se narcissa dissesse que não esperava que johann fosse entregar alguma resposta como “mas a pessoa que eu acho mais bonita por aqui é você”, ela estaria mentindo para si mesma. havia aquela pontinha de desejo dentro dela em ouvir um elogio desses vindo dele em especial, e o sorriso que antes iluminava as feições delicadas do rosto perdeu um pouco do brilho no segundo em que ele atravessou o balcão, caminhando até o centro do bar. acenou com a cabeça, formando um “boa sorte” sem humor com os lábios porque, lá no fundo, ela esperava que ele não tivesse tanta sorte assim. prestes a voltar-se para a bancada e terminar de beber a garrafa de soju sozinha como quem entende o que sente, narcissa percebeu que o alemão se aproximava mais uma vez. franziu o cenho, mas não teve tempo de questionar o motivo do retorno dele. johann realizava o desafio com ela. a loira precisou de exatos três segundos para esboçar uma reação e mais cinco para se recompor: os cantos da boca se curvaram em um sorriso e as bochechas esquentaram como nunca antes. o coração passou a bater mais rápido, também, e talvez ela tenha sentido uma leve tontura. talvez. “não sei se acredito…” brincou, sendo puxada para longe da cadeira. se fosse qualquer outra pessoa, o organismo de narcissa teria agido em defesa num piscar de olhos, liberando as toxinas no rapaz. mas era johann; e quando estavam juntos, ela conseguia ser normal. “mais perto como?” perguntou sem esperar por uma resposta. a pressão dos dedos dele contra a cintura fina e exposta pelo crop top branco causaram um formigar na região, o corpo inteiro estremecendo quando ele a puxou para perto — tão perto que narcissa sentiu a respiração alheia mesclar-se à própria. não demoraria muito para que o corpo liberasse o veneno, por deus. “y’know, tecnicamente você ‘tá roubando porque o mico ‘tava em puxar algum random pra dançar.” revirou os olhos, subindo uma das mãos até o ombro dele num deslize lento. a outra, entretanto, procurou pelo pequeno borrifador que levava consigo em todas as ocasiões. um presente dos cientistas, por assim dizer: enquanto alguns tinham spray de pimenta, narcissa carregava um spray do próprio veneno para usar em situações de auto-defesa. “não sei se você sabe o que acontece com quem rouba no meu jogo, mas vou te mostrar—” sorrindo como o próprio diabo faria, a australiana arrancou o spray do bolso traseiro da jeans e borrifou uma quantia significante do líquido na direção do rapaz. sabia que em johann o conteúdo traria uma espécie de efeito reverso, ou simplesmente não traria efeito algum, mas a surpresa do gesto infantil lhe deu tempo suficiente para que se desvencilhasse dos braços dele e se afastasse às pressas—como se ninguém mais estivesse presente para vê-la correr como uma criança na direção das escadas que levavam até o terraço do local. ela realmente queria dançar com johann, mas não ali no meio de tantos outros.
Ele não sabia muito bem o que pretendia com aquilo. Era uma brincadeira, do tipo que faria com a jovem, embora daquela vez parecesse mais sério. Nada era mentira, claro. Era frequente o pensamento de que a australiana era de fato a garota mais bonita que conhecia. Johann tentava nunca racionalizar muito aqueles pensamentos e assumia que se afeiçoara por ela simplesmente por conta da relação quase compulsória que a compatibilidade de seus poderes criara entre eles. Se convencia de que era apenas por ela ser uma das pessoas para quem ele passava mais tempo olhando, afinal às vezes precisavam passar horas comente na companhia um do outro. Mas ainda assim, fosse qual fosse a razão, era a verdade. Narcissa era mesmo muito bonita e encantadora, de um jeito que ele tentava não pensar muito sobre, ou sua mente o levava a lugares esquisitos. Durante aquele desafio bobo, no entanto, ele estava apenas se deixando levar pelo clima descontraído, pelas poucas doses de soju que tinha bebido entre um cliente ou outro, e, obviamente, pela maneira com que conseguia ser mais bem humorado perto dela. Não tinha intenções maliciosas ao tocá-la daquela forma, apenas apreciava o pequeno universo particular onde podia tocar alguém normalmente sem medo de despertar a fúria silenciosa de suas habilidades, contudo, uma vez que percebeu toda aquela proximidade, o alemão notou a furada na qual tinha se metido. De repente sentia-se inquieto e quase envergonhado de sua atitude, embora fosse um bom ator e jamais fosse demonstrar. “Não tenho culpa se você fez uma péssima escolha de palavras... Só eu posso escolher quem eu acho a pessoa mais bonita daqui.” murmurou, emburrado por ter sido acusado de estar roubando, quando na verdade para ele (olhando a situação agora) teria sido bem mais fácil fazer isso com uma pessoa aleatória que não lhe despertaria nenhuma reação estranha. A forma com que ela pronunciou o restante da frase foi suficiente para que ele ficasse em alerta. Não sabia o que raios ela planejava fazer, mas teve certeza de que sairia do script esperado. E mal teve tempo de reagir antes de sentir o spray de veneno o atingir em cheio. Magicamente foi como se tivesse tomado um banho quente depois de um dia cansativo, seu copo já absorvendo as toxinas e sendo fortificado por elas. Porém na face do rapaz havia apenas um bico emburrado e a certeza de que não deixaria aquilo barato. Podia ouvir alguns de seus amigos rindo à distância e assim que a viu correr, os longos cabelos balançando de maneira quase hipnotizante, ele se virou para o grupo de colegas e fez o sinal com a mão como quem pedia para que eles segurassem as pontas enquanto ele resolvia aquele “problema”. Então correu atrás dela, sabendo que a vantagem da jovem não era tanta, mas seguindo-a escada acima praticamente de dois em dois degraus, apressado feito uma criança que acaba de ser provocada. “Não é justo me punir se eu não roubei!” reclamou, assim que chegaram ao espaço aberto “Sabe o que acontece nas lutas quando o juiz é injusto?” continuou, dessa vez o sorriso travesso pintando seu próprio rosto enquanto tinha uma ideia. Tomou um novo impulso atrás dela, aproveitando-se da energia recém adquirida pelas toxinas para segurá-la por trás pela cintura, levantando-a no ar até que seus pés não tocassem mais o chão. “A gente reclama.” concluiu, rindo baixo, mal notando o boné em sua cabeça caindo no chão com a movimentação repentina, revelando os cabelos que naquela noite estavam azuis. Muito calmamente deixou que ela voltasse ao piso, girando o corpo feminino para que estivesse de frente para si. “E nada de me envenenar de novo. Vai ter que ouvir minhas reclamações.” completou, pegando as duas mãos femininas e segurando-as atrás das próprias costas, de forma que agora ela estivesse abraçando-o. O aperto era forte o suficiente para mantê-la ali, mas não tanto para que Narcissa não conseguisse se desenvencilhar se de fato quisesse ir embora. A proximidade ainda o deixava atordoado, porque por mais que o contato entre eles fosse frequente, nunca havia sido tão casual, tão não obrigatório e tão próximo. Podia sentir as próprias bochechas corando. Sabia que em algumas situações conseguia transmitir outras sensações além da dor para outros indivíduos, mas ainda não fazia a ideia de qual era a dimensão daquilo e esperava não descobrir naquele momento. O que quer que fosse aquela coisa em seu estômago, preferia manter em segredo.