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Não sei que espécie de lâmina nos pensamentos se ameaça de imanência.

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Vida em formas
Não sei que espécie de lâmina nos pensamentos se ameaça de imanência.
Os quatro sintomas que aparecem nas últimas 24 horas antes da morte.
,
Pensamentos excessivos sobre tudo.
Às vezes me sinto caminho perdido na areia do deserto. Terra devastada. Nação em anomia que procura um homem entre os homens. As páginas vazias de Guerra e Paz ansiando pelas mãos poderosas de Tolstoi — evidência da singularidade que abre as chaves da palavra poder.
Quem é o homem realmente poderoso para uma terra? Tenho pensado no poder de um homem que ordena a terra e suporta incontaminável a existência em suas circunstâncias e levanta suas cidades desde a imaginação humana. No mistério da fonte de sua vontade e a realidade de sua constituição. Penso mais uma vez no mistério do poder do homem e o homem.
Desde a infância se pensa no poder do homem, por isso os unicórnios e as lendas fálicas. Agora essa sou eu e anos pensando, algumas escolas e discussões, muita perplexidade olhando uma parede sem sombras, vislumbro que o homem poderoso é o que nada perde para a morte e nada perde para o nada. Desse homem possivelmente há dois e são opostos.
Um que não perde nada para morte porque vai encontro e não deixa ser alcançado pela trama caprichosa e datada da sua foice. Ele traga a morte com a própria boca e fecha o mundo após suas costas. Porque destrói com tanta força de vontade que torna a morte coadjuvante do seu ato e o mundo findo o seu material de movimento final. É o homem que detonaria uma arma nuclear. O homem bomba. Para seus próximos é o assassino massivo e espesso e a medida do seu mal. Como se fosse possível ser tão mortal que até a morte voltasse a ser comum.
O outro homem é o que erige a sua carne no mundo com muito mais sangue, e tanto que a morte não pode engolir sem se afogar. Esse homem despeja na terra uma multidão e consegue ordenar a todos nas medidas do seu sangue profundo. Filhos dos seus pensamentos e de suas lâminas. Filhos do seu coração rubro. E todos filhos da sua religião. É homem religioso que tira o pão do próprio sangue e a religião da própria boca e alimenta com carne e espírito uma espécie de metameria de imortalidade. Eis o homem que pode ser morto como qualquer outro homem, a morte destruirá seu corpo como a qualquer outro homem, porém a carne do seu falo ainda viverá ereta e despontará com vingança. Tudo o que tocar a carne viva da sua posteridade ordenada sofrerá as consequências de um organismo longo, atemporal, místico, vingativo e memorial. Aspectos desse homem surge no poderoso coronel Aureliano da vila Macondo escrito por Gabriel Garcia. O coronel que tendo desistido de quem era, na senescência relembra e profere senil e arrependido sua antiga grandeza diante da injustiça do mundo, que então sem mais demora, numa frente ampla e cheia de malícia, une o clero, os cães e a escuridão. Seus 17 filhos marcados com uma cruz na testa pelo padre Antônio Isabel na missa de Quarta-feira de Cinzas de 13 de fevereiro de 1929 são em seguida caçados e executados com tiros de carabina.
Podemos mensurar um poder pela ousadia covarde e empenho renitente do inimigo em sua supressão, e pelo conluio dos inimigos entre si diante daquilo que temem ainda mais.
— Falo coisas excessivamente reais e por isso as pessoas não acreditam.
Doméstica sobre o limbo
Desfolho os meus lábios nas tuas mãos frias e o fruto da minha língua devora as descamações da tua aparência. Uma espécie de manto triturado desce sobre os móveis e utensílios. Em cada porta teu rosto dorme e acorda ausente diante dos meus olhos.
Passa um ônibus com algumas pessoas
Quando vi o filtro que era o lustre — a luz o tom que se derramava do vidro simplificado com mínimas bolhas de ar. Lembrei da minha mãe no tempo que ela comprou um lustre igual com a cor igual e o manto de luz antiga. Comprou de um homem da mesma época dos lustres que vinha vendendo pela estrada num carro velho. Tristeza leitosa. Tristeza absoluta — sua face vaporosa atravessando nossos corpos mortais.
Mas esses seres humanos por que são assim? Perto deles estou como que cercada pelas garrafas de vinho na mesa fico deliciada com os aromas — seus sabores e rubores. Vou me alheando de mim e sendo invadida de suas doçuras — e amargura e o tempo se derrama no vermelho do sangue.
Como o vinho acaba — os seres humanos se vão. Meus olhos se aterram diante da minha vergonha suas tristezas tem o corte afiado do arrependimento e seus restos sãos fundos como o tempo derramado da luz.
Todos conhecem o fogo
Todos os homens do mundo conhecem o fogo mas você sabe dos segredos do fogo e sabe da precisão voluptuosa de suas fornalhas.
Todos os homens do mundo conhecem a água mas você sabe dos longos braços dos oceanos e sabe das gargantas escuras dos seus báratros.
Quando você adentra os pensamentos da água e do fogo uma multidão em jejum no meu sangue avança até às bordas do teu corpo e acompanho religiosa os movimentos dos teus lábios — traumlippenregung.
O que é a fé que me submerge onde água e fogo se misturam? A vertigem da existência… No fundo dos teus ossos onde água e fogo se misturam num mar de silêncio respiramos os ecos do princípio — o hausto do espírito — como se respirava antes do ar.
Todos os homens do mundo conhecem o fogo mas você sabe falar a sua língua estranha — antes de tudo era a língua na qual a voz se declarou à existência.
Todos os homens do mundo conhecem a água mas você quando a toca retira o silêncio da sua sinfonia fermiônica e então pode ser ouvida a boca do primeiro abismo.
Parte anônima das cores
E as lentes atravessadas pela lâmpada lentes mantidas no mesmo murmúrio que as sombras dos responsórios antigos entre as paredes que perfilam diante dos óculos e dos anos.
Pensamentos de tábuas nuas sobre as cavilhas e os cortes anônimos emaciados pela recitação da leitura. O livro em que tomos descosturam — do futuro sepultavam em si nomes sob a fotografia kodak.
Essa voz desenhando com carvão e breu. A voz abre as asas de um besouro. Voa por entre a meditação e o tempo acamado — a voz conta num ritmo assinalado cada palavra que sobrevive nos ecos e sobreposições dos dias.
Ainda ouve a memória trêmula dos pedintes sob as marquises em suas roupas documentos desaparecem lentamente de alegria cega os registros das travessias. Penugens claras como se cobrissem as lentes.
Condução aos dias incomuns
Volta o teu rosto em direção à tua sinceridade e toque teus lábios na terra — e os teus dentes na areia? E veja se os teus olhos não são a água e superfície dos rios. Como encontrar essa piedade de ossos — nos próprios ossos de modo que sinceramente olhe os céus ainda sem luz. Você não sabe ou tem o medo de levantar o rosto diante das coroas do sangue? A visão — do vazio e do vazio de tudo — somente ostentado pelos signos.
Diante dessas bordas indecorosas e sutis a misericórdia busca os forames dos meus ossos — e experimento a sinceridade ensanguentada dos hospitais. O olhar dos que recuam silenciosamente e escrevem seus calendários entre as letras e signos de um livro santo.
Fragmentação do humano entre humanos.
Promessas de escrita
Estamos dispostos a ver o tempo? Ainda não? Há um primeiro trabalho que é sobreviver. Depois, um último que seria sustentar a morte. Este é o mais difícil e longo. E bem nessa situação que entra o mito de Sísifo quando interpretado em seus espaços de narrativa. O trabalho mitológico de Sísifo se dá após a morte. É quando começa a labuta dos arrependidos, que em alma refazem os passos dos equívocos, consertando tudo em trama e ânsia, e então morrem novamente para descobrirem que já morreram.
— Acolha-me, mãe repudiada pelas religiões! — Se alguém famoso interpretou na façanha de perverter o paralelismo daqueles espaços como as muitas religiões que surgem nas fontes dos egos. — Sou filha da loucura branda e da estranheza hostil. Lancei o meu livro entre os criminosos… entre os criminosos.
Talvez toda a loucura prepara a minha mente para ver o tempo. Arrependida? Sou uma mulher arrependida? Uma alma estropiada e uma consciência truncada?
Pense se não poderia ser intencional os lapsos no fluxo do contexto, e a truncagem, como cisalhamento que fossem silêncios desfeitos em material de contato, veios de chances de entendimento e reconciliação entre as inferências e sangue, a realidade mais próxima e sendo exposta pela navalha dos sintagmas e pelo abrupto humano. Eu choraria vergonhosamente — mas cumpri o que disse, escrevi aquilo que nunca foi escrito. Isso se cumpre em caminhos como os que relatam sobre os seres de longe quando diz:
— Eles deixam suas palavras. Eles não falam.
Há um primeiro trabalho que é sobreviver. O segundo é sustentar os segredos que nunca serão revelados até que o mundo termine suas cartas de estrelas e espíritos.
Abra os meus olhos
Falta algo nas explicações quando não sei quem sou. E toda simples referência de qualquer ente é na verdade uma retomada de mais uma tentativa de me elucidar. Por que você se mistura aos que estão de fora? Se dentro do teu universo uma voz funda desde o teu nascimento proclama tua existência solitária.
— Quanto mais meus olhos sugam teu rosto, mais sinto teu corpo em meu coração e mais sinto o gosto das tuas feridas.
E havia no fundo de mim um lugar ainda não sabido. E que só o outro poderia revelar pela introdução desesperada da carne. Fundamento... fundamento... por isso entramos uns nos outros insistentemente.
— As antigas e cicatrizadas, as novas ainda úmidas, as invisíveis pelos mistérios dos membros e ossos, e as que virão como que anunciadas em profecias.
A pronúncia dos ossos
Amo tua existência quando toco teu nome com a língua e meus lábios se entreabrem apenas para um hálito de silêncio e inspiração como de uma flor no momento que se reafirma na luz da noite — e no orvalho.
Amo ainda dentro da minha boca a pronúncia em possibilidade e carne. Quando o silêncio reverbera na pele — é o mais úmido dos nomes.
Quando ainda estou viva
Sinto o teu dedo em meu coração e tenho medo. Como vou andar nos teus passos e somar os números em flores que a minhas mãos ainda contam? Quero me segurar em teus braços e dizer meus sussurros sob o teu rosto. Se eu morrer hoje teus braços não teriam mais o meu peso e o teu rosto sem a brisa úmida da minha boca — como seria?
Fonte e espaço
Que festa foi a dos teus átrios nos corredores onde algo acontecerá — os documentos das horas entre os olhos dos anjos. Na fonte da velhice.
Visões não profundas do comum
No salão com ares subterrâneos, em cores de pedras e cinzas e vapores, grandes entalhes quadrados no piso dos quais ainda não se sabe a profundidade ferviam a clorofila e do verde em borbulhação nasciam nuvens brancas que se desmanchavam a alguns metros revolutos.
— Esta é a tua descrição?
— E você viu muito bem...
E quem não viu nessa hora o salão com ares subterrâneos, em cores de pedras e cinzas e vapores.
— O que ferviam?
O prosaísmo e até mesmo a realidade tocável de tudo, a clorofila sendo clorofila e a água, meu deus, o mundo é a ordem encarnada e o óbvio do comum. É o peso da pobreza nas moléculas e o custo do que apenas existe porque está ali.
— Ferviam orações?
— Não sei. O que sei é que somos pobres... nunca soube que éramos tão pobres. Pobres de brilho e de fé.
Pobres de brilho e de fé, parecia exalar da sua testa.
— Até os pássaros porque voam aparecem nas poesias como uma economia superior... de fé e acontecimento...
— Não viu nada mais?
Agora um certo sentido de miséria e silenciamento, ainda não o silêncio, porém a afasia pela rarefação do vernáculo, como se o que não vemos fosse o que ainda não podemos pensar, ou discernir dos signos. Imagine os morcegos, sem olhos para o escuro, atiram ondas sônicas contra tudo, e ao tê-las de volta sabem tudo o que existe. E se nós atirássemos dos pensamentos signos contra tudo, e o que ressoa de retorno, o que responde sua existência e corresponde seus sinais… esses nós "vemos".
Fogo alto
Desce das tuas escadas que pairam sobre nossa miséria. Há um peso dentro da terra e dentro de cada terreno seu reflexo tardio. Por isso é tão triste como nos cai bem o choro e ainda incompreensível que nos faltasse o fogo — porque não nos falta. Nossos cabelos são álcoois e nossa pele óleo.
Dos degraus inalcançáveis das tuas escadas — sobre nossas cabeças imersas nas noites de forno. Venha arder entre nós os que ardem na terra. Os que se empregam em trabalhos e queimam. Arda entre nós — os círios compulsórios do tempo. Olhe a queima dos sebos e do petróleo que clamam — desce além do órion e vê.