas das quais não importava o quanto tentasse ela definitivamente nãos e encaixava. Também não era bom no hipismo, na verdade, os cavalos pareciam ter algum tipo de coisa contra ela que tornava a sua relação com eles até um tanto engraçada. Claro, a maioria também sabia cantar e tocar, mas a música era um dos poucos talentos que ela realmente poderia oferecer e se expressar verdadeiramente ao mesmo tempo.
—Bem, considerando minha afinidade com a arte musical, eu gosto muito de compor canções e seria uma honra para mim poder apresentar algumas a corte e ao príncipe, caso fosse do agrado deles é claro. — A fala soava mais animada e descontraída agora, como se finalmente estivesse mais acostumada com a entrevista e a responder às questões dirigidas a si, ela soava muito mais natural agora do que no início de seu interrogatório.
—E quais qualidades você acha que uma Czarina deve ter? Você as possui?
—Acho que é bastante importante se mostrar uma pessoa compreensiva e capaz de empatizar com outras pessoas, mas essa é uma posição que também exige muito mais e não acho que eu tenha propriedade para falar sobre ainda, mas espero ser capaz de aprender mais e se possível aprender algo com a Czarina atual, seria uma grande honra. — Respondeu de forma mais contida e polida, pois não queria soar como uma pessoa pretensiosa ou falar qualquer coisa que ofendesse a família imperial, era importante saber medir suas palavras e ser sempre educada ao máximo. Também, contava com o fato de que a vissem mais como uma jovem mais ingênua e sonhadora, pois dessa forma era mais fácil que perdoassem qualquer coisa que ela pudesse dizer e ser mal interpretada.—Acredito que estas sejam características que qualquer pode ter, é preciso apenas o esforço e a boa vontade. E gosto de pensar em mim mesma como uma pessoa muito dedicada a coisas importantes, julgo que as outras favoritas também sejam pelo que pude ver delas.
—Quais são suas expectativas para esses meses que estão por vir?
—Não sei dizer bem, mas posso dizer que espero ser capaz de interagir mais com as outras favoritas e quem sabe fazer novas amizades? Também espero poder conhecer mais das outras províncias que são mais distantes de Magadan, apenas espero ter tempo para tudo isso. — Com uma breve risada, pois sabia bem que agora parecia que seriam longos meses, mas o tempo passaria como em um piscar de olhos, sempre era assim. Então, ela planejava aproveitar o tempo que teria ali da melhor forma que podia dentro do possível, é claro. E para o alívio de Agnia, aquela pareceu ser a última pergunta de seu entrevistador, que logo se despediu dela, que cordialmente fez o mesmo antes de se retirar, agora finalmente conseguindo caminhar de forma mais leve e descontraída. Ela sabia que ainda teria um longo caminho pela frente em se acostumar com todas aquelas câmeras, perguntas e atenção sobre si, ao menos ela era boa em manter sempre um sorriso na face, mesmo em situações que não estivessem tão bem assim emocional e psicologicamente, o que era quase um pré-requisito para qualquer mulher da corte.
Tw: tortura, branding, insinuações de transtorno de estresse pós-traumático,
Inspo: Camp X-Ray (2014), Questão de Honra (1992), Coragem Sob Fogo (1996) e Road to Guantanamo (2006)
Sobre Pesadelos, Monstros e Demônios
A brisa do mar era o bastante pra me fazer esquecer o porquê estava ali, trancafiado naquele navio, com um amontado de outros marinheiros, rumo à qualquer lugar que fiz questão de esquecer o nome. É ai que o capeta resolve aparecer, para levar de volta ao porão do navio, enquanto os outros estão fora, em algum canto do porto que estamos atracados.
Pela mão, o diabo me guia para a porta de uma cela. Por algum motivo, ele confia em mim, talvez por ser filho do Almirante Jean Jaques Saint Laurent.
- Seu pai ficaria orgulhoso do homem que está se tornando, mon cher. - Balbucia no meu ouvido, colocando a barra de ferro em minha mão. - Agora vá lá, e faça o que lhe pedi, e se tornará o mais jovem Maître Principal** dos últimos 50 anos. - O distintivo de âncora dourado é colocado em meu uniforme, e por algum motivo, aquilo se torna o incentivo que faltava para que eu entre na cela, motivado a cumprir o que o diabo me pede. Afinal, qual o filho que não deseja orgulhar seu pai? Ainda mais, quando se escuta a vida inteira que, o seu melhor nunca vai ser o bastante? Talvez aquilo fosse o suficiente para que o Almirante finalmente me ame como filho das histórias mentirosas que conta aos amigos, invés dos os insultos e comentários desdenhosos que ouvia do próprio pai. Ou que pelo menos, os outros marinheiros me aceitem com um deles, e os olhares de e piadas sobre como não deveria estar ali com eles.
Na cela imunda, com ratos passando por todos os lados, o homem está lá, de joelhos, cabeça coberta por um saco de estopa suja, os braços presos as costas e acorrentado ao chão, sem poder sair do lugar. No fundo, sei que ele não deveria estar ali. É o homem errado, no lugar errado, escolhido apenas para ser o bode expiatório para justificar os tiros que foram dados em alguns civis no cais do porto só por “diversão”. Iriam estampar "terrorista" naquele homem, vendê-lo a imprensa como tal, quando o verdadeiro terrorista estava a bordo, com uma barra de ferro na mão. Mas o capeta não quer saber de justiça, e é uma lição que aprendo da pior forma. Um golpe, um gemido, outro golpe, outro gemido, não consigo ir muito longe. A cada golpe da barra de ferro naquele homem, mais e mais me torno o capeta também. Será que é isso que tenho que me tornar para ser aceito?
- Acabou. Não mais.
E antes que eu perceba, estou junto com o outro homem. A dor excruciante nasce cada vez que o diabo, não sei mais se novo ou antigo, já que agora, são vários me acertam. As costas são a parte favorita deles, ás vezes as pernas e o joelho. E tudo o que sinto é dor, no sentido real da palavra. Por mais que no fundo eu saiba que não tem como aquilo estar acontecendo novamente, que fazem mais de 20 anos que tudo aquilo ocorreu, e que é apenas um pesadelo, no qual posso acordar a qualquer momento, uma parte de mim acredita que tenho que reviver tudo aquilo, que é a única forma de pagar por ter ficado calado e nunca reportado o incidente a oficiais superiores, ao invés de reportado o incidente para oficiais superiores. É uma espécie de terror noturno masoquista, que só para quando o cheiro de carne queimando aumenta, acompanhado de gritos de dor e agonia, com um forte impacto nas costas, seguido do som de algo quebrando.
A medida em que se vai envelhecendo, você vai aprendendo que as coisas que você faz pra sobreviver ou para chegar onde você planeja, é o que causam os pesadelos, na melhor das hipóteses. Os meus, apesar de terem acontecido há anos atrás, ainda os tenho quando menos espero. A última vez que os tive foi na noite passada, ás vésperas do baile de gala. Na verdade, os recebo com tanta frequência que já deveria estar acostumado com eles. Não estou. Ninguém realmente se acostuma com pesadelos, é uma mentira que conto pra mim mesmo, na esperança de que algum dia sumam como mágica, mas lá no fundo, não importa o quanto de terapia se faça, eu sei que eles nunca se vão.